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Papai foi um menino – o da direita – que veio a se tornar o rapaz da foto sobreposta. Meu avô, Deolino, casou-se pela segunda vez com essa simpática Maria. Minha avó trouxe outros filhos do primeiro casamento. Papai foi caçula de uma família moldada nos velhos hábitos mineiros. Nasceu em Estrela do Sul (20/02/1924), mas mudou-se muito cedo para Araguari, ambas as cidades do Triangulo Mineiro. Saiu de lá casado e perambulou um pouco até fixar residência em Uberaba, onde faleceu em 21/05/2005.

O tempo é inexorável; coloca névoas sobre a memória, afasta impressões, guarda fatos desimportantes e transforma a história; reduzindo esta ao que é possível através de textos, fotos e outros materiais de que são feitas as lembranças. O respeito e o afeto, misturados com a saudade, levam-nos ao risco de sacralizar nossos entes queridos que são alçados à categoria de seres celestiais e assim, perde-se um pouco mais do ser humano.

Papai foi um ser humano. Responsável e, dentro das limitações impostas pelos hábitos machistas brasileiros, foi bastante carinhoso. Responsável aí, conduzindo minha irmã Walcenis no baile de formatura. Papai trabalhou duro para sustentar todos os filhos. A velha estrutura ainda mantida, mamãe trabalhava em casa – “do lar” – e papai era o mantenedor financeiro. Difícil mensurar todos os problemas e horas de preocupação para garantir o necessário para nosso sustento, saúde e, principalmente, educação.

Carinhoso, como nessa foto com Bibi, a Gabriela. Gosto da expressão de ternura de meu pai e recordo das vezes que me senti, como Bibi, protegido e seguro. O que mais gosto desta foto é a peculiaridade com que meu pai segura os braços da neta.  Não há um único dedo que não esteja tocando os bracinhos da menina. Carinho silencioso, manifestado em gestos discretos. Mineiro afeito ao silêncio, papai também manifestava carinho fazendo gangorras, estilingues, brincando com todo mundo.

Papai foi vaidoso. Sempre que possível e necessário envergava um bom terno. Até na praia o mineirinho não abria mão da elegância (Na foto menor, em Santos, com meu tio Ulisses). E gostava de ver minha mãe produzida, arrumadinha. Gosto de ver essa imagens de meu pai, bonitão. Recordo o dia da foto abaixo, na lambreta; lamento não ter uma imagem com ele dirigindo trator, caminhão, moto e  até bicicleta. Papai gostava de dirigir e de ganhar carona. Aposentado, papai saia dando voltas de ônibus pela cidade.

Nas bodas de ouro meus pais receberam de presente um retrato, pintura a óleo, feita por Salles Tiné.  Devidamente emoldurada, o quadro ganhou lugar de honra na sala e enquanto colocávamos o objeto na parede, papai disse: “-Estou parecendo o Juscelino Kubitschek.” Foi a melhor maneira de dizer que havia gostado, que estava feliz com o presente. Os mineiros entenderão melhor a comparação com o ex-presidente.

Recordo meu pai entre nós, sua família. E sentiremos sempre a sua ausência. Em dias dos pais, ou no dia do aniversário, papai sentava-se no sofá, ao lado do telefone, aguardando os telefonemas dos dois filhos distantes, meu irmão Valdonei e eu. Atendia brincando, comemorando “mais um” e após os telefonemas aguardava a visita dos netos, dos bisnetos, sempre com um pequeno rádio de pilhas, ouvindo música caipira.

As imagens são insuficientes e meu texto é precário diante do que foi o homem, o ser humano que, por destino, foi meu pai. Afeito como criança a peraltices, papai gostava de contar seus feitos em meio a incontido riso. Tudo o que representa e diz respeito a um pai é lembrado sempre; por mim, meus familiares, assim como para todos aqueles que estão ou não com seus pais. Desse tudo, o que mais sinto falta, é da voz e das risadas de papai. Dos momentos em que, alegre, contava alguma história e chorava de rir. Todavia, quando era necessário, papai dizia sério, com sua voz, cuja lembrança quero guardar para sempre:

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“- Pois não, sou Felisbino Francisco Rodrigues Resende; ao seu dispor!”

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Até mais!