Restaurar e manter. Uberaba merece!

Uberaba, onde nasci, investe em turismo no ano em que comemora 200 anos. Entregou ontem, de uma só vez, duas atrações em praças distintas: Na Praça Rui Barbosa, um pequeno conjunto escultórico composto por um banco e uma estátua de Chico Xavier, o líder espírita que escolheu a cidade para viver e desenvolver seu trabalho. Na Praça da Mogiana, a Maria Fumaça restaurada.

Estive na Praça da Mogiana, em 2019, em visita ao Arquivo Público Municipal, na companhia de Vanda Spinola e minha irmã, Walcenis, quando conheci Marta Zednick e, por meio dela, João Eurípedes Sabino. Registrei, e está aí abaixo, ao lado da locomotiva restaurada, o estado em que essa se encontrava. Aniversário relevante, ano de eleição e Zás! Encontraram verbas para restaurar o que a própria prefeitura deixou corroer pelo tempo.

As Marias Fumaças, locomotivas movidas a lenha, me são caras. Carregam lembranças de meu avô, tios, primos, amigos… difícil, de pronto, identificar todos, recordar toda essa gente. Maquinista era o nome pelo qual identificávamos o condutor. Foguista era o ajudante, espécie de co-piloto, encarregado de abastecer a imensa fornalha com lenha, garantindo a energia necessária para movimentar a pesada máquina.

A viagem mais longa que fiz, a composição puxada por uma Maria Fumaça, foi para Araguari. Mamãe Laura, nossa vizinha D. Antônia e eu. Saímos bem cedinho de Uberaba para visitar meus avós paternos. Imensa excitação da criança, com cerca de cinco anos, pendurada na janela do vagão, observando o fumacê da máquina que, anos depois, ritmicamente rodando no que ficaria marcado no poema de Ascenso Ferreira:

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…

Lá pelas tantas, o trem para. As rodas dianteiras da máquina patinando sem conseguir puxar a composição. O foguista, com paciência de Jó, desce com um recipiente cheio de areia e vai despejando em um trilho, depois no outro. Faz isso por poucos metros, a vasilha é pequena. A Maria Fumaça avança pelos trilhos cobertos de areia para voltar a patinar nos trilhos limpos. Repete-se a operação por várias vezes até que, terminada a pequena elevação a ser vencida, o trem volte a seguir, daí pra sempre sem percalços.

Olimpio Elias, casado com Dirce, prima de minha mãe, trabalhava na Mogiana. Era maquinista, conforme minha lembrança. Pilotando uma Maria Fumaça fazia manobras no imenso pátio da estação de Uberaba. Desmembrava composições de carga, armava composições de passageiros. Terminado o trabalho, guardava a locomotiva na imensa gare, a casa das máquinas, já nas imediações do primeiro posto após Uberaba, Amoroso Costa.

Os horários eram estranhos, não sei o motivo. Sei que levávamos – os filhos dele, eu e meu irmão – refeições, particularmente o jantar. Tanta gente por uma marmita tinha sua razão de ser. Subíamos até o compartimento dos condutores da Maria Fumaça e acompanhávamos todas as manobras, apitávamos, jogávamos lenha na fornalha. Era comum que Olímpio conduzisse a máquina até a oficina, garagem e local de manutenção. Íamos, felizes, sem reclamar da longa caminhada de volta às nossas casas.

As Marias Fumaças, todas as expostas ao longo das cidades por onde trafegaram, são mais que relíquias históricas. São parte da história de muita gente. Olímpio e Dirce, que já faleceram, tiveram nove filhos e muitos, muitos netos! Meus primos, cujos avós e pais trabalharam na Mogiana, estão aí. Andam de carro, avião, ônibus… Certamente há, entre eles, gente como eu que olha com saudade para a Maria Fumaça que, presa em meio à praça, mantém vivas as nossas lembranças.

Espero que a próxima gestão municipal garanta a manutenção da máquina restaurada. Que não a deixem sem o cuidado fundamental para que mantenha viva a história de quem a utilizou. O mesmo trabalho de manutenção, espero, seja dado ao conjunto com a escultura de Chico Xavier.

Estive, com meu irmão Agostinho Hermes, visitando o Memorial dedicado ao Médium. Ficamos decepcionados por verificar a falta de manutenção do local (visitado em janeiro deste 2020!). Para uma construção tão recente, já que o Memorial foi inaugurado em 2016, não deveria estar com vidros quebrados, tinta descascando, descorada. Li, já aqui em São Paulo, durante a pandemia, que a reforma do local estava com problemas por conta da quarentena. Espero que tenha sido concluída.

Ano eleitoral, colocaram o Chico na praça; vai ver deram um jeito no Memorial, assim como garantiram a restauração da Maria Fumaça. Vou insistir: é preciso criar mecanismos de manutenção do patrimônio público, para que permaneça sempre limpo, em perfeito estado de funcionamento, garantindo a alegria de moradores e turistas. Uberaba merece.

Até mais!

O que falta para quem destrói estátuas?

Brinquei de ser amigo de João Cabral...
Brinquei de ser amigo de João Cabral…

Tenho profundo respeito e admiração por alguns artistas pernambucanos. Uma paixão que vem da adolescência quando, através da música de Chico Buarque, conheci a poesia de João Cabral de Melo Neto. Muito antes disso recordo, bem criança, minha mãe cantando Luiz Gonzaga. Quando comecei a gostar de Maria Bethânia conheci a música de Antonio Maria e ao curtir Alceu Valença ganhei também a poesia de Ascenso Ferreira. Já Manuel Bandeira entrou em minha vida quando, cansado desta mesma vida, sonhei ir-me embora para Pasárgada.

Fiquei pensando no que diria a Antonio Maria...
Fiquei pensando no que diria a Antonio Maria…

Quem já passou por Recife sabe da reverência com que são tratados os artistas pernambucanos pela gente da terra. Nas ruas da cidade velha estão singelas homenagens aos grandes artistas através de belos e singelos conjuntos escultóricos; lembram ao transeunte que tal local, por um ou outro aspecto, está na obra do artista homenageado.

Estive por lá em janeiro e entre meus desejos particulares era visitar essas estátuas. Fiquei pensando no que diria a Antonio Maria… Brinquei de ser amigo de João Cabral…  E perto de Bandeira, manifestei desejos de Bandeira:

ruas de recife manuel bandeira

“…Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare…”

Numa noite quente, como só acontece em Recife, saímos à cata de frevo, festa e, sem medo da felicidade, arriscamos ir de trem. Saindo da estação nos deparamos com o velho e grande Lua! Só podia ser ele, Luiz Gonzaga, saudando viajantes de todos os recantos e tempos. Confesso que fiquei chateado e, mesmo com receio do local desconhecido (desculpem a foto ruim!) quis registrar o descaso com a escultura do querido músico. A estátua de Lua estava em estado precário.

ruas de recife luismontagem

Nesta semana veio a notícia da destruição da estátua de Gonzaga e de Ascenso, atitude de vândalos que, certamente desconhecem a poesia de Ascenso e a música de Gonzaga. Só posso acreditar que não conheçam, pois caso contrário fica totalmente inaceitável tal atitude. O que escrever perante gestos estúpidos? Qual pena seria eficaz para tamanha idiotice?

Comecei o ano de 2012 com a poesia de Ascenso Ferreira (Veja todo o post aqui) e citei versos geniais:

Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar! 

Foi relembrando tais versos que matei a charada. Certamente, os imbecis que destruíram as estátuas não sabem vadiar… Se é que estou sendo claro. Pra essa gente falta uma boa e gostosa vadiagem. Onde estejam Ascenso e Gonzaga, devem estar rindo e afirmando em verso e melodia: – Essa gente precisa vadiar!

E que as autoridades façam seu trabalho!

 

Até mais!

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Um 2012 com a “filosofia” de Ascenso Ferreira

Acredita-se que Darma é recompensa por boas ações. Eu acredito. Por exemplo, fiz alguma coisa legal e por isso só aparece pernambucano gente fina na minha vida. Tem o Octavio Cariello, a Zulina de Lira, o Renato Menezes, a Andrea Rezende… o Alceu Valença, sua música fantástica e o Ascenso Ferreira.

O poeta em escultura do piauiense Demétrio Albuquerque Silva Filho

Alceu e Ascenso combinam bem, embora o segundo tenha falecido em 1965.  Quem conhece a música de Alceu sabe da poesia de Ascenso:

Zabumba de bombos,
Estouro de bombas,
Batuques de ingonos,
Cantigas de banzo,
Rangir de ganzás…

          — Luanda, Luanda, onde estás?
          Luanda, Luanda, onde estás?

Quem cantou “Maracatu”, com o ritmo contagiante de Alceu, celebrou a poesia do modernista pernambucano. Poemas marcantes, em ritmos e vozes marcantes, como a da baiana Maria Bethânia que somou Ascenso Ferreira + Ferreira Gullar + Heitor Villa Lobos resultando em um irresistível “Trenzinho Caipira”:

Vou danado pra Catende

Vou danado pra Catende

Vou danado pra Catende

Com vontade de chegar

Lá vai o trem com o menino

Lá vai a vida a rodar

Lá vai ciranda e destino

Cidade noite a girar…

Eu, que busco melhorar sempre, resolvi escolher a poesia de Ascenso Ferreira para nortear meu 2012. O poeta escreveu um poema, “Filosofia”, que resume tudo o que eu quero para este novo ano:

Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?
— Pernas pro ar que ninguém é de ferro! 

E porque amo demais todos os meus familiares e amigos, estendo a estes essa simples e maravilhosa “Filosofia”. Vamos celebrar um ano com essa filosofia do pernambucano que não conheci pessoalmente, mas que curto tanto quanto os conterrâneos do poeta de Palmares, acima citados.

Feliz 2012 para todo mundo!

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