João Eurípedes Sabino, do Triângulo Mineiro para o Trem das Lives

Um encontro com o escritor João Eurípedes Sabino, Presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro acontecerá no próximo domingo, 23 de maio, 18h00, na página do Instagram do Trem das Lives. As principais obras, o lançamento da Revista Convergência e os próximos projetos literários do escritor serão abordados na live.

O CONVIDADO JOÃO EURÍPEDES SABINO

Engenheiro Civil e Engenheiro de Segurança, Perito Judicial, Professor Universitário, Auditor Fiscal do Trabalho aposentado, sobretudo João Eurípedes Sabino é um escritor. Nascido em Uberaba, Minas Gerais, onde reside e exerce a presidência da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ocupando a cadeira n° 32, o escritor mantém uma agenda cheia, sendo articulista do Jornal da Manhã e cronista da Rádio Sete Colinas. É membro fundador e preside o Fórum Permanente dos Articulistas de Uberaba e Região.

Nascido em 1949, João Eurípedes publicou sua primeira obra em 1987: Da Pertinência e Objetividade dos Quesitos nas Ações Possessórias e de Retratação é uma importante contribuição na formulação de quesitos judiciais. Em seguida, João Eurípedes publicou uma série de livros destacando-se em poesia e prosa.

Aos 17 anos de idade descobriu que no mapa da cidade natal, algumas ruas e avenidas formam o desenho nítido de uma ave. Foi o mote para publicar, tempos depois, “A Pomba da Paz de Uberaba”. Anos de pesquisa em presídios, hospitais e institutos envolvendo andarilhos, familiares desses e encontros com alguns resultaram no livro “O Andarilho, quem é ele?”. Entre os demais livros publicados pelo autor está a biografia de José Formiga do Nascimento, o Zote, figura proeminente de Uberaba que foi descrita no livro “O Zote que eu Vi”.

Defensor ardoroso da cultura em todos os sentidos. A literatura, o meio ambiente e o patrimônio histórico, têm sido bandeiras prioritárias para ele.

Ex-membro da Sociedade dos Amigos da Biblioteca Municipal de Uberaba, João Eurípedes Sabino integrou o Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico da cidade e possui algumas condecorações, dentre elas: Diploma e medalha de honra ao mérito no Exército Brasileiro; Medalha Major Eustáquio, pela Câmara Municipal de Uberaba, em 1992 e a Medalha Comemorativa dos 150 Anos de Uberaba, pelo Poder Executivo Municipal, em 2006.

A Academia de Letras do Triângulo Mineiro e a Revista Convergência.

Fundada em 1962 por um grupo de intelectuais de Uberaba, tendo entre seus membros Mário Palmério, o imortal da ABL – Academia Brasileira de Letras, a Academia de Letras do Triângulo Mineiro vem, desde então, divulgando os escritores e obras regionais, cumprindo um papel importante e fundamental no Brasil Central.

Entre os trabalhos da ALTM destaca-se a Revista Convergência, uma das publicações oficiais mais antigas feitas pelas Academias de Letras em todo o Brasil. Nestes tempos pandêmicos teve uma edição virtual, mantendo o espírito de trabalho da entidade. A edição n° 31 será comentada por João Eurípedes durante a live.

O TREM DAS LIVES

O Trem das Lives surgiu em outubro de 2020 visando divulgar lançamentos de livros, peças de teatro e demais atividades artísticas e manifestações culturais. As lives são descontraídas, priorizando o tempo dado aos convidados, facilitando aos mesmos um espaço não comum nas mídias tradicionais. As viagens desse trenzinho ocorrem aos domingos, no Instagram, às 18h00, com duração de 1h. A divulgação é feita pelos idealizadores e convidados via Facebook, Twitter e o próprio Instagram. Os vídeos com registros das lives estão no Youtube.

SERVIÇO:

TREM DAS LIVES com JOÃO EURÍPEDES SABINO

Domingo, 23 de maio, 18h00 no https://www.instagram.com/tremdaslives/

Lá se vai Eva Wilma! A inesquecível!

Eva Wilma (divulgação)

Eu não vi “Alô, Doçura!”. Fiquei fã apaixonado de Eva Wilma em “As confissões de Penélope”, um programa diário de Sérgio Jockyman onde, por alguns minutos, ela contava histórias hilárias para um psicanalista. Nunca me saiu da memória o episódio em que Penélope, levada ao campo de futebol pelo marido (interpretado por John Herbert), em meio a uma torcida ela resolve torcer para o time adversário, posto que esse tinha a camisa mais bonita… Também recordo outro, quando a mesma Penélope estava sendo roubada por uma empregada e esta se gabava para as amigas de roubar a patroa. Penélope passou a exigir um strip-tease da empregada todo o dia, inclusive elogiando a plástica da moça. A funcionária estava com um prato e era este o objeto roubado, só descoberto no final do episódio.

Eva Wilma foi estrela absoluta da TV Tupi. E foram muitas novelas, muitas paixões por uma atriz incrível, uma mulher belíssima, uma pessoa encantadora. Em “Nossa Filha Gabriela” atuou com Gianfrancesco Guarnieri e, com este, protagonizou cenas memoráveis quando a ingênua Gabriela não percebia o amor do diretor da trupe de teatro ambulante, presa em uma pequena cidade até que se descobrisse quem era o pai da personagem.

Em “Meu pé de laranja lima”, Eva Wilma foi a irmã mais velha, amarga, judiando da criança interpretada por Haroldo Bota. Preferi, tempos depois, vê-la como vamp avassaladora em “A barba azul”, esta novela de Ivani Ribeiro. Com dignidade incrível, a atriz reviveu a Maria Helena, mãe de Alberto Limonta na célebre O Direito de Nascer. A Tupi já estava em crise. Algo impensável para o grande império de Chateaubriand que, contando com o talento de Eva Wilma, havia realizado Mulheres de Areia (onde eternizou as gêmeas Ruth e Raquel) e A Viagem, dois marcos na telenovela brasileira, recordes em outras versões e prestes a receberem novas montagens.

Eva Wilma transitava da ingênua para a má, da vamp para a tímida, colocando todas as nuances de diferentes mulheres em suas personagens. Fazia comédia e drama com a mesma maestria e acima de tudo, fato ainda raro mesmo em um país dominado pela televisão, sabia contracenar com a câmera. Conversava com o telespectador em momentos sutis de novelas como A indomada, já na Rede Globo. Nesta emissora Eva Wilma manteve-se ímpar, garantindo qualidade das produções em que atuou.

Cheguei para morar em São Paulo quando a atriz contracenava com Paulo Autran em “Pato com Laranja”. E tive o prazer de conhecê-la, ao lado do marido Carlos Zara, em um evento da Rede Globo de lançamento da Quarta Nobre. Naquela noite percebi o quanto a mulher, que eu admirava desde menino, era educada, delicada, refinada. Eu entrevistava Carlos Zara quando ela chegou. Ele já estava “alto” e ela seguiu, durante toda a noite, ao lado dele, com carinhoso cuidado. Uma princesa. A última vez que a vi, no palco, foi ao lado de Nicette Bruno em “O Que teria acontecido a Baby Jane”. Duas atrizes soberbas, impecáveis, levadas para outras esferas nestes tempos terríveis em que vivemos.

O Brasil tem o privilégio de contar com grandes atrizes, talentosas atrizes. Mulheres incríveis. Eva Wilma, que hoje vira estrela eterna, é a estrela da minha infância, da minha adolescência aqui enfatizadas nos trabalhos citados, quando a TV começava a dominar horários. Segui essa atriz por onde ela foi e sempre parei para ver o que ela estivesse fazendo em novela, filme, minissérie ou uma entrevista. Pude endereçar-lhe meu carinho via mensagens on-line nos especiais, certamente os últimos, feitos ao lado do filho, Eva cantando e declamando poesias, contando histórias de sua memorável trajetória profissional. Ela permanecerá em minha memória, nas lembranças de milhões de brasileiros, na nossa história.

Obrigado, Eva Wilma!

Maia Faria no nosso Trem

Fernando Brengel escreveu um carinhoso texto para nos apresentar Maia Faria, a próxima convidada do Trem das Lives:

“Conheci a Maia nos anos 1980. Fizemos teatro juntos. Passamos por duas experiências cênicas formidáveis. Uma delas levo especialmente impressa em minha alma: o TAXI, Teatro do Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, USP.

A troupe do TAXI, gente inteligente e talentosa ao extremo, tornaram-se amigos especialíssimos.

Um dia a Maia evaporou. Foi para Paraty, morou com artistas, fez uma casa, das tantas que construiu, deixou-a para a moçada e voltou para São Paulo. Algo me dizia que por pouco tempo.

Nova abdução. Dessa vez o destino a levou para São Lourenço – MG. Fui atrás da minha irmã. Ela me levou para conhecer São Thomé das Letras. Pena que naquele dia os OVNIs não deram as caras.

“Oi Fê! Tô em Piraputanga!” What? “Mato Grosso do Sul”. Ergueu um baita Centro Cultural. Aulas de dança, teatro, música. Escreveu para jornais.

“Oi Fê! Mudei para Ponta Porã – MS. Estou com uma escola de dança junto com a Morgana e …”.

Bem, antes que a Maia pegue a avenida que liga a cidade a Pedro Juan Caballero, Paraguai, o Valdinho e eu a convidamos para o Trem das Lives desse domingo.

Uma justa e necessária homenagem a quem acredita na arte como meio de formar cidadãos e plantar futuros.

Uma justa e necessária homenagem a um ser humano ímpar.

Bem-vinda amiga. Esperamos você de braços e corações abertos.”

O Trem das Lives parte aos domingos, 18h00 via instagram.

Acesse: instagram.com/tremdaslives

Até lá!

Memorial de um irmão

Duas meninas e um menino. E mais uma menina! Dona Laura pensou que não seria bom que o garoto ficasse só. Tentou mais uma, duas vezes e as gestações não vingaram. Fez promessa. Não queria que o filho fosse só. Daria nome de Aparecido ao irmão para companheiro do primogênito. Deu certo. Penso em dois lados nessa questão… O lado preferido é o de ter sido desejado e, promessa cumprida, carrego Aparecido no nome. O outro lado… Nasci para ser irmão…

Passados tantos anos, tenho a certeza de ter nascido para ser protegido. E foi assim: ele me ensinou a jogar bola, a brincar no quintal. Ficava desolado por eu ser péssimo em futebol. E me deixava sentado à beira do campo, observando-o nas peladas de várzea de quase todas as tardes. Logo descobri que gostava de subir em árvores. Havia na extremidade oeste do campo de futebol um mangueiral, que denominávamos mangueirão. Eu gostava de subir até às “grimpas” e, na hora de descer… Tinha de aguardá-lo terminar o jogo. Não conseguia descer sozinho e ele vinha, com a paciência de Jó me trazer de volta ao chão.

Deve ter sido um saco ter tido um irmão como eu. Amanhecia e eu já saia atrás dele, querendo brincar, fazer tudo junto. De vez em quando ele se enchia e me dava uns cascudos. Mamãe resolveu a história ao modo dela. Fez com que nos abraçássemos sob cintadas – Pra vocês aprenderem a não brigar! Dali a pouco eu estava atrás dele, novamente. Outros cascudos. Minha mãe: – Você não tem vergonha. Fica andando atrás dele! Eu, não tinha. E da nossa infância ainda guardo um dia, ele exasperado por minha mãe demorar a servir o almoço e ela, sempre de maneira educativa, quebrou um prato na cabeça dele. Eu ri! E ela quebrou outro na minha, para não rir do meu irmão. Rimos os três.

Ele foi crescendo, menino bonito. Elogiado por todo o mundo. Eu era magrelo e desengonçado. Guardo comentários do tipo, “mas você é o irmão mais novo? Não parece de jeito nenhum”. Era a morte. Ele tinha cabelos negros e os meus eram castanhos, ele tinha nariz reto, o meu aquilino e os dentes! Ele tinha dentes alvos, certos, dando-lhe um sorriso encantador. Eu era e sou freguês de dentista. A pré-adolescência chegando para ele e eu ficando um pouco na infância, isolado de brincadeiras, saídas noturnas.

Com propensão à autossuficiência, bem pequeno eu o ajudava o “empresário” a coletar esterco nos campos próximos ao bairro, mas não o acompanhei quando ele foi engraxar sapatos e, em seguida, trabalhar como vendedor de uma loja. Uma briga árdua em casa com meus pais que desejavam que ele apenas estudasse, e ele querendo ser dono da própria vida, ter sua própria grana. Dona Laura querendo que ele estudasse. Meu pai Bino querendo uma vida melhor, longe do trabalho pesado. Meu irmão venceu o conflito e, resultado do acordo, foi estudar a noite.

Em casa era tudo dividido, tudo separado. Cada um com sua gaveta, sua parte no armário. Territórios a serem descobertos pelo irmão mais novo. Ele guardava revistinhas do Zéfiro no fundo da gaveta, embaixo de tudo. E eu, usufruía delas sob protestos por deixar sinais de ter mexido em coisas alheias. E houve pileques, primeiros namoros, primeiras transas que, na calada da noite, nossas camas no mesmo quarto, eram confiadas a mim. Solidificava ali uma confiança que levarei por todo o sempre, guardando aquelas e todas as outras confidências que mereci.

Além da bicicleta, dos livros, das revistinhas, eu gostava das roupas dele. Só me achava bem usando tal camisa ou camiseta. Mais conflitos! Não me recordo a briga, mas ela ocorreu e o resultado foram quase dois anos de silêncio. Eu já era adolescente! E como todo insuportável ser nessa idade decidi que não falaria mais com ele que, nesse ínterim, foi embora para a Aeronáutica, em Brasília. Guarda presidencial. Andando pra cima e pra baixo fazendo a segurança do sujeito da época. Tempos depois, sob muita conversa e mais conflitos, ele deixou a carreira. E contava, só em momentos ensimesmado, de ataques sofridos pelo quartel, os tiroteios noturnos enquanto ele, de uma guarita, atirava em alguém sem saber o porquê. Foi nesse período em que ele morava no Distrito Federal que voltamos a conversar. Uma visita aos familiares – era um mês de maio! – e ele veio passar o aniversário com uma família. Queria encontrar-se também com uma namorada de ocasião. A visita de um primo causou o impasse, já que esse viera para passear com meu irmão. Este me pediu para fazer companhia ao primo. Voltamos e nunca mais deixamos de nos falar.

Chegamos a momentos que são mais dele que meus. E guardarei discrição. Ele saiu de Brasília, ficou pouco tempo em Uberaba, um outro período em Ribeirão Preto e, por fim, se estabeleceu em Campinas. Em Ribeirão Preto conheceu a esposa, Mércia, casou-se e teve dois filhos, Ruchela e Rulian. E sem descuidar da família, continuou cuidando de mim.

Em São Paulo eu começava a vida artística. Era uma pauleira, mas meu irmão estava sempre do meu lado. Eu gostava de cantar e fui me apresentar em um festival. O Teatro Municipal de Santo André, no ABC, estava lotado e, sendo chamado, entrei no palco fingindo uma segurança que era pura fachada. Vi ao fundo, na plateia, meu irmão liderando uma torcida que era feita de amigos nossos, meus e dos compositores. E não pude conter o riso quando ele ouviu os acordes e calou a torcida no grito: – Calem a boca que ele vai cantar. Ganhei melhor intérprete!

Sempre morando em Campinas, ele vinha frequentemente a São Paulo. Chegava aonde eu morava e já descia com a caixa de ferramentas em mãos. Consertava fiação, encanamento, rebocava um buraco… Quando fui atropelado, em menos de uma hora ele estava ao meu lado. Quando me acompanhava em passeios noturnos, mantinha silêncio sobre os ambientes, o “povo doido” com quem eu andava. Era meu fiador e acompanhava as tretas para conseguir alugar um local para morar. Um dia decidiu: – Vou comprar um apartamento para você morar. Depois você me paga. E foi assim.

Depois do apartamento que comprei sem garagem, pois não gostava de carro e não queria dirigir, comprei um carro (geminiano!) e aos finais de semana ele vinha me ensinar a dirigir. E, também, cuidava do carro. Ficava atento para que eu pagasse impostos em dia, cuidasse dos freios, balanceamento de pneus… – Tá na hora de trocar esse carro! E eu, seguia o que ele determinava. Por conta do receio de minha mãe das enchentes frequentes em São Paulo e por eu não saber nadar, ele me deu uma boia. Eu andava por todo lado com a boia no banco traseiro e, era fatal, ao parar no semáforo vinha um garoto: – Moço, me dá essa boia!  E eu via o olhar incrédulo com minha resposta: – Não posso, não sei nadar!

Dessas linhas loucas traçadas pelo destino, eu precisaria do carro para conduzir meu irmão durante sua doença. Não sei por quantas vezes saí daqui de São Paulo para ir a Campinas e, de lá, rumar para Uberaba, onde meu irmão se tratou de um câncer e onde veio a falecer. Foram momentos difíceis, mas então já sabíamos estar em silêncio um ao lado do outro. Muito antes da doença eu já passara por longas horas silenciosas ao lado do meu irmão. Sabíamos pelo olhar ou pelo tom de voz quando estávamos tristes, alegres. Nas primeiras horas de toda e qualquer viagem tínhamos conversas acaloradas, colocando as coisas em dia. Quando tristes, nos calávamos, compreensivos e cúmplices.

Hoje meu telefone não toca quando o Corinthians ganha. Não tem mais aquela chamada sem fala, só com o hino do Timão para me fazer engolir a vitória do rival. Hoje, quando ouço Martinha, lembro da rivalidade que tínhamos, pois eu sempre gostei da Wanderleia. Me senti absolutamente desamparado quando ele faleceu. E fui aprender a fazer imposto de renda, a comprar e vender carro (um desastre!), a seguir minha vida com a presença da lembrança, cotidiana, às vezes suave, outras vezes intensa.

Eu tive um irmão mais velho. Valdonei. Ele teve uma vida diversa com cada uma das minhas irmãs e que, penso, sejam elas que devam contar, se quiserem, como foi. Sei que era um carinho especial pela Waldênia, um jeito de resolver coisas com a Walcenis, uma cumplicidade enorme com a Walderez e, com o Wander, ele foi pai, assim como foi comigo.

Eu tenho um irmão mais velho. Tão pai quanto meu próprio pai. E se recordo cada detalhe (tantos e tantos!) é por saber e constatar que tudo o que vivemos é maior que a tristeza, a saudade, a ausência, a morte. O que vivemos é lastro que me leva, fazendo com que eu encare a vida com serenidade e alegria. De vez em quando a tristeza bate pesado, mas é rebatida com lembranças como essas que, espero, sejam dignas dele, que faz aniversário neste 03 de maio, meu irmão, Valdonei Vinagreiro de Resende.

Luz, câmara, ação… Valdemar Jorge!

Próximo convidado do Trem das Lives, Valdemar Jorge no texto de Fernando Brengel:

Se você procurar o Valdemar Jorge talvez não o encontre. Mas se chamá-lo por Dema, daí sim muita gente sabe quem é.

Dema fez carreira na TV Cultura. Como produtor, assina um sem número de teleteatros, especiais, jornais e infanto-juvenis do porte do premiado Bambalalão.

Paralelamente ao ritmo insano da TV, durante anos dividiu seus conhecimentos com alunos da ECA-USP, em que se formou, Oswaldo Cruz e UNIP. Um professor criativo, querido e extremamente respeitado.

Nos últimos anos dedica-se à Noturna Filmes, sua empresa, bem como à carreira literária. Escritor de mão cheia, produziu biografias como as de Inezita Barroso, bem como artigos e textos a respeito de Fernando Faro e Antônio Abujamra.

Nosso convidado desse domingo, trará reflexões importantes a respeito de comunicação, literatura e de outros tantos temas.

A seguir, um depoimento em que ele conta um pouco dessa rica trajetória. Assista. E, no domingo, embarque com a gente.

Luz, câmara, ação. Agora é com vc Deminha.

Serviço:

Trem das Lives

Domingo, 18h00 no link:

Instagram.com/tremdaslives

Chico Rei entre nós

Chico Rei / Divulgação

Chico Rei, reza a tradição, veio do Congo para Ouro Preto, em Minas Gerais, por volta de 1740. Após muita luta conquistou a própria alforria e libertou outros escravizados. 

Joyce Prado, nossa convidada do Trem das Lives do próximo domingo realizou o documentário , “Chico Rei entre Nós” explorando faces atuais de uma situação que vem de longe.

Há outros como Chico Rei, lutando e resistindo? A resposta primeira é sim, através de obras como esse documentário e outros trabalhos da diretora Joyce.

Diretora e roteirista à frente da Oxalá Produções, Joyce realiza filmes, lives e documentários voltados primordialmente às questões do negro.

Além do longa “Chico Rei entre Nós”, destacam-se também em sua filmografia “Fábula de Vó Ita”, “Okán Mimó: Olhares e Palavras de Afeto”, entre outras produções.

Joyce estará conosco para contar um pouco de sua carreira, bem como antecipar as previsões para o Oscar 2021. Tudo ao vivo, sem cortes.

Veja abaixo o trailer e, aos interessados, o filme pode ser visto via @todesplay.

Outros paulistanos

Da janela da clausura dessa interminável quarentena vejo Rubão, na porta da doceria. Ele não leva jeito de quem gosta de doces, mas como a doceria vende outras coisas… Meu conhecido deve ter por volta de 40, 50 anos. Pode ser mais, ou menos. Ninguém mantém o frescor da pele morando na rua. E é na Avenida Brigadeiro e em outras calçadas de vias próximas onde ele reside.

Rubão está sempre alegre, trocando pouquíssimas palavras com os transeuntes, mas estabelecendo papos enormes com quem só ele vê. Tem um olhar arguto e uma percepção notável. Provavelmente foi o primeiro indivíduo a registrar que eu havia parado de fumar. Nunca mais pediu-me cigarro. Percebo, quando o encaro, um certo olhar de superioridade. Ele é livre, e eu sou preso a convenções, ao modo de me vestir, transitar, viver… Ele me olha com desdém de quem é livre e, da janela onde o vejo, sinto inveja.

Havia um outro conhecido cuja tristeza incomodava. Tinha um olhar desesperador e, me parece, já perdera a fala no silêncio imposto por todos os que o ignoravam, caminhando como se não o vissem. Diferente de Rubão, que é alegre e que se deita na calçada como quem toma sol em praia paradisíaca, esse outro vivia encolhido nos cantos e, inesquecível, durante chuvas permanecia agachado, como quem toma um banho restaurador, ou sofre um castigo. Era um homem triste e toda a tristeza ficava no olhar, quando entregávamos algo a ele. Também como Rubão recusava roupas limpas. Um dia cismei e teimei em levar calça e camisa para ele. Olhou-me silenciosamente, com expressão de não precisar daquilo e seguiu, lentamente, evitando me olhar por algumas semanas. Um dia desapareceu. Aliás, um dia percebi que não o via há algum tempo.

Observo a postura do Carlos, que guarda carros três vias acima da rua onde moro. – Com licença, senhor, vou trabalhar! É assim que ele se despede, após conversas rápidas enquanto compro frutas de um ambulante que mantém um carrinho na esquina da Artur Prado com a Rua Pio XII. Carlos tem uma subserviência latente, de quem descobriu na aparente mansidão um meio de sobreviver à violência urbana. Atento às vagas de ocasião, orienta motoristas que precisam estacionar. E lá vai ele, com leves mesuras, cabeça baixa, com os braços indicando à esquerda, à direita. E informa que guardará o carro enquanto o dono não estiver presente. Lembro a arrogância dos que nem um mero olhar dirigem à “essa gente”. Já vi em um e outro momento quando entregam uma moeda, com desprezo. Carlos ignora, e volta sorrindo, conversando com o vendedor, comigo. Sem nunca deixar a atenção ao trânsito. – Com licença, senhor, vou trabalhar!

Também na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, bem em frente ao início da Alameda Ribeirão Preto e rente à grade que cerca o supermercado, há uma cabaninha feita de material alternativo, encontrado certamente pela dona, uma moça tensa. Tenho medo de olhar para ela. Aos gritos e xingamentos para o ar, para os veículos que passam, para aqueles passantes que a incomodam, ela me lembra aquelas mulheres fortes, dispostas a tudo para defenderem seu espaço, suas crias. Descobri, com o tempo, que é o tipo e a forma de olhar que a incomoda. Percebi também que a luta é pelo que é dela, aquela cabana onde, durante algum tempo, ela dividiu com um namorado. As brigas eram notáveis. O dono da banca de jornais, bem próxima, já manifestou ódio pela moça. Um dia desapareceu a moça, a barraca. Pensei com meus botões: – conseguiram! E cogitei que pudessem ter arranjado algum pretexto para prendê-la, matá-la. Cheguei a vê-la em outra rua, me alegrando por sabê-la viva. E, mais algum tempo ela voltou e está lá, no mesmo lugar. O passeio é público, logo é dela. E ela mora onde bem quer.

Esses paulistanos certamente incomodam muita gente. É fácil dizer que eles são “sujos”, que são “vagabundos”, que “deveriam trabalhar”, que deixam a cidade “feia”. Lá atrás, em algum momento, essa gente foi para a rua. Sem possibilidade de uma outra vida, vivem como é possível. Alguns com serenidade, outros com tristeza, aqueles com raiva e outros, ainda, com a indisfarçável liberdade de padrões, de formas, maneiras.

Vejo o trabalho do Pe. Lancelotti e de outros grupos que apoiam esses paulistanos. Trazem comida, agasalhos no inverno, prestam socorro aos que ficam doentes, brigam por eles quando necessário. Pessoalmente vejo-os como pessoas corajosas por terem se apossado, insistido, resistido a tudo e todos. São sobreviventes! E ouso mesmo a dizer que há momentos felizes, quando por exemplo vejo Rubão brincando com o garçom do bar que fica na esquina. O rapaz trabalha para evitar que o outro perturbe os clientes. Às vezes grita, outras o pega pelo braço e indica direção oposta, mas também é quem o alimenta, brinca e, solícito, busca isqueiro para acender o cigarro do amigo.

Antes de terminar este volto à janela. Rubão está lá, firme e forte em frente à doceria. Parado de forma a observar a televisão acima dos freezers. Está lá, com a postura de dono da rua, peito aberto, corpo ereto, quase desafiador. Como se dissesse “a rua é minha, daqui não saio, ou saio quando quiser”.  Está sem máscara, sorridente, falante, os braços dançando pelo ar em papo com interlocutor invisível. E constato o medo que sinto das ruas, da pandemia, do contágio. E torço, rezo, para que tudo corra bem para esses meus caros vizinhos.

Até mais!