Nana, da delicadeza da paixão

Acorda, meu amor

É hora de trabalhar

O dia já raiou

É hora de trabalhar!

Quando ela cantou “Bom dia!” a gente sabia que ela era filha de Dorival Caymmi e, que naquele momento, estava casada com Gilberto Gil. A voz, poderosa e inesquecível. Foi em um daqueles incríveis festivais da TV Record. Era Nana, que de repente sumiu. Parece que foi para fora do país, viver um tempo por lá. 

Tempos depois, na TV bandeirantes. Eu desempregado, via gravações de programas do Chacrinha, da Hebe Camargo. E entra a moça de “tomara que cai” para cantar a convite da Hebe. Foi a primeira vez que tive a certeza de que é possível cantar com o corpo inteiro. “Com o útero”, ela teria dito. Ali, eu com meus vinte e poucos anos vendo uma cantora única, incrível. Uma paixão para todo o sempre.

Já contei de quando no palco do Sesc Vila Mariana acabou a luz. E ela, acompanhada por um violonista se limitou a dizer. “Se vocês ficarem quietinhos eu continuo a cantar”. Quem iria desobedecer? E foi mágico, o show continuou e a luz, quando voltou, subiu suavemente iluminando Nana, da delicadeza rara na voz. Aliás, caracterizar a voz de Nana é complicado.

Nana da voz forte, poderosa, terna, delicada, suave, sussurrante. Nana da voz amorosa, da voz quente, da voz profunda, do timbre único e absolutamente inconfundível. Nana da técnica usada em prol da emoção, cantando com um fio de voz até acabar o ar, desmontado o ouvinte, fazendo-o chorar. Nana da delicadeza da paixão.

Nana gostava de beber, de ficar tranquila. “Estou aposentada!”.

Nada que me deixa engasgado, incapaz de continuar a escrever.

Tenho os discos

Agora tenho os discos e a saudade.

Até, Nana! Obrigado.

64 Anos do Madrigal Ars Viva

Na comemoração de aniversário a Sociedade Ars Viva anuncia novos projetos musicais para Santos e região.

Ars Viva com a Orquestra Sinfônica de Santos. Foto: JAS

Fundado em 29 de abril de 1961, o Madrigal Ars Viva colocou Santos na história da música e do canto coral através de concertos nacionais e no exterior. Intérprete de repertório de diversas épocas, o Ars Viva revelou musicistas e compositores e foi fundamental na criação e interpretação de peças do Música Nova, movimento que tem entre seus signatários o compositor santista Gilberto Mendes.

A Sociedade Ars Viva foi criada como mantenedora do Madrigal e administradora das atividades pertinentes à música de concerto. Nestes 64 anos tem se destacado na criação e apresentação de concertos, na formação de cantores e, entre outros, na produção de cursos e eventos culturais em toda a Baixada Santista.

Entidade privada, a Sociedade e o Madrigal Ars Viva estão entre poucas instituições que atravessam décadas se mantendo fiel aos princípios que colocam a qualidade musical como prioridade. Um trabalho que se renova ao longo dos anos, a Sociedade Ars Viva segue se renovando com novos projetos e, com o Madrigal a integração de novos integrantes e preparação de novos concertos.

O ano de 2024 foi de transição, quando a regência do Madrigal Ars Viva, que por mais de 50 anos foi do Maestro Roberto Martins, passou para o Maestro Ricardo Cardim. Uma transição movimentada. Após o evento de despedida de Martins, o novo regente criou e apresentou o concerto “Ars longa, Vita brevis”, a participação do coro nos Concertos Ibero-Americanos e, finalizando, o Madrigal cantou com o Coro Livre da Baixada, acompanhados pela Orquestra Sinfônica de Santos na Basílica do Embaré, e no 2º Encontro de Coros da AABB-SANTOS. Em dezembro também ocorreu o lançamento do livro Maestro Klaus-Dieter Wolff: o Coral, Sua Técnica e Organização, Volume 1, organizado por Luiz Celso Rizzo com a história de um dos fundadores e primeiro regente do Ars Viva.”

Projetos e Novidades do Ars Viva

Além do lançamento do Volume 2, contendo obras corais do Maestro Klaus-Dieter Wolff, a Sociedade Viva já prepara eventos culturais gratuitos para a cidade de Santos e demais localidades da Baixada, atingindo também interessados de todo o país. Entre as atividades previstas – todas já aprovadas e em fase de pré-produção – estão o Festival de Música Vocal, a Semana Cultural Ars Viva, e o Coro Escola Experimental Ars Viva, além de Concertos e Encontro de Coros.

Neste 29 de abril o Ars Viva lança seu site ( https://madrigalarsviva.wordpress.com/ ), onde estarão concentradas informações e história das atividades da sociedade e promove encontro comemorativo entre os membros do Madrigal que dão as boas-vindas à quatorze novos integrantes. “É fundamental a renovação para a continuidade do trabalho do Madrigal”, diz o Maestro Cardim.  Nessa renovação são fundamentais o trabalho de preparação de Denise Yamaoka e o acompanhamento da pianista Sônia Heloisa Domenighi.

Varal de Poesia, Poemas de Amor e Liberdade

Momento de registrar neste blog o livro do Carlos Alberto Chicareli, o meu amigo Carlinhos. Delicado sem perder a firmeza, formal como lhe foi ensinado para momentos especiais, há tempos o poeta esteve aqui em casa trazendo-me junto com os originais do livro o convite para que fosse eu a apresentar o trabalho. Grande honra! O livro está publicado pela Edicon. O autor pode ser visto nas redes sociais declamando e conversando sobre suas poesias.

VARAL DE POESIA, POEMAS DE AMOR E LIBERDADE é uma oportunidade para ter em volume único os cinco primeiros livros do Chicareli. Individualmente esgotados, os livros Fôlego (1981), Feito à Mão (1983), Sentimento de Agora (1988), O infinito em oito partes (1989) e Olhos d’alma (1992) compõem a antologia publicada agora.

Conheci Chicareli em 1979, quando cheguei ao ABC paulista para morar em Santo André. Nos tornamos amigos e parceiros. O jovem Carlinhos já vivia entre versos e músicas. Um dia me veio com uma poesia que me sensibilizou bastante. Tornou-se a canção que se constituiu em intermezzo entre a cena de abertura e o ato único da peça Os Pintores, que escrevi, dirigi e ele atuou em um dos papeis.

Os Pintores foi nosso segundo trabalho. Já havíamos feito As Três Faces. Música e teatro em paralelo, participamos e fomos premiados em festivais da região. Lá pelo começo dos anos de 1980 cada um seguiu seu rumo e nos reencontramos recentemente, no final da pandemia. Um encontro entre amigos e escritores (e isso significa mensagens com muito “Textão”) que só fez reativar o que estava guardado, amizade e carinho mútuos.

Uma grande honra estar neste livro. Da apresentação escolhi pequenos trechos para estimular você, caro leitor, a transitar por esse “Varal de Poesias”:

O primeiro trabalho de Chicareli, longe de ser ingênuo e descompromissado, mostra claramente os possíveis caminhos do menino sonhador, manuseador de palavras e ideias… O poeta saia do bairro e enfrentava com disposição o mundo concorrido e duro da grande cidade (sobre Fôlego).

Os poemas apresentados em “Feito à Mão” revelam movimento, alternância de sensações e descobertas. O poeta sente no coletivo a possibilidade concreta do apoio mútuo, vislumbre de saídas, novas portas de acesso ao que não está facilitado à todos. Ao longo do livro há o claro exercício da forma, a criteriosa escolha da palavra, as expressões somando lirismo à dura realidade, nos facilitando o contato com o transeunte das grandes cidades.

Sem possibilidade de controvérsias: Carlos Alberto Chicarelli lançou “Sentimento de Agora” ao completar seis anos de idade! Nascido em ano bissexto ele comemora regularmente a cada ano mais um ciclo de vida, mas aniversário mesmo, só de quatro em quatro anos… A poesia segue caminhando como a própria vida.

Toda leitura deve ser cuidadosa, todavia “O Infinito em oito partes” carece dessa postura e um pouco mais: aguçar a percepção para ler nas entrelinhas, atentar para as figuras de linguagem, ir para além do aparente exposto nesse grande conjunto de poemas constituído nas anunciadas oito partes: Sete partes com sete poemas cada uma e a final, um poema com oito partes.

O quinto livro que encerra a antologia marca o fim de um ciclo que começou com livretos mimeografados e caminhou para uma carreira concreta no universo literário…Se há um percurso, este é o do menino sonhador, o do jovem decidido pronto para a luta, culminando no que, ouso dizer, no adulto à caminho da maturidade. O poeta dominando o seu ofício, senhor da carpintaria de seu trabalho.

Longe da ideia de antologia definitiva, com “VARAL DE POESIAS – Poemas de Amor e Liberdade” o homem e o poeta Chicareli comemora 60 anos de vida. Reafirma nesta publicação a parceria iniciada em 1988 com a EDICON, através de seu editor, Antônio Jayro da Fonseca Motta Fagundes. E mais, outros dois lançamentos estão à caminho: “GesTação”, uma coletânea em dois volumes, onde o poeta mergulha no universo da criação, indo muito além da mera ideia da gravidez. Também a caminho, prepara a trilogia “NA POESIA, NO AMOR E NA VIDA”, composta pelos livros: “Indeferidos”, “Emocionado” e “Atividade”.

Deixo aqui meu convite para os que amam poesia.

Para o Instagram de Chicareli CLIQUE AQUI.

Para adquirir o livro entre no SITE DA EDICON.

Bom domingo para todos!

“Um cãozinho abandonado”

imagem criada com IA

Vista ali, maquiada, bem vestida, recostada no parapeito do Viaduto Jacareí, olhando embaixo para a Avenida 9 de Julho não dava para imaginar seus motivos. Parecia uma senhora comum, uma transeunte distraída com a movimentada avenida vista ali do alto, com seu eterno vai e vem de carros, ônibus e motos.

Postada na mureta do lado oposto ao centro da cidade, o olhar permanecia fixo, sendo difícil saber exatamente qual ponto era observado. Ela apontava, com voz lacrimosa, olhar marejado, dirigindo-se para quem lhe desse atenção: “- Olha ali, está assim, amarrado o tempo todo. Tadinho! Sem comida, sem água. Nem se mexe!” Enquanto o interlocutor tentava entender o que estava acontecendo ela esclarecia, apontando para a paisagem próxima: “- Moro ali naquele edifício da 9 de Julho. De lá vejo ele, pobrezinho, amarrado, sem água, sem comida”.

O ato de repetir a situação do amarrado sem água e comida visava despertar a piedade sobre… o que mesmo? E ela virava-se para o novo “amigo” mostrando-se por inteira. Os olhos bem pintados, um batom acentuando os lábios, a blusa de manga comprida tinha um decote generoso e, caso o gajo descesse o olhar veria uma cintura bem marcada, saia justa sobre pernas longas, salto alto.

Com voz triste, cheia de piedade, insistia na cantilena do pobre sem comida, sem água; um cachorro preso em uma coluna de madeira no quintal ou pátio de estabelecimento da rua paralela à avenida. O quadro era real, o que não se podia era afirmar a autenticidade dele. Estar sobre o viaduto Jacareí e descer à rua verificar a situação demanda uma caminhada que carece de um sujeito apaixonado pelo ato de proteger todo e qualquer animal.

“- Moro ali, fico olhando pela janela. De lá tenho uma ótima visão e esse pobre animal está lá desde sexta-feira, ficou a noite toda e, veja bem, são quase cinco horas da tarde. Olha, não tem água, não há comida. Ele está tão fraco que pousam pombos bem próximo e ele não se mexe!” Era fácil constatar que o cão, já habituado ao espaço e às próprias condições nem se mexia com os pássaros por não poder alcançá-los. Uma observação mais demorada e percebia-se o movimento do animal, acomodado ao cativeiro. “- Eu não aguento vê-lo assim; fico muito triste!”, ela insistia.

A obviedade da questão seria a distinta procurar as autoridades competentes, fazer uma denúncia, salvar o bichinho!  “-Sou uma mulher sozinha, tenho receio, vai que sofra alguma retaliação! Se alguém me ajudasse…”

Nem sempre a conversa ia muito longe. Uns deixavam-na no vácuo, sem dar muita atenção. Um ou outro observava bem o local, indagava o nome da rua e prometia tomar uma atitude. Havia aqueles, mais raros, que observavam a maquiagem, o decote, a saia justa e, sondando possibilidades partiam para o apartamento da protetora dos animais buscando ter a mesma visão que ela. O encontro terminava em sexo e o cãozinho permanecia preso.

Uma solidão brutal. Juliana não nascera para viver assim. Fora moça linda e os traços estavam ali, bem marcantes, denunciando sobre a figura majestosa de uma idosa a mulher bonita de outros tempos. Casou-se uma vez, não deu certo. Os ciúmes do marido eram tóxicos. O divórcio foi inevitável. O segundo casamento terminou quinze anos depois em depressiva viuvez. A solidão não foi tão percebida enquanto o tempo foi tomado pelo trabalho. Veio a aposentadoria; os amigos tinham seus familiares, suas vidas. A dela era estar só.

Não se adaptou aos grupos de terceira idade. Eram frequentes as sensações de desespero, de um aproveitar a última oportunidade, de viver o que restava. Pintavam situações de permissividade, com argumentos do tipo “o que há para se perder”? A dignidade, respondia. E foi se afastando, abandonando reuniões, evitando encontros. Ficou só. Perdeu a noção de quanto tempo se passou até que se percebeu absolutamente isolada, olhando a vizinhança pela janela privilegiada do apartamento do sétimo andar.

Há poucos transeuntes pela Avenida 9 de Julho quase tomada exclusivamente por carros. Bem ali, ao lado do Viaduto Jacareí, o mais comum eram pessoas descendo ou subindo escadas rapidamente. Quando na Avenida iam para o ponto de ônibus, ou então, eram moradores, vizinhos. Os que subiam as escadas tinham a Câmara de Vereadores como destino, a Biblioteca Mário de Andrade, a Federação Espírita ou outro lugar qualquer.

Perdeu a conta dos assaltos vistos sobre o viaduto, os assaltantes fugindo calmos escada abaixo com a tranquilidade de quem sabe que não será seguido. Deixavam carteiras, bolsas vazias nos últimos degraus da escada. Em finais de semana, após finais de futebol ou em dias de carnaval, apreciava diferentes composições de seres humanos fazendo sexo na penumbra abaixo da rua. Não enxergava direito pelo movimento, a iluminação precária. Acabou comprando um potente binóculo.

Conheceu pela Internet as salas virtuais. Por pouco tempo, já certa de não ter nascido para tal tipo de faz de conta, trocou a sala por brinquedos eróticos que, para seu desespero, não incitaram sua imaginação, nem mesmo com o apoio de fotos, vídeos. Nascera para encontros reais, embora não tivesse coragem nem cara de pau para tomar iniciativas. Era necessário aguardar a sorte, o destino, o momento certo.

Lia muito. Leu e releu tudo o que havia acumulado ao longo de anos, comprou novos títulos, passou a frequentar as salas da Biblioteca Municipal. Um ou outro bar, jantar nas cantinas próximas, teatro, uma exposição. E ela sozinha, sem coragem de se aproximar, de tomar atitude e só muito raramente sendo abordada. Em sessões televisivas de autoajuda concluiu que precisava criar oportunidades, já que essas não apareciam.

Deve ter sido um gato, um rato, vai saber! Uma noite de sexta para sábado e ela teve o sono perturbado pelo latido distante, incessante do cachorro que, mal amanheceu o dia e ela conseguiu localizar o bichinho. Sol alto, visão boa, lá estava o cachorro no distante vizinho, amarrado e, como ela, solitário. Era um estacionamento, também lava rápido, sempre cheio de carros. Não era difícil concluir que o bichinho permanecia amarrado para não machucar nenhum freguês. Só a noite, estabelecimento fechado, o cachorro ficava solto. Quem sabia disso? O cãozinho. O dono e ela.

Gostava de rir quando lembrava que a ideia veio de um velho e bom conto de fadas. Se ela precisava de um Joãozinho para se alimentar, o jeito era atraí-lo tal qual a historinha, fisgando-o e arrumando um jeito de levá-lo para casa. Melhor não aguardar a presa crescer, engordar. Era resolver a fome, saciar o desejo e seguir em frente, rumo a outro João sem Maria. Um plano canhestro, quase sempre fadado ao fracasso. A aventura, no entanto, era real e a adrenalina subia dando-lhe sensações há muito esquecidas. E ela passou a frequentar o viaduto à cata de possíveis presas.

Quando o interfone tocou anunciando a visita de um vizinho que não conhecia, ela desceu para atendê-lo na portaria,  pois não iria abrir sua casa para gente enxerida. No pequeno hall o homem falou poucas e boas, identificando-se como o dono do estabelecimento onde o cachorro permanecia preso durante o dia. Ele contabilizou dezoito denúncias de diferentes homens e vários meses até descobrir de onde e como partiam tais acusações. Estava tendo um trabalhão para sair ileso de crime não cometido e exigia que ela parasse com aquilo. Enquanto ele falava ela o admirava.

Era um senhor bonito, forte, talvez um bom amante. Ela fingiu consertar um botão na blusa, abrindo essa com sutileza e olhar absolutamente cheio de intensões. “– Você, posso chamar o senhor de você, não é mesmo? Então, você precisa ver como eu vejo, da minha janela. Vai entender por que me vem a impressão de seu animalzinho ser mal tratado. Na verdade, eu gostaria de fazer algo por ele! Venha, vamos subir para que você veja. Como é mesmo seu nome?” João! Ela conteve o riso e, sem abrir totalmente a porta do elevador facilitou ao homem encostar-se em seu traseiro, arrebitado, para extinguir no outro qualquer dúvida sobre os motivos daquele convite.

Valdo Resende / São Paulo, nov / 2021

Coração de Cetim

“- É só mais uma no meio da multidão; Deixa de ser besta!”. Era falando desse jeito que Afrânio tentava fazer com que Eneida ficasse em casa. Falou uma vez, duas. De nada adiantou. A namorada deu de ombros, lembrando ao rapaz que se fosse para obedecer a alguém ela ainda tinha pai. O moço teve que engolir e ainda perder horas de dengo enquanto Eneida bordava a fantasia. Chegou o carnaval, ela foi desfilar e ele ficou amuado, bebendo no boteco com os companheiros de sempre. Nem terminada a quaresma e os dois já estavam de namorico, o desejo falando mais forte, esquecidos os anseios de mando do rapaz.

“- É só mais uma… Deixa de ser besta!” Repetiu o noivo no ano seguinte. A mãe de Eneida ficou calada evitando intrometer-se na vida da filha; o pai, simpatizante da batucada, não ia engolir desaforo para com a menina debaixo das próprias barbas. Fez o marmanjo engolir o mando e desculpar-se pela “besta”. Eneida foi, novamente sem aliança, e mais uma vez reatou namoro antes da sexta-feira da paixão.

Foram meses de conversas dos amigos, de conselhos dos familiares. Todos sugerindo que ela devia seguir a vida sem o rapaz. Eram diferentes; não daria certo. Eneida teimou porque amava Afrânio e acreditava poder dissuadir o homem já no primeiro carnaval, após o casamento. Lua de mel já distante, o que ela conseguiu foi tomar umas fortes bifas seguidas de ameaças maiores caso contasse para alguém. Antes de completar o primeiro ano do casamento Eneida escondeu a caixa de costura, cheia de miçangas e paetês. Junto o desenho do modelo da fantasia de sua ala, uma das mais animadas da escola.  O marido tentando consolar, sem mostrar-se arrependido: “- É só mais uma no meio da multidão; Deixa de ser besta!”.

Ausência anunciada. Os amigos estranharam; a ala reclamou; até a escola assinalou a falta da moça, agora senhora casada. Foi difícil convencer os familiares de que tudo estava bem, que abdicara de desfilar pela agremiação que tanto amava. Teria algum problema? O casamento estava bem? Foi a própria Eneida a repetir, para satisfação vaidosa do marido, que estava cansada de ser só mais uma; tinha resolvido que deixaria de ser besta.

Ela tinha quinze anos quando desfilou pela primeira vez. Agora, dez anos e nove desfiles depois estava em casa, assistindo pela TV. O marido, esparramado pelo sofá, lembrava velhos babões toda vez que focalizam mulher bonita, seminua. Fungava e virava copos e mais copos enquanto passavam as alas, cheias de gente alegre e feliz.

O carnaval passou e a única atitude de Eneida foi alterar horários na academia, aumentando a carga de exercícios. Calada, resolveu que eliminaria todo e qualquer sinal de gordura, ganhando em alguns meses um corpão de estremecer qualquer homem e fazer rainha de bateria temer perder o posto. Nunca falou em samba, carnaval, escola, até que chegou o janeiro seguinte e, em uma tarde de domingo, anunciou tranquilamente para o marido: – Vou desfilar neste ano!

Antes que Afrânio a proibisse informou que já estava tudo acertado com a escola. Ele engoliu o riso sarcástico e iniciou a frase costumeira: – É só mais uma…  – Que vai desfilar em carro alegórico e de topless, interrompeu Eneida. O homem, lívido, repetiu todas as ameaças acrescidas de safanões, empurrões, afirmando que quebraria as pernas da esposa antes que ela saísse para o Sambódromo.

Chegou o carnaval e Afrânio estava acompanhado de dois guardas, bem longe do desfile. Eneida filmara a discussão e anexara ao processo fotos de hematomas da surra anterior. Uma vingança silenciosa, curtida na academia forjando um novo corpo para o desfile. Foi o próprio departamento jurídico da escola de samba que conseguira manter o valente à distância enquanto a moça, gostosa e enxuta, fazia a alegria da multidão ao dançar e sambar fantasiada de “coração solitário”; um minúsculo pedaço de cetim vermelho, bordado, escondendo apenas aquilo que a TV não poderia mostrar. Afrânio, besta, assistia de longe a única moça sobre o carro, nua e bela, o grande destaque do dia.

Valdo Resende (março/2015)

Jornal reverencia Monte Sião

O Jornal de Monte Sião presta homenagem aos habitantes pelo aniversário da cidade no próximo dia 29 de março. Todos os colunistas e colaboradores contam aspectos da vida e do povo mineiro, gente monte-sionense. Abaixo, imagens da abertura do Jornal e da minha participação neste número. Para ler todo o jornal entre NESTE LINK!

Parabéns, Monte Sião!

Até!

Primeiros passos (Glenda e Rogério)

Rogério era do tempo em que bastava um olhar da mãe para que, rabo entre as pernas feito cachorro sem dono, procurasse um canto para sossegar. A mãe tinha um olhar mais expressivo do que qualquer cineasta alemão. Havia o olhar de “cala essa boca”, ou outro, muito temido em dia de festa: “para de comer”. Alguns mais ameaçadores que os outros, tipo “em casa a gente conversa”, ou aquele, antecedendo tabefes, o “agora eu te pego”.

O tempo dos olhares maternos foi substituído por outros, mais interessantes, que ele julgava saber emitir para o ser observado: era um olhar pedinte, tipo “posso falar com você”, outro mais ousado, revelando um “quero te comer”. Em momentos de autoestima elevada arriscava um soslaio, informando um “aproveita que sou gostoso”, ou um “vem que estou disponível”. Não passava pela cabeça dele que os olhares só funcionavam quando correspondidos previamente, anteriormente ao olhar. Assim, um “posso falar com você” só era correspondido quando a vontade antecedia, e o mais desejado, o “quero te comer”, só resultava em concretude se o tesão já estivesse instalado.

Vieram outros tempos, aqueles em que é preciso trabalhar. Travou muitas batalhas com colegas de serviço, chefes, diretores, subalternos. Embates confusos onde era claro e cristalino que cada parte pensava emitir via olhar a mensagem correta: “sujeitinho estúpido”, “esse babaca não sabe nada”, “tá pensando que eu sou da tua turma?” Verbalizadas, as mensagens eram bem civilizadas. “Você não entendeu direito”, “vem cá que eu te ensino isso”, “não posso sair hoje, fica para outro dia”.

A fixação dele pelo olhar alheio, a certeza do olhar enquanto emissor de toda e qualquer mensagem prosseguiu ao longo da juventude e, sabia ele, só se casaria com alguém por quem se apaixonasse, evidentemente, pelo olhar. Castanhos, verdes ou azuis, não importaria, exceto pela expressão: o grande amor seria a dona de um olhar expressivamente avassalador! Não foi bem assim.

Glenda era de origem libanesa, alta, corpo esguio recoberto por pele macia, morena. O cabelo farto, longo, descia pelos ombros em ondas suaves, caindo sobre o colo após emoldurar o rosto. Uma boca carnuda prometia palavras doces, beijos carinhosos. O olhar, esse não era visto, já que Glenda só aparecia publicamente durante o dia e usando imensos óculos escuros. Pelo menos foi o que disseram dela, depois que Rogério a conheceu,

Glenda e Rogério. Os nomes combinavam, pensou o rapaz desde o primeiro encontro quando, passeando no Ibirapuera com amigos comuns, foram apresentados. Poucos centímetros mais baixa que o moço, Glenda levantou o rosto com firmeza, apertando-lhe a mão esboçando um leve sorriso. Quis o destino que mais pessoas se aproximassem do grupo que, assim, deixou o casal à sós. Rogério não resistiu:

– Posso ver seus olhos? Quero muito!

Glenda, ao longo da vida, habituara-se a ouvir e discernir cuidadosamente a intensão contida na fala. Isso começou quando, muito pequena, percebeu nuances na voz materna que não condiziam com a realidade. A mãe dizia “coma, está uma delícia” para qualquer gororoba que a menina mal conseguia engolir. Também ficou clara a real afeição que a mãe tinha pela avó paterna. A sogra chegava e a mãe, com uma sutil frieza, sugeria “você não vai beijar sua avó?”.

Bem novinha, Glenda descobriu o ódio na fala da empregada, cansada de recolher roupas e outros objetos fora dos seus lugares. Também percebeu, sem sair do quarto, quando os irmãos mentiam dizendo estar estudando ou que já estavam prontos para dormir. Ironia, falsidade, mentira, tudo era transparente no grupo que a mãe recebia para o chá, fazendo com que a menina ficasse avessa a reuniões e, crescendo, preferia ficar sozinha.

Conhecia a pessoa pela voz. Reconhecia a segurança dos professores que dominavam o que ensinavam tanto quanto o leve tremor na voz dos inseguros. Percebeu o blefe na arrogância do primeiro chefe, que ladrava com poucas possibilidades de ataque, tanto quanto a maldade e a inveja de colegas de trabalho, concorrentes ou não ao cargo em que ela atuava.

– Sua voz não esconde seu desejo – ela respondeu ao novo conhecido.

Rogério afirmou querer muito. Repetiu, reiterou. Precisava ver o olhar da moça. Ela sorriu e limitou-se a balbuciar, antes de ir embora: – Outro dia!

Sem deixar telefone, e-mail, ou qualquer contato, Glenda desapareceu pelas alamedas do parque, rindo e conversando com os amigos. Só aí ele percebeu que os amigos que ficaram com ele não conheciam a moça. Buscou o telefone e começou a vasculhar as redes sociais dos conhecidos. Logo encontrou uma página de Glenda onde, em poucas fotos disponíveis, ela estava com óculos escuros.  Seria cega de um olho, ou estrábica? Teria fotofobia? Nada disso, informou um conhecido da moça, aliviando os iniciais temores do rapaz:

 – É mania! Já estivemos juntos em uma festa em uma chácara. Havia piscina. Ela tirou os óculos para nadar. Normais!

O que seria normal para o sujeito? Rogério ficou impaciente. O conhecido não dizia nada além do subjetivo “normal”. Ele precisava ver, conhecer o olhar de Glenda. Vasculhou as redes sociais e, com as fotos todas restritas, fechadas para desconhecidos, foi adicionando, curtindo, comentando, pedindo amizade…

– Não compartilhou nada, confidenciou Glenda à prima, Dulce. – Isso bem diz o que a voz insinua, um egoísta que quer tudo para si.

Dulce argumentou apontando exageros nas suposições da prima, já que seria preconceito afirmar qualquer coisa do rapaz. Até então, ele falara pouco mais que o “quero ver seus olhos”. Tudo o que Dulce gostaria era de ter uma voz cheia de desejo lhe pedindo para ver muito mais que os olhos. Não entendia a postura da prima quanto ao rapaz tanto quanto também não se conformava com a mania da moça de usar óculos escuros.

Foi na casa da bisavó, já bem velhinha, que Glenda descobriu revistas antigas, quando então se apaixonou pelo visual de estrelas de Hollywood e seus óculos escuros, chapéus de grandes abas, vestidos coloridos. Foi a primeira de sua turma a introduzir a mania que, tempos depois, tomaria conta de muitas meninas: tornou-se “cosplay”, passando então a vestir-se como as grandes atrizes dos anos 50.

Glenda poderia estar vestindo saias rodadas de tecido estampado, ou sóbria, dentro de conjuntos justos, deixando evidentes as formas generosas, torneadas, herança de sua mãe. Com “fantasias” mais sutis que heroínas de filmes fantásticos, Glenda era bem aceita em qualquer ambiente. Gostava de ser identificada como mulher elegante, refinada, misteriosa. Para Rogério não sobrou nada além da indignação do primeiro encontro.

– O babaca não percebeu que eu estava vestida como Katherine Hepburn nos anos 40!

Rogério não sabia quem foi Katherine Hepburn, muito menos reconheceu outra Hepburn, Audrey, quando viu Glenda pela segunda vez, caracterizada como a jovem Audrey em Charade, usando um conjunto vermelho, luvas brancas e chapéu também branco. Avisada por Dulce da chegada de Rogério, em plena noite, dentro de uma choperia, Glenda resolveu brincar, sacando os óculos escuros, mesmo se sentindo mal por quebrar o estilo da estrela americana. O rapaz percebeu a intenção dela em não permitir que ele conhecesse seu olhar. Reagiu com ironia:

– Que sol quente, não! Ou você é maconheira?

Glenda mostrou seu lado Betty Davis, a estrela que tinha tanto talento quanto língua afiada, mostrando ao rapaz o que aprendera ouvindo, analisando e refletindo sobre a voz humana.

– Sua voz me diz que você é um babaca, que tem medo de se envolver, que acha que pode impor às pessoas a sua vontade e, sobretudo, dono de uma inexperiência brutal em relação ao sexo oposto, em suma, inseguro!

E tirando os óculos, encarou com altivez um embasbacado Rogério que, olhando-a firmemente, emudeceu.

Ela nunca gostou da voz dele.

Ele não gostou dos olhos dela.

Terminou ali o que nunca havia começado. Seguiram em frente, sozinhos e infelizes, até que os céus se compadeceram de ambos. Glenda se apaixonou por Diego, o mudo. Rogério se casou com Manuela, cega, olhar esgazeado e sem vida.

Ambos estão felizes…dizem.

Voltaram a se encontrar e, para não darem um ao outro o braço a torcer, antes que ele a visse ela já havia retirado os óculos escuros da bolsa. Ele limitou-se a sinalizar um cumprimento com a cabeça, sem nada dizer.

(Valdo Resende / Primavera de 2020)

Ilustração: Detalhe/Mural do Centro de Arte Popular – Cemig Belo Horizonte – MG. Foto: Flávio Monteiro

Nota: Título original, Glenda e Rogério, modificado na republicação deste conto.