Sérgio, Cesária e Joãozinho

Começo a semana homenageando três grandes figuras, cada uma delas ligada à uma área, das três principais áreas deste blog. O teatro ficou sem Sérgio Britto, a música de Cabo Verde ficou sem Cesária Évora e o carnaval brasileiro perdeu um grande gênio, o artista plástico Joãozinho Trinta.

Sérgio entre Fernanda Montenegro e Ítalo Rossi, na época do Teatro dos Sete

O nome de Sérgio Britto me é familiar deste criança; ele foi diretor da novela A Muralha, exibida pela extinta TV Excelsior, em 1969. Fiquei encantado com a saga dos Bandeirantes e recordo estes bravos primeiros paulistas desbravando o Brasil. Recordo dessa novela um ataque à casa grande, com os homens fora, e a defesa sendo feita por mulheres. Duas atrizes já tinham total domínio do ofício e garantiam grandes cenas: Nathália Thimberg e Fernanda Montenegro. Estas têm suas histórias profissionais ligadas a Sérgio Britto. No TBC, no Teatro de Arena, no Teatro dos Sete. Escreveram a história do teatro brasileiro do século XX e continuam, neste XXI.

Conheci Sérgio Britto nas minhas andanças por São Paulo. Era simpático, falante, educado. Parecia sempre disposto a contar histórias do seu passado, da sua profissão. Uma generosidade em transmitir o que sabia que foi sistematizada na CAL – Casa de Arte das Laranjeiras, a escola da qual foi um dos fundadores e que está entre as nossas principais instituições de ensino de teatro.

Também tive o privilégio de ver um show de Cesária Évora. Convidado pela também cantora Angélica Leutwiller fui conhecer a cantora de Cabo Verde. A apresentação foi inesquecível. Cesária pareceu-me uma mulher vivida, sofrida; nada do glamour que possa sugerir a expressão “Diva dos pés descalços”, como foi chamada em vida. Creio que o vídeo fale por si. A voz límpida, afinada, sobretudo uma voz forte e ao mesmo tempo de uma doçura incrível.

Daquele show de Cesária Évora guardei a lembrança da mulher tranquila que, com um sorriso sincero e simultaneamente gaiato, interrompeu o espetáculo por alguns minutos, anunciando que precisava ir “la fora” fumar. Voltou para concluir o show com voz tranquila, colocando Cabo Verde no mapa musical das minhas preferências.

Assim como Cesária Évora fez seu país ser lembrado por todos os lugares onde passou, Joãozinho Trinta colocou a escola de samba Beija-flor de Nilópolis na história do samba, marcando definitivamente o carnaval do Rio de Janeiro.

O carnaval de Joãozinho Trinta: Irreverência e protesto com humor

Joãozinho Trinta encarna um tipo diferente de artista, ligado às artes plásticas, com um invejável domínio de composição visual. Há que se considerar que um desfile de escola de samba é um monte de coisas: teatro, ópera, dança, enfim é um grande espetáculo com uma única apresentação. Compor dezenas de alas, alguns carros alegóricos, destaques diversos e colocar tudo isto em uma passarela com harmonia, beleza e ritmo contagiante não é coisa para qualquer mortal.

O carnavalesco Joãozinho Trinta será lembrado pelos imensos carros alegóricos com mulheres espetaculares; pela ousadia de, impedido de colocar uma escultura do Cristo Redentor – veja foto acima – responder com elegância e fé ao ato de proibição originado da própria igreja católica. Também será lembrado pela alegria, pelas referências ao seu amado Maranhão, sempre com a alegria que caracteriza sua gente.

Três diferentes grandes artistas. Sérgio Britto, Cesária Évora, Joãozinho Trinta. Os três falecidos no mesmo dia, 17 de dezembro de 2011. Vale lembrar, sobretudo homenagear e agradecer pelos incontáveis momentos de arte que nos proporcionaram.

Vamos em frente! Boa semana para todos.

Um só Pará!

O autor da proposta de divisão do Pará não conheceu o Estado e os paraenses que eu conheci.  Teria evitado uma derrota histórica. Os eleitores negaram em plebiscito neste domingo a criação dos Estados de Carajás e Tapajós. O Pará segue em frente, sem divisões territoriais.

Meu trabalho: teatro em Santa Maria, no Pará

Quem conhece o Pará sabe que esse resultado seria previsível. Estive algumas vezes em Belém, a capital, passei por Castanhal e visitei Santa Maria.  Naquele período pesquisei um pouco mais e levantei informações também sobre Breu Branco, Goianésia, Tailândia e Abaetetuba. Ficou evidente em todos esses lugares o amor e o orgulho dos paraenses pela própria terra.

A festa do Círio de Nazaré: O Pará é filho de uma única mãe

A festa do Círio de Nazaré impressiona e torna o Pará inesquecível. Todo o grande Estado é filho de uma única mãe (Os autores da divisão não consideraram isso?); todo o Paraense tem orgulho de ser nortista, de pertencer à Amazônia.  E dizer-se da Amazônia é mais um elemento de união, entre muitos outros.

Quando cheguei ao Pará pela primeira vez achei estranha a preocupação do Governo em buscar patos no vizinho Maranhão. Depois descobri que o verdadeiro paraense não deixa de comer pato no tucupi no dia da procissão do Círio. Iniciando-me nos deliciosos mistérios do Pará experimentei tacacá, vi a chuva chegar e ir embora rapidinho. Sobretudo gostei da gente morena, bonita, com um jeito impecável de falar nossa língua.

Experimentando Tacacá ao lado de D. Maria do Carmo e Emanoel Freitas

A língua une assim como também a amazônia, o amor pela Virgem de Nazaré, o prazer em apreciar o açaí, outra delícia paraense. O que pretendiam com a separação? Aumentar o número de políticos com seus salários astronômicos? Quem realmente se beneficiaria com isto? Há uma diferença brutal entre descentralização do poder e divisão desse mesmo poder,  assim como é diferente administração eficaz de aumento da máquina administrativa.

Já quiseram separar o Triangulo Mineiro de Minas Gerais. Tudo resolvido entre os donos do poder, sem qualquer consulta ao povo, como o louvável plebiscito que acaba de impedir a divisão do Pará. Até onde soube, o Triangulo manteve-se Mineiro por conta de certo prefeito que, para não ser processado por irregularidades, votou contra a separação. O que teria dito o povo, o meu povo?

Penso que devemos aprimorar os mecanismos de votação do país já que avançamos tanto em termos de eleições computadorizadas. Escrevo isso pensando em plebiscitos menos caros, feitos via internet. Se nós somos capazes de declarar impostos digitalmente, sem riscos de problemas, porque não podemos opinar sobre outras questões, tão importantes quanto a divisão de um Estado? Pode ser um pensamento utópico; espero que um dia torne-se realidade. O que importa, sobretudo, é que a voz do povo possa ser realmente a voz do povo.

Ouso sonhar que chegaremos a um momento em que, efetivamente, será a vontade da maioria que decidirá algumas questões nacionais. Assim, o “político esperto” pensará duas vezes antes de propor divisões ou soluções duvidosas.

Boa semana para os paraenses, boa semana pra todos nós!

Nota para quem chegou recentemente:

Convidado por Sonia Kavantan participei de uma produção que percorreu parte dos Estados do Pará e do Maranhão.

Para lembrar: o cartaz da nossa montagem

Um dos objetivos do trabalho era a valorização da cultura dos dois estados e, para que isso fosse possível sobre um palco, idealizei a peça “O Casamento do Pará com o Maranhão”. Sou o autor do texto e a produção foi feita com artistas paraenses, com direção de Emanoel Freitas. Tenho um orgulho danado de ter participado deste trabalho.  O início desta história está registrado aqui. As fotos que ilustram o post de hoje são desse  período.

Santa Bárbara, Iansã e a história de Zé-do-Burro

No dia 4 de dezembro vou no mercado levar

Na Baixa do Sapateiro flores pra santa de lá

Bárbara santa guerreira, quero a você exaltar

É Iansã verdadeira! A padroeira de lá…

(Dia 4 de dezembro – Tião Motorista)

Salvador está em festa neste domingo, dia 4 de dezembro. Tudo começa muito cedo; ao amanhecer há queima de fogos, missa e depois vem procissão. Santa Bárbara é celebrada nas igrejas da velha cidade; Iansã nos terreiros de candomblé. Na alma do povo simples Santa Bárbara e Iansã são uma só.

Santa Bárbara é a padroeira dos mercados, Iansã é a senhora dos raios e das tempestades. E na alegria inerente ao povo baiano a festa ganha espaço. Muito caruru, que é oferenda à Orixá, e muito samba de roda, maculelê e capoeira. “Êpahei, minha mãe! É seu dia!”

Madrugada, Zé-do-Burro chega carregando a cruz. É seguido pela mulher, Rosa.

Foi nesse cenário de fé que Dias Gomes situou a história de Zé-do-Burro, “O Pagador de Promessas”. Zé tinha um burro, Nicolau, que adoeceu. Nicolau tinha “alma de gente”, era o melhor amigo de Zé-do-Burro. Pelo burro Zé prometeu levar uma cruz nas costas até a igreja de Santa Bárbara, no dia dedicado à Santa. A cruz teria o mesmo tamanho da cruz de Cristo. O burro sarou e a promessa deveria ser cumprida. O grande conflito será estabelecido entre o homem simples e o vigário da paróquia. O representante da igreja não permite que Zé-do-Burro pague a promessa, feita no candomblé de Maria de Iansã.

Estréia no TBC. Leonardo Vilar e Natália Timberg

A peça estreou aqui na Bela Vista, no Teatro Brasileiro de Comédia, no dia 29 de Julho de 1960. A interpretação de Leonardo Vilar é marcante e pode ser confirmada ainda hoje, via versão cinematográfica, em filme dirigido por Anselmo Duarte. A peça ganhou muitos prêmios e recebeu montagens em todos os continentes, tornando-se um marco da história do teatro brasileiro. Também o filme, premiado em 1962 com a Palma de Ouro do Festival de Cannes, é destaque na trajetória do cinema brasileiro.

O Pagador de Promessas recebeu a Palma de Ouro em Cannes, 1962
O Pagador de Promessas recebeu a Palma de Ouro em Cannes, 1962

Sobre a peça, o próprio Dias Gomes escreveu: ”O Pagador de Promessas” nasceu, principalmente, dessa consciência que tenho de ser explorado e impotente para fazer uso da liberdade que, em princípio, me é concedida. Da luta que travo com a sociedade, quando desejo fazer valer o meu direito de escolha, para seguir o meu próprio caminho e não aquele que ela me impõe. Do conflito interior em que me debato permanentemente, sabendo que o preço da minha sobrevivência é a prostituição total ou parcial.

Leonardo Vilar no embate com Dionísio Azevedo, o "Padre Olavo"

A peça “O Pagador de Promessas” pode ser descrita como o embate entre a intolerância, representada pelo padre, e a teimosia, fortalecida pela fé mítica de Zé-do-Burro. Com maestria, Dias Gomes nos coloca ao lado do homem simples em luta contra o grande sistema. Há momentos em que somos meros curiosos perante o drama do homem comum; ele é simplório demais, ingênuo, “burro”. Todavia é movido por algo que mexe com todos nós: foi agraciado pela Santa; o que pode ocorrer se não pagar a promessa? Medo e culpa são sensações vividas, conhecidas por todos nós. E somos brasileiros, qual o problema? Que razão tem o padre para impedir o pobre homem de pagar a tal promessa?

Glória Menezes foi Rosa, a esposa, no filme dirigido por Anselmo Duarte

Escrita no final dos anos de 1950, a peça é um claro documento das brutais diferenças entre o homem rural e o homem urbano. Zé enfrenta a cidade e tem, no máximo, a simpatia de alguns para com sua causa. Sobram interesses particulares; revelam-se desejos mesquinhos; a cidade observa curiosa e atenta ao embate entre o padre e o sertanejo simplório. A civilização urbana é prostituida, vendida. Resta ao homem simples viver o drama da fidelidade aos próprios princípios. Nesse mundo, tão bem retratado pelo autor da peça, não há lugar para heróis. O final de Zé-do-Burro é trágico.

Uma versão da TV Globo com José Mayer está em DVD

Dia 4 de dezembro é dia de Iansã, Bárbara Santa Guerreira! Êpahei! Um domingo de festa com caruru e samba de roda. Iansã, que é aquela que luta pelos seus, possa defender-nos de todo o mal, principalmente do tenebroso sentimento de intolerância que tanto afeta nosso cotidiano, mesmo sem que sejamos “pagadores de promessas”.

Bom final de semana!

Os Herculanos são minas de ouro da ficção

Ter um Herculano na ficção brasileira é um ótimo negócio. O sucesso acompanha esse nome na televisão, no teatro e até na adaptação do teatro para o cinema. Vamos aos fatos, começando pelo Herculano da hora, o da novela “O Astro”.

Herculano Quintanilha já foi um grande êxito de Francisco Cuoco e na atual versão, com o velho ator em participação especial, o Herculano de Rodrigo Lombardi está com tudo. Fez par com as belas Carolina Ferraz e Juliana Paz, além de contracenar com feras como Rosamaria Murtinho e Regina Duarte (Coitada, essa virou a assassina do momento! Só porque os caras acreditam que mudar criminoso mantém audiência…).

Rodrigo e Cuoco, os Herculanos da tv

Na abertura do capítulo final o atual Herculano fugiu da polícia transformando-se em pássaro. Uma licença poética que só novelão permite. Não sei se rolou essa cena na primeira versão; parece-me mais uma referência ao “pavão misterioso” de Dias Gomes, da novela Saramandaia. Nesta, Juca de Oliveira transformava-se em pássaro e sobrevoava a cidade. No remake que terminou nesta sexta, Herculano fugiu da polícia com um truque de mágica. Um show de efeitos especiais. Um indicador da grana investida, já que o retorno está garantido.

Continuando: A Rede Globo faturou um monte com a novela original de Janete Clair e vai continuar faturando, já que o formato atual, com número reduzido de capítulos, tem maior aceitação no mercado internacional. Herculano, embora o nome lembre a força do lendário Hercules, ta mais pra mina de ouro mesmo.

Vamos ao outro Herculano, aquele que é anunciado por Geni, na primeira fala da personagem central da peça “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues: “- Herculano, quem te fala é uma morta!” Com meu amigo Octavio Cariello, brincando ante as adversidades irônicas, costumamos simular um corte de pulsos com a frase de Geni, a prostituta da peça de Nelson Rodrigues.

O Herculano de Nelson Rodrigues é, com o perdão da palavra, um bundão. Um viúvo de família conservadora que jura para o único filho que não se casará novamente. Personagem mais interessante é o Patrício, irmão de Herculano e que vive nas costas deste. Para continuar na mamata, resolve apresentar uma prostituta ao irmão. O lance é fazer o cara ficar de quatro pela mulher e amolecer o cidadão para conseguir mais grana. Dá certo para Patrício, mas errado para Herculano, que acaba perdendo a Geni para o filho, que por sua vez a abandona, apaixonado por um bandido boliviano e… Coisas de Nelson Rodrigues.

Nosso maior dramaturgo sempre teve sorte com grandes atrizes interpretando suas incríveis personagens. Geni, por exemplo, foi interpretada na estréia da peça, por Cleyde Yáconis, uma de nossas melhores atrizes. Pessoalmente conheci a segunda e genial Geni, interpretada por Marlene Fortuna, na montagem dirigida por Antunes Filho. Uma momento memorável do teatro do Centro de Pesquisa do Sesc!

Provavelmente, o maior sucesso desta peça foi no cinema. Em 1973, Darlene Glória criou uma inesquecível Geni, em filme dirigido por Arnaldo Jabor. O Herculano da vez foi Paulo Porto. O filme fez grande carreira comercial e ganhou prêmios em Berlim, o Urso de Prata e, no Festival de Gramado, foi melhor filme e melhor atriz para Darlene Glória.

O cartaz internacional de divulgação do filme de sucesso.

Dos dois Herculanos, creio que melhor sorte tem aquele criado por Nelson Rodrigues. Embora bundão, pelo menos não sofrerá alterações de ocasião, como é hábito da televisão visando obter audiência. O Herculano da televisão, misto de MacGyver com Mr. M (Val Valentino), ou com David Copperfield (David Cotki). Um angu de caroço que, é o que conta para a emissora do Jardim Botânico, rendeu e renderá muita grana. Eu estou escrevendo sobre Herculano, quem sabe, né! Vai que funcione e eu comece a ganhar um bom dinheiro!

Feliz final de semana para todos!

Teatros do Bexiga em uma caminhada

O Bexiga tem tanta história! Um levantamento afetivo, resultado de uma caminhada com objetivos. Não sei ir por aí, feito alma penada. Resolvi caminhar pelos teatros próximos da minha casa (Tenho sorte, graças a Deus!) e quem quiser o roteiro real, posso até fornecer. O roteiro afetivo começa pelo TBC, o primeiro que fotografei.

Resultado da legislação que limpou a cidade, proibindo os grandes e exagerados cartazes, outro dia percebi o quanto é bonita a arquitetura do Teatro Brasileiro de Comédia. Fundado em 1948 por Franco Zampari, foi templo de Cacilda Becker e Fernanda Montenegro. O contraste entre diferentes épocas é próprio do bairro; por isso escolhi o Teatro Ruth Escobar para figurar ao lado do TBC. A atriz e empresária Ruth Escobar levantou grana com seus patrícios portugueses para construir o local, que é um verdadeiro Centro Cultural.

Quando cheguei por aqui… bem, são os teatros da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio que marcam o período em que passei a morar em São Paulo. Era o final dos anos 70. O atual Teatro Bibi Ferreira tinha um outro nome; no jardim, recordo bem, dois cartazes enormes com fotos de Arlete Montenegro e Carlos Arena. Não vi o espetáculo. Era mais um migrante procurando emprego e tentando sobreviver na megalópole.

No Teatro Brigadeiro, que já foi Teatro Jardel Filho, no mesmo período, Paulo Autran estava em cartaz ao lado de Eva Wilma. A peça era “Pato com Laranja”. Também foi depois que vim a conhecer esses dois grandes atores. No Ágora, que já foi o Teatro do Bexiga, fiz uma entrevista com Caíque Ferreira, quando o falecido ator encenou Giovanni, um clássico de James Baldwin.

O Teatro Abril, que com o nome Paramount foi um marco da nossa televisão, especialmente os históricos programas da TV Record, conheci como cinema. Hoje, no Teatro Abril, são apresentados grandes musicais internacionais e é por esses e outros que chamam o Bexiga de Broadway brasileira.

A Broadway, ao que tudo indica, tem muito dinheiro. Por aqui, ele não sobra. Vide o Teatro Imprensa! E é a mesma crise que levou à escassez de espetáculos no Teatro Mars, onde Ulisses Cruz fez uma montagem genial de “Pantaleão e as visitadoras”. Nem tudo é crise; pelo menos houve dinheiro para reformar o Teatro Sergio Cardoso onde, atualmente, Glória Menezes está em cartaz com a peça “Ensina-me a viver”. Todavia quero registrar que foi neste teatro que vi, pela primeira vez, o Stuttgart Ballet. Inesquecível o som das sapatilhas dos bailarinos, em inusitada percussão paralela ao som vindo da orquestra.

Há outros teatros no Bairro, nas adjacências, na vizinhança. Os que estão por aqui foram registrados em uma caminhada. Sobe morro, desce morro, caminha, caminha, caminha… quem sabe o corpo entra em forma! Outras tardes de exercício físico virão e, maquininha em punho, farei outros registros. Quero finalizar este com o Teatro Oficina.

O Teatro Oficina está completando 50 anos. O diretor José Celso Martinez Corrêa é a grande figura do local. Atualmente os artistas do Oficina realizam uma “Macumba antropófaga”, continuando a histórica trajetória de resistência do Teatro. O atual trabalho é  homenagem a Oswald de Andrade e  comemora o aniversário do grupo Uzyna Uzona, responsável pelos trabalhos do Oficina.

Só para esclarecer, pois a história é longa, minha participação no teatro foi com uma peça que escrevi e dirigi, chamada “Os Pintores”, encenada por um grupo de operários de Santo André, no ABC Paulista. Foi uma única apresentação. Para nós, naquele momento, uma grande vitória. Fazendo o caminho inverso, sentimo-nos Bandeirantes invadindo a cidade.

Até sexta!

Um teatro para “Grande Otelo”


No próximo dia 12 será inaugurado o Teatro Grande Otelo no bairro Campos Elíseos, em São Paulo. Inserido no complexo dos padres Salesianos ( colégio, igreja e centro cultural) a nova casa presta homenagem ao ator e comediante Grande Otelo, um dos maiores artistas brasileiros.

Mineiro de Uberlândia, Grande Otelo (1915-1993) é referência de comédia no cinema nacional; em dupla com outro comediante, Oscarito, o ator fez história nos musicais e chanchadas. Grande Otelo tinha uma característica fundamental para o bom comediante: sabia rir de si mesmo. E fazendo piada com suas características pessoais, Grande Otelo tirou partido de um charme ingênuo e – a história prova – avassalador. Sim, rindo de si próprio, imprimia um jeito todo especial de seduzir; dava certo.

Não há grande atriz ou vedete – aquelas mulheres gostosas do Teatro de Revista, ou Teatro Rebolado – que não tenham feito um número com Grande Otelo. Também as melhores cantoras dividiram o palco com o artista. De Carmen Miranda e Elizeth Cardoso passando por Ângela Maria, Gal Costa e Wanderléa.

O clássico dos clássicos de Grande Otelo foi Boneca de Piche. Sabe-se lá como seria isso hoje, nos tempos de um duvidoso politicamente correto. Fico imaginando as reações dos proibidores de plantão se Otelo, ainda vivo, subisse em um palco, com alguma parceira da hora, para interpretar essa criação de Ary Barroso e Luiz Iglésias. Para lembrar Boneca de Piche, vejam o artista com Betty Faria:

Sem abandonar as comédias, Grande Otelo estraçalhou em filmes e novelas. Destas recordo uma, ele atuando com Marília Pêra, cumprimentando-a com sotaque italiano em “Uma Rosa Com Amor”. Grande Otelo podia tudo. De italiano do Bexiga a Macunaíma, passando por um sambista em cena histórica no filme “Rio, Zona Norte” quando, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, o ator mineiro interpreta um sambista que mostra, emocionado, uma criação pessoal para a grande Ângela Maria. A música é “Malvadeza Durão”, um senhor samba de Zé Keti. Vale a pena ver e rever.

De todos os momentos de Grande Otelo, registrados em vídeo e disponíveis no Youtube, não dá pra deixar de fora o encontro do mestre com Gal Costa. Era o ano de 1981 e, idade avançada, o ator já não tinha a mesma voz, mas mantinha-se afinado e resolvia tudo com graça e malandragem. Ao lado da extraordinária cantora, esbanja sedução. E Gal, com toda a sensualidade que sempre marcou sua carreira ataca, brejeira, faceira, evidenciando a plenitude da mulher brasileira, devolvendo charme e sedução ao parceiro. Um momento histórico.

São Paulo vai homenagear Grande Otelo. Deixo, abaixo, a programação de inauguração do teatro. Tomara venha, em breve, uma exposição, uma ampla mostra da carreira desse ator que merece sempre ser lembrado e reverenciado.

“Ciranda” familiar e jogo teatral

Daniela e Tania, em foto de João Caldas

Bom voltar a escrever sobre teatro. Bom começar indicando um texto como “Ciranda” que provoca em cena o que mais gosto em teatro: quando o ator brinca de ser outro e mais outro e mais outro…

Interpretar mais que um personagem é comum em espetáculos solo, os stand-ups que, invariavelmente, carregam no humor. Há, na recente história do teatro brasileiro uma comédia célebre, “O Mistério de Irma Vap”, para dois atores, interpretando oito personagens, que é marco nas carreiras de Marco Nanini e Ney Latorraca.

A peça “Ciranda”, uma comédia dramática de Célia Regina Forte, dirigida por José Possi Neto, propõe essa magia teatral que é o ator brincar de ser outro:

“O texto narra a história das relações entre três gerações de mulheres de uma mesma família, apresentando visões e condutas completamente diferentes entre elas. Com uma lente de aumento, esses relacionamentos são retratados com humor ácido e ironia, levando às últimas consequências as diferenças entre mães e filhas”. 

Duas atrizes, Tania Bondezan e Daniela Galli, fazem a “Ciranda” familiar e o jogo teatral. Mãe, filha, neta, mãe, filha… Os conflitos familiares, os interesses distintos assim como as convicções, as diferentes posturas perante a vida são fatores conhecidos. No palco são levados ao limite, oscilando entre o drama e a comédia.

Elogiada pela crítica, a montagem teve prorrogação da temporada no teatro Eva Hertz, durante a semana, e nos finais de semana excursiona pelo interior de São Paulo e pelos CEUs, na capital.

Li muito sobre a peça e estarei na platéia conferindo. Fica aqui o convite, com um alerta: Hoje, quarta, 7 de setembro, a apresentação será às 18h00.

Vamos nessa?

Nota:

“CIRANDA” – Teatro Eva Herz – Avenida Paulista, 2.073 – Livraria Cultura / Conjunto Nacional. São Paulo, SP. Informações: (11) 3170-4059 – www.teatroevaherz.com.br Quartas e Quintas, às 21h. Ingressos: R$ 40 – Até 29 de setembro.