Os amigos do meu pai

 

papai e joão
Bino, o meu pai, e João Eurípedes Sabino

Recentemente conheci João Eurípedes Sabino, presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. A ideia do encontro partiu de Marta Zednik, quando em visita ao Arquivo Público de Uberaba. Um dia intenso. Depois de muitos anos estive na plataforma da antiga estação da Mogiana, hoje sede do Arquivo e, em seguida, fiquei frente a frente com o autor de uma bela homenagem ao meu saudoso pai, que publiquei aqui (clique para conhecer ou reler o texto).

Final de tarde. A sede da Academia está em um casarão na Rua Dr. Lauro Borges, de onde se vê os fundos e toda a lateral da majestosa Paróquia de São Domingos. O sol desce lentamente e inúmeras maritacas se acomodam em árvore no fundo da Igreja; o barulho é imenso, como se as pequenas aves comentassem o dia, ao mesmo tempo procurando aproximação de algum afeto, dando um “chega pra lá” em desafetos… Logo estarão silenciosas, mas enquanto executam a costumeira sinfonia somos recebidos pelo amigo do meu pai.

João Eurípedes Sabino, como autêntico mineiro, nos recebe cerimoniosamente. Com calma e delicadeza nos leva até uma pequena sala de estar, oferece-nos um confeito e, antes de qualquer coisa, silenciosamente me observa para, em seguida, dizer a frase que é sonho de todo e qualquer filho: “- Como você se parece com seu pai! É como se eu estivesse conversando com o Bino”. De leitor agradecido torno-me amigo e, posso afirmar, minha irmã Walcenis, acompanhando-me na visita, sentiu o mesmo.

Walcenis, eu e João
Um registro do nosso encontro.

Papai fez muitos amigos. Felisbino Francisco Rodrigues de Resende fez poucos conhecidos, mas o Bino… Com o apelido era identificado praticamente em todos os cantos da cidade. Eu gostava muito de desembarcar na rodoviária e, ao tomar taxi, dizia o endereço complementando “sou filho do Bino”; aí, não precisava dizer exatamente onde era minha casa. O motorista, como João Eurípedes Sabino, tinha praticado tiro ao alvo que tornou papai conhecido.

É o próprio João que recorda locais onde papai trabalhou. Durante uma fase da vida ele colocou a barraca de tiro em quermesses e praças da cidade. Depois, construiu um parque de diversões – sim, meu pai construiu um parque inteiro, brinquedo a brinquedo, no quintal da minha casa – com o qual percorreu todos os bairros de Uberaba e de algumas cidades da região. Depois, já próximo da aposentadoria, vendeu o parque e voltou a trabalhar só com a barraca de tiro, permanecendo vários anos instalado no bairro da Abadia.

João Eurípedes escreveu: “Bino, autêntico amigo das crianças”. Provavelmente João não sabe que meu pai presenteava toda criança que aparecia em casa com um estilingue. Tinha sempre o material necessário e, quando a visita chegava, papai ia até a oficina para fazer o brinquedo, quando não o tinha pronto. Mas penso que meu pai soube fazer e manter amigos, vide as homenagens recebidas pela comunidade do bairro Boa Vista (Veja a Turma do Campinho) ou por toda a cidade (Veja a Rua do Bino). A prova maior da longevidade das amizades do Bino esteve ali, em momento de rara emoção, no encontro que tivemos com o João, amigo de tantas décadas.

O dia dos pais próximo e eu pensando em meu pai. Antes de terminar a visita, João Eurípedes levou-nos a conhecer todas as dependências da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Falou-nos do Padre Prata, que um dia chamei de Pratinha, conversamos sobre Décio Bragança, com quem aprendi a gostar de literatura, e lembramos momentos da vida de Mário Palmério, homenageado no busto defronte ao casarão. Trocamos lembranças, fizemos fotos e João me incumbiu de uma tarefa, referindo-se ao artigo publicado em 03 de Junho de 2005, no Jornal da Manhã, de Uberaba: – O que fazer com esses três amigos? Como dar continuidade a essa história?

Ah, meu caro João Eurípedes Sabino! Tarefa difícil, ao mesmo tempo adorável. Prometo buscar, cada vez mais, parecer-me com meu pai. Sobretudo quero fazer amigos, tantos quanto ele os fez. E quando eu tiver algum obstáculo nesse intento, se por acaso encontrar alguma dificuldade intransponível, voltarei à Uberaba e te pedirei socorro, pois em você vi muito do mineiro que meu pai foi e outro tanto dessa qualidade rara que é fazer amigos.

Feliz dia dos pais, meu pai!

Feliz dia dos pais, João Eurípedes Sabino!

Até mais.

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Três Amigos

Em 3 de junho de 2005 minha família foi surpreendida por uma crônica de João Eurípedes Sabino publicada no Jornal da Manhã, de Uberaba, Minas Gerais.  Um texto emocionado e emocionante dedicado a três amigos do autor; um deles foi o nosso pai.

João Eurípedes Sabino foi um dos inúmeros amigos do meu pai. Transcrevo abaixo o belo texto de alguém que não frequentava a minha casa;  faço questão em afirmar isso para evidenciar a absoluta espontaneidade do autor.

TRÊS AMIGOS

João Eurípedes Sabino (*)

Se um dia me forem tiradas as atividades que tenho, uma delas peço a Deus seja a última. Depois dela… seja o que Ele quiser. Refiro-me à oportunidade que tanto prezo de estar toda semana nesta folha. Este espaço tem me proporcionado emoções que aqui não consigo descrevê-las.

Há algo que de algum tempo tenho notado: fotos de pessoas amigas cujas famílias nos comunicam os seus falecimentos. É difícil uma semana sem que um amigo próximo ou mesmo um distante conhecido não tenha aqui o seu retrato em cumprimento à suprema Lei Universal de Separação.

Na última semana fui impactado com fotos de três pessoas idas nos mesmos dias cujo existir de cada uma eu tive a prerrogativa de participar “em passant”. Melhor dizendo; em minha vida é que existe a marca dos três. Djalma Alves da Silva, Felisbino Francisco Rodrigues Resende (Bino) e Luiz Humberto Batitucci estavam em pleno vigor da vida quando eu era um ilustre e desconhecido adolescente. Já faz quatro décadas.

Djalma, no Correio Católico, depois inspetor de trânsito e guarda civil, ensinou-me junto a outros valiosos colegas seus a honrar o uniforme, agir e me conduzir como guarda mirim. Luiz mostrou-me o caminho de como chegar até aquela corporação. Derrubei muitas latas e patinhos para ganhar prêmios no tiro ao alvo do Bino, autêntico amigo das crianças.

Sempre (desde a infância) tive pessoas boas no meu caminho. Os três que encontrei nesse caminho, posso dizer que cumpriram bem o papel a eles confiado. Eram preocupados em deixar boas lições e deixaram. Ainda bem que eu fui esperto e anotei os seus exemplos.

A dupla sertaneja Silveira e Nicanor (já falecidos) canta uma música com o título: “Estou ficando tão só”. Não quero achar que o cancioneiro esteja falando comigo, mas a última semana me fez pensar muito naquela letra. Três distintos amigos meus “viajaram”.

Zote dizia: “Depois de uma certa idade, de cada quatro amigos lembrados, três sempre já se foram. Não sobra uma chance para o último, a não ser partir também”. Zote, eta Zote…

Espero não ter surpresas hoje, embora eu lamente por todos os que se despediram e estejam ao lado ou embaixo nesta página. Este texto foi escrito com certa antecedência e jamais eu saberia qual ou quais amigos teriam nos deixado fisicamente nesses dias ou nesta data.

Quero que Deus me seja generoso, atendendo-me. Ao levar meus amigos, que a “convocação” os encontre trabalhando pelo bem da humanidade.

Djalma, Bino e Luiz eram obreiros.

(*)do Fórum Permanente dos Articulistas de Uberaba e Região.

Esta foi uma, entre as homenagens feitas à memória de meu Pai que, nesta semana, mais uma vez será lembrado oficialmente pela cidade que tanto amou. Falarei sobre isto no próximo post. Por enquanto, fica a crônica, com uma face de Felisbino Francisco Rodrigues de Resende através de um, entre tantos amigos que fez por aqui.

Mais uma vez, em nome de toda a família, minhas homenagens e agradecimentos ao ilustre autor, João Eurípedes Sabino, que é membro da Academia de Letras do Triangulo Mineiro, onde ocupa a cadeira de número 32. Conheça outros dados desse uberabense, clicando aqui.

Até mais!

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Nosso pai humano

Papai foi um menino – o da direita – que veio a se tornar o rapaz da foto sobreposta. Meu avô, Deolino, casou-se pela segunda vez com essa simpática Maria. Minha avó trouxe outros filhos do primeiro casamento. Papai foi caçula de uma família moldada nos velhos hábitos mineiros. Nasceu em Estrela do Sul (20/02/1924), mas mudou-se muito cedo para Araguari, ambas as cidades do Triangulo Mineiro. Saiu de lá casado e perambulou um pouco até fixar residência em Uberaba, onde faleceu em 21/05/2005.

O tempo é inexorável; coloca névoas sobre a memória, afasta impressões, guarda fatos desimportantes e transforma a história; reduzindo esta ao que é possível através de textos, fotos e outros materiais de que são feitas as lembranças. O respeito e o afeto, misturados com a saudade, levam-nos ao risco de sacralizar nossos entes queridos que são alçados à categoria de seres celestiais e assim, perde-se um pouco mais do ser humano.

Papai foi um ser humano. Responsável e, dentro das limitações impostas pelos hábitos machistas brasileiros, foi bastante carinhoso. Responsável aí, conduzindo minha irmã Walcenis no baile de formatura. Papai trabalhou duro para sustentar todos os filhos. A velha estrutura ainda mantida, mamãe trabalhava em casa – “do lar” – e papai era o mantenedor financeiro. Difícil mensurar todos os problemas e horas de preocupação para garantir o necessário para nosso sustento, saúde e, principalmente, educação.

Carinhoso, como nessa foto com Bibi, a Gabriela. Gosto da expressão de ternura de meu pai e recordo das vezes que me senti, como Bibi, protegido e seguro. O que mais gosto desta foto é a peculiaridade com que meu pai segura os braços da neta.  Não há um único dedo que não esteja tocando os bracinhos da menina. Carinho silencioso, manifestado em gestos discretos. Mineiro afeito ao silêncio, papai também manifestava carinho fazendo gangorras, estilingues, brincando com todo mundo.

Papai foi vaidoso. Sempre que possível e necessário envergava um bom terno. Até na praia o mineirinho não abria mão da elegância (Na foto menor, em Santos, com meu tio Ulisses). E gostava de ver minha mãe produzida, arrumadinha. Gosto de ver essa imagens de meu pai, bonitão. Recordo o dia da foto abaixo, na lambreta; lamento não ter uma imagem com ele dirigindo trator, caminhão, moto e  até bicicleta. Papai gostava de dirigir e de ganhar carona. Aposentado, papai saia dando voltas de ônibus pela cidade.

Nas bodas de ouro meus pais receberam de presente um retrato, pintura a óleo, feita por Salles Tiné.  Devidamente emoldurada, o quadro ganhou lugar de honra na sala e enquanto colocávamos o objeto na parede, papai disse: “-Estou parecendo o Juscelino Kubitschek.” Foi a melhor maneira de dizer que havia gostado, que estava feliz com o presente. Os mineiros entenderão melhor a comparação com o ex-presidente.

Recordo meu pai entre nós, sua família. E sentiremos sempre a sua ausência. Em dias dos pais, ou no dia do aniversário, papai sentava-se no sofá, ao lado do telefone, aguardando os telefonemas dos dois filhos distantes, meu irmão Valdonei e eu. Atendia brincando, comemorando “mais um” e após os telefonemas aguardava a visita dos netos, dos bisnetos, sempre com um pequeno rádio de pilhas, ouvindo música caipira.

As imagens são insuficientes e meu texto é precário diante do que foi o homem, o ser humano que, por destino, foi meu pai. Afeito como criança a peraltices, papai gostava de contar seus feitos em meio a incontido riso. Tudo o que representa e diz respeito a um pai é lembrado sempre; por mim, meus familiares, assim como para todos aqueles que estão ou não com seus pais. Desse tudo, o que mais sinto falta, é da voz e das risadas de papai. Dos momentos em que, alegre, contava alguma história e chorava de rir. Todavia, quando era necessário, papai dizia sério, com sua voz, cuja lembrança quero guardar para sempre:

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“- Pois não, sou Felisbino Francisco Rodrigues Resende; ao seu dispor!”

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Até mais!