Grande poder

Está nas nossas mãos,

No gesto de digitar alguns números

Acionar um teclado.

Olho para minhas envelhecidas mãos,

Sem o vigor e o viço de antes,

Com menos força física, mas com um poder imensurável.

Está nas nossas mãos,

Na minha mão!

Posso muito!

Escolher a inclusão dos necessitados

Dividir o que temos com equidade

Garantir nossa liberdade de ir, vir, crer!

Manter nossa Constituição

Reforçar a fé na ciência

Escancarar o potencial do artista

Somar com as forças constituídas…

Posso tudo!

Todos os meus direitos

Partindo de um dever básico:

Votar.

Esse texto é para lembrar

Da imensa força das nossas escolhas.

Nem branco, nem nulo!

Bora votar.

Negros e alvos

O escritor e compositor Monahyr Campos, próximo convidado do Trem das Lives, atua também em teatro. Publicou um texto teatral, Negros e alvos, pela Giostri Editora, na coleção Dramaturgia Brasileira.

Da capa do livro extraímos um trecho que apresenta o autor: “Sua carreira no teatro começou com o ator e diretor Celso Frateschi, tendo estudado posteriormente com Jaime Compri e Eugênio Barba, participando do 4° Festival Internacional de Artes e Ciências de São Paulo, com o Grupo Americano Bread and Puppet, e do congresso da International School of Theatre Antropology (ISTA), no Festival Internacional de Londrina, em 1994”.

Sobre o texto, também está descrito no livro:

“Para enfrentar a ordinária e corriqueira estupidez racista, esta, até certo ponto, propositalmente caricatural na peça, a personagem desenvolve e acredita em um modo de vida que supera as questões raciais.

A palavra “alvo” é polissêmica, às vezes querendo dizer o contrário de negro, pois, teoricamente, o contrário de branco é preto; em outros momentos revelando um norte para rompimento da estrutura sólida da sociedade, que é o sucesso meritocrático, independente de ser preto ou branco; há também a questão do próprio negro ser o alvo, pois a manutenção da sociedade tal como esta passa necessariamente pela imobilidade social e cultural dos negros, daí a fomentação de estruturas midiáticas que reforçamos preconceitos arraigados há séculos neste país; por fim, alvo também significa a identificação daquele que oprime e, por esta razão deve ser vencido.”

O teatro é uma arte efêmera. Existe no palco, no exato momento em que os atores entram em cena, luzes acesas, iniciando a ação. O texto permanece e pode ser montado em diferentes épocas, por diferentes grupos ou companhias. Do trabalho de Monahyr Campos temos esse registro que leva uma temática contundente, ainda atual e, por isso, merece novas abordagens, a visão de outros atores, conduzidos por outro diretor, ou pelo próprio autor.

Espero, sinceramente, que Alvos e Negros volte a ser montado e, assim, possamos ver toda a arte teatral de Monahyr Campos. Sobre dramaturgia, também falaremos no Trem das Lives desse domingo, dia 8, 18h, no www.instagram.com/tremdaslives.

Todos estão convidados!

Para os interessados em adquirir o livro, cliquem aqui.

Ponto de honra, de Monahyr Campos

Nosso convidado do Trem das Lives, Monahyr Campos lançou recentemente, pela Editora Patuá, o livro de contos COLO. Conheça abaixo um dos textos da obra, Ponto de Honra. Neste conto Monahyr entra no universo de uma violência presente, ignorada por muitos, preocupação de outros, evidenciada e caracterizada em uma linguagem peculiar, aproximando o leitor do ambiente, cenário e modo de vida das personagens envolvidas.

O link para a aquisição do livro está no final do conto. O Trem das Lives, com Monahyr Campos será no próximo domingo, dia 8, 18h, no instagram.com/tremdaslives.

PONTO DE HONRA

Acordei de madrugada com o sistema nervoso, pregado na intuição: o Travoso, comandante da ala ia me pedir antes da visita, daqui a dois dias! Acabou que eu tava mordido, na fissura de ficar bicudaço, mas careta que tava, num parava num pensamento. Mil fita na cabeça, mil treta. Todo o falatório por causa de uma brizola miúda, mó merreca, e agora, os perdigão aprontando a bicuda e eu no fim do carretel.

Precisando dar um pino, precisando dar um pino, psôr. Tá ligado? Eu jurado só porque num entrei na fita e deu zica. Aí, do nada aparece uns passarinho e assopra meu nome. Aê, psor, o senhor tem que por um pano! O senhor tem deus no coração, num vai quebrar a perna!

Eu sentindo toda aquela aflição, sabia que tinha que me manter a uma distância segura. Por outro lado, como ignorar um pedido de alguém naquela condição?

Eu não posso entrar na frente, entende? Se der pra conversar, lógico que eu faço um corre, mas não dá pra garantir. Cê tá ligado que se eu firmar contigo, viro adubo na mesma lampiana que você. Quando eu for lá no xis eu dou a letra. Segura a onda, aí.

Dois anos e dois meses de trabalho aqui na penitenciária e já estou quase insensível a essas confusões. A princípio, era pra ser apenas seis meses de trabalho forçado, mas fui me meter a besta de dar minha contrapartida social, de fazer a minha parte. Agora sou refém de mim mesmo, dentro de um episódio do Hannibal, visto com desconfiança pelos presos; com desdém pelos funcionários; como louco por meus colegas de profissão; e nunca mais fui visto de forma nenhuma por minha mulher, nem meu filho… A mulher é ex, mas o filho é pra sempre.

No começo eu ficava desesperado, achava que tinha obrigação de ajudar esses coitados. Só aos poucos fui me dando conta de que, se bobear, muitos deles nem sabem o que é esse sentimento de empatia – apelam por minha intersecção justamente por saberem que eu prezo por meu sentimento de humanidade, que eu os vejo a todos como meus iguais, mas eles sabem porque estão aqui – eu não.

Hoje é o Carqueja. Semana passada, foi o coitado do Apendicite. Antes, o Buti. Teve também o caso do Timba, do Sprite. A lista é infinita… Tudo história mal contada, diz-que-me-disse; um, porque dizem que talaricou a feinha do outro; aquele porque era jacaré… Pessoas com problemas seríssimos em lidar com autoridade e, de repente, condenadas a viver sob um regramento extremamente rígido.

Aqui a vida é no limite o tempo todo. É no limiar do julgamento que o mais forte organiza a convivência, verbalizando as regras, que são invariavelmente aceitas por consenso. Não faria sentido questionar qualquer lei, simplesmente porque cada norma num ambiente primitivo é a consagração de um modo de viver, é sempre ponto de honra!

As paralelas encontram-se no infinito. Na teoria funciona muito bem essa afirmação, mas aqui, vivo diariamente a experiência de estar numa realidade paralela, beirando o absurdo pelo lado de dentro. Qual a vantagem de poder sair, se a sensação de desconforto levo comigo: a minha e a deles? “Aqui a vida é no limite o tempo todo”. O refrão do MC Louva-a-Deus não me dá descanso, vinte e quatro horas por dia martelando a britadeira nos neurônios.

Lembro de ter lido, há um bom tempo, num livro bastante badalado, que para se constatar se uma pessoa está viva, o meio mais fácil é colocar um espelho em suas narinas e observar: enquanto estiver respirando, a superfície ficará embaçada, sempre. Se a imagem refletida permanecer límpida, é porque não há mais vida. Sabedoria dos antigos que eu tive que aprender nos livros.

Feliz de quem vive “pregado na intuição”, como diria o Carqueja, mas eu, preciso de livros pra aprender até o que a vida ensina. E eu sei que estou vivo, eu existo, porque em minha vida, sempre vejo tudo embaçado. Visão límpida, só quando a gente encara a morte de perto, no susto, no choque! Quando a pancada te arranca do confortável e te empurra pro precipício, você enxerga longe, o fundo do poço fica cristalino, mesmo se a água for turva.

E eu sobrevivendo neste inferno, como se existir me bastasse, como se a satisfação fosse duradoura cada vez que tenho notícias de algum ex-interno recuperado. Como se a gratidão fosse uma qualidade que se possa esperar de quem teve sua humanidade arrancada junto com a placenta, como se…

  • Tá morgando, fessor?! O senhor é o maior responsa, mas num dá brecha. O Carqueja vai cair e é hoje! O presidente já deu a letra, aqui mancoso num tem vez. O senhor num sabe de nada, né não? Fica pianinho que a gente dá a letra quando for chacoalhar o colégio. Lembra quando o ganso falou pro senhor faltar? Ninguém avisou o otário do nervosinho… agora ele tá o maior groselha.

Eles me avisaram quando teve rebelião. Simplesmente faltei. O Alemão não teve a mesma sorte, agora não é nem de longe o arrogante de tempos atrás. Tiraram toda a petulância dele aos berros. Passou mais de duas horas, pendurado, de ponta-cabeça, no telhado do presídio, sendo ameaçado, correndo o risco de escapar das mãos daquela gente ensandecida, completamente animalizada.

Infelizmente o Carqueja vai ser triturado. Perdeu.

A cada vez que tentava dormir, me vinha a imagem daqueles olhos estatelados feito jaca madura, caindo no terreno baldio de minha insônia, me pedindo socorro. Coitado. Eu era sua derradeira esperança. Eu, de mãos completamente imobilizadas, totalmente impotente. Disposto a resgatar algumas individualidades através do conhecimento, percebi que nem mesmo o meu melhor, nem minha dedicação ao máximo grau pode interferir na dinâmica daquele lugar.

Qualquer texto, poema ou discurso que lhes apresento, sempre vai transitar na possibilidade de se tornar uma extrema unção. “Pra morrer, basta estar vivo”, nunca minha mãe teve tanta razão! E quem me garante que a qualquer hora, não vai aparecer um “passarinho” para assoprar o meu nome?

MONAHYR CAMPOS

PARA ADQUIRIR “COLO acesse aqui o site da editora.

Monahyr Campos no Trem das Lives

Mestre em Linguística, professor e compositor. Monahyr Campos é criativo e combativo. Coloca seus múltiplos talentos a serviço de preservar a cultura negra, da luta contra o racismo, para fazer desse um mundo mais harmônico, humano e bonito.

Escritor, é autor de Negros e Alvos – A exceção não pode servir para exemplo, publicado pela Ed. Giostri; e Colo – Contos e Novelas, em 2020, pela editora Patuá (SOBRE ESTE LANÇAMENTO LEIA AQUI).

Nesse domingo, dia 8, Monahyr dividirá conosco um pouco da sua carreira e das suas lutas. O encontro será às 18h no Instagram.com/tremdaslives.

Não perca!

Pombinha branca

De muito longe vem a voz que me traz a canção.

Tento ouvir com nitidez, determinar o timbre

A divisão, o andamento.

Reconhecer a tessitura com precisão…

Em vão.

A canção está no pensamento e,

a voz, no coração.

Embalou um, embalou dois,

Embalou seis filhos!

Distraiu netos enquanto os banhava

Vestia, perfumava.

Em vão busco a voz precisa

Só tenho certeza da canção

Que um dia foi cuidado

carinho, puro afeto e,

Hoje, 3 de novembro,

É saudade.

Finanças para facilitar a vida e ajudar ao próximo

Preparem-se para deixar de fazer cara de paisagem quando o gerente do banco começar a falar em “financês”. Meu caríssimo amigo, Professor Rafael Olivieri Neto, CEO da Competency do Brasil, criou uma oportunidade única para interessados em administrar melhor o próprio dinheiro que, cá para nós, está difícil de se obter. O curso FINANÇAS PARA NÃO FINANCEIROS.

Quem já conhece Rafael Olivieri sabe que os conteúdos oferecidos pelo mesmo vão muito além do conhecimento de economia. Com muita simpatia, e um humor imbatível, o professor facilita horas intensas de aprendizado com leveza e diversão.

Com a crise advinda da pandemia que ainda paira por aqui, Rafael gostou da ideia de ajudar pessoas e ensiná-las a gerenciar as próprias finanças. Assim, além de aprender, o participante ainda realiza uma ação beneficente. Ou seja, o valor pago pelo mesmo será revertido em cestas básicas que serão doadas para pessoas em situação de necessidade.

Do programa contam itens como Juros Simples, Capitalização Composta, Taxas de Juros, Tabela Price, Sistema de Amortização Constante, Pay Back e por aí vai. Serão 10 horas de uma profunda imersão com um dos melhores professores do nosso país. Caso você já tenha esses conhecimentos, e esteja em boa situação financeira, ajude alguém. Ofereça o curso para aquela pessoa que carece de aprender a lidar com as próprias finanças.

Rafael Olivieri é Pós-Doutor e Doutor em Administração, pela Florida Christian University – FCU –USA, Mestre em Educação, Arte e História da Cultura, pela Universidade Mackenzie e, entre outras funções, é professor convidado pela FGV.

O curso será online, com interação entre professor e alunos, no dia 21/11/2020 , com início às  8h00 e término às 18h00. O valor cobrado de cada participante, R$99,99, importante frisar, será revertido em cestas básicas para doação. Para outras informações clique aqui.

Restaurar e manter. Uberaba merece!

Uberaba, onde nasci, investe em turismo no ano em que comemora 200 anos. Entregou ontem, de uma só vez, duas atrações em praças distintas: Na Praça Rui Barbosa, um pequeno conjunto escultórico composto por um banco e uma estátua de Chico Xavier, o líder espírita que escolheu a cidade para viver e desenvolver seu trabalho. Na Praça da Mogiana, a Maria Fumaça restaurada.

Estive na Praça da Mogiana, em 2019, em visita ao Arquivo Público Municipal, na companhia de Vanda Spinola e minha irmã, Walcenis, quando conheci Marta Zednick e, por meio dela, João Eurípedes Sabino. Registrei, e está aí abaixo, ao lado da locomotiva restaurada, o estado em que essa se encontrava. Aniversário relevante, ano de eleição e Zás! Encontraram verbas para restaurar o que a própria prefeitura deixou corroer pelo tempo.

As Marias Fumaças, locomotivas movidas a lenha, me são caras. Carregam lembranças de meu avô, tios, primos, amigos… difícil, de pronto, identificar todos, recordar toda essa gente. Maquinista era o nome pelo qual identificávamos o condutor. Foguista era o ajudante, espécie de co-piloto, encarregado de abastecer a imensa fornalha com lenha, garantindo a energia necessária para movimentar a pesada máquina.

A viagem mais longa que fiz, a composição puxada por uma Maria Fumaça, foi para Araguari. Mamãe Laura, nossa vizinha D. Antônia e eu. Saímos bem cedinho de Uberaba para visitar meus avós paternos. Imensa excitação da criança, com cerca de cinco anos, pendurada na janela do vagão, observando o fumacê da máquina que, anos depois, ritmicamente rodando no que ficaria marcado no poema de Ascenso Ferreira:

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…

Lá pelas tantas, o trem para. As rodas dianteiras da máquina patinando sem conseguir puxar a composição. O foguista, com paciência de Jó, desce com um recipiente cheio de areia e vai despejando em um trilho, depois no outro. Faz isso por poucos metros, a vasilha é pequena. A Maria Fumaça avança pelos trilhos cobertos de areia para voltar a patinar nos trilhos limpos. Repete-se a operação por várias vezes até que, terminada a pequena elevação a ser vencida, o trem volte a seguir, daí pra sempre sem percalços.

Olimpio Elias, casado com Dirce, prima de minha mãe, trabalhava na Mogiana. Era maquinista, conforme minha lembrança. Pilotando uma Maria Fumaça fazia manobras no imenso pátio da estação de Uberaba. Desmembrava composições de carga, armava composições de passageiros. Terminado o trabalho, guardava a locomotiva na imensa gare, a casa das máquinas, já nas imediações do primeiro posto após Uberaba, Amoroso Costa.

Os horários eram estranhos, não sei o motivo. Sei que levávamos – os filhos dele, eu e meu irmão – refeições, particularmente o jantar. Tanta gente por uma marmita tinha sua razão de ser. Subíamos até o compartimento dos condutores da Maria Fumaça e acompanhávamos todas as manobras, apitávamos, jogávamos lenha na fornalha. Era comum que Olímpio conduzisse a máquina até a oficina, garagem e local de manutenção. Íamos, felizes, sem reclamar da longa caminhada de volta às nossas casas.

As Marias Fumaças, todas as expostas ao longo das cidades por onde trafegaram, são mais que relíquias históricas. São parte da história de muita gente. Olímpio e Dirce, que já faleceram, tiveram nove filhos e muitos, muitos netos! Meus primos, cujos avós e pais trabalharam na Mogiana, estão aí. Andam de carro, avião, ônibus… Certamente há, entre eles, gente como eu que olha com saudade para a Maria Fumaça que, presa em meio à praça, mantém vivas as nossas lembranças.

Espero que a próxima gestão municipal garanta a manutenção da máquina restaurada. Que não a deixem sem o cuidado fundamental para que mantenha viva a história de quem a utilizou. O mesmo trabalho de manutenção, espero, seja dado ao conjunto com a escultura de Chico Xavier.

Estive, com meu irmão Agostinho Hermes, visitando o Memorial dedicado ao Médium. Ficamos decepcionados por verificar a falta de manutenção do local (visitado em janeiro deste 2020!). Para uma construção tão recente, já que o Memorial foi inaugurado em 2016, não deveria estar com vidros quebrados, tinta descascando, descorada. Li, já aqui em São Paulo, durante a pandemia, que a reforma do local estava com problemas por conta da quarentena. Espero que tenha sido concluída.

Ano eleitoral, colocaram o Chico na praça; vai ver deram um jeito no Memorial, assim como garantiram a restauração da Maria Fumaça. Vou insistir: é preciso criar mecanismos de manutenção do patrimônio público, para que permaneça sempre limpo, em perfeito estado de funcionamento, garantindo a alegria de moradores e turistas. Uberaba merece.

Até mais!