
O dia de Dona Luiza Erundina

Se aos cinquenta, sessenta anos já convivemos diariamente com preconceitos em relação à velhice, sendo alvos de piadinhas e brincadeiras idiotas, imaginem Luiza Erundina aos oitenta e cinco anos! E, convenhamos, a maioria de nós, os velhos, não temos o protagonismo dessa senhora; logo, somos infinitamente menos incomodados. Em entrevista recente (clique aqui) Dona Luiza Erundina ensina, entre várias lições, esta: “Minha vida não deve ser muito longa mais, mas vivo cada dia como se fosse o primeiro, e como se fosse o último”.
Viver cada dia como se fosse o primeiro é coisa de criança, de gente que tem muito amor pelo mundo, pela vida, pelas pessoas. É ter sede por descobertas, novidades e, se vivemos problemas nos dias anteriores, o novo dia é uma chance pra melhorar, consertar, seguir em frente. Para viver cada dia como se fosse o primeiro é preciso coragem, força, fé, esperança, energia, vontade… É alimentar sonhos, reforçar a luta, arregaçar as mangas para enfrentar o trabalho árduo que é melhorar as relações entre as pessoas, a missão fundamental do trabalho político.
É essa postura de viver cada dia como primeiro que leva Dona Luiza Erundina a dispensar a empregada, mantendo o salário da mesma, e assumir o trabalho doméstico. Fico imaginando a primeira mulher Prefeita de São Paulo, com vários outros mandatos na carreira, lavando roupa, louça, cozinhando feijão, fazendo faxina… E, entre uma e outra tarefa, participando de reuniões da Câmara, no Congresso, ou de dezenas de outras na campanha para as próximas eleições, onde volta a concorrer à Prefeitura como vice de Guilherme Boulos. Quantas vezes ouvimos expressões de gente com bem menos idade tais como “Estou cansado”, “Está difícil”, “Não aguento mais”…
Lendo as duas entrevistas dela publicadas recentemente (a outra está aqui) fiquei envergonhado de estar deprimido com meus 65 anos. Essa autopiedade doentia que nos coloca como centro do planeta, sendo os únicos a ter problemas de saúde, rugas e várias outras limitações. Tive, até agora, uma vida bem mais suave que Dona Luiza Erundina. Há 32 anos, quando ela assumiu a prefeitura da cidade de São Paulo, presenciei inúmeros comentários preconceituosos sobre o fato de ela ser nordestina, mulher, solteira. Não bastasse toda a discriminação e essa mulher ainda teve que conviver em seu trabalho político com algumas pessoas, para não baixar o nível nos adjetivos, no mínimo, complicadas. E lá vem Dona Luiza Erundina com mais uma lição notável, diante de um país dividido por opiniões contrárias: “Adversário político não pode ser inimigo. Ele é apenas um adversário que tem ideias muitas vezes opostas, antagônicas”.
Mas Dona Luiza Erundina também vive cada dia como se fosse o último. Não com a inconsequência dos porras-loucas, mas do ser humano que conhece e reconhece seus próprios limites. E se esses limites estão no físico com 85 anos, a inteligência leva a conviver, administrar esses e compensar as limitações com… o cérebro! As análises são mais eficazes, as conclusões são embasadas nos anos vividos e no conhecimento acumulado – esse nunca ocupa espaço – e, sem ilusões, saber que se antes o fim poderia ser inesperado, causado por acidente, crime ou doença, agora pode ocorrer por consequências naturais… Se me permitem, não deixa de ser irônico ler o noticiário contar que fulano de tal faleceu aos 90, 100 anos de causas desconhecidas. A idade nos leva a perceber a proximidade da morte. Só nos resta escolher como viveremos nossos últimos anos, nossos derradeiros dias.
Eu espero viver como Dona Luiza Erundina. Procuro me espelhar em pessoas como ela, ou como o Eduardo Suplicy. Há quem pensará que são raros, são únicos. Isso funciona inclusive para que desculpemas nossas próprias falhas, para que não tenhamos que viver de forma similar. Só que eles não são raros; tornaram-se conhecidos nacionalmente, são notáveis. Todavia, há muitos por aí, e só não citarei outros nomes porque aqui quero prestar homenagem a Dona Luiza Erundina.
E, se alguém acha estranho o “Dona” precedendo o nome, quero deixar claro que é minha mais profunda expressão de respeito e admiração por essa mulher simples, cheia de fé, garra e força, que ostenta um passado impoluto em meio ao constante lamaçal no qual frequentemente se afunda a política brasileira. Dona Luiza ignora o lodo e, em nome do amor a sua família e ao seu povo – que somo nós! – segue combatendo o bom combate.
Obrigado, Dona Luiza Erundina. Siga em frente. Estaremos juntos.
Até mais!
O Estropiado

Mamãe Laura diria: “Tadinho!” Papai Bino faria um novo. Compraria as peças todas aqui e ali, pegaria outras das caixas cheias de badulaques aparentemente inúteis e, quietinho num canto, construiria algo absolutamente personalizado. Tio Manoel, mesmo sem formação para tal ato, tentaria consertar o estropiado. Com paciência de Jó, meu tio chegaria do trabalho, desmontaria o cacareco e horas depois, sem terminar, deixaria pra continuar posteriormente. Tia Olinda, esposa do Manoel, ficaria irada. Um brasileiro aqui em casa dá um jeitinho…
Todo um parágrafo sem ir direto ao assunto. Não é fuga. É dificuldade mesmo. O estropiado é um computador. Desses pequenos, tela acoplada, que vêm dentro de uma maleta pra gente carregar pra todo lado. Vai aqui, anda acolá, sobe ônibus, entra em metrô, abre e fecha, abre e fecha, sacoleja inúmeras vezes e o mais visível dos problemas: quebrou-se o mecanismo do abre e fecha…
Os males vêm de longe. Como o ancião com problemas que é, a lentidão do estropiado é de fazer tartaruga se achar Ayrton Senna. Volta e meia ameaça pifar: fica parado horas no mesmo lugar, um iconezinho rodopiando e, muito tempo passado volta a funcionar, em desesperado amor à utilidade para a qual foi feito. A memória está supimpa. Inteiraça! Quanto ao mecanismo abre e fecha…
Já que estamos em quarentena, e não levaremos o convalescente a lugar nenhum, vamos consertá-lo. Inspiração em Bino e Manoel, pega-se um suporte de ferro em L, originalmente pensado pra sustentar varal de cortina e, com cola quente, faz-se com que o estropiado mantenha-se aberto, ereto… Mas, sem poder voltar a ser fechado. Laura diria: ”Tadinho”.
O observador que vos escreve sempre entrando nessa história com a mesma ladainha: “Vamos comprar um novo, temos dinheiro, não precisamos disso; esse computador vai te deixar na mão na hora mais necessária; a gente aproveita e compra um também pra mim. O meu tá pedindo. Depois não diga que não avisei”.
O brasileiro do jeitinho aqui de casa evita comprar qualquer coisa. É o sujeito mais anticonsumo que conheço. Quase um avarento, adjetivo que não se confirma em supermercado nas sessões de gordices: chocolates, bolachas, batatas fritas em pacote… No mais, protela compras pesquisando preço. Um ser sensato.
A gambiarra feita para manter o estropiado em condições é… gambiarra! Sempre carece de manutenção e assim, ontem, nova sessão de cola quente. De repente, o marasmo da quarentena é quebrado em tom de tragédia: ”O computador quebrou de vez”.
O trágico tem razão de ser por um trabalho a ser entregue nos próximos dois dias. “Salvou?”. Sim, estava salvo. “Use o meu computador. Eu fico só com o celular”. Entre torturar o outro com o fatídico “eu avisei” e lavar a louça, fui pra cozinha, o telefone pendurado em minha frente pra ver Teresa Cristina. Não passo noite sem a live da cantora. A tragédia teve segundo ato.
O arquivo não estava totalmente salvo. Um mês de trabalho perdido. Tensão máxima. Ira, desespero, desolação e eu, na tentativa de suavizar o momento: “Toma cachaça!” Beber, é consenso, melhora a vida. Pinga recusada, toca a ver o que é possível fazer em dois dias. Voltei pra Teresa Cristina, em noite de homenagem a Morais Moreira. De vez em quando olhava pra sala, saber como estava a trágica tempestade. Nova interrupção: “Não acredito”!
Essa coisa humana de velar defunto. Ajeita daqui, arruma dali e, já que é pra providenciar o velório, carece de tirar o estropiado morto da tomada. Antes, bom lembrar: Um outro mal do dito cujo é a bateria; não carrega mais. E nessa de liberar a tomada… O fio estava mal colocado. Sem bateria, sem energia, foi só uma morte temporária. Capenga, mas vivo. Funções vitais presentes.
Alvíssaras! Alegrias! Cachaça! Alívio e um sarro básico, “Vacilão”, seguido de um veredito sem apelo, sem negociação: “Amanhã compraremos um novo computador”. Feito. E ao estropiado… O merecido descanso.
Até mais.
Garimpeira de canções, Mônica Salmaso
Essa quarentena, às vezes, ameaça nos enlouquecer. Rotina por inventar, driblando a mesmice que ronda por aí, toca a procurar algo que nos salve. E aí a gente encontra Mônica Salmaso e seu belíssimo projeto “Ô DE CASAS”; o mundo fica bonito, a vida suave e a gente fica cheio de esperança e de afeto pelo Brasil e sua música de canções sofisticadas tornadas fáceis na voz da cantora paulista e convidados(as).
Em casa, como todas as pessoas responsáveis e sensatas, Mônica Salmaso viu sua rotina alterada pela ameaça do coronavírus e criou o “Ô DE CASAS” (clique para ter acesso ao canal com todos os vídeos). Um encontro musical onde músicos, cada um em sua casa, apresentam vídeos memoráveis, como neste exemplo, CAI DENTRO (Baden Powell / Paulo César Pinheiro).
No projeto a cantora “recebe”, sem ninguém sair de casa, compositores, instrumentistas, cantando com esses em dupla, trio ou outra formação. Um repertório escolhido como quem procura ou revela um tesouro. É por isso que é possível denominar Mônica Salmaso como garimpeira de canções.
Mônica Salmaso é do time das cantoras afinadíssimas, com um domínio técnico que permite a ela cantar toda a amplidão de possibilidades da música popular. Os vídeos têm produção simples, o que só faz evidenciar o potencial dos participantes. Um instrumento de cá, uma voz de lá e pronto, temos arte. Às vezes, a cantora mostra outra faceta, a da percussionista: prato, caixa de fósforo, maraca, pandeiro… mas é a voz, sobretudo a voz acentuando com delicadeza cada nota das canções, dando-nos outra visão das mesmas, como em Oriente, de Gilberto Gil, no vídeo com Webster Santos.
Um passeio pelo canal de Mônica Salmaso vai nos dar, também, a oportunidade de ver grandes músicos, extraordinários, que pouco aparecem em programas de TV aberta, mas que agora estão em próximos, graças ao “Ô DE CASAS”. Abaixo, com Cristóvão Bastos.
Comecei este post, feito com o desejo imenso de que todos conheçam o “Ô DE CASAS”, publicando o encontro entre Monica e Teresa Cristina, também compositora. Teresa tem alegrado nossas noites com suas lives que, certamente entrarão para a história dos fatos ocorridos nesse período. As duas cantoras desejam o melhor para nós, nos dão o melhor de si e só pedem que, se possível, fiquemos em casa.
Para concluir, o encontro de Mônica Salmaso e Chico Buarque, para que tenhamos uma semana feliz e melhores dias, sem pandemia.
Até mais!
Nascido em 4 de Julho

De repente a gente olha para o calendário e, mais que um dia após o outro, percebemos um dia particular, um dia especial. O filme estrelado por Tom Cruise (Born on the Fourth of July – 1989) ajudou-me a fixar esta data, muito mais que a Independência dos EUA. 4 de Julho é o aniversário de João Luís de Salles Tiné, o pintor falecido em 1998, que hoje completaria 58 anos.
Fui agraciado com algumas obras desse artista, que adorava pintura acadêmica e, só para brincar, fazia uma ou outra obra abstrata. Também professor de pintura, podia ensinar seus alunos a compor partindo de conceitos e formas abstratas. Todavia, gostava mais de dominar formas conhecidas em temas comuns e vendáveis, como flores, natureza morta e retratos. Sobretudo gostava de paisagens; era capaz de permanecer horas observando os trabalhos de William Turner ou de John Constable. De Turner apreciava as telas que tinham o mar como tema; de Constable, as paisagens românticas, idealizando um mundo.
Neste momento em que atravessamos uma pandemia tenho me lembrado bastante de João, um entre vários com os quais convivi e outros, que conhecia, tive contato, e que morreram em consequência de problemas agravados pela AIDS. Em 1998 alguns remédios já estavam disponíveis, mas não garantiam a sobrevivência dos infectados. Ainda hoje, 22 anos após o falecimento desse artista, os cientistas conseguiram um certo controle da doença – o indivíduo sobrevivendo sob cuidados rígidos –, mas ainda não temos a cura. Aí, dá um medo danado de algo similar ocorrer com o COVID_19.

Ao me lembrar e homenagear João Luís, hoje, quero estender minha reverência aos falecidos em decorrência do coronavírus, e enviar meu desejo de paz e consolo aos familiares desses. Sobretudo, quero pedir aos que estão vivos e saudáveis, todo o cuidado possível para evitar contágio. Usar máscara, lavar as mãos, higienizar compras, sapatos. Não é muito, quando o que está em jogo são vidas humanas.
Até mais
Desenho Expressivo by Cariello
Octavio Cariello assim se autodefine: “Um híbrido de lógica pura e demência artística”… ou seja, algo facilmente confirmável em autorretratos como esse:

Ou como esse:

Na real, ali fechadinho na quarentena ele está mais para esse abaixo:

E é por essa capacidade de ser e desenhar O QUE e COMO quiser, que ele irá ministrar um curso de Desenho Expressivo, na Quanta. Veja aí:

Vá pra Quanta Academia de Artes, em casa mesmo, aprendendo a desenhar com o Cariello.
Recomendado por euzinho abaixo, desenhado por ele em um guardanapo de boteco no final do século passado:

Até
Fomento ao Teatro. Inscrições até 19 de Julho
A Secretaria Municipal De Cultura Do Município De São Paulo está com edital aberto para a 36a edição do PROGRAMA MUNICIPAL DE FOMENTO AO TEATRO. As inscrições irão até às 18h do dia 19/07/2020.
O Programa edital tem por finalidade selecionar e apoiar a manutenção e criação de projetos de trabalho continuado de pesquisa e produção teatral. O valor máximo que poderá ser concedido a cada projeto é de R$ 1.174.045,58, a critério da Comissão Julgadora. Serão selecionados até 15 (quinze) projetos de pessoas jurídicas, que representem núcleos artísticos sediados e com atividade profissional no Município de São Paulo.
Para acessar o edital clique aqui.