O último texto

Foto: Flávio Monteiro

Não bastasse a pandemia, longe do fim com mais de 500 mortes diárias apenas em nosso país, agora pesa sobre nossa cabeça a possibilidade de uma guerra atômica. Não tendo real noção da abrangência de um ataque nuclear, seja de que lado for, não podemos afirmar que estaremos aqui no próximo mês, ou mesmo, no pior quadro, pode ser que tudo termine amanhã. E daí, penso: caso possível, diante do fato qual seria a indagação do universo?

Considerando a idade da Terra, acima dos 6 bilhões de anos, e levando-se em conta que o planeta segue transformando-se, indiferente às mazelas que provocamos sobre a superfície terráquea, o que são os poucos milhares de anos dessa coisa chamada ser humano diante da imensidão do tempo do planeta, da galáxia? E o que importa, o que somos nós perante toda a Via Láctea e outras possíveis vias por nós desconhecidas?

Das criações divinas que, até onde vai nossa compreensão estão em harmonia, consoantes com entornos, com o que lhes é necessário, o ser humano é a coisa que deu errado. Um equívoco. Se há um Deus e se ele criou o espaço infinito, de imensurável beleza, o primeiro erro humano foi acreditar-se imagem e semelhança de Deus. Sejamos honestos! Entremos em nossos quartos e nus, diante de um espelho, encaremos quem realmente somos. Antes disso, um alerta: o que se acredita ser beleza é, constantemente, consequência de delírio emotivo materno. E, segundo alerta, para um exame de consciência livremo-nos de todas as certezas caso não estejam carregadas das dúvidas que geram crescimento.

O espelho honesto refletirá um ser obtuso e, se brasileiro, limitado à polarização vigente. Incapaz de refletir em direção às causas, limita-se a mexer e remexer feridas, “torcendo” por um ou outro, criminalizando um ou outro para esquecer rapidamente o desastre presente, transferindo posturas e interesses para a próxima catástrofe. Produto pensado para consumir, vai para o arquivo dos acontecimentos situações tipo as enchentes em Petrópolis, o ser humano na belíssima praia brutalmente espancado até a morte e a iminente guerra atômica… neste momento em que escrevo, a contenda amenizada por uma partida de futebol – ouço os gritos frenéticos da torcida e, mais a noite, tudo momentaneamente deixado de lado pela competição da hora na televisão.

Esse brasileiro, perante o espelho, dificilmente levará em conta seu estado em função de uma ditadura militar, que excluiu da rede escolar a reflexão propiciada pela filosofia ou que é resultante da vigente educação neoliberal formando tecnicistas com rara capacidade de interpretação, e quase nula capacidade de fazer ciência. Costuma ficar indignado com situações como a do ser humano que viaja para fazer turismo sexual em plena guerra, mas em seguida se diverte perguntando via meme “qual mundo deixaremos para a Rainha Elizabeth?”.

Vizinhos residentes acima da minha cabeça jogam ovos em frequentadores do bar em frente. Esses mesmos vizinhos, incapazes de seguir normas mínimas como dia e hora para recolher o lixo, frequentam outro boteco, da esquina, e lá discutem o destino do conflito mundial entre um copo e outro de cerveja, assoviando para uma bunda ocasional que desce pela avenida. Nos grandes ou pequenos fatos, somos sempre os mesmos.

Nu perante o espelho vejo-me piada divina. Brinquedo que, não dando certo, será apagado da face do planeta. O certo é que este prosseguirá, os continentes afastando-se fisicamente em programa que desconhecemos qual fim. Grandes merdas uma guerra atômica! Dane-se o fim da humanidade. O que serão estes tristes episódios no histórico de bilhões e bilhões de anos vividos pelo planeta? Uma mancha, alguns resquícios entre camadas e camadas que formadas, destruídas e reformadas, constituem-se na massa que flutua em equilíbrio com o sol, em harmonia jamais atingida pelo ser humano.

Prestes a sucumbir ao desalento, continuo olhando para o espelho e imagino-me distanciando do quarto, do edifício, da esfera terrestre. Tento ignorar limitações e viajo por galáxias, atravesso buracos negros, encontro milhares de outros planetas, navego pelo multiverso e, insano, olho para trás, tentando visualizar a terra, aquela que “por mais distante, o errante navegante jamais esqueceria”. E antes da última viagem, certamente há um único e derradeiro texto a ser escrito, uma única palavra direcionada ao Responsável pela coisa toda:

Socorro!

Versos de mulher para um samba com amor

Menina linda, desde criança tinham-na por musa. Da família, sendo neta primogênita; do colégio, entre as coleguinhas e da Escola de Samba Bambas do Amanhecer. Tina “Nasceu para ser amada, idolatrada, salve! Salve!” dizia o pai. Deste guardava o som de cada palavra, o sorriso sereno, a força ao levantá-la e jogá-la para o alto no “salve, salve! Minha Tina!”.

Entre os sambistas percorreu o caminho natural das crianças da Agremiação. Foi destaque da ala mirim, rainha da Turma do Amanhã e, adolescente já desfilava entre as musas da bateria onde um dia deveria ser rainha. Fazendo jus aos seus Tina tinha samba no pé, ginga e graça somadas à uma beleza que dispensava fantasias mirabolantes. Também não carecia de adjutórios, balangandãs, reforçava a avó com o familiar “Nasceu para ser amada, idolatrada, salve! Salve!” repetindo a frase paterna, o homem já falecido em desastrada batida policial.

Ao longo de décadas de história os membros da Agremiação Cultural Escola Bambas do Amanhecer não perderam sua característica primordial: um grupo que conservava o jongo, os sambas de roda, as tradições herdadas dos avós. Com grande destaque para o conjunto percussivo e de cordas que garantia notas máximas em todos os desfiles e campeonatos carnavalescos. E sambistas, muita gente com o samba no pé. Resistindo a imposições externas de patrocinadores, dando de ombros para as balelas dos imbecis narradores televisivos, os compositores não abriam mão de música bem elaborada, ritmo sofisticado e envolvente. Samba é arte para fazer gente feliz, o lema nunca esquecido.

Tina, um apelido carinhoso. O nome da menina viera da paixão paterna por Clementina de Jesus, cantora ancestral, força e voz do samba brasileiro, a Quelé da voz marcante e inesquecível. A mãe da garota mantinha características comuns de muitas mulheres: Tina era para os chamados afetuosos, carícias verbais. No entanto, toda a atenção era pouco para quando se ouvia da matriarca o tom imperativo, decidido: “Clementina!”. Crescendo, a menina passou a impedir o apelido, resguardado para lembranças muito pessoais. Se insistiam reiterava que Clementina fora nome escolhido pelo pai, portanto…

Do imenso universo que envolve o carnaval e as escolas de samba, a jovem amadureceu preferências pelos sambas de enredo. Guardava como relíquia discos e fitas antigas de coleção herdada do pai. Admirava Jamelão, o lendário cantor da Mangueira, tinha paixão pelas interpretações de Elsa Soares e evidenciava preferência por enredos com histórias incontestavelmente bem definidas como aqueles assinados por Silas de Oliveira ou Martinho da Vila!

Mas loucamente a Yayá do Cais Dourado
Trocou seu amor ardente
Por um moço requintado
E foi-se embora… ¹

Clementina cantava a Yayá do Cais Dourado, mas não queria ir embora. Deixar sua gente e, principalmente, Valmir, o jovem ritmista que desde cedo foi alvo das atenções e paixões de Clementina. Como não se apaixonar pelo rapaz que, além de manusear instrumentos de percussão com a maior facilidade, ainda criava lindas melodias? Não era bom nos versos, seria pedir demais aos deuses. Palavra era domínio da menina e a dupla passou a brincar, ela com a letra, ele colocando melodia e, ainda tímidos, resolveram esconder até dos familiares os primeiros sambas, inibidos pela qualidade dos excelentes compositores atuantes no cotidiano dos carnavais da Escola.

Dançando nos ensaios, desfilando na frente da bateria, Tina tornou-se jovem e bela, musa querida de todos. Entre um carnaval e outro cumpria compromissos visando a festa, mas o que gostava mesmo era de namorar e compor com o parceiro que a vida lhe deu. Continuavam escondendo o resultado do empenho em criar sambas, principalmente pela vontade de Valmir. “Essas letras são coisas de mulher. Eu ainda preciso aprender a compor versos, ou arranjar um letrista para os meus sambas”.

Quando adolescente Clementina achava atitude normal as imposições do namorado. Temia envergonhá-lo perante a Bambas do Amanhecer dominada por compositores homens. E insegura, achava  que as próprias histórias que contava em suas letras tinham muito dos romances açucarados que gostava de ler. Já crescida, a questão teve seu ápice quando, insistindo em mostrar as criações de ambos para a comunidade, Clementina citou as criações e os grandes sambas de Dona Ivone Lara. O namorado foi cruel para com a menina, ainda insegura: – Você não acha que pode comparar seus versos com “Os cinco bailes da história do Rio?”, lembrando o primeiro samba de enredo da grande compositora da Império Serrano.

Carnaval, doce ilusão
Dá-me um pouco de magia
De perfume e fantasia
E também de sedução…²

Magoada, Clementina evitou briga, mas deixou de fazer versos para as canções do namorado alegando ausência de inspiração. Limitou-se a fazer aulas de dança, fazendo crescer o objetivo de ir além de musa da bateria. Ela pretendia desfilar como porta-bandeira e, para isso se preparava, para ser a representante máxima conduzindo o pavilhão da Escola. Intuía desde há muito que o namorado jamais seria seu Mestre Sala, pois faltava para ele a elegância e a gentileza necessárias para a função.

A vida seguiria cotidiana caso não houvesse grande perda para toda a comunidade. Morreu Antônio Almeida, célebre compositor, letrista e melodista completo, autor por dezoito anos consecutivos dos sambas de enredo da Bambas do Amanhecer. Um acidente causado durante viagem onde o velho compositor comemorava um vice-campeonato no recente carnaval. Passado o choque, amenizada a tristeza, a diretoria da Agremiação decidiu por um concurso para escolher o compositor oficial, aquele que coordenaria seus pares nas criações dos futuros sambas da Escola. Só seriam aceitos participantes da comunidade e estava permitido também o trabalho de duplas, ou trios. Todos se entusiasmaram e Valmir ignorou a parceira de suas primeiras canções que, evitando dissabores, preferiu ficar longe dos preparativos para a competição. A mágoa ficou exposta quando Tina ignorou os trabalhos inscritos pelo namorado.

Da grande final Clementina não pode, nem quis ficar distante. Estava feliz. Valmir fora anunciado entre os finalistas via composição em parceria com o irmão mais velho, Alfredo, um estranho no ninho. A moça jamais soubera ter um cunhado compositor. Presa no trabalho por uma reunião esperada que se alongou, a moça chegou ao evento bem no momento em que a quadra fervia. Valmir subiu ao palco para se apresentar como o grande vencedor daquele concurso. Entre alegre e surpresa, Clementina reconheceu imediatamente antigos versos que escrevera e não conseguiu segurar o desapontamento ante a certeza de não ter o próprio nome entre os criadores da composição.

O que seria uma briga imensa foi abafada pela diretoria, alguns membros da Velha Guarda e pela própria mãe da moça. Quando Clementina denunciou ser também autora, os demais concorrentes exigiram a desclassificação da dupla vencedora. Ficou no disse-me-disse. A mãe de Tina, agora interessada no Presidente da Agremiação ignorou a propriedade intelectual da filha: “Clementina, você não vai nos prejudicar por uma vaidade tola!” A moça, acostumada, obedeceu. O namoro terminou ali. Tudo se aquietou.

O desfile das escolas de samba daquele ano teve como grande marco o primeiro campeonato da Bambas do Amanhecer. Entre a alegria da vitória e a mágoa pela exclusão do próprio nome entre os criadores, Tina presenciou comemorações que atravessaram março, abril. Os compositores vencedores garantiram o direito de compor para os próximos carnavais. Quem iria contrariar? Prêmio merecido, sendo citados por revistas e jornais especializadas que reconheciam inegável poesia dos versos do samba enredo.

No ano seguinte os sambistas começaram a estranhar a demora em que se decidisse o novo enredo. Tradicionalmente, era o samba que determinava o enredo e não o contrário. Com o atraso da dupla, sempre afirmando que buscavam versos melhores que os anteriores, foi exigido que indicassem o tema. Já era o mês de maio e a infraestrutura material já estava comprometida. Tecidos, confecção de adereços e fantasias, projetos de alegorias… já estava na hora das aquisições, encomendas. O ainda apaixonado Valmir, sonhando com uma reviravolta do destino, informou: “Vamos homenagear Clementina de Jesus!”.

Novembro mais do que tenso, pesado. Pressionando a dupla de compositores foi marcada uma noite para apresentação do enredo da Bambas do Amanhecer. A decisão da diretoria foi irrevogável; não esperariam mais um único dia. O que se viu na hora da apresentação foi constrangedor. Uma dupla alcoolizada escorada em boa melodia, sob o som esfuziante da percussão, cantou versos medíocres, indignos da campeã do carnaval. Do constrangimento à revolta foram poucos minutos. Não tardou a que um rival do Presidente em exercício subisse ao palco expondo o dilema e a crise instaurada. A Bambas do Amanhecer não tinha um samba enredo. E o motivo, todos sabiam. A letra do samba anterior fora criado por Tina.

Quando soube do ocorrido, contam, que ela apenas sussurrou: “Mulher não compõe? Então vamos ver”. E após ouvir a melodia, por apenas duas vezes, pegou papel e caneta, pensou no pai e no afeto deste por Clementina de Jesus, na Mangueira, na trajetória da cantora, mãe querida de todos os sambista. Em poucos minutos redigiu os versos que, naquela mesma noite foram apresentados e aplaudidos por todos os presentes na quadra. Tina foi declarada compositora oficial da Agremiação Cultural Escola Bambas do Amanhecer. A moça não titubeou em corrigir quando foi anunciada: Clementina! Meu nome é Clementina Maria dos Santos.

Fevereiro. Carnaval. Entrou na avenida como destaque do carro de som, com faixa não de rainha, a compositora Clementina Maria dos Santos, entoando com alegria o seu samba enredo: “Versos de mulher para Quelé, um samba com amor!”. Exigiu que Valmir desfilasse bem atrás, escondido no meio de vários instrumentistas. E na semana seguinte, durante o desfile das campeãs, passou pelo sambódromo carregando sozinha o troféu de melhor samba de enredo do ano.

Valdo Resende / Fevereiro de 2022

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Notas musicais:

1 – Yá-ya do cais dourado é composição de Martinho da Vila para a Unidos de Vila Isabel, em 1969.

2 – Os cinco bailes da história do Rio, enredo da Império Serrano de 1965, é composição de Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e Bacalhau.

Páginas viradas

Para Fátima Borges, a Fafa.

Mesmo planejada, a mudança não deixou de ser brusca. Tinha sido uma vida atribulada, feita de oito, dez horas de trabalho diário mais ações paralelas à atividade profissional. Jantares, teatros, noites de festas, domingos no museu. A vida exigia presença, participação e ela gostava muito de tudo isso. Aos poucos foi se cansando mais, querendo uma tranquilidade de há muito desejada. Ignorar relógio, esquecer o calendário para poder olhar para a vida, manhãs de sol, tardes preguiçosas, noites de caminhadas tranquilas e descompromissadas. Estabeleceu data para aposentadoria e prometeu a si mesma que deixaria qualquer atividade por tempo indeterminado. Queria experimentar o não fazer nada. E assim foi.

Perdeu-se a conta de quanto tempo ela permanecera ali, sentada no sofá da sala, a televisão ligada sem que prestasse atenção à novela, ao noticiário. Mantinha o olhar fixo, o semblante sem qualquer reação ante a visão de um prato de requintada culinária, um desastre aéreo, um escândalo político. Resolvida a cumprir a recente promessa não quis ler, escrever, bordar, pintar, nada. “Já trabalhei muito! Agora não faço nada”. Nem mesmo a própria comida, o cuidar da casa, das roupas, das unhas, pele e cabelo.

Com o tempo Teresa percebeu que a televisão era gatilho para o alheamento da patroa. A ajudante de décadas preparava o café da manhã antes de acordá-la. Após o asseio matinal, Maria sentava-se diante de uma fruta, pão, queijo. Café, não. Nem chá, nem leite. Suco. “Quero um tempo para me lembrar quem fui antes de trabalhar ininterruptamente por esses 30 anos”. Pedido de cancelamento do jornal atendido, deixou que vencesse a assinatura de revistas, periódicos. Gostou até de evitar convites para seja lá qual for o evento e foi, aos poucos, também cortando encontros corriqueiros, exceto de grandes amigas e parentes próximos, deixando de receber visitas protocolares de conhecidos, parentes distantes.

Berenice, a sobrinha mais velha, era a única a visitá-la regularmente. “A saúde vai bem? Precisa de alguma coisa?” Teresa não gostava das perguntas feitas à patroa que preferia responder com monossílabos indiferentes à intensa curiosidade da sobrinha. Em dado momento a moça ofereceu um novo celular e, ignorando o desinteresse e atenção da tia, insistiu em atualizá-la quanto à maneira de usar redes sociais, identificar chamadas, medir batimentos cardíacos e as demais maravilhas do recente modelo do aparelho… E orientou a tia até a fazer uma playlist, deixando como exemplo canções da primeira fase da carreira de Chico Buarque. “Eu sei que a senhora gosta. Vou deixar aqui, tocando. Se quiser desligar é só apertar aqui. Não se esqueça de carregar a bateria”. A tia gostava realmente do compositor, ouvindo cada uma das músicas familiares desde a adolescência e sua juventude.

A Rita levou meu sorriso, no sorriso dela meu assunto

Levou junto com ela o que é de direito…

A sobrinha tinha ido embora deixando o aparelho ligado e as canções preencheram aquelas primeiras horas matutinas fazendo histórias virem à tona. Maria recordou um violão quebrado quando soube que um namorado desnaturado, filho da mãe, havia feito serenata para uma zinha qualquer. Sabendo do fato ela foi ao apartamento do sujeito, entrou silenciosa, decidida, e ante um olhar atônito do rapaz, bateu com o violão sobre as teclas de um piano… “Causou perdas e danos!”. A lembrança era boa e Maria sorriu. Algo tão inusitado que realçou o brilho do olhar e ela notou a claridade do dia, o sol batendo forte no terraço. Teresa percebeu mudanças quando trouxe um suco que antecedia o almoço. “Hoje não quero almoçar. O Chico me basta”, sentenciou Maria já nos primeiros acordes de mais uma canção.

Toda gente homenageia, Januária na janela

Até o mar faz maré cheia, pra chegar mais perto dela…

Ela resolveu bisbilhotar a tal playlist e notou que o autor da coisa havia priorizado entre as canções de Chico Buarque aquelas que remetiam a mulheres específicas: Rita, Januária, Bárbara, Ana, Carolina, Cristina, Beatriz, Maria, Rosa, Angélica… Aumentou o volume para espanto da empregada que retornou, rápida e assustada, temendo ter acontecido algo ruim. Maria aproveitou a presença da outra: “Temos vodca e gelo? Coloque nesse suco de laranja, por favor!” Vodca às onze horas! O olhar da mulher ao relógio dispensou a pergunta. Maria insistiu: “Capricha, Teresinha! Por favor! Vou procurar “Teresinha” para te homenagear”.

Vieram com a bebida canções e performances até então desconhecidas de Teresa que, em dado momento, sucumbiu aos convites e passou a bebericar com a patroa. De início tímida, aos poucos foi entrando na sintonia da outra e nem se surpreendeu quando Maria foi ao quarto e voltou vestida apenas com meia arrastão, cinta liga, uma minúscula calcinha vermelha. Teresa recusou mudar de roupa. A outra desligou o celular e ligou o aparelho de som, mais potente, enchendo o início da tarde com o som de CDs, a coleção do compositor que há muito estava abandonada.

Ai se mamãe me pega agora, de anágua e combinação

Será que ela me leva embora, ou não…

Improvisando coreografias, escolhendo canções nos diferentes discos, quando bebericaram a quarta ou sexta dose quebraram de vez a barreira já tênue entre patroa e empregada, Maria convencendo Teresa a dançar como se fosse “Bárbara”, dançando nuas pela sala, a possibilidade de ir além quebrada com sonoras gargalhadas após definição de território: “Olha aqui, Maria, ‘desesperada e nua’, sim, sabendo que ‘serei sua’, não. Eu quero é o Antenor! Gosto muito!” Após muitas risadas, Maria retomou o telefone anunciando uma ideia: “Será que o Juvenal ainda me quer?”.

Juvenal, ex-colega de trabalho, também recém aposentado, vivendo tranquilo com a esposa e tomando conta de netinhos todas as tardes titubeou ao convite de Maria, estranhando a hora, a quarta-feira, a voz esgazeada pelo álcool da amiga por quem morria de tesão e de quem não tinha notícias há meses. “Venha agora, Juvenal. Você ainda me quer, eu sei. Vem agora! Você não tem uma boa desculpa para sair à noite. Então venha ao banco, diz que irá acompanhar um amigo durante exame de vistas, diz alguma coisa, Juvenal! Ou mudo de ideia! Página virada, Juvenal!”.

Encantada e feliz pela repentina e intensa saída de Maria do marasmo de meses, Teresa arrumou rapidamente alguns petiscos, reformou o balde de gelo, verificou a quantidade de bebida no armário e prometeu, sob juras aos deuses e santos, permanecer fechada no quarto de hóspedes até ser chamada de volta. Últimos momentos antes da chegada do amante, Maria despiu-se protegendo o corpo apenas com um roupão leve, esvoaçante e transparente, sentenciando ao término de outra velha canção, da moça que desatinou: “Não vou desatinar, Teresa. Chega! Não sou dessas!”, já colocando outra música, olhando no relógio. “Juvenal que não se atrase!”. As duas ainda voltaram a bebericar e dançar.

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada do grande amor…

Chico Buarque e Gal Costa, cúmplices involuntários de Maria, pronunciaram junto com a campainha o último verso de O Samba do Grande Amor:

Mentira!

Maria despachou Teresa para o quarto e, antes de atender a porta, avaliou-se no espelho, abrindo um pouco mais o decote, ajeitando o cabelo. Calma, colocou uma premeditada canção do onipresente Chico também na voz de Gal Costa. Juvenal seria burro demais se não partisse para o objetivo da visita ao ser recebido pela folhetinesca mulher “que só diz sim” sem manhã seguinte, sem qualquer compromisso. Calmo e competente, a escolha de Maria não desapontou, nem diminuiu um mínimo sequer da magia daquela tarde.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu

Que me deixa maluca quando me roça a nuca…

Teresa só pode sair do quarto quando o sol estava se pondo, atendendo ao chamado da patroa, novamente sozinha na sala. “Estou faminta!”. E sem dizer mais nada voltou ao silêncio costumeiro, mas com um inconfundível brilho nos olhos. Pura satisfação. Teresa, ainda sob efeito da vodca, não economizou comentários. Contou não esperar jamais ver a patroa em trajes íntimos, quase bêbada, bailarina performática. Tão quietinha! Tão ensimesmada! Quem podia imaginar que, rápida e resolvida, arranjaria um encontro em menos de uma hora? Conclui em dado momento que a razão deveria ser esse Chico Buarque, milagreiro! Quem diria! Que compositor porreta! Maria abandonou o silêncio perante o prato cheio: “Chico é ótimo, Teresa; mas eu sou apenas quietinha. Sabe, eu sou safada; muito safada!”. Rindo muito, cumplices, mergulharam nas delícias de uma boa massa, Chico cantarolando na noite alegre e quente de mais um verão.

Pintar, vestir
Virar uma aguardente
Para a próxima função…

Valdo Resende / 2022

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Notas musicais:

Páginas viradas, o título, é expressão usada por Chico Buarque em Folhetim (Chico Buarque, para a Ópera do Malandro – 1979) gravada por Nara Leão, fez enorme sucesso em 1978 na voz de Gal Gosta.

A Rita (1966) – Chico Buarque – é o disco cuja capa virou meme, o Chico sério e sorrindo. Neste disco há outro nome de mulher, Cristina, irmã de Chico homenageada em “Será que Cristina volta”.

Januária (1968) – Chico Buarque – Do terceiro LP do compositor. Deste disco consta “Ela desatinou”, e “Carolina” também mencionadas acima.

Ai, se eles me pegam agora (1979) – Chico Buarque –  a data é de quando foi lançado o álbum com as músicas da peça A ópera do malandro. A canção citada é interpretada pelo grupo As Frenéticas.

O Samba do Grande Amor (1984) – Chico Buarque – O vídeo com Chico e Gal cantando é imperdível. Gal “revira os olhinhos” em momento de puro charme.

O meu amor (1979) – Chico Buarque – Do mesmo disco da Ópera do Malandro, com interpretação de Marieta Severo e Elba Ramalho. A gravação, um ano antes, de Maria Bethânia em dueto com Alcione foi um grande sucesso. Teresinha, a canção também citada acima, foi gravada por Bethânia e, no disco de 1979 tem registro de Zizi Possi.

Na Carreira (1983) – Chico Buarque e Edu Lobo são os autores dessa música para o final de O Grande Circo Místico, criado para o Balé Teatro Guaíra. Na trilha há “Beatriz” e “A história de Lilly Braun”, outras mulheres citadas pelo compositor.

Outras mulheres citadas acima e no cancioneiro de Chico:

Bárbara e Ana (Ana de Amsterdam) são da trilha da peça Calabar, o Elogio da Traição, proibida pela ditadura em 1973. Chico Buarque e Caetano Veloso cantam essas canções no show gravado ao vivo em Salvador, lançado em 1972. 

Maria, está em Olha Maria, do LP Construção (1971) e está também em Anos Dourados, esta em parceria com Tom Jobim, de 1987.

A Rosa, é aquela doida pela Portela, vestida de verde e rosa… há uma gravação genial de Chico em dueto com Djavan.

Angélica, na real, é Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel Jones e da jornalista Zuzu Angel. Stuart foi torturado e morto pela ditadura e Zuzu, buscando pelo filho, morreu em duvidoso acidente, em 1976. Chico Buarque, em parceria com Miltinho, do MPB4 gravou Angélica em 1982.

Contingências Antropofágicas no CCBB

Para comemorar o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, o Centro Cultural Banco do Brasil apresenta o projeto Contingências Antropofágicas / 100 anos depois de 22 que acontece no CCBB São Paulo nos dias 17, 23 e 24 de fevereiro, às 17h. Presencial e gratuito. 

Sonia Kavantan, Valdo Resende e Kátia Canton. Foto: Andreia Machado

Com idealização do escritor e Mestre em Artes Visuais Valdo Resende, curadoria e mediação da artista visual, escritora e jornalista Kátia Canton e produção da Kavantan & Associados, de Sonia Kavantan, o debate de ideias propõe reflexões sobre os contextos sócio-históricos que deflagraram a concretização do movimento ocorrido entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo.

O seminário também questiona as influências dessa primeira etapa do modernismo na arte hoje e joga luz sobre os significados de uma busca pela identidade brasileira através da arte. Como a questão da brasilidade toma corpo agora? O diferencial do projeto é que estarão no foco da discussão as contingências em três aspectos – Histórico, Estético e Humano.

Programação CCBB SP:

17 DE FEVEREIRO, 17H:

Contingências sócio-históricas – O Significado da Semana:

– Era uma Vez o Moderno – os diversos modernismos no Brasil entre 1910 e 1920, com Luís Armando Bagolin.

– O Azarado Macunaíma, com Priscila Loyde Gomes Figueiredo.

Esse primeiro encontro busca discutir a questões primordiais. O que significou a Semana de 22 na cidade de SP? Como era a Paulicéia até a explosão do modernismo, como eram os artistas e como eles se organizaram em torno do movimento? Como a questão da identidade brasileira se configurou e qual o papel singular de Mario de Andrade, autor de Macunaíma, na pesquisa de nossas raízes e vocações?

23 DE FEVEREIRO, 17H:

Contingências estéticas – A Composição da sinfonia modernista de 22:

– O Lastro Modernista nas Artes Hoje, com Agnaldo Farias.

– Semana de 22 e 2022, com Ana Cristina Carvalho.

A contingência tratada aqui articula as especificidades da estética desenvolvida pelos principais artistas que formaram essa primeira fase do modernismo brasileiro. Nas artes visuais, na literatura e na música, como se caracterizou essa produção? Quem eram eles e como foram responsáveis pela representação de uma geração?

24 DE FEVEREIRO, 17H:

Contingências humanas – O significado do ser moderno hoje:

– Modernas! arte e gênero no Brasil dos anos 1920, com Ana Paula Simioni.

Personagens da Semana de 22, com Percival Tirapeli.

Essa contingência se liga ao atravessamento do tempo/espaço e do alargamento do conceito modernista até os dias de hoje. Será que aquela é uma Semana que não terminou, como diz o título do livro do jornalista Marcos Augusto Gonçalves? Quais as principais influências que aquele momento nos deixou como herança? O que é mito, o que é verdade?

Dinâmica:

Nos três dias de evento (mesma quantidade de dias da Semana de 1922) haverá dois palestrantes e uma mediadora, com espaço de tempo para perguntas da plateia. O seminário será presencial e terá duas horas de duração.  Cada encontro será aberto pela mediadora que apresentará colocações sobre o tema proposto e apresentará os palestrantes. Na sequência cada palestrante fará sua apresentação. O mediador retomará iniciando questionamentos para os palestrantes e depois o público também poderá fazer perguntas. Ao final, após as considerações finais dos palestrantes, o mediador fará o fechamento.

Além de São Paulo, o projeto também acontecerá no Rio de Janeiro (dias 11, 12 e 13 de março, 18h30), Belo Horizonte (dias 1, 2 e 3 de abril, 20h) e Brasília (dias 5, 6 e 7 de maio, 20h).

Ao final de todas as cidades, serão disponibilizados nas redes sociais do CCBB um vídeo com a edição de todas as palestras e uma publicação com a transcrição dos conteúdos. Será emitido certificado digital para a pessoa que comparecer a pelo menos duas palestras. Haverá tradução em libras durante todas as atividades.

Sobre a curadora

Katia Canton é artista visual, escritora, jornalista, professora e curadora. Estudou arquitetura, dança e formou-se jornalista pela ECA USP, em São Paulo. Também estudou literatura e civilização francesas no curso de estudos superiores dado pela Aliança Francesa juntamente com a Universidade de Nancy II. Em 1984 transferiu-se para Paris, com uma bolsa de estudos de dança moderna no estúdio Peter Goss.

Viveu em Nova York por oito anos, onde trabalhou como repórter para vários jornais e revistas e realizou mestrado e doutorado na New York University. Sua pesquisa acadêmica é interdisciplinar e relaciona as artes e os contos de fadas, de várias épocas e culturas do mundo. Trabalhou um ano e meio como bolsista no MoMA, de Nova York, criando projetos de arte e narrativa no departamento de educação. De volta ao Brasil, ingressou como docente na Universidade de São Paulo, sendo professora associada do Museu de Arte Contemporânea (onde foi vice-diretora) e do programa de Pós-graduação Interunidades em Estética e História da Arte.

Seu trabalho artístico é multimídia, incluindo desenho, pintura, fotografia e objetos, e conceitualmente se liga a questões sobre sonho, desejos e narrativas. Tem realizado exposições em museus, galerias e instituições culturais no Brasil e no exterior, desde 2008.

Como autora, além de escrever livros sobre arte, criou mais de 50 livros ilustrados para o público infantil e juvenil, tendo recebido vários prêmios, no Brasil e no exterior. Entre eles, recebeu por três vezes o prêmio Jabuti, prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Serviço:

Contingências Antropofágicas / 100 anos depois de 22

Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo

Período: 17, 23 e 24 de fevereiro, 17h

Ingressos: Agendamento através do site bb.com.br/cultura e na bilheteria

Classificação indicativa: 14 anos

Entrada gratuita

Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico, Triângulo SP, São Paulo–SP

Acesso ao calçadão pela estação São Bento do Metrô

Funcionamento: Aberto todos os dias, das 9h às 19h, exceto às terças

Informações: (11) 4297-0600

Estacionamento conveniado: Rua da Consolação, 228.

Valor: R$ 14 pelo período de até 6 horas. É necessário validar o ticket na bilheteria do CCBB.

Traslado gratuito até o CCBB. No trajeto de volta, a van tem parada na estação República do Metrô.

Outros brasileiros na hora do prazer

(Foto: Vania Lourenço Sanches)

Uma perua transformada em motel a preço módico: Uma hora por R$ 5,00! Recebi o anúncio como se fosse piada em época de crise. Entre dois corações a palavra motel; abaixo o tempo e o preço. Assinando a categoria enquanto nome do negócio: Fode Truck.  “Que falta de elegância, Valdo, escrevendo essas coisas. Que feio!”, diria uma tia, já falecida. Eu rio, pensando na felicidade de quem pode pagar os cinco “mangos” para ser feliz, já que, lembrando meu amigo Robinho, “não dá para lutar contra a natureza”.

Não sendo dono da imagem do negócio descrito acima, resolvi ilustrar com uma foto, tirada em São Raimundo Nonato, euzinho em frente a um inesquecível bar. Um balcão lateral, muita bebida disponível, um som sempre aberto aos temas afetivos e, bem em frente ao balcão, uma cama de casal. Um varal preso ao teto, com uma cortina florida separava o ambiente quando amantes resolviam não ir muito longe para fazer o que poderiam fazer ali mesmo. Sem dissimulações, sem hipocrisia. E com o conforto de um bom ventilador para também espantar mosquitos indesejáveis.

Soube de histórias, já que o bar piauiense estava próximo da Universidade local, onde fui dar um curso. Não havia trocas de lençóis entre um uso e outro, mas garantiam peças limpas a cada dia. Para manifestações afoitas, exageradas durante o ato, aumentava-se o som. “Não muito”, garantiu-me o proprietário; “os gemidos de uns estimulam os outros e assim o serviço prospera. O senhor não quer experimentar?”

Essas histórias correm por aí no anonimato possível dos grupos de WhatsApp, neste período do ano em que já se tornou comum jovens articulados e saudáveis movimentarem lençóis para espectadores da tv aberta. E se é verdade que o Brasil é o país da delicadeza perdida, o tesão continua pop e o sexo segue, imbatível, indiferente aos locais onde é praticado.

Prazer é bom e Freud já determinou e nos ensinou princípios que, quando não satisfeitos, geram tensão. A situação pode ser delicada e complicada conforme a formação do ser que terá, ao longo da vida, um possível e considerável conflito entre a elegância, que pede discrição, ou o combate à hipocrisia, mandando essa às favas. Além dos ditames dos “bons costumes”, vivemos época de pandemia e aconselhamos às pessoas que permaneçam em suas casas. Complicado!

Tempos em que sobreviver é luta. Do que viverá o dono do bar piauiense? O preço da perua motel é esse, ou o valor diminuiu por conta da crise vigente? Como se resolvem as pessoas solitárias, que não se contentam com prazeres individuais? Enfim, o bom nisso tudo, é perceber que somos feitos para o prazer e ainda não desistimos dele. E que no “país do carnaval”, proibidos de brincar e desfilar, sem dispor das quantias enormes de dinheiro para ir ao Lollapallooza ou ao Rock In Rio, temos peruas, bares e outras possibilidades para a satisfação de nossas necessidades.

Boa semana!

E Zuquinha perdeu o sono!

Fogo (foto: Flávio Monteiro)

“Meu mundo caiu”, informou D. Zuca, abnegada progenitora de Zuquinha. “Meu filho não está entre os dez mais! Como irei encarar minhas amigas do Clube?” O Sr. Zuca acalmou a criadagem: “Há dinheiro para o botijão de gás e prometo um naco de carne para quem não tocar mais nesse assunto.” E jogou de lado o jornaleco que, com absoluta gravidade, informava que o filho Zuquinha, conhecido também como Mark Zuckerberg, estava perdendo US$ 29,3 bilhões, ficando assim de fora da lista dos dez mais ricos do mundo. Um desastre. Com a perda, dizem, Zuquinha ficou com meros US$ 85,1 bilhões nos bolsos.

Recordei uma perda, também drástica. Quando perdi uma carteira ordinária com duas fotos 3×4, um inútil bilhete de loteria, vencido, tanto quanto um patuá que deveria proteger os trocados reservados para o busão. Lá se foram dezenove reais, ficando o desespero em ter que voltar a pé para casa. Feliz, muito feliz. Afinal eu tinha casa!

Devo confessar uma fugaz alegria (nada do que deva me orgulhar!) ante a perda do Zuquinha. Eu fechei uma conta antiga no Facebook. A minha continha mais um milhão de outras de usuários que, deixando a rede, causaram a derrocada do sujeito da lista dos dez mais. Pobre Zuquinha insone! Estou em dúvida se envio Zolpidem ou Zopliclona para que ele possa dormir. Escolhi essas droguinhas só por conta da inicial, Z, em homenagem ao ex-mais rico.

Esse planeta está difícil. Basta ver nossos jornais e telejornais. Foi escrever a expressão droguinha e vem de imediato o problema dos hermanos, vítimas de cocaína envenenada. Só consegui pensar na mocinha linda da Internet que, certamente, diria: “Processa o traficante! É causa ganha”.

Na real, o que me bate é desalento, desespero. Diante de uma insensatez sem tamanho, sobra uma incredulidade no ser humano quando vejo um jovem negro abatido a cacetadas e outro, também jovem, também negro, abatido sem armas por um vizinho que alegou “legítima defesa”. E se a população não se sensibiliza por essas mortes, quem sabe não fica indignada com a servidão de nossos jornais aos pobres ricos que perdem posição no ranking? Quem sabe não gera um incômodo na classe média, que não consegue fechar suas contas, ao saber que pequenos gestos somados – fechar uma conta no Facebook – derrubam fortunas e governos?

Hoje acordei com todas essas questões que deixaram minha semana infinitamente pior e pensei em orar por esse mundo. Aí, pesaram mais notícias dos dois velhinhos que colocam sobre a cabeça da gente o temor de mais uma guerra nesse mundo criado por Deus. Não deu outra, recordei Vinícius de Moraes e perante o criador de tudo, só me restou rezar:

“Às vezes quero crer e não consigo

É tudo uma total insensatez,

Então, pergunto a Deus, escuta amigo!

Se foi pra desfazer, por que é que fez?”*

Bom final de semana!

*Cotidiano n. 2 – Vinícius de Moraes

Elza, para ouvir!

Eu gostaria de morrer em casa, de causas naturais, como Elza Soares. Entre paredes conhecidas, sem a frieza do quarto hospitalar, perto de pessoas da família, com lucidez e visão para identificar quem vier me buscar. Espero merecer tal graça. Quanto à Elza, fui alertado por Flávio Monteiro: “- Merecido. Ela sofreu antes, ao longo da vida, tudo o que tinha que sofrer!” Realmente, não carecia de mais nenhuma dor.

Morte, certeza que costumamos recusar, nos pega de surpresa, nos deixa meio sem rumo. E a gente toca a pensar em quem faleceu. Incomoda um pouco ler tanto sobre Elza Soares sem que citem suas canções, interpretações. Penso que a melhor homenagem é ouvi-la e, por isso, resolvi indicar sugestões de fã.

Gosto de “Boato”, música de João Roberto Kelly, na voz de Elza Soares, gravado em 1960. No final do samba Elza repete o refrão imitando Dalva de Oliveira, Miltinho e Alaíde Costa. Um absurdo potencial de quem fazia o que bem queria com a voz. Tá bom para começar?

Em raros registros – 3 cds – feitos graças ao trabalho de Zuza Homem de Mello, estão gravações de Elza ao vivo, nos anos de 1960. Dois desses momentos no programa Fino da Bossa (Elis Regina e Jair Rodrigues) e um no Corte Rayol Show (Renato Corte Real e Agnaldo Rayol). Quem não ouviu Elza Soares e Elis Regina cantando “Devagar com a louça” (Haroldo Barbosa e Luis Reis) fica nessa mania de “melhor” que citei em post passado. Bobagem! As duas são melhores. Elas cantam como se tivessem ensaiado durante meses, como se formassem dupla com anos de experiência e dão aula de senso rítmico, divisão ímpar. Essa gravação simplesmente precisa ser ouvida:

Na real, voltando por onde poderia ter iniciado, comecei a gostar de samba enredo ouvindo Elza e, na hierarquia dos afetos, minha primeira citação /indicação vai para “Bahia de Todos os Deuses” (Salgueiro, 1969).

“Nega baiana, tabuleiro de quindim

Todo dia ela está na Igreja do Bonfim

Na ladeira tem, tem capoeira…”

Outra referência afetiva é de “Lendas do Abaeté” (Mangueira, 1973) e, inesquecível, “A Festa do Divino” (Mocidade Independente de Padre Miguel, 1974), esse é samba de quando a cantora foi intérprete da Escola na avenida. Atenção, por favor: no quesito samba enredo, Elza Soares sempre manifestando sua predileção pela Mocidade, não deixou de cantar sambas de outras escolas. Música boa é para ser cantada, de preferência, por quem sabe.

Começo dos anos de 1980, no Instituto de Artes da Unesp, Dirce Ceribelli utilizava canções de Caetano Veloso para nos ensinar Jakobson. Entre essas, “Língua”, que o compositor divide interpretação com Elza Soares em momento icônico. E logo depois tive a oportunidade de vê-la, no Centro Cultural Vergueiro. Mulher bonita, gostosa, com pernas colossais, por aqui e ali diziam ser a Tina Turner brasileira. Mania infeliz essa nossa. Tina é ótima, mas Elza não carece de comparações. Foram tempos de mudança, em que Elza, sem deixar o samba, deu ênfase para todo o seu potencial musical.

“Dura na Queda” (Chico Buarque), “A carne” (Marcelo Yuka, Seu Jorge, Wilson Cappellette), “Rio de Janeiro” (Anderson Lugão), “Flores Horizontais” (Zé Miguel Wisnik, Oswald de Andrade)… eleger uma canção é difícil, pois cada uma dessas vai além do universo musical. Elza, definitivamente, assumia seu lugar como voz de um povo, de uma raça, de um gênero, características que acabaram levando-a para o plural, tornando-se cantora de povos, raças, gêneros.

“Flores horizontais

Flores da vida

Flores brancas de papel

Da vida rubra de bordel…”

Quero concluir essas breves indicações do repertório de Elza sugerindo audição de outros duetos além de Língua (todo mundo, me parece, quis cantar com ela). Chico Buarque (Façamos – Cole Porter, versão de Carlos Rennó), Letícia Sabatella (A Cigarra – Elza e Letícia), Luiz Melodia (Fadas – Luiz Melodia) … Mas, entre tantas parcerias, volto no tempo, lá para os anos de 1960 para indicar um trio: Elza, Elis e Jair cantando “Se acaso você chegasse” (F.Martins, Lupicínio de Oliveira), na mesma coletânea citada acima. É ouvir os três e lamentar imensas perdas, três figuras máximas da nossa música.

Certamente deixei alguma grande interpretação. Fatal deixar de lado vários, entre tantos momentos intensos de puro talento de Elza Soares. Espero que este texto estimule a ouvir e ir bem mais além. A cantora está na nossa música e sua história – vasta e forte – permanecerá.

Ave, Elza Soares!

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Nota: Todas as canções estão nas plataformas digitais.-