Conhecer história! E evitar a repetição de determinadas situações. “High Hitler”, de Norman Ohler, é um livro fundamental para refletir sobre os dias em que vivemos. O subtítulo na tradução brasileira, trabalho de Silvia Bittencourt, é instigante: Como o uso de drogas pelo Führer e pelos nazistas ditou o ritmo do Terceiro Reich.
O melhor jornalismo é o investigativo, que pode partir de um dado aparentemente aleatório. Segundo consta, um amigo contou a Norman Ohler que Hitler e seus comandados usavam drogas. Ponto de partida para a pesquisa que resultou no livro que narra a dependência do führer, que consumiu 74 drogas diferentes. O autor também revela documentos que mostram que os soldados alemães recebiam doses de estimulantes em ações que resultaram nas invasões da Polônia e da França.
Silvia Bittencourt, a escritora e jornalista convidada do próximo Trem das Lives, mora na Alemanha. Investigou e publicou “A Cozinha Venenosa”, livro a respeito do “Münchener Post”, jornal de resistência ao nazismo. Assina a tradução de “High Hitler” com o respaldo de quem domina o tema e a forma, o livro reportagem.
O Trem das Lives desse próximo domingo, dia 1, será mais cedo, às 17:00. Um momento para, via bom papo, refletir sobre esses dois livros que abordam temas consideráveis para nosso presente. Temos indivíduos no poder com posturas que lembram o infeliz líder alemão, assim como precisamos valorizar a imprensa que, tal como o “Münchener Post”, denuncia as irregularidades de nossos governantes.
Serviço:
Trem das Lives com Silvia Bittencourt e Fernando Brengel.
Silvia Bittencourt, nossa convidada do próximo domingo no Trem das Lives, é a autora do livro que destacamos neste post. O texto é do catálogo da editora Três Estrelas:
A cozinha venenosa é a história da corajosa guerra de um pequeno jornal de Munique contra Hitler.
Durante mais de dez anos, o Münchener Post empreendeu uma batalha sem tréguas contra o líder nazista e seus fanáticos, denunciando os perigos de sua ideologia, noticiando seus crimes e alertando, já em 1932, sobre a monstruosa “solução final” que eles reservavam aos judeus.
Os combates não se limitaram às páginas do jornal e aos tribunais. Os nazistas chegaram a atacar os redatores nas ruas e depredaram duas vezes a redação do Post, a última delas em 1933, quando Hitler chegou ao poder e ordenou a destruição total do detestado diário.
A cozinha venenosa é o primeiro livro inteiramente dedicado à história ainda pouco conhecida do Post. A jornalista brasileira Silvia Bittencourt – radicada na Alemanha – reconstitui, a partir de cuidadosa pesquisa e por meio de uma emocionante narrativa, todos os momentos de uma das lutas mais importantes de resistência ao nazismo antes da Segunda Guerra e uma das mais audaciosas campanhas da imprensa no século XX.
Silvia Bittencourt (1965) é jornalista. Entre 1985 e 1990, foi coordenadora de artigos, repórter e correspondente da Folha de S. Paulo em Frankfurt. Vive desde 1991 na Alemanha, onde trabalhou, nos primeiros anos, para a Deutsche Welle e a Rádio França Internacional. Atualmente, é colaboradora da Folha, tradutora e docente do Laboratório de Línguas da Universidade de Heidelberg.
Direto da Alemanha, onde reside e trabalha, Silvia Bittencourt divide conosco sua vasta experiência no jornalismo.
Além disso, fala da sua obra “A Cozinha Venenosa”, a respeito do Münchener Post, jornal de resistência ao nazismo. E da tradução para o português de “Heigh Hitler”, sucesso internacional.
É nesse domingo, 01.11, em horário especial: 17h00. Página do Instagram. com/tremdaslives. Agende-se.
Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não o fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. O sol doira Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa…
Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma, Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças… Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca…
É com alegria que recebi e registro aqui, com profundo sentimento de gratidão, o texto que me foi enviado por Simone Gonzalez, sobre meu livro de contos, A Sensitiva da Vila Mariana. Mestra em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, atualmente atua como coordenadora auxiliar do Curso de Letras e da Pós-Graduação em Língua Inglesa e Literatura da UNIP.
Leiam o texto de Simone que, neste domingo, dia 25, 18h00, conversa com Fernando Brengel no Trem das Lives.
O QUE NOS SALVA, AMIGOS E LIVROS
“A Sensitiva da Vila Mariana” chega na nossa caixa de e-mail despretensiosa e até quieta demais para uma sensitiva. O autor, Valdo Resende, lembra que em tempos complicados rir um pouco nos fará bem, já que está difícil ir pra Paris. Só que o e-book nos leva bem mais longe e acaba arrebatando os leitores ingênuos que, como eu, acreditaram que eram contos só para rir.
Há expressiva e necessária crítica que vai se construindo ao longo dos contos em duas camadas narrativas: a história que se lê e outra que vai claramente se desenhando nas entrelinhas.
Vadico, Vanilda e Maria Aparecida são os fios condutores dessas duas camadas. Amigos inseparáveis, eles são a própria resistência: gostam de arte, primam pela amizade, se ajudam e cometem o maior dos pecados capitais: fazem o que gostam. Mas, claro, isso tem um preço.
Há muitos pontos na obra que nos tiram o sossego. Por exemplo, Vanilda é professora e tem uma Kombi. Dirigir uma Kombi pode ser libertador. Mas pode ser, também, o único veículo que Vanilda pode ter, resultado de um sistema opressor que relega a educação e os educadores.
Mas é claro que o carro não é importante. Como diria Vanilda: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
E, quando as coisas não vão bem, só mesmo a sensitiva para dar um jeito! O que também é, no mínimo, para se pensar.
Fundamental mesmo é perceber que em um país onde temos que nos (re)construir o tempo todo com tetos caindo em nossas cabeças e sem piso firme, entre croquetes, machismos explícitos e fascismo velado, o que nos salva são os amigos. E livros como este.
A janela escancara um dia ensolarado e, preso, observo a rua tímida, como diria Chico Buarque. Sem Construção, o que emerge do escaninho de canções é Pedro Pedreiro, aquele penseiro esperando o trem.
Vejo uma moça andando lentamente, meio a esmo, segurando um cigarro e, na mão esquerda, uma máscara carregada pela alça. Dois mascarados, homens, não procuram namorados como diz outra antiga canção, esperam passageiros. Talvez esperem o Pedro que, cansado de esperar, resolva tomar um táxi.
Pedro pedreiro fica assim pensando Assim pensando o tempo passa
Um tempo de espera esse 2020. Ingênuo, cheguei a pensar que seriam 15, 30 dias. E os dias, semanas, meses… Tento entender as pessoas que entregam a vida à própria sorte e saem, procuram trabalho, amigos, vão a festas, reuniões. Isto porque, na real, vem aquela coisa do Pedro, de esperar a morte, ou esperar o dia de voltar pro Norte. Mas, que Norte é esse?
Norte real, geográfico, não tenho. Quero ficar por aqui mesmo. Voltaria pra terra que chamei de minha, mas meus pais já não estão lá. Trago-os nas lembranças, no coração, em orações cotidianas. Norte profissional tá lento, feito Maria Fumaça tentando sobreviver em tempo de trem bala. É a pandemia, me consolo. De Norte afetivo vou bem, obrigado, e nesse “quesito” me distancio desse Pedro Buarque de Holanda. Só nesse!
Esqueço momentaneamente as mazelas desse nosso mundo pra divagar na durabilidade e atualidade de Chico Buarque de Holanda. Penso sair da janela e pegar um monte de CDs. Uma overdose do compositor pode acalentar o coração. Acalentar me lembra Acalanto, um acalanto nada bom:
Dorm’inha pequena
Não vale a pena despertar
Eu vou sair por aí afora
Atrás da aurora
Mais serena…
Ah, está tudo muito difícil, mas a gente tem o Chico Buarque. E Elis, Bethânia, Nara, todas pra cantar as músicas do cara. Esse Cara que não é dele, é do Caetano. Ambos nos consomem com seus olhinhos infantis, como olhos de um bandido. Só que, tchau, Caetano, não estou para o que der e vier. Estou esperando! Como o Pedro:
Esperando o sol Esperando o trem Esperando o aumento … o carnaval E a sorte grande do bilhete pela federal Todo mês Esperando a festa Esperando a sorte…
Talvez minha única diferença desse Pedro Pedreiro é ter ouvido Chico desde a infância e, portanto, sei disso:
Pedro não sabe, mas talvez no fundo Espera alguma coisa mais linda que o mundo Maior do que o mar
E assim sigo, teimoso, atrás de um sonho, mesmo que impossível. Segurando o desespero da falta de vacina, do excesso de ignorância, do desconforto da máscara que me faz encarar, por qualquer lugar que vá, a morte, a doença, o fim. Reluto, insisto e sonho. Quero voltar atrás.
Ser Pedro Pedreiro, pobre e nada mais
Paro de escrever e vou ali, feito Januária ou Carolina, olhando o mundo pela janela. Esperando o trem, um trem de mineiro
Um acordar de repente, como se alguém estivesse chamando. A enganadora satisfação, como se até então o sono tenha sido completo. O reconhecimento do ambiente, a luz que entra por frestas de janela, portas entreabertas, e junto a consciência do despertar em outro que não o horário habitual. Então, a certeza desagradável: bateu insônia.
Hão de concordar que é maravilhoso o leve despertar noturno para, virando-se para outro lado, cair novamente no sono. Já quando o olhar se abre para a insônia, há as sensações que, conforme as condições para o dia seguinte, são de desespero, irritação ou um desdém carregado da chatice em antever o próximo dia mais ou menos perdido.
Companheira desde a infância, já não brigo mais com ela. Fico irritado quando há compromissos inevitáveis para as horas seguintes. Reconheço a velha ansiedade quando as novidades ou próximos acontecimentos antecipam-se, estragando-me o sono e concluo em pensamento – Eu não tenho jeito mesmo.
Felizmente não tenho horário de trabalho a cumprir, não tenho pessoas esperando e, basicamente, fora boleto bancário, tudo pode ser deixado para depois. Assim, não brigo mais com a insônia. Passo o dia com um estado mais rabugento que o costumeiro. Invariavelmente saio da cama, pois ficar lá e não voltar a dormir passa a ser insuportável.
Quando muito jovem ligava o rádio, pegava um livro ou uma revista para ler. Agora tem a internet, as redes sociais, os e-mails. Primeiro vou a esses últimos e já leio a mensagem vinda de Porto Alegre, escrita às 3 da manhã pela amiga, geminiana como eu e, vai ver, insônia é característica do nosso signo. Nas demais redes percebo muita gente “dormindo”, as postagens de horas anteriores, todo mundo desperto.
Após passar rapidamente pelos bens bloqueados de um, pela licença concedida ao senador da cueca rica… E há violência. Morte, estupro, assassinato… Tento um refresco para as ideias relembrando o gol do Diego, do Flamengo e, sem conseguir, penso que é melhor desligar o celular e pegar um livro. Mas, entre o abrir e fechar sessões do aparelho me deparo com a matéria e a foto do menino italiano, beatificado padroeiro da internet.
Esqueço todos os pensamentos anteriores para saber um pouco mais sobre Carlo Acutis, que faleceu aos 15 anos, vítima de uma leucemia rápida e avassaladora.
Nascido em 1991 na cidade de Londres, de família italiana, consta que desde pequeno foi devoto da virgem Maria e, após ter feito a primeira comunhão, passou a dedicar-se diariamente aos cultos religiosos, especificamente à missa e ao rosário.
A internet entra na vida do menino quando este resolve criar um site visando a evangelização e a catalogação de todos os milagres já relatados. Uma tarefa imensa! Era adolescente e, nesse mesmo período, veio a ser diagnosticado com leucemia, vindo a falecer no dia 12 de outubro de 2006. Conforme pedido pelo próprio, queria ser enterrado em Assis, onde seu corpo, aparentemente incorrupto, está exposto para visitação na Igreja de Santa Maria Maior.
De pronto não tenho a menor dúvida sobre a santidade do menino. Sinto falta de uma narrativa mais realista sobre o jovem, seus familiares, o modo de vida. Os relatos advindos da recente beatificação do menino – em 10 de outubro passado – carecem de profundidade que continuarei pesquisando.
A ausência da dúvida sobre a santidade de Carlo Acutis estava ali, nas minhas mãos. O celular, com suas infinitas possibilidades de informação carrega, infelizmente, o peso da nossa realidade. Crimes, corrupção, violência, ganância, cobiça… a internet é o suporte móvel dos pecados do mundo e um garoto, muito garoto, opta por criar um site catalogando milagres. Manifestações divinas de compaixão por nós, humanos. Incrível!
Há relatos de milagres atribuídos ao menino, há títulos, muitos, recebidos aqui e acolá: o padroeiro da internet, o anjo da juventude, gênio da informática no céu … O Beato Carlo Acutis, Deus permita, há de ser celebrado e reverenciado por muitos, por milhares. Pessoalmente, junto com São Francisco (muita coisa lida sobre o santo em noites intermináveis), é mais um Santo conhecido nas minhas, ouso dizer, benditas insônias.
Veja abaixo a cerimônia de beatificação de Carlo Acutis e saiba um pouco mais sobre o jovem.