Palmiras

D. Palmira, a Tia acima e Palmirinha.

Por um bom período moramos lado a lado. A proximidade de relações entre nossas famílias facilitou a ausência de muros e são lembranças muito fortes quando, pela manhã, vinham mães com crianças doentias, algumas bem choronas. Sem muita conversa, D. Palmira caminhava pelo quintal colhendo pequenas porções de ervas; arruda era a mais comum. Sem tirar a criança do colo da mãe, D. Palmira fazia o sinal da cruz em si e na doentinha. Iniciava o benzimento falando bem baixinho; a mais frequente ação era para tirar o quebranto.

“Tu tens quebranto, dois te puseram, três hão de tirar… em nome das três pessoas da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

Outros tempos quando para qualquer mal o primeiro socorro era o benzimento. De crianças perebentas tirava-se o “cobreiro brabo” e cabia ao paciente responder três vezes à pergunta da benzedeira: “O que é que eu tiro?” E ouvia-se a voz débil, “cobreiro brabo!”. D. Palmira para uns, Madrinha Bia para outros, era mulher risonha, adorava um bom prato e estava sempre disposta ao trabalho, ajudando a filha a cuidar de nove crianças, seus netos. Creio que a maioria das crianças do bairro e outro tanto de adultos receberam as bençãos daquela mulher, viúva simples e pobre, que jamais cobrou um tostão pelo trabalho.

Minhas recordações de Tia Palmira são distintas. Irmã caçula de minha avó, tinha um rosto alvo, sempre muito bonita e sorridente. Recordo a tia lutando pela saúde do marido, Tio Alcides. Ela não mediu esforços buscando a cura para a doença que, penso eu, devia ser desses males difíceis. Foi a primeira vez que ouvi falar em Zé Arigó, o famoso médium que recebia o espírito do Dr. Fritz. A Tia Palmira levou o marido até Congonhas do Campo, em Minas Gerais, para que este fosse operado espiritualmente. O médium foi honesto e afirmou que a ação seria paliativa, pois não haveria cura. Todavia, maior poder tem Deus e Tia Palmira continuou. Em Uberaba procurou Chico Xavier e lá também frequentava o Sr. Eduardo, ou Eduardinho, que trabalhava com ervas, beberagens, garrafadas.

À morte inevitável do marido ocorreu longo período de luto. Dez anos vestindo-se com roupas pretas. Cabe ressaltar que esse fato ocorreu bem antes do vestido “pretinho básico” das elegantes de ocasião. Tia Palmira não se preocupava com moda, mas com o respeito que achava que devia ao falecido. Passado o luto, voltou a sorrir, a usar joias e a se maquiar. Sendo bonita, logo reencontrou antigo afeto com quem se casou e foi feliz. A última vez que nos encontramos foi no velório de minha avó e Tia Palmira, com boa dose de humor macabro, afirmava entre risos contidos ser a próxima. “Estou tão ruim! Logo, logo vou eu!”.

Não tendo hábito de assistir programas de culinária vi poucas vezes a simpática Palmirinha, mas quando a vi estava sempre cozinhando com bom humor e afeto. Tive tempo de perceber a relação da cozinheira para com seu trabalho. Um aprendizado necessário: cozinhar com alegria e afeto, uma tarefa primordial para a relação que se estabelece entre as pessoas. Cozinhar para si e para o outro! Algo a ser estimulado posto que hoje em dia é comum encontrar pessoas que rejeitam o fazer uma refeição como se essa não fosse fundamental para qualquer ser humano.

A história de Palmirinha, descobri nos obituários, é bastante densa, com uma infância e juventude sofridas. Embora todo o passado conturbado e difícil, tornou-se a mulher doce, a apresentadora simpática e a cozinheira amorosa. Deixou-nos a lição fundamental do bom humor e da alegria no ato de transformar ingredientes em refeições deliciosas. Ensinou-nos, como alguns de seus pares ensinam, que cozinhar é uma arte, um terreno de criação e transformação.

D. Palmira, Tia Palmira, D. Palmirinha! Três mulheres tão distintas e, percebo agora, tão próximas no sorriso, nas relações com a vida, com o trabalho, com o outro. São mulheres que deixaram lembranças doces. Para elas destinamos vibrações carinhosas, desejando-lhes em dobro o que por nós aqui fizeram.

Guarda-chuvas e devaneios

Há dias em que, inevitável questionar se é ou não futilidade, temos que ir às compras. Não dá para esperar a melhor oferta, a liquidação ou qualquer outra artimanha do comércio. A necessidade fala mais alto e lá fomos nós caminhando atentos pelas ruas da cidade e, simultaneamente, despreocupados. O céu nublado nos levou a portar um guarda-chuva. Sem medo da felicidade, caminhamos pela calçada que limita o jardim e a praia, aqui em Santos, no litoral paulista.  

Já estamos habituados com olhares e comentários por conta de portarmos o objeto. Os olhares costumam ser de incredulidade: o que faz dois sujeitos caminhando pela praia portando um guarda-chuva? São turistas? Coisas de velho? Alguns, mais ousados questionam: – Estão chamando chuva? Fazendo a linha “simpático”, evito responder. Quando respondo, confirmo. E raramente uso a razão óbvia: estou me precavendo! Flávio, quando muito, sorri para os “enxeridos”.

Há dias recentes, quando ainda no alto verão resolvemos transformar o guarda-chuva em sombrinha, ou sombreiro. Final da manhã, dois guarda-chuvas negros pela avenida. Parecia coisa de outro mundo. E me passou pela cabeça comprar algo mais colorido, condizente com os dias claros e resplandecentes do nosso verão tropical. Nas poucas ocasiões que usamos o objeto nos protegendo dos raios solares não notei olhares, simplesmente pela falta de paciência para com atitudes adversas.

Entre lambuzar a pele com protetor solar e colocar um boné para combinar suor e cabelo, prefiro apenas usar o creme. Sem boné, cabelo ao vento, caminhar sem lenço, com documento, pela cidade que escolhi viver e que, embora amada, possui problemas. Quem não os tem?

Ciclistas são cidadãos que costumam fazer a maior gritaria por seus direitos. Uma quantidade considerável desses seres acha normal pedalar com todas as forças, não respeitar sinais, não respeitar passagens para pedestres. Aqui na cidade, com muitas e muitas pistas exclusivas para ciclistas, é comum que tais pessoas caminhem na contramão, o que, em avenidas sem as tais pistas significa pedalar sobre o passeio. São assustadores. Eles não usam guarda-chuva. Eu uso! E é engraçado vê-los desviando do objeto quando colocado atravessado sobre meu corpo. Guarda-chuva passa a ser também um sutil escudo.

Outro problema que tem se agravado na região são os assaltos. Garotos de bicicleta (Bicicleta? De novo!) passam e roubam celulares, bolsas e carteiras. Normalmente em duplas, costumam agir com um primeiro fazendo uma volta tendo o transeunte como referência que, atento ao primeiro, não percebe a aproximação do segundo que faz a abordagem criminosa. Prefiro caminhar sem dinheiro, com um documento, sem telefone e… meu guarda-chuva. Evito dissabores e sinto-me protegido de sol ou chuva. E me ocorrem ideias de autoproteção com meu simpático guarda-chuva!

Espero não ter que usar meu útil objeto como arma. Todavia, brincando, costumo afirmar que estão entre os meus objetivos… Como se fosse um cavaleiro medieval portando sua lança para derrubar o inimigo. Como um selvagem abatendo a presa, lançando-a contra o alvo. Espero que nenhum incauto interprete este singelo texto como incentivo. São apenas devaneios malucos, desses que a gente tem cotidianamente, sublimando a vontade de ato criminoso perante a violência.

Não pretendo nenhuma ação violenta. Nem chego a pensar no guarda-chuva como arma secreta de super herói. Quero continuar usando quando e como quiser. Quantas vezes for necessário e, se não houver necessidade, caminhar com ele do jeito que quiser. Prefiro reviver Charles Chaplin e caminhar alegre e feliz por onde for o meu destino. Proteger-me do sol quando me aprouver e, em dias de chuva, se o momento for propício brincar, cantar e dançar sob a chuva, mesmo estando a mil quilômetros luz do talento de Gene Kelly.

De volta, passando pela portaria, fomos abordados: “Como, andar nesse dia gostoso com esse guarda-chuva! Que estranho. Não vai chover!” Com humor e gestos improvisados, mostrei como posso usar o objeto como escudo, como proteção, como arma. Entre risos, a ideia não foi de todo descartada. Preciso retomar o assunto na primeira oportunidade: São só devaneios! Guarda-chuva é bom mesmo só contra chuva e sol!

Trabalhadores do Brasil

A frase, sempre dita com a penúltima sílaba esticada, “trabalhadooooooooores”, faz gente da minha geração ter remotas lembranças de Getúlio Vargas. O cidadão deu um tiro nos miolos em agosto de 1954, antes de eu nascer, e tal ato não foi por conta de trabalho, mas pelo então presidente não abdicar do poder. Getúlio, por favorecer políticas públicas aos trabalhadores, foi chamado e é lembrado como “pai dos pobres”. Conclusão temerosa, trabalhador é pobre! Vai ver é dessa premissa que vem tanto preconceito em relação ao trabalhador.

Surgiram arranjos sociais bastante interessantes em relação às atividades humanas. Para trabalhadores na indústria é mais comum utilizarem a expressão operários. E prestadores de serviço nas instituições públicas são os funcionários públicos. Note-se no públicos a distinção, porque outros nas mesmas condições são denominados apenas funcionários (o mínimo a se dizer desse é que não goza de estabilidade). A coisa é vasta. Dentro do funcionalismo público há os professores em três categorias básicas, das chamadas redes municipal, estadual ou federal. E outros tipos, muitos outros!

Há trabalhadores liberais, ou profissionais liberais. A expressão indica algum nível de especialização, embora a gente saiba que para todo e qualquer trabalho há níveis de especialização. Os ditos profissionais liberais frequentaram escola e, além de evitarem o título de trabalhador, é comum não conseguirem assentar um mísero tijolo, ou pintar dignamente uma grade. Essa formação de médicos, dentistas, advogados, entre outros ditos liberais, é colocada em escala superior na absurda hierarquia social, pois tão importantes quanto qualquer um desses citados são os trabalhadores que limpam nossas cidades, coletam nossos resíduos salvando-nos de pragas terríveis.

Nos últimos anos vimos crescer a quantidade e nos acostumamos com a expressão trabalhador informal. Nessa categoria estão milhões de pessoas sem direitos mínimos, alguns em condição de trabalho semiescravo. A relação entre exploradores e explorados no Brasil é tão intensa que não choca e não provoca grandes crises a constatação de trabalho escravo por aqui. Aliás, em qual presídio estão tais escravocratas?

Relações de trabalho caminham em conflito constante com as relações de poder. Ter poder implica, basicamente, poder sobre o outro. Parece um raciocínio bobo, mas é bom lembrar que o máximo que o maior poderoso consegue é bom tratamento médico, mas poder sobre certas doenças difíceis como o câncer, ou mais suaves como a gripe, o sujeito não tem. Também é bom recordar que a natureza costuma lembrar quem é que realmente manda com tempestades, secas, terremotos, pandemias… Resta ao idiota que pensa ter poder exercer este sobre o outro. Ele morrerá, como os sem poder em qualquer patamar da escala em que estejam também baterão com as botas.

Uma face interessante da história humana é buscar facilidades, empregar menor força física no trabalho. Domenico de Masi escreve maravilhosamente sobre o tema (Leiam O ócio criativo!). Da invenção da roda ao cozimento de alimentos facilitando as refeições, passando pelos meios de transporte e de comunicação, chegando aos robôs físicos e virtuais, são alguns exemplos de como o ser humano busca melhorar condições de vida através do menor esforço possível. Seria lindo, se a gente não tivesse a raça dos exploradores.

Explorador é aquele ser que nada faz além de um esforço mínimo para manter-se na tal condição. Tipo o rei da Inglaterra, tendo que abanar tchau para plebeu, ou a viúva do banqueiro fazendo festinha para alguma instituição de caridade. Nessa última situação os exploradores fazem marketing de bonzinhos e conseguem abatimento no imposto de renda. Há tipos de exploradores que, mesmo perdendo o poder, não perdem formas de exploração do outro: estou recordando aqui a tal família imperial que vive as custas de impostos cobrados do povo de Petrópolis.

Aumentos salariais em Primeiro de Maio ocorrem em meio a reinvindicações de diferentes categorias – aí, sim, todos trabalhadores – buscando melhores condições de vida. A evidência do poder exercido sobre o outro fica claro aqui, quando o trabalhador irá receber R$ 1.320,00, ou seja, 1,3% em contraponto com o salário do governador de Minas, que conseguiu atingir o sonho de muitos: dar-se reajustes salariais. Sem titubear e com apoio de iguais, o aumento foi de 300% e o salário do tal Zema foi para R$ 41.845,49. Notem o primor que é tal quantia! Imaginem quanta falta faria ao cidadão governador os R$ 0,49 centavos e, pior, quantas discussões e quantos embates seriam necessários para que R$ 845,49 fossem destinados ao trabalhador.

Primeiro de maio é dia para tomar consciência do distanciamento financeiro entre assalariados: uns recebendo o mínimo e outros, além de altas quantias, ainda não pagam passagens, telefone, luz, médico… Dia do Trabalhador é dia para repensar a sociedade e constatar as imensas diferenças entre as possibilidades de uns e outros. Fundamentalmente lembrar aos trabalhadores que são trabalhadores. Pensar e refletir sobre quem nos explora, por que nos explora e como podemos lutar para minimizar os efeitos nefastos de quem não se importa com as condições de vida daqueles que garantem os próprios privilégios.

A luta continua!

A ilusão da permanência

Encontrando velhos conhecidos são comuns as expressões “você continua o mesmo!”, “Você não mudou nada!” ou similares. Parece-me que a maioria espera que concordemos, que retribuamos com um “você também”. Não é incomum um tom de ressentimento ao afirmarmos que “fulano mudou demais”, “beltrana não é a mesma de antes”. Essas constatações carregam um tom de traição, um sentimento de derrota: “Envelheceu, né!”.

Para com as pessoas públicas costumamos exigir maior permanência. Maria Bethânia diminuiu em muito as corridinhas pelo palco. Ganhou elegância no andar e no gracioso gesto com que reverencia e agradece ao público. Há quem cobre dela os motivos dos fios brancos! Wanderléa, sempre linda, teima em evitar as “provas de fogo” e os “pare o casamento”, cantando Sueli Costa ou gravando chorinhos, o trabalho atual. Os viúvos da Jovem Guarda saem desolados do show. “Wanderléa mudou muito”! É melhor o show de Roberto Carlos, onde “Emoções” não faltarão.

Estranhamento nacional, a postura política da ex-namoradinha do Brasil revelou uma pessoa bem esquisita, traição brutal às personagens meigas e carinhosas de tantas novelas. Ela mantém a postura, o jeito de menear a cabeça, o sorriso aberto, a caricatura que, o tempo clareou, esconde uma mulher bem diferente. Imediatamente passou a ser chamada de velha!  Para alguns, talvez, a suprema ofensa para as mudanças percebidas e a vaidade de Regina Duarte.

Parece que as mudanças não são bem-vindas justamente por nos obrigarem a enfrentarmos as nossas próprias mudanças. Os muitos quilos, as muitas rugas, todos os pelos e cabelos esbranquiçados, a ausência de viço na pele, estão entre as evidências que disfarces, pinturas e maquiagens os mais evidentes só fazem acentuar.

Todo mundo tem espelho e momentos de encarar os efeitos do tempo. A visão cotidiana nos ilude fazendo com que nos sintamos os mesmos, o que não evita nosso espanto quando encaramos fotos antigas que acentuam as mudanças que carregamos, e que caminham, aliadas ao tempo, nos transformando. Infinitamente pior que o espelho são os males que atingem os nossos corpos, incapazes de manter a permanência que mora na nossa vontade. Consultórios e clínicas entram no nosso cotidiano proporcionalmente ao tempo que estamos no planeta. Mais tempo, mais médicos.

Estamos de passagem e a expressão “viagem” ao invés de “morte” é bem melhor. Também há quem prefira “experiente” a “velho”. A realidade, por pior e difícil que possa parecer, é o que temos e, portanto, melhor que a ilusão. Não somos mais os mesmos! Nossos ídolos não são mais os mesmos. Aceitar essa questão é o que nos possibilita maior empatia para com fases da vida de todos – jovens, adultos ou velhos. O que é absurdo é constatar o universo em movimento, as transformações contínuas da natureza e pensar que nos mantivemos imutáveis.  Como se houvesse um dia para tomar consciência de si e fixar tal data. Que bobagem!

P.S. 1 – É óbvio que quem vos escreve já passou dos 60. Gosto de Bethânia desde Carcará, de Roberto, desde O Calhambeque e de Wanderléa, desde O tempo do amor. Assisti quase todas as novelas protagonizadas por Regina Duarte, e atualmente tento esquecer a decepção para não espinafrar a atriz.

P.S. 2 – Acredito estar de passagem e estou lendo textos sobre projeções da consciência. A ideia de experiências fora do corpo físico me atraem cada vez mais. Penso sempre em viagens astrais observando o movimento de nuvens no céu sobre o mar.

P.S. 3 – A decisão em escrever o texto acima foi após ter visto vídeos de fragmentos recuperados da Jovem Guarda. Como Roberto Carlos e Wanderléa mudaram!

Todo mundo deveria ter uma amiga como a Elza

Este é o meu 901o post neste blog! E devo levar uns puxões de orelha por ainda não ter escrito sobre Maria Elza Sigrist. Por aqui sempre celebrei a amizade e os grandes amigos e se Elza ficou de fora até aqui é por estar reservado a ela um momento especial para este blog.

Há controvérsias sobre quando a conheci, se foi em 77 ou 79. Do século passado! A gente ri dessas coisas do tempo, da idade, quando o que interessa é estarmos juntos após longos intervalos, mas sempre cúmplices, sempre uma imensa e carinhosa amizade.

Do que ficou da primeira lembrança foi uma frase inesperada de uma mulher linda. Aquele tipo europeu: loira, 1,75, olhos claros, corpo esguio. Um mulherão que séria, e com o devido peso, soltou a frase embargada: “Viver é muito difícil!”. Não me recordo o assunto daquela aula, daquele curso, dos demais alunos. O que ficou em minha vida foi Elza. Ali, naquele momento e com aquela frase que se concretizou nossa amizade.

Forte, Elza não admitia meios-termos, por exemplo, quando desconheciam sua profissão e as respectivas funções de uma Secretária Executiva. Com orgulho e competência, Elza ostentava o trabalho desempenhado em multinacionais lá em Campinas, interior de São Paulo, onde ainda mora. “Imagina se sou menininha de recados! Sou uma Secretária Executiva!” o que, entre outras peculiaridades, era manter gavetas vazias. “Jogo tudo fora! Guardo por três, quatro meses, ninguém pediu, não serve para nada, jogo fora!”

O desapego para com papeis também facilitou mudar de cidade quando o diretor da poderosa Johnson veio para São Paulo. Não abriu mão da secretária e Elza veio morar no Bexiga. A moça alta e bem vestida chamou a atenção da vizinhança e foi avisada pelo porteiro: “D. Elza, a senhora ponha um lenço na cabeça, um chinelo de dedo e vá caminhar pela vizinhança. Assim saberão que a senhora é daqui e a gente evita assaltos”. Ela obedeceu e, devidamente paramentada, visitou açougue, quitanda, padaria, supermercado.  

Inquieta, um dia fui me encontrar com Elza na Praça da Sé. Ela vinha com razoável frequência comprar joias naqueles prédios sombrios, dos quais muita gente tem medo. “Vendo tudo para a mulherada lá da empresa. Vou de mesa e mesa e não sobra nada!” Essa característica de ter uma conversa fácil, sempre objetiva, faz com que ela se oriente pela cidade, pelos lugares onde visita. “Olha que chic! Tive covid em Paris! Fiquei trancada, me tratei, deu tudo certo.”

Um dia, bem antes da pandemia, chegou o momento da aposentadoria. “Uma porcaria! Imagina só a aposentadoria. Prestei concurso e fui ser professora primária aos 60 anos! Você acredita?” Acredito, e imagino o jeito sincero e despachado ensinando inglês para as crianças da escola pública. Não só o magistério, ao invés de fazer terapia, estudou psicanálise. “Melhorei muito e já tive muitos clientes. Atendi até online, durante a pandemia”. Imagino-a nas tarefas, sempre objetiva, indo direto ao ponto. “Ah, não gosto de enrolar, não”.

De repente nos reencontramos. Quanto tempo sem que nos víssemos! Outras tantas controvérsias. Sabíamos da morte de nossos pais, da perda de irmãos. De quem estava casado, quem se separou. O que interessa é seguir em frente: “Quero ler seus livros!” E os leu, com longos telefonemas entre um e outro, no meio de capítulos, fazendo o escritor ir ao céu. Aliás, é bom registrar, quando tive um conto premiado e publicado em uma revista, lá em 1982, foi Elza a primeira a ler e a me dar notícia. Ela estava de férias! “Valdo, li seu conto! Parabéns”. Ler é um vício e, neste momento, deve ter terminado a biografia da Clarice Lispector, escrita por Benjamim Moser.

Elza gosta de falar da família, dos pais, do empenho desses para que ela fosse estudar, da vida dura vivida com dignidade. Do trabalho feito com presteza, das dificuldades em, sendo mulher, viver e enfrentar situações delicadas no mercado de trabalho. Inquieta sempre, segue os rumos da política e lamenta os equívocos de quem está lá, pensando que a terra é plana.

Sendo uma moça feliz, é claro que namora. E foi há poucos dias, quando eu pensava que ela estivesse ainda em tratamento, recebi a notícia. “Estou no Rio!”. Sei bem a motivação carioca e respeitando o momento feliz vivenciado por minha amiga evitei falar do meu atual problema de saúde. Só quando ela voltou é que, com a gravidade de quem nasceu no mesmo dia que Maria Bethânia, narrei minha situação, aguardando a piedade e o consolo da amiga que transcrevo parcialmente abaixo:

“Oi, Valdo, querido! Grande coisa você tá me contando! Esse zumbido, é difícil alguma pessoa que tenha passado dos 60 anos não ter, viu meu querido! Eu já tenho, minha irmã tem muito mais forte que eu e a gente aprende a conviver com isso. Não esquente a cabeça!” Aqui ela, terapeuta e ex-funcionária da Johnson & Johnson,  tratou de me recomendar um remédio para momentos de crise. E após o medicamento, com nome genérico e comercial, concluiu: “E dê-se por feliz, tá bom, querido, vai escutando o barulhinho aí e desliga. Beijo!” E riu, concluindo a gravação.

Meu “drama” foi por água abaixo! E voltei a pensar na boa sorte de ter uma amiga assim, direta, cheia de bom humor e empatia. É assim, a gente tem essas coisas que o tempo nos dá. E que bom estarmos vivos para, se não conseguimos evitar as chateações da vida, em contrapartida temos amizades como a de Maria Elza Sigrist, que nos leva a dormir tranquilos para, acordados, olharmos para o lado bom de viver.

Para Elza e todos os amigos que me acompanham nesses 901 posts!

Obrigado!

Onde criminosos se dão bem!

Certamente os deuses do futebol são amorais. Também residem longe, muito longe da ética. O que importa aos tais deuses é que nada, nem ninguém, atrapalhe a eficiência de um time. Mesmo que, para a vitória almejada, seja necessário ignorar a presença de criminosos em campo, ou nas laterais, orientando e dirigindo as agremiações. Os deuses do futebol são os mais fiéis seguidores de Maquiavel, vivenciando a máxima: Os fins justificam os meios.

A fé nos tais deuses e os seguidores da cartilha determinada pelos mesmos é atitude de muita gente incauta, os tais torcedores obcecados pela camisa. Não raciocinam; torcem! E quando raciocinam fazem vistas grossas para crimes e falcatruas de ídolos, ou dos dirigentes desses. Quando questionados costumam sair com a mais ordinária das colocações: Mas isso não é futebol! Não preciso aprofundar que pouco interessa o crime caso o criminoso seja hábil no drible, artilheiro no campeonato.

Sustentação maior aos deuses do futebol vem da imprensa. Desviam o assunto, dão pequenas notas, defendem os tais criminosos e, principalmente, apagam o acontecimento relegando o mesmo ao esquecimento. Exemplo contundente o incêndio no vestuário do Flamengo, no Rio de Janeiro. Pobres meninos que morreram queimados! Pobres familiares que choram suas perdas.

Estupradores, assediadores, pais que abandonam filhos, sonegadores de impostos: criminosos e crimes mais comuns e constantes no nosso futebol. A imprensa até notifica alguma coisa, como o fato de Robinho estar chateado pela presença da polícia na porta de sua casa, constrangendo o pobrezinho que não havia entregado o passaporte, determinação da justiça.

Histórias envolvendo o universo de futebol vêm de longe e nossos maiores ídolos não ficaram distantes de situações controversas. A filha que Pelé só reconheceu juridicamente é triste exemplo. Garrincha, diz a lenda, foi pai em diversos países, abandonando a família aqui no Brasil e mantendo-se distante também dos tais filhos estrangeiros. Elza Soares pagou preço alto em situação em que a atitude fundamental deveria ter partido do jogador. Ao longo dos anos me habituei com caras feias quando comento tais fatos. Nunca deixei de admirar esses que considero os maiores atletas do nosso futebol, todavia, é bom salientar que aqueles tempos sendo outros, o mal que fizeram é o mesmo que alguns outros ainda fazem.

As coisas estão mudando nesse momento em que uma notícia alastra-se quase que instantaneamente, tendo mudado um pouco as coisas. Além do atleta condenado na Itália temos um outro caso contundente em andamento, na Espanha. Que a justiça seja feita e que cada um cumpra o que for determinado. E por estarmos em um mundo novo, onde novas questões são colocadas e novas posturas são exigidas, cumprir pena não basta. É preciso que o envolvido em crime, após cumprir determinações legais, adote ações diferenciadas para que a coisa não se repita.

Novas atitudes, é o mínimo que se pede do atual técnico do Corinthians, o exemplo da hora de profissional de futebol envolvido em história tenebrosa. E não é, hipocritamente, vestir camisa com imagem de Nossa Senhora. É sim, assumir o que fez, desculpar-se e trabalhar em ações contra pedofilia, contra assédio a menores. Se o sujeito “não fez nada” estando presente no quarto onde ocorreu o crime, que o faça agora. Investir contra tal técnico não é vingança, é exigência de uma posição honesta e de ações concretas lutando para evitar que isso se repita.

Finalmente, apelo para a melhor arma que temos para mudar a postura de cartolas e seus comparsas. Boicotemos os patrocinadores! Sejam de atletas ou times, duas respostas contundentes podemos dar: denunciar e boicotar! Lugar de criminoso é no banco dos réus, respondendo à justiça. E fora do banco, na cadeia ou fora dela, atuando em prol de vítimas de tais crimes.

Os órfãos de Glória Perez

É muita família incompleta! A Brisa de Lucy Alves é mãe, mas não tem pai nem mãe. Chiara, da estreante Jade Picon não tem mãe; Ari, o Chay Suede, não tem pai. Faz tempo que não aparece tanto órfão em uma única novela. E não são poucos!

Entre as personagens centrais sem pai nem mãe estão: a Núbia (Drica Moraes), a Guida (Alessandra Negrini), o Oto (Rômulo Estrela), a Talita (Dandara Mariana), o Moretti (Rodrigo Lombardi), o Guerra (Humberto Martins), a Cidália (Cássia Kiss), Gil (Rafael Losso), Stênio (Alexandre Nero), Heloísa (Giovanna Antonelli), o professor Dante (Marcos Caruso) e por aí vai. Tem mais! É só checar as personagens. Quem segue a novela Travessia, de Glória Perez, deve ter percebido essa estranha quantidade de gente solta no mundo. Sem lastro, sem raízes.

Antes que D. Glória Perez me pergunte se eu fiz o “L”, informo que sim, fiz, e já pondero: Ah, mas tem família sim! a Tia Cotinha, de Ana Lúcia Torres lembra a Margarida, namorada do Pato Donald. Muitos sobrinhos sem eira nem beira. Todos caem no colo da tia. Rudá tem mãe, tia, padrasto e nenhum pai para defendê-lo! As moças, irmãs, ficaram sós no mundo, já que não há menção de outro familiar. Há uma família atual, formada por Lais (Indira Nascimento) e Dimas (Ailton Graça) e um casal de filhos que enfrenta o vício do menino em jogos virtuais. Uma avozinha, um avô, faria um bom jogo entre as crianças e os pais.

Mais que a orfandade geral, pais e avós costumam roubar a cena em novelas. Que me perdoem os mais jovens, mas, os veteranos garantem momentos de puro deleite para nós, noveleiros. Aproveito e saio de Travessia para homenagear Renata Sorrah em Vai na fé. Não sobra para ninguém quando a atriz assume a atriz na novela (Se não entendeu a frase é porque ainda não teve o prazer de ver a Sorrah dando show!). Voltemos à Travessia.

Tenho cá com meus botões que elenco de novela é uma escala onde o topo, tomando Travessia como exemplo, está ocupado por Ana Lúcia Torre, Marcos Caruso, Cássia Kis e Drica Moraes. Esse grupo de atores faz, literalmente, todo e qualquer tipo de personagem com brilho único e se sobressai de longe aos demais. Infelizmente estão órfãos, ou sozinhos, embora resvalem aqui e ali em possíveis relações.

Nem de longe ocorre, em Travessia, a possibilidade de um embate como o criado pela mesma autora em Caminho das Índias, envolvendo D. Laura Cardoso (Laksmi) e Lima Duarte (Shankar), que protagonizaram cenas memoráveis, de absoluta emoção. Também de Glória, em O Clone tivemos momentos belíssimos entre Stênio Garcia (Tio Ali) e Jandira Martini (Zoraide), tão intensas e belas quanto outras, na mesma novela, protagonizadas por Nívea Maria (Edna) e Juca de Oliveira (Prof. Albieri).

Glória Perez sabe escrever para atores veteranos e colocá-los em cenas que transbordam beleza e talento. Se não o faz, em Travessia, creio ser por conta da COVID. Sim, a maldita pandemia que criou protocolos e limitou o trabalho de atores mais velhos. Provavelmente a autora terminou a sinopse em pleno caos da doença e foi tirando aqui, cortando ali, deixando de lado os núcleos familiares profundos que apresentou em novelas anteriores. Tenho também cá comigo que foi a emissora quem limitou as personagens feitas por atores mais velhos. Do contrário, por que colocar tanta gente órfã na mesma história? Aí fica aquela coisa estranha, de gente sem lastro, sem memória.

Vou nessa! Hoje tem o casamento, ou não, da neta do Chico Buarque, que entrou na história como pesquisadora. Também sem pai, nem mãe, nem ninguém. Vejo Clara Buarque e fico com saudade da Marieta Severo e de tanta gente boa que está em casa.

Até mais!