Papai faz cem anos!

Mineiro daqueles que falam muito pouco, em seus últimos anos entre nós, em todo 20 de fevereiro papai permanecia ao lado do telefone. Valdonei ligava, eu também. Ele nos ouvia e passava o telefone adiante: Sua mãe quer falar com você. Ficava na dele, aguardando as filhas e os netos que no final da tarde estariam por lá, comemorando no “cantinho do fuxico”, conversando sem parar enquanto ele, já com o radinho de pilha em mãos, punha-se a ouvir modas caipiras.

Não fosse minha irmã Walcenis, eu não me daria conta dos cem anos que meu pai faria nesse recente 20 de fevereiro. Cem anos! Desses, papai viveu mais de oito décadas entre nós e certamente, se tivesse que destacar fatos marcantes ocorridos desde 1924, ele não se esqueceria do rádio. Papai cresceu junto com o rádio. Viu o apogeu da Rádio Nacional e acompanhou os fatos mais importantes durante sua juventude ouvindo as caixas enormes, depois, já adulto, os pequeninos radinhos a pilha.

Certamente vieram pelo rádio as notícias da Segunda Grande Guerra, iniciada quando meu pai estava com 15 anos. O que teria pensado o jovem sertanejo vivendo no pedaço de terra dos pais, lá em Araguari, nas Minas Gerais? Mais, ainda, por que deveria ele pegar em armas e ir para a Europa participar de uma contenda que, provavelmente, não tinha certeza nem mesmo de como começou?

Também foi pelo rádio que papai ouviu as vitórias da Seleção Brasileira. O Brasil campeão mundial de futebol em 1958, Bi em 1962. A televisão era uma geringonça cheia de chuviscos, muito distante do cinema. Então, o negócio era ouvir os jogos pelo rádio e, eventualmente, ver as imagens pelo cinema. Não que papai tivesse hábito de ir ao cinema; a única história que me ocorre era que, em tempos de quaresma, no parque de diversões onde trabalhava projetavam cotidianamente uma “fita”: A Paixão de Cristo. Minha irmã Waldênia, já em idade de ficar sentadinha vendo o filme, ficava indignada com aquele sujeito que vinha todo o dia para a cidade onde acabava apanhando muito.

Um Parque de Diversões entrou na nossa família em fatos que os detalhes se foram com os personagens, todos já falecidos. O certo é que um irmão mais velho de Papai, Tio João, se encantou com uma bela senhora e caiu no mundo com o Parque de Diversões onde a dita cuja trabalhava, deixando a tranquilidade da fazenda em Araguari para conhecer as praças do país. Lá pelas tantas, meu pai decidiu acompanhar o irmão.

Espírito livre, papai não devia curtir os limites da fazenda e da vida no campo. Não gostou também das imposições dos padres, tendo estudado em um seminário, coisa comum aos meninos de então. Em 1945 foi convocado para a II Grande Guerra. Estava com 21 anos e com boa sorte, já que aquele ano também foi o fim do conflito armado. Em seguida papai trabalhou por um tempo na Companhia Goiás de Estradas de Ferro e, até onde guardo as histórias todas, de lá saiu indo trabalhar com o irmão no parque de diversões.

Há notícias de Lorena, no Vale do Paraíba, onde minha mãe, Laura, foi aprender com o marido coisas que o pai não permitia. Subir em árvores, andar de bicicleta, atirar com arma de fogo. No tal parque papai cuidada de um stand de tiro ao alvo. Tiros de chumbo e de rolha, em busca do praticante contar vantagens e ganhar pequenos brindes. Houve uma passagem por Ribeirão Preto, já fora do parque e veio a decisão de morar em Uberaba.

Fiz as contas (nunca fui bom em matemática!): Papai chegou em Uberaba com 31 anos e cinco filhos. O quinto, euzinho, na barriga de minha mãe, nascendo em junho de 1955. O sexto, Wander, veio anos depois. Além da filharada, trouxe na bagagem uma barraca e as espingardas, desde então participando de festas e quermesses da cidade com a barraca de tiro ao alvo do Bino. Atividade insuficiente pra manter todo mundo, Papai montou uma oficina no quintal. Conhecimento adquirido na infância e nas oficinas da estrada de ferro, passou a fabricar ferraduras – colocando-as nos animais – portões, dobradiças e outras peças sob demanda.

Papai não gostava de patrões. Deu um duro danado para não se submeter a terceiros. Criativo, aproveitou o espaço do quintal e a oficina para criar seu próprio parque. Uma por uma foram criadas as barracas, a maioria delas pintadas pacientemente pela minha irmã caçula, Walderez. Na medida em que o quintal ficou pequeno com os brinquedos todos, papai utilizou o pátio da Paróquia de Nossa Senhora das Graças para a montagem final, em acordo com o vigário de então, Padre Nicola Ruggi. O homem já tinha pisado na lua quando o parque foi inaugurado em uma quermesse paroquial. De lá meu pai saiu para percorrer todos os bairros da cidade, todas as cidades da região.

O parquinho fez meu pai conhecido em Uberaba. Pessoalmente, já morando fora, eu adorava descer de um ônibus na rodoviária, entrar em um taxi e pedir: me leva pra casa do Bino! Todos conheciam meu pai e a maioria foi gente amiga. Isto não implica ter sido ele obrigado a defender seu negócio, muitas vezes com os próprios braços, de arruaceiros e ladrões. Invariavelmente, quando ocorria algo do gênero, ele chegava em casa e, mesmo sendo altas horas, chamava todos os filhos e contava detalhadamente o ocorrido. Se o caso fosse engraçado, via-se lágrimas, pois meu pai era daqueles que chorava de tanto rir.

A parte do século vivida por meu pai nesse plano terreno ocorreu muita coisa. E o menino que nasceu na pequena Estrela do Sul, no Triangulo Mineiro, certamente não pensava em coisas como televisão ou mudança de capital. Papai gostava de Juscelino Kubitschek. Quando estava bem vestido se comparava ao líder político. Quanto aos demais políticos, tratava-os como mineiro, raposa que sorria para todos e raramente revelava o próprio voto.

Aos poucos papai foi mudando. Os filhos crescendo, os primeiros netos aparecendo, ele deixou a oficina pelo parque. Do fundo do quintal só surgia, sem que jamais soubéssemos de onde, forquilhas, borrachas e elásticos para papai fazer e premiar crianças visitantes com estilingues. Quieto, silencioso, a certeza de que ele gostara da criança estava naquele ato: fazer e presentear o brinquedo. Aos mais velhos, amigos meus e de meus irmãos, aparentemente sisudo, em pouco atribuía um apelido. Em dado momento, quando minha irmã apresentou o namorado, papai indagou sério: outro? E saia rindo, deixando que explicassem o jeito de ele ser.

Outras mudanças no século, a televisão acabando com os pequenos circos e parques, e papai vendeu o Parque Boa Vista, ficando apenas a barraca em ponto fixo, no Bairro da Abadia, da santa predileta do meu pai. Quando a procissão da Abadia, vindo do município de Água Suja passava por nossa rua papai era um dos que enfeitavam com arcos de bambu e bandeirolas, além de soltar fogos durante a passagem da santa, protetora do seu trabalho. E foi perto dela que trabalhou, até se aposentar.

Uma cachaça com os amigos, muita música no radinho de pilha e silêncio. Papai observava o mundo aos setenta, oitenta anos. Via noticiários, assistia ao futebol, mas creio que era difícil para ele acompanhar todas as mudanças que a virada do século estava impondo aos mais velhos. Os filhos formados, indo mais longe do que ele fora, as mulheres mais livres, assumindo o mercado de trabalho, a internet chegando e tornando tudo mais rápido, mais urgente. Às vezes rugia, lembrando o homem que usava os próprios braços, sempre armados para defender a família. Na maioria do tempo ficava quieto, sem nunca deixar de fazer peraltices, como prender um chapéu de palha na ponta de um bambu para colher frutas do quintal do vizinho ou, quando a cozinha vazia, invadir a geladeira para obter generosas porções de doce de leite. Após ser pego, ria. E no dia seguinte, mesmo tendo tomado a sobremesa, dizia para a Walcenis com a maior cara de pau:  Sua mãe não me deu doce!

Papai lutou pela vida à maneira dele. Nos aniversários dizia sempre, consegui mais um ano! Quando a doença chegou, lutou bravamente, incluindo nessa uma fuga do hospital, pois queria ir para casa. Viu a morte de Chico Xavier, em 2002, junto com a festa brasileira por mais uma Copa do Mundo. Um médico amigo conversava regularmente com ele sobre a doutrina espírita, que ele vira crescer em Uberaba, desde os tempos de trabalho conjunto de Waldo Vieira e Chico Xavier. Provavelmente essas conversas ajudaram-no em sua passagem, deixando com minha mãe o desejo de ter o velório feito na varanda, onde a família gostava de se reunir, com os portões abertos, para um adeus aos amigos.

Papai faleceu em 2005. Faria 100 anos em 2024. Tanta coisa tem acontecido nesse mundo. Desses 19 anos passados de sua morte, papai esteve e se mantém presente em nossas vidas, em nossos corações. E na vida de outros, amigos, conhecidos e, provável, seu nome anda até na boca de quem não sabe quem ele foi. Papai é nome de rua! Saber haver uma Rua Felisbino Francisco de Resende, o Bino, deve tê-lo feito feliz, honrado com as homenagens. Um momento em que, com certeza, ele deve ter sorrido e estufado o peito para dizer com a maior tranquilidade: Que nem o Juscelino Kubitschek!

Feliz centenário, Papai!

Pote de lobisomem e um pouco mais

É só um aparente cacareco, entre tantos outros que guardo. Um potinho de louça ordinária, presente de Dona Antônia. Ela e Cesarino, o marido, foram inquilinos de meus pais e tinham origem espanhola. A frágil cerca que dividia nossos quintais não foi suficiente para isolar-nos e logo após o jantar, enquanto mamãe ultimava tarefas do dia, Dona Antônia vinha papear, contar histórias.

Na fazenda tal, onde moraram, apareciam mulas sem cabeça. Vinham em disparada, cabeças em chamas, perseguindo caminhantes noturnos. Às vezes era uma única, de outras vezes várias em tropel ensurdecedor. Parece que alguém foi pisoteado; houve quem perdeu a fala e até outra pessoa ficou com marcas de queimadura.

Entusiasmada com a atenção das crianças, olhos arregalados, sinais de medo ao encolherem-se umas nas outras, Dona Antônia emendava causos, como um lobisomem que caminhava em noites de lua cheia por entre as casas dos camponeses. Ouvia-se o bater do rabo que o bicho, ao andar, movimentava com força, para espantar um imenso enxame de moscas. Se percebia a luz vinda de alguma lamparina no interior das cabanas, o lobisomem batia com força em portas e janelas, tentando entrar.

Últimas brincadeiras noturnas, era comum ter os pés empoeirados e restava lavá-los antes de ir para a cama. A bacia utilizada tinha de ficar seca, sem água nenhuma, ou o próprio Diabo viria lavar-se, ou refrescar-se do calor do inferno, vai saber! E vinham histórias de gente que sofreu nas mãos do Demo por conta de água suja deixada de um dia para outro.

Impressionado, eu estava entre os irmãos que perdia o sono, chamando a mãe no meio da noite com medo de algum ser fantástico. Mamãe não perdoava: “Para de acreditar nas coisas dessa velha mentirosa! Amanhã vou cortar as conversas dela. Não acredite em nada disso!” Minha impressão era que mamãe, cansada, desacreditava Dona Antônia pra poder ir logo para a cama. Todavia, as histórias pararam.

Um dia, aproveitando a companhia de minha mãe que foi comigo para Araguari, em visita aos meus avós paternos, Dona Antônia foi conosco. O trem da Mogiana saia bem cedo de Uberaba e era puxado por uma Maria Fumaça. Uma aventura! Lá pelas imediações do Rio das Velhas, os trilhos molhados, a velha máquina patinava e Dona Antônia rezava com receio de que a composição descesse de costas, sem controle. Um foguista, munido de vasilha com areia, ia despejando essa sobre os trilhos, a máquina andando um pouquinho, ele despejando outro tanto e assim foi até ultrapassar aquele trecho.

Foi naquela viagem que descobri outra Dona Antônia. Normalmente era uma senhoria que tinha murchos a parte superior dos lábios. Para viajar ela usava dentadura. Imensa, com um dente de ouro incrustado entre os outros, enormes, que a impedia de ficar com a boca fechada. Que coisa era aquela que eu nunca tinha visto? Onde ela guardava os dentes quando não estava passeando? Fui informado que o objeto ficava em um copo com água, ao lado da cama, para ser usado só em momentos especiais. Lembro de um beliscão de minha mãe, para eu parar de me meter na dentadura alheia.

Do velho Cesarino guardo momentos tensos que nossas famílias tiveram por conta de uma colmeia, instalada na laranjeira que estava na divisa dos nossos quintais. O caixote, abrigo das abelhas, já estava pequeno e ameaçava cair. Papai e o vizinho Cesarino resolveram que iriam mudar a colmeia para outro lugar. Munidos de muitas folhas de erva-cidreira, esfregada nos objetos e nos braços de ambos, o que deveria acalmar as bichinhas que, segundo o Cesarino, atendiam por nome “Mariinha”. Era só repetir o nome e pedir calma que elas obedeceriam e ficariam tranquilas com a mudança.

Um enxame no quintal atacando dois incautos e algumas crianças, a casa trancada e, logo, a vizinhança tomada por uma tenebrosa nuvem de abelhas. Minha irmã Walderez, com os cabelos longos e fartos, foi picada pelas bichinhas embaraçadas nos cabelos e depois retiradas por mamãe com ajuda de um pente. Papai, feito criança peralta, tinha crises de riso e o velho Cesarino foi quem mais sofreu pelo excesso de picadas ou por alguma alergia. Ninguém foi para Pronto Socorro. Fomos, sim, visitá-lo quando tudo se acalmou e, confesso, o que guardei da visita foi a visão do copo com a dentadura da minha amiga. Estava no local antes informado.

A cama de Dona Antônia também ficou na lembrança por conta de um incêndio, por um ferro elétrico ligado e esquecido. Tenho guardado os gritos desesperados da pobre senhora por conta do dinheiro do filho, Agostinho, guardado sob o colchão. Esse filho, ao se casar, levou os pais para morarem com ele, e antes de irem embora fui presenteado com o potinho de louça onde ela sempre me servia algum doce. Era para que eu não a esquecesse. E ao rearrumar minhas coisas na casa nova, me vem lembranças de seres folclóricos, viagens de Maria Fumaça, ataques de abelha e a velha amiga, Dona Antônia. O pote cumpriu sua missão.

Até mais!

Vambora julgar!

O Juízo final – Michelangelo – Capela Sistina

Condenações e erros judiciais me remetem imediatamente ao caso dos irmãos Naves, em Araguari, MG. Dois irmãos, Sebastião e Joaquim Naves, foram acusados de matar um primo, Benedito Pereira Caetano. Dos detalhes criados pelo imaginário dos acusadores consta que o sujeito teria sido enforcado às margens do Rio das Velhas, sendo dependurado por uma corda, cada irmão segurando uma extremidade. A história é tensa, cheia da violência de que o ser humano é capaz de imaginar. Vou deixar abaixo o vídeo com o filme baseado na história, em memorável interpretação de Juca de Oliveira e Raul Cortez. E, caro leitor, por gentileza, não me julgue pelo “spoiler” (palavrinha horrorosa): o tal Benedito foi encontrado anos depois, vivinho da silva.

Essa história foi contada e recontada em minha família. Meus pais se conheceram e se casaram em Araguari, onde em seguida nasceu minha irmã mais velha. No colégio onde estudei em Uberaba trabalhou uma parenta dos Naves, Ana Rosa. O caso dos irmãos Naves sempre foi mote para a máxima de Jesus Cristo: “Não julgueis, e não sereis julgados” (Lucas 6:37). Longe de mim bancar o impoluto, sem erros. Julgar é ato reflexo. A gente se depara com a notícia e, conforme a extensão do espanto, vem a ânsia em julgar, ou melhor, em condenar! Mas seria possível exercitar uma refreada básica nos julgamentos? Difícil!

O que me move a escrever e refletir sobre o tema é o conhecimento. Aquele que não temos sobre o que, ou quem julgamos. Então, mais que a possibilidade do erro que, em si, já é terrível e também outro crime, é o que sabemos sobre aquilo sobre o qual sentenciamos. Há uma diferença imensa entre exigir apuração dos fatos, tomar medidas judiciais, aguardar solução cabível de autoridades competentes e pronunciar sentença. A questão se amplia com a força da Internet, já que os julgamentos precipitados podem gerar – há vários exemplos concretos – massacres de inocentes.

Em “Nada de novo no front”, o livro de Erich Maria Remarque que está com versão nos cinemas, um professor incita alunos a irem para a guerra. Ele mesmo não vai para as trincheiras. Nos tempos atuais, influenciar e incitar os outros parece ser ato comum e constante nas redes sociais. E as consequências, como no filme, pouco importam ao “influencer”. Dá-se o veredito permanecendo no raso, na margem, na aparência da capa, no disse-me-disse ouvido de não sei quem. No cotidiano da rede inventaram um tal “cancelamento”, pois, ao que isso indica, o maior sofrimento que se pode fazer ao outro na atualidade é condená-lo ao ostracismo. E os influencers seguem a vida, aguardando outra ação “condenável” para aumentar likes, seguidores, engajamento.

No cotidiano fora das redes outras verdades favorecem julgamentos e vereditos; talvez, o maior motor disso é a crença de que “só jesus salva” e estar “no lado certo da história”; a religião do outro é sempre a errada e o respeito só devo aos meus irmãos de fé. As religiões determinando comportamentos geram angus de caroço imensos, aceitos ou não pela “sociedade”. Aqui, entre aspas, para assinalar que quase sempre se usa a expressão “a sociedade não aceita” para se eximir de um “Eu não suporto tal coisa”. Já sobre o “lado certo da história”, resta dizer que será sempre o de quem fala. Esquerda, direita, centro, acima e abaixo, mais ou menos, o que diz o ideólogo do partido é o que é correto.

Enquanto escrevo me sinto mal. Critico o ato de julgar julgando e tento refletir, buscando discernir entre o que é crítica e o que é julgamento. No frigir dos ovos, repito, o que mais me incomoda é condenar sem conhecimento. E lá vai a bomba! Permita-se um mínimo de honestidade e responda sem consultar a imensa enciclopédia que é a internet:  O que é o Tibete? Quais são os hábitos e costumes principais do povo tibetano? Economicamente, como sobrevivem? Caracterize a geografia, cite as fronteiras e por aí vai… Enfim, sou ocidental e a atitude do Dalai-Lama me é assustadora. Taí um bom momento, prometo, para estudar o significado de Dalai-lama, sabendo que lama, no título do sujeito, é falso cognato.

Bom julgamento!

Nosso pai humano

Papai foi um menino – o da direita – que veio a se tornar o rapaz da foto sobreposta. Meu avô, Deolino, casou-se pela segunda vez com essa simpática Maria. Minha avó trouxe outros filhos do primeiro casamento. Papai foi caçula de uma família moldada nos velhos hábitos mineiros. Nasceu em Estrela do Sul (20/02/1924), mas mudou-se muito cedo para Araguari, ambas as cidades do Triangulo Mineiro. Saiu de lá casado e perambulou um pouco até fixar residência em Uberaba, onde faleceu em 21/05/2005.

O tempo é inexorável; coloca névoas sobre a memória, afasta impressões, guarda fatos desimportantes e transforma a história; reduzindo esta ao que é possível através de textos, fotos e outros materiais de que são feitas as lembranças. O respeito e o afeto, misturados com a saudade, levam-nos ao risco de sacralizar nossos entes queridos que são alçados à categoria de seres celestiais e assim, perde-se um pouco mais do ser humano.

Papai foi um ser humano. Responsável e, dentro das limitações impostas pelos hábitos machistas brasileiros, foi bastante carinhoso. Responsável aí, conduzindo minha irmã Walcenis no baile de formatura. Papai trabalhou duro para sustentar todos os filhos. A velha estrutura ainda mantida, mamãe trabalhava em casa – “do lar” – e papai era o mantenedor financeiro. Difícil mensurar todos os problemas e horas de preocupação para garantir o necessário para nosso sustento, saúde e, principalmente, educação.

Carinhoso, como nessa foto com Bibi, a Gabriela. Gosto da expressão de ternura de meu pai e recordo das vezes que me senti, como Bibi, protegido e seguro. O que mais gosto desta foto é a peculiaridade com que meu pai segura os braços da neta.  Não há um único dedo que não esteja tocando os bracinhos da menina. Carinho silencioso, manifestado em gestos discretos. Mineiro afeito ao silêncio, papai também manifestava carinho fazendo gangorras, estilingues, brincando com todo mundo.

Papai foi vaidoso. Sempre que possível e necessário envergava um bom terno. Até na praia o mineirinho não abria mão da elegância (Na foto menor, em Santos, com meu tio Ulisses). E gostava de ver minha mãe produzida, arrumadinha. Gosto de ver essa imagens de meu pai, bonitão. Recordo o dia da foto abaixo, na lambreta; lamento não ter uma imagem com ele dirigindo trator, caminhão, moto e  até bicicleta. Papai gostava de dirigir e de ganhar carona. Aposentado, papai saia dando voltas de ônibus pela cidade.

Nas bodas de ouro meus pais receberam de presente um retrato, pintura a óleo, feita por Salles Tiné.  Devidamente emoldurada, o quadro ganhou lugar de honra na sala e enquanto colocávamos o objeto na parede, papai disse: “-Estou parecendo o Juscelino Kubitschek.” Foi a melhor maneira de dizer que havia gostado, que estava feliz com o presente. Os mineiros entenderão melhor a comparação com o ex-presidente.

Recordo meu pai entre nós, sua família. E sentiremos sempre a sua ausência. Em dias dos pais, ou no dia do aniversário, papai sentava-se no sofá, ao lado do telefone, aguardando os telefonemas dos dois filhos distantes, meu irmão Valdonei e eu. Atendia brincando, comemorando “mais um” e após os telefonemas aguardava a visita dos netos, dos bisnetos, sempre com um pequeno rádio de pilhas, ouvindo música caipira.

As imagens são insuficientes e meu texto é precário diante do que foi o homem, o ser humano que, por destino, foi meu pai. Afeito como criança a peraltices, papai gostava de contar seus feitos em meio a incontido riso. Tudo o que representa e diz respeito a um pai é lembrado sempre; por mim, meus familiares, assim como para todos aqueles que estão ou não com seus pais. Desse tudo, o que mais sinto falta, é da voz e das risadas de papai. Dos momentos em que, alegre, contava alguma história e chorava de rir. Todavia, quando era necessário, papai dizia sério, com sua voz, cuja lembrança quero guardar para sempre:

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“- Pois não, sou Felisbino Francisco Rodrigues Resende; ao seu dispor!”

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Até mais!