Quase tudo bem. Um pouco tenso… Sem desconsiderar a realidade peço licença para lembrar que hoje, dia 19, é o dia do natalício do Chico Buarque de Holanda. É bom relembrar razões para homenagear o maior compositor brasileiro. Por aqui já implicaram com a palavra natalício… Bom, não quero saber quantos anos tem a figura, mas lembrar que foi neste dia que ele nasceu. E que ele criou temas para movimentos, passeatas, rebeliões e todos os afetos possíveis.
O CHICO é bom pra recordar grandes amigos! Ouço CHICO BUARQUE e vários seres muito amados emergem em meus pensamentos. Tenho a imensa sorte de ter muitas pessoas pra enviar um “Meu Caro Amigo”, mas nessa noite, a ausência de pessoas que amo cabe nesse “Desencontro”.
A sua lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver se espanto esse mal
Mas só sei dizer
Um verso banal…
Volta e meia acontece uma discussão se há poesia em letras de música. Por mais que se afirme que letra de música não é poesia, tem aí o CHICO, com algumas letras provocando inveja aos poetas todos… E se alguns versos do Chico Buarque não forem poesia, pobre poesia que assim sai perdendo um refinado poeta.
Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar…
Para os mais novos uma informação legal; Chico canta a mulherada em letras memoráveis: “A Rita”, “Carolina”, “Januária”, a “Ana de Amsterdã” e várias outras. E quando o compositor coloca-se no lugar da mulher, compondo no feminino, deixa muito claro o quanto conhece da alma da mulher (talvez por isso ganhe todas!). Pra não ficar aqui incensando o malandro vou mostrar abaixo como o indivíduo sabe ser corno (e com que classe!):
O meu samba se marcava na cadência dos seus passos
O meu sonho se embalava no carinho dos seus braços
Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão
Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão…
Na conturbada história do nosso país, de uma “Roda Viva” implacável a inexorável “Construção” Chico Buarque ensina que tudo “Vai Passar”, “Apesar de Você” e do “Cálice”que, vez em quando, nos é imposto. Algumas letras de Chico soam sempre atuais, seja abordando questões sociais, ou a situação política. Eu fico emocionado, sempre, com “O Meu Guri”, ou com “Gente Humilde”, mas a que mais curto, desse CHICO político, é “Rosa dos Ventos”:
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas, sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo…
Tem o Chico autor e compositor do teatro. Lá da peça “Roda Viva” ou só musicando a grande poesia de João Cabral de Melo Neto em “Morte e Vida Severina”. Há também o Chico que sofreu grande prejuízo quando a censura proibiu “Calabar”. Também imprescindível registrar uma grande parceria com Paulo Pontes, além da célebre interpretação de Bibi Ferreira para “Gota D’Água”. De todas as peças do Chico dramaturgo, ou de outras, para as quais escreveu canções, tenho um carinho imenso pela “Os Saltimbancos”; todavia é da “Ópera do Malandro” a música que escolho como representativa desse senhor CHICO teatral:
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu…
Tem o CHICO do cinema, o CHICO dos grandes balés… Eu fico imaginando “Dona Flor e Seus Dois Maridos” sem a trilha de CHICO, na voz de SIMONE. O filme não seria o mesmo. Assim como citei um exemplo, do cinema, lembro outro, do balé “O Grande Circo Místico” que, além de “Beatriz”, tem a graciosa e divertida “Ciranda da Bailarina” na memorável parceria com Edu Lobo:
Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem…
A primeira vez que estive bem próximo desse senhor foi numa noite, em São Bernardo do Campo, no Sindicato dos Metalúrgicos quando, penso, a maioria dos presentes não imaginava um Lula presidente. E CHICO esteve lá, dando força ao Movimento dos Trabalhadores.
Entre seus pares, a elegância de CHICO é sempre elogiada. Esteve sempre distante de pinimbas e muito próximo de compositores, para criar grandes canções. Também é encontrado emprestando sua voz para os discos de diferentes cantores. Homenageou com brilho os músicos do Brasil, em “Paratodos”. Eita,moço fino!
Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil, Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethânia, Rita, Clara
Evoé, jovens à vista…
CHICO BUARQUE é o único compositor que ao escolher uma música lamento por outra, que fica de fora. Mas está na hora de parar. Vou lembrar mais duas razões que somam a inúmeras outras, levando-me a admirá-lo. A primeira, a incrível capacidade de colocar palavras “impensáveis” em uma letra musical; além de grande ousadia, a coisa sai perfeita, seja em “cada paralelepípedo da velha cidade”, ou na fabulosa “assentamento”, que remete a Guimarães Rosa:
Quando eu morrer
Cansado de guerra
Morro de bem
Com a minha terra:
Cana, caqui
Inhame, abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilim
Vamos embora.
Perdoem o palavrão, mas um cara que coloca inhame, abóbora, em uma letra, e essa fica linda, merece:- Ô, filho de uma puta!Vai ser bom assim no inferno!
A segunda, para concluir. Nos meus delírios, ante algumas perdas, é uma canção de CHICO, em parceria com Cristóvão Bastos, que me acalenta a alma, me enche de esperança. Creio na vida além da morte e, para aqueles amados que se foram canto sempre:
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu.
Sem tristezas. Vamos preparar uma festa neste dia 19, nem que seja um singelo e particular brinde. É aniversário de CHICO BUARQUE. O cara que escreve livros, compõe para teatro, cinema; canta amores, grandes dores, alegrias, faz galhofas, é o dono da bola no seu Politheama e tem a admiração de todos os grandes compositores contemporâneos, suas canções gravadas pelos maiores intérpretes brasileiros.
Ave, Chico! Meu compositor preferido e mais querido, você bem que podia ter nascido no dia 18…
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Até!
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“Notas Musicais” :
as músicas citadas, respectivamente, são:
Desencontro – Chico Buarque e Toquinho
Olé, Olá – Chico Buarque
Quem te viu, Quem Te Vê – Chico Buarque
Rosa-dos-ventos – Chico Buarque
Pedaço de Mim – Chico Buarque
Ciranda da Bailarina – Edu Lobo e Chico Buarque
Paratodos – Chico Buarque
Assentamento – Chico Buarque
Todo o Sentimento – Cristóvão Bastos e Chico Buarque
Meu caríssimo e idolatrado amigo. Realmente é dia de comemorar, uma pessoa ímpar que merece ser parabenizado, todos os dias. E nada melhor que ouvir suas canções e entendê-las.
Raaaa!! Mas aí vc tá querendo muiiiitoooo, já tem Maria Bethania, tá quereno o Chico no seu dia tb?? kkkkkk
Belo texto!! Parabéns Chico, continue nos encantando com suas belas canções!!
*querendo
Eu que só nado no chuveiro, fico torcendo para encontrá-lo mergulhando numa praia.
“aaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhh SE EU TE PEGO” FICO POR UMA ANO TE FELICITANDO PELO ANIVERSÁRIO sem medo nenhum de me aforgar..
Ahhh o sol em gêmeos é em parte responsável por uma escrita primorosa??? Feliz sou eu que posso ler e ouvir coisas tão lindas de dois geminianos lindos! Adoro você, Valdo! O Chico vem depois…rsrs