Companheiro de viagem

Valdo Resende companheiro de viagem

O instante vai e a paisagem torna-se turva

Lembrança desfocada como a foto tirada pela janela do carro em movimento.

O vazio vence a excitação, já que o velho cotidiano toma conta;

Antes que vença, ainda recorremos a fotografias, retendo o recente vivido.

Brinco com o garoto que, cúmplice do tempo, já ostenta 13 anos e diz que é rapaz.

Falo com o afilhado que, na minha mente, será sempre o menino:

– Olha o Pão Doce, que lindo!

Ele sorri, olhando-me como se olha ao parvo. Pão Doce…

Antes que eu repita a expressão noto novo brilho, do menino que é rapaz.

Um acordo tácito é estabelecido sem documentos ou registros:

O Pão Doce é muito bonito!

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Férias são sonhos plenos de imagens fugidias, múltiplas, logo esmaecidas

Ingressos, recibos, cartões e fotos, um ou mais cacarecos são lembranças

E a roupa suja para a lavanderia é realidade, golpe fatal do fim da viagem.

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Desse recente momento ficará o límpido olhar de Antônio

Indiferente à ostentação do Barroco; ignorando teorias artísticas no MAR

Mantendo a paciência com as portas fechadas da Casa Daros e do Museu do Índio

Tudo aparentemente esquecido atrás do sorvete no final do dia.

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SP/Inverno de 2013

O MAR de Janeiro e de sempre

A maquete com os dois prédios e detalhe do MAR
A maquete com os dois prédios e detalhe do MAR

O MAR, Museu de Arte do Rio é uma das gratas novidades do Rio de Janeiro. A cidade parece um grande canteiro de obras, sinal dos grandes eventos que acontecem e acontecerão na cidade. Inaugurado em março deste ano de 2013, é a junção do antigo (o antigo Palacete Dom João VI) e do moderno – aqui no sentido estrito das construções modernistas – com um edifício que serviu como terminal rodoviário.

O diferencial que merece destaque é a instituição ter como missão inscrever a arte no ensino público com foco principal na formação de educadores da rede pública de ensino.  A proposta se concretiza através da Escola do Olhar, abrigada no prédio antigo. Nas dependências do edifício modernista ocorrem exposições temporárias de curta e longa duração.

Parte do que se vê do terraço do Museu. A Escola do Olhar parte da realidade.
Algo do que se vê do terraço do Museu. A Escola do Olhar parte da realidade.

Na entrada o público é direcionado para o sexto andar onde, percorrendo o espaçoso terraço, tem a visão da região da Praça Mauá, regiões próximas como o complexo do Mosteiro de São Bento, e mais distantes, como a Ponte Rio – Niterói.  O  mar é parte da visão que se tem do MAR e a primeira exposição a que se tem acesso diz bem o momento pelo qual passa a cidade:

“Rio de Imagens: uma paisagem em construção” é a exposição que mostra a cidade representada por diferentes olhares ao longo de quatro séculos. Cartografia, vídeos, pinturas, gravuras, fotografia e design evidenciam as constantes transformações da capital fluminense, antiga capital federal, sempre a Cidade Maravilhosa.

Rio de Imagens. Cartazes de companhias aéreas divulgam a cidade.
Rio de Imagens. Cartazes de companhias aéreas divulgam a cidade.

Burle Marx, Di Cavalcanti, Iberê Camargo, Ismael Nery, Manabu Mabe, Pancetti, Tarsila e Segall estão entre os artistas que deixaram através de seus trabalhos as imagens do Rio de Janeiro de cada época. Esta mostra permanecerá até 28 de Julho próximo.

Parte do acervo onde fotos são permitidas.
Parte do acervo onde fotos são permitidas.

A maior exposição em cartaz é “O Colecionador – Arte Brasileira e Internacional na Coleção Boghici”.  São oito momentos artísticos (Arte Espontânea, Abstração Informal, Surrealismo, Modernismo, Século 19, Abstração Construtiva, Nova Figuração, Pintura Chinesa e Pintura Russa) expostos sem estrutura cronológica. As obras estão próximas conforme a tendência na qual estão inseridas. O resultado é um caleidoscópio fantástico de cores e formas que levam a sensações variadas.

Jean Boghici fundou a galeria Relevo em 1961. Tornou-se colecionador e de seu acervo constam obras dos mais importantes artistas brasileiros como Di Cavalcante ou Vicente do Rego Monteiro, de artistas contemporâneos como Franz Krajcberg  e de grandes nomes internacionais como Auguste Rodin, Max Bill, e entre muitos, Kandinsky. A mostra vai até o dia 01 de setembro e merece, se possível, mais que uma visita.

Exposição “O Abrigo e o Terreno: arte e sociedade no Brasil”.
Geral e detalhe. “O Abrigo e o Terreno: arte e sociedade no Brasil”.

Quero destacar, finalmente, a exposição “O Abrigo e o Terreno: arte e sociedade no Brasil”, onde artistas de diferentes estilos, provenientes de regiões diversas discutem a paisagem urbana através de reflexões sobre a realidade. Os conflitos de interesses gerados pela necessidade de espaço, por especulações imobiliárias além de outros aspectos não menos problemáticos estão presentes. Nesta mostra, que termina neste final de semana, está o “Projeto Morrinho/Imagens da construção do Morrinho e seus participantes”, obra de 2007.

“Projeto Morrinho/Imagens da construção do Morrinho e seus participantes”, obra de 2007.
“Projeto Morrinho/Imagens da construção do Morrinho e seus participantes”.

Bom ver resultados positivos nos projetos de revalorização da região portuária carioca. O MAR – Museu de Arte do Rio, fica na Praça Mauá, 5, Centro, no Rio de Janeiro. Para conhecer um pouco mais visite http://www.museudeartedorio.org.br/

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Bom final de semana!

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Tudo vazio, a cidade cheia de gente

Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro.
MOSTEIRO DE SÃO BENTO – RIO DE JANEIRO

Hoje poderá ser um dia muito diferente para a história brasileira. Aqui, no Rio de Janeiro, não se fala em outra coisa. A manifestação nacional por um país melhor enche todos de esperança. Parece que os lugares ficarão vazios para que as ruas sejam tomadas por toda a gente.

MAR - Museu de Arte do Rio
MAR – Museu de Arte do Rio

Tenho passeado por alguns lugares, encontrado muita gente e essas fotos, de dias anteriores, são registros de momentos raros em que uma sala ou parte de uma sala ficou assim, sem visitantes. E é assim, vazio, que eu espero que fique hoje o novo MAR – Museu de Arte do Rio, mesmo com sua belíssima exposição,

MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES
MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES

Também espero que os seguranças não tenham nada além da vigília silenciosa. É dia de protesto, não de destruição. No Museu Nacional de Belas Artes, bem no calor da visita papal, está a exposição  “A Herança do Sagrado: Obras-primas do Vaticano e de museus italianos”. Amanhã, certamente, as filas voltarão ao imponente museu.

MUSEU VILLA-LOBOS
MUSEU VILLA-LOBOS

Em Botafogo, bem que algum aluno da escola do Museu Villa-Lobos poderia fazer voltar o som do piano do maestro e compositor, colocando um som diferente para as palavras de ordem… Se o silêncio permanecer em favor do barulho das ruas… tudo bem.

TEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO
THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO

E é aqui, nas imediações do Theatro Municipal que, dizem, a coisa vai pegar. Estou torcendo para que tudo fique bem. Vou lá, ver como é que carioca faz passeata. Depois… bem, depois que liberarem as estradas volto para casa, minha São Paulo que, tudo indica, também está fervilhando.

Até mais!

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Noite de Creedence, tico-tico e frio!

creedence

Tudo tinha começado perfeito após ampla e meticulosa preparação pra uma noite quente composta pelo tripé “Drogas, sexo e rock and roll”. No quesito drogas a opção recaiu sobre cigarros e vodca. No item rock and roll, algo mais suave, para noites de frio, tipo Creedence Clearwater Revival; para o sexo Vanilda, a tatuada, havia encontrado o parceiro certo: um italiano legítimo do Brás paulistano, barba cerrada, olhos verdes e cheio de amor para dividir. Vanilda cantarolou por todo o dia:

Hey, tonight

Gonna be tonight

Don’t you know i’m flyin

Tonight, tonight…

Vanilda já esteve mais presente neste blog.  Muito trabalho, um pouco de solidão voluntária ( -Só tem homem porcaria dando sopa, Vavá! Os interessantes têm dona ou dono…). Enfrentando o inverno rigoroso deste ano, a moça resolveu sair da toca, embora com critérios: “- Sexo, Vavá, só com qualidade!” De preferência, completei por ela, com um parceiro jovem e tarado. Virando os olhos e simulando desdém, minha amiga limitou-se a responder: “- Óbvio!”.

Claro que tratando-se de Vanilda, hibernar significa doses generosas de vodca, palavrões direcionados ao clima e discos nacionais com boa música. O que me causou espanto foi a escolha do já quase distante CREEDENCE, com sua música do final dos anos sessenta, início dos 70. Informando ter conhecido o italiano em um site de relacionamento, em sala de bate-papo sobre o festival de Woodstock, optou por um clima musical pertinente. Antes de ouvir minha censura pela paquera virtual, Vanilda tratou de dar a ficha do moço: amigo do amigo, primo do amigo, vizinho do amigo… Portanto, gente conhecida e quase de confiança.

Santo Deus! Essas redes virtuais que elevam fotos e nomes à categoria de amigos! O fato é que Vanilda e o amigo de um monte de amigos marcaram um encontro real, ocorrido recentemente, em uma rara noite sem passeada. Preparando-se, Vanilda enfrentou uma funilaria completa: fez pé, mão, esfoliação, hidratação, depilação, massagem e, lindamente renovada, foi ao supermercado. Comprou vodca, uísque, mais vodca, um guaraná, outra vodca – agora uma russa autêntica – e, vai que a noite pedisse algumas cervejas… Comprou uma dúzia. Com certa censura perguntei: – E a comida, mulher? Ela, sorrindo, lembrou novamente a banda americana. “- Vavá! Comida… Basta um feitiço, meu querido…”

I put a spell on you

Because you’re mine.

You better stop

The things that you’redoing…

Vanilda, eu soube depois, continuando a preparação da grande noite, cuidou do ambiente com orquídeas de diferentes cores e tipos, rodeadas de espadas de São Jorge… “- É isso aí, Vavá! Pra ilustrar preferências e, ao mesmo tempo, contar com a ajuda do Santo”. Deixou velas à mão, caso o moço fosse tímido, pois ela adora fazer tudo às claras. “- Não gosto de perder detalhes, você sabe!” e vestiu-se com um vestido leve, sem botão, zíper ou qualquer outro empecilho que a impedisse de livrar-se rapidamente do mesmo.

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Pontual, o rapaz chegou armado com uma caixa de bombons para, como ele fez questão de frisar, “o depois”, com uma piscadinha de cafajeste. Vanilda fingiu não ver a piscada obscena e, grata pela ausência da ansiedade da espera, roçou suas cinco tatuagens pelo corpo do rapaz (Para quem não sabe, as tatuagens de Vanilda estão na nuca, tronco e membros…). Ciente de sua capacidade em enfeitiçar, cantarolou um trecho de “The Night Time is The Right Time”, enquanto puxou o moçoilo para o sofá, para um primeiro round:

You know the night time, oh, is the right time

To be with the one you love

I said the night time, oh, is the right time

To be with the one you love…

Em seguida, enquanto Vanilda preparava nova dose de vodca, com gelo e laranja, o italiano do Brás, mexendo em alguns discos sobre a mesa de centro, encontrou um single de DANIELA MERCURY. Entusiasmado, pediu para ouvir a faixa e Vanilda, contrariada, pois estava no clima CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL, resolveu consentir. Antes que a baiana rodasse a saia e soltasse a voz, o rapaz cochichou para Vanilda: “- Feche os olhos!”. Vanilda obedeceu e a música rodou:

Tico-tico-rei

Um tico-tico tá

Ta outra vez aqui

O tico-tico ta comendo o meu fubá

O tico-tico tem, tem que se alimentar

Que vá comer umas minhocas no pomar…

As mãos do rapaz percorreram o corpo de Vanilda com a mesma rapidez da música. Ritmo de toques certeiros em pontos-chave, enlouquecendo a tatuada que não conseguia fugir – também não queria – e via-se a beira de um orgasmo monumental, sem que o rapaz lhe desse a menor chance de respirar. De repente, não eram apenas as mãos do moço a tocar o corpo de Vanilda…

Oh! Por favor, tire esse bicho do seleiro

Porque ele acaba comendo o fubá inteiro

Tira esse tico de cá, de cima do meu fubá

Tem coisa que ele pode pinicar…

Em meio ao supremo entusiasmo a temperatura explodiu no apartamento de Vanilda. As doses de vodca, “o pássaro fora do seleiro”, tudo enlouquecendo a tatuada que, pretendendo estender a euforia, soltou-se dos braços do rapaz iniciando um pega-pega entre orquídeas e espadas de São Jorge. Afoita para fugir do moço, já nua, aguardando ansiosamente ser alcançada, Vanilda resolveu dividir seu prazer com a noite e,abrindo tempestuosamente a porta para o terraço, no nono andar, expôs o corpo para a lua ausente de uma noite gelada. A corrente de ar bateu forte. Vanilda travou!

O choque térmico provocou um tremendo “revertério”. Qualquer coisa tipo nervo ciático, entrou em colapso total, travando Vanilda nua; os gemidos de prazer substituídos por outros, dolorosos. O italiano – daqui para frente denominado “escroto” – caiu na gargalhada e Vanilda mandou-lhe vasos de orquídea em meio a palavrões, palavrões, palavrões…

Após expulsar o princípio de amante e arrastando-se até o telefone, Vanilda chamou-me, para levá-la ao pronto-socorro. Foi complicado enfiá-la, tortinha da silva, dentro do meu limitado Celta. Pior foi aguentar seu humor estragado, e os muitos palavrões, só porque liguei o rádio e estavam tocando Creedence:

Someone told me long ago

There’s a calm before the storm

I know, it’s been comin’for some time…

… I want now, have you ever seen the rain?

Levei minha amiga de volta ao apartamento quando a noite já ia adiantada, chuvosa e fria. Já disposta, Vanilda resolveu limpar o apartamento da lembrança da noite frustrada. Suspirando e caindo na gargalhada, ela ofereceu-me bombons, presente do italiano, enquanto agitava uma espada de São Jorge pelo ar…

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Até!

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Notas musicais:

Hey,Tonight – John Fogerty

Iput a spell on you – Screamin’ Jay Hawkins

TheNight Time is The Right Time – Roosevelt Sykes

Tico-tico no Fubá –Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros

Haveyou ever seen the rain? – John Fogerty

(valdoresende)

Julho sem adrenalina no Museu de Arte Sacra

Museu de Arte Sacra foto by Valdo Resende

Férias começando, a adrenalina ainda pegando forte, eu procuro retomar a paz e o sossego no Mosteiro da luz, especificamente no Museu de Arte Sacra; nada como um lugar tranqüilo, onde o passado se faz presente e, de quebra, faz-me lembrar um pequeno pedaço de Minas Gerais, na querida São Paulo.

Abdias e Ezequiel, lembrando Minas Gerais.
Abdias e Ezequiel, lembrando Minas Gerais.

Fundado em 1970, o Museu de Arte Sacra de São Paulo abriga milhares de obras em seu acervo, priorizando imagens religiosas do século XVI ao século XX.  Está na ala mais antiga do Mosteiro da Luz, construído em 1774 e abriga uma clausura, da Ordem das Irmãs Concepcionistas (Mais um item  para lembrar Uberaba, onde as Irmãs residem na clausura da Igreja da Medalha Milagrosa).

Nos jardins estão quatro réplicas dos profetas criados por Aleijadinho (Antonio Francisco Lisboa) para o santuário de Bom Jesus do Matosinhos, em Congonhas do Campo, também Minas Gerais. Foram cedidas ao Museu de Arte Sacra pela Justiça Federal; pertenceram originalmente a Edemar Cid Ferreira, mas foram confiscadas quando do processo do indivíduo por lavagem de valores.

Os quatro profetas cedidos pela Justiça Federal
Os quatro profetas cedidos pela Justiça Federal

O local tem uma importante coleção de lampadários além de outros objetos sacros, objetos e mobiliário laicos. Tenho especial interesse nos oratórios barrocos, guardando imagens coloniais de rara beleza. Entre as obras do acervo, a escultura da imagem de Nossa Senhora das Dores, também de Aleijadinho, é de um requinte formal extraordinário e deixa evidente a capacidade do artista em expressar-se e captar expressões.

Museu de Arte Sacra foto by Valdo Resende

Visitar museu não é ação tipo caminha por corredores de shopping. É bom descansar o olhar, refletir, interiorizar o que está sendo visto ou, simplesmente curtir o silêncio que, no Mosteiro da Luz, é secular e continua absolutamente aconchegante. No pátio interno é possível ver, e ouvir, pássaros, isso sob o murmúrio da delicada fonte central.

Pátio do Mosteiro da Luz foto by valdo resende

O local é muito visitado também pelos fiéis de Frei Galvão, que está entre os fundadores do antigo Mosteiro. Após as orações na capela dedicada ao Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, como foi canonizado, é possível conseguir as pílulas que, para os crentes, são um santo remédio. O museu também abriga um importante acervo de presépios de diferentes regiões do mundo. Para quem não é de São Paulo, o endereço é Avenida Tiradentes, 676, bem próximo da Estação do Metrô Tiradentes e está aberto de terça a domingo.

Mosteiro da Luz foto by valdo resende

O Museu de Arte Sacra está em uma das regiões mais movimentadas da cidade. O barulho da avenida é intenso, todavia esquecido logo que se adentra ao velho prédio, como se uma viagem no tempo fosse iniciada observando as paredes seculares, o mobiliário antigo, as imagens e objetos que permearam a vida de nossos antepassados. É recomendável para todos nós, que vivemos nesse mundo acelerado; a gente sai de lá calminho, introspectivo, pronto para continuar a viver.

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Até mais!

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Férias chinesas sem sair de São Paulo

Detalhe de obra em exposição na biblioteca.
Detalhe de obra em exposição na biblioteca.

A exposição “Seis séculos de pintura chinesa” em destaque na Pinacoteca é uma mostra que nos permite desvendar uma arte delicada, profunda, de domínio técnico impecável. Mais que questões formais e estéticas, o evento torna-se uma possibilidade de contato diferenciado com as expressões de um povo. Sabemos muito pouco ou quase nada sobre arte chinesa.

A coleção exposta na Pinacoteca é do “Musée Cernuschi”, de Paris. São 120 pinturas de diferentes períodos: China Imperial (1368-1911), China Republicana (1912-1949) e artistas atuantes no século XX. Henri Cernuschi foi economista e banqueiro, tendo fundado o museu com seu nome em 1898.

Painéis imensos, exigindo olhar demorado para apreensão dos detalhes.
Painéis imensos, exigindo olhar demorado para apreensão dos detalhes.

Duas peculiaridades merecem nossa atenção; primeiro é a presença de obras do artista Zhang Daqian, pois este morou no Brasil cerca de vinte anos. O artista insere-se entre outros que, trabalhando em Paris divulgaram a arte chinesa. Na Pinacoteca temos obras que foram feitas enquanto o artista morou no Brasil. A segunda é a publicação em formato digital do catálogo da mostra, disponível gratuitamente para download no site da Pinacoteca.

Diferente da arte ocidental, a pintura chinesa tem outros propósitos. A leitura do catálogo, antes do evento, propiciará melhor aproveitamento das mesmas. Os formatos são diferenciados, exigindo um percurso visual particular. A exposição, montada nos parâmetros ocidentais – são seis espaços divididos cronologicamente – não deixa de evidenciar maneiras distintas de aproximação e visualização dos trabalhos chineses.

O caráter simbólico das pinturas exige do observador mais que a observação do visível, mas daquilo que o objeto representa. Com freqüência, cada pintura é uma “viagem estática”, pois a montanha, por exemplo, é um lugar de isolamento espiritual para o pintor-poeta.

Artechinesa 2
Sutileza nos detalhes, delicadeza na forma e no conteúdo.

O suporte mais freqüente é o papel e o nanquim é presente em praticamente todos os trabalhos. Em muitos, além da imagem pictórica, há textos poéticos que são parte da composição, dando-nos vários exemplos da arte caligráfica chinesa.

Creio, sobretudo, que a exposição “Seis séculos de pintura chinesa” leva-nos a pensar diferente, com outros critérios, para a grande civilização e para as multidões chinesas, nossas contemporâneas. No grande salão da Pinacoteca estão expostas a delicadeza de diferentes gerações, a suavidade de traços, a leveza de formas, a sutileza temática. Todas essas qualidades: delicadeza, suavidade, leveza, sutileza são expressões de artistas que representam todo um povo em diferentes épocas. Acredita-se que o pincel, para o artista chinês, ia muito além da concepção ocidental de prolongamento da mão. Para os chineses, o pincel transmite emoções e por isso é a expressão do coração. Ao observar atentamente podemos concordar com essa máxima chinesa.

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Boas férias!

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A exposição “Seis séculos de pintura chinesa” permanecerá até o próximo 04 de agosto.

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Pé quente, cabeça fria

Gilberto Gil, abaixo ao lado de Nana, é o dono do "pé quente, cabeça fria"
Gilberto Gil, abaixo ao lado de Nana, é o dono do “pé quente, cabeça fria”

Para ser bem honesto estou no limite da paciência. Não com o momento, não com a situação em si, mas com a superficialidade sobrando, os julgamentos correndo soltos e inconsequentes e as súbitas e imensas certezas que tomaram conta de quase todo mundo. O momento é de euforia escancarada…

Pé quente, cabeça fria, dou-lhe uma
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe duas
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe três
Saia despreocupado
Você pode conquistar o mundo dessa vez

Sem querer puxar o breque, e estando muito longe de perder a esperança, penso que o momento é de conquista mesmo; mas de possibilidades concretas, pensadas e, sobretudo, refletidas com responsabilidade. Estamos mudando e Victor Olszenski, com lucidez e embasamento teórico, abre outras perspectivas em texto publicado com o título “Como as manifestações públicas impactam as empresas” com indícios dos caminhos que virão.

Porque ler o texto do Victor? Primeiro porque somos público e para o público que somos há empresas governamentais nos prestando serviços. Há outras empresas, contratadas pelo governo, que atendem ou deveriam atender nossas atividades. O texto é analítico, sem apelos emocionais, sem exageros de retórica. É um profissional de marketing pensando o marketing daqui para frente. E é bom atentar para como as coisas funcionam.

Pé quente, cabeça fria, dou-lhe uma
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe duas
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe três
Saia despreocupado
Faça tudo que você queria e nunca fez

Estamos mudando. Melhor que mudar o mundo é mudar nossas vidas, o “nosso quadrado”. Ontem, na Universidade, passamos um bom tempo discutindo política e educação. Nós, professores, precisamos muito discutir educação. O texto do Victor alertou-me para a necessidade de discutir mais, com profundidade, com frieza analítica e buscando, mais que o arranjo momentâneo, as soluções corretas, mesmo que em longo prazo. Cada indivíduo pensando soluções na própria área em que atua.

Enquanto escrevo faço uma pausa durante o jogo  Brasil x Uruguai. E é óbvio que, brasileiro, vou discutir futebol, e também palpitar na saúde, pensar em um caminho para resolver a seca no nordeste, apostar em soluções para o trânsito na capital paulista… Vou reclamar da lentidão da internet, do almoço demorado, do preço dos remédios. Tenho direito; temos direitos!

Pé quente, cabeça fria, numa boa
Pé quente, cabeça fria, na maior
Pé quente, cabeça fria, na total
Saia despreocupado
Mas cuidado porque existe o bem e o mal

Brasileiro está descobrindo que pode reclamar e que quem reclama não é chato, apenas exigente e com direitos. Ao longo de muitos anos acreditei que uma das piores coisas que fizeram contra o país foi o fato de colocarem na cabeça de muitos a idéia de que “reclamar é chato”, que “quem reclama tem problemas” ou ainda que aquele que reclama “agita a maioria e provoca situações desagradáveis”.

O mal momentâneo é que as redes sociais tornaram-se “redes de exigências”, todo mundo querendo arrumar a casa. Bom até certo ponto. Bom mesmo se além de palpitar na casa alheia todos pensarem em como resolver a própria casa. As reclamações dos outros são oportunidades de crescimento, é o alerta do Victor Olszensky.  O que os outros têm a reclamar em relação a nós mesmos?

Pé quente, cabeça fria, numa boa
Pé quente, cabeça fria, na maior
Pé quente, cabeça fria, na total
Saia despreocupado
Mas se alguém se fizer de engraçado, meta o pau.

Outro dia li alguém pedindo qualquer coisa musical estrangeira ao reclamar do som que anda rolando nas passeatas. Esse cidadão não deve conhecer Os Mais Doces Bárbaros (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia), os intérpretes de “Pé quente, cabeça fria” que é a música para minhas revoluções particulares. O  individuo levou-me a pensar em fazer um post lembrando grandes canções políticas brasileiras. Aí, li o texto do Victor, pensei no que as pessoas reclamam do meu trabalho…  Esse sim, é o maior (e o mais difícil) exercício que deve ser feito com muito “pé quente e cabeça fria”! Antes que façam passeata embaixo da minha janela…

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Até mais!

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Nota:

Doces Bárbaros foi show, filme e disco feito pelos quatro baianos em 1976. Segundo Caetano Veloso a idéia foi de Maria Bethânia. “Os mais doces bárbaros” é a primeira faixa do disco. Pé quente, cabeça fria pode ser ouvida clicando aqui.