Alguns detalhes sobre Altamiro Carrilho

Antes dos primeiros versos de “Detalhes” é o inesquecível som de uma flauta que faz com que identifiquemos a canção. Altamiro Carrilho faz uma abertura brilhante para aquela que está entre as maiores canções da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Nem sempre nos damos conta do quanto um instrumentista importa em nossas vidas; mas não dá para imaginar “Detalhes” sem aquele som simples, tão característico, evocando toda uma situação mágica e encantadora, precedendo a interpretação impecável de Roberto Carlos (Clique para ouvir).

Em 1971 Altamiro Carrilho participou da gravação de “Detalhes”. No mesmo ano, no VI Festival Internacional da Canção, a banda de Altamiro dá um maravilhoso suporte para Wanderléa. Cantando “Lourinha”, de Fred Falcão e Arnoldo Medeiros, Wanderléia deixava evidente que já estava longe da Jovem Guarda, interpretando este gracioso chorinho com o acompanhamento preciso e virtuoso de Carrilho.

Com Roberto Carlos e Wanderléa conheci o flautista genial que foi Altamiro Carrilho. Tão genial que me levou a fantasiar que a flauta foi um instrumento criado para solo de chorinhos, maxixes, marchinhas… Altamiro Aquino Carrilho (21/12/1924) começou a carreira em 1949, gravando com Moreira da Silva. “Brasileirinho” (Waldir Azevedo e Pereira Costa) e “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo) são gravações antológicas, tanto quanto “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu), só para citar alguns registros instrumentais.

Certamente a música “Detalhes” está entre as mais executadas nas emissoras de rádio e tv do Brasil. Não é só; Altamiro Carrilho está presente também em outros grandes sucessos; é difícil imaginar “Meu caro amigo” (Chico Buarque e Francis Hime) sem o flautista; e na gravação original da trilha do seriado Gabriela, é ele a dar um colorido especial, enriquecendo a interpretação de Gal Costa

O que e o quanto mais temos de Altamiro Carrilho em nossas vidas, na música brasileira? Se acontecer uma pesquisa aprofundada é certo que encontraremos muito mais do músico que faleceu, aos 87 anos, nesse 15 de agosto. Será um encontro com gente do nível de Pixinguinha, Vicente Celestino, Caetano Veloso, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Jacó do Bandolim, Clara Nunes e mais, de outro universo onde estão Bach, Beethoven, Chopin… Muito, muito grande esse Altamiro Carrilho.

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Até!

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Nota: o falecimento de Altamiro Carrilho foi destaque em toda a imprensa. O G1 apresentou uma seleção de entrevistas que valem uma visita; clique aqui para acesso aos vídeos.

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O Papa Alemão e o Pintor Judeu

Mundo pequeno, “mundo veio e sem portera” como é dito lá em Minas. Sem porteiras, cercas, divisões. Culturalmente são tantas as barreiras! Há uma brutal divisão econômica, entre os poucos ricos e os muito pobres; há divisões religiosas, onde cada grupo reivindica para si a correta interpretação da verdade divina. E há barreiras geográficas, temporais, afetivas…  O tal “mundo veio” tem mais “portera” que mundo; por isso me sensibilizou tanto um pronunciamento do Papa Bento XVI sobre “Deus, arte e beleza” (Sim, eu leio o que o Papa escreve! hehehehe).

Chagall - Judeu a Rezar (O Rabi de Vitebsk), 1914, óleo sobre tela, 104 x 84 cm Veneza, Museo d'Arte Moderna

Primeiro fiquei interessado no que o Papa diria sobre arte. E gostei! “A arte é capaz de expressar e tornar visível a necessidade do homem de ir além do que se vê, manifesta a sede e a busca pelo infinito. Na verdade, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e uma verdade que vão para além do cotidiano. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, direcionando-os para o alto.”

Vivendo no Vaticano – e quem já esteve por lá sabe que a gente tropeça em obras de arte por todos os corredores, nas paredes, no chão, no teto – não é difícil entender a familiaridade de Sua Santidade com o tema. O próprio é pianista e manifesta preferência por Mozart e Bach. Obviamente, ao exemplificar suas posições estéticas, Bento XVI foi para a grande herança católica: as grandes catedrais góticas e as imensas igrejas românicas. Surpresa boa foi o grande líder religioso ir além das fileiras católicas, citando dois artistas judeus.

Um concerto do luterano Bach foi regido pelo maestro Leonard Bernstein. O Papa confessou uma experiência estética singular ao ouvir a música de Bach sob a regência do americano Bernstein, judeu ucraniano na origem. Até ai, tudo bem, já que tradicionalmente a música não respeita fronteiras ideológicas, religiosas ou políticas. A boa música atravessa gostos e preferências pessoais atingindo o âmago do individuo de qualquer idade ou raça. A surpresa maior veio com outra citação do Papa, lembrando o pintor Marc Chagall.

Chagall, A Crucificação
Chagall, A Crucificação Branca, 1938 óleo sobre tela, 155 x 140 cm Chicago, The Art Institute of Chicago

Textualmente, o Papa escreveu: “… quantas vezes quadros ou afrescos, fruto da fé do artista, nas suas formas, nas suas cores, na sua luz, nos levam a dirigir o pensamento a Deus e fazem crescer em nós o desejo de chegar à fonte de toda a beleza. Permanece profundamente verdadeiro o quanto escreveu um grande artista, Marc Chagall, que os pintores por séculos tingiram os seus pincéis naquele alfabeto colorido que é a Bíblia”.

Marc Chagall, judeu por excelência, tem o reconhecimento de um Papa alemão, que viveu de perto os horrores do nazismo. (O Papa foi obrigado a alistar-se, tendo desertado antes do final da guerra). Muitos afirmarão que Chagall não careceria de reconhecimentos específicos, uma vez que a comunidade artística inteira respeita seu legado, tendo reconhecido-o em vida. O que conta, aqui, é a quebra de barreiras, a união entre os povos.

Chagall, A Queda do Anjo, 1923-1947, óleo sobre tela, 148 x 189 cm Basileia, Kunstmuseum

Bento XVI, sendo alemão de origem, entende a importância de seus gestos perante o povo judeu. Certamente é por isso que foi o primeiro pontífice a visitar um museu judaico e, em seus textos, apareçam as agradáveis lembranças de um Bernstein ou de um Chagall. Gosto da idéia de um Papa quebrando barreiras, derrubando porteiras. Muito bom saber que uma das maiores barreiras mundiais – a língua – tenha sofrido um duro golpe através de ato atribuído a ele: quando ainda sacerdote, durante o Concílio Vaticano II, o futuro Papa apresentou a proposta da realização da missa em língua local em vez de latim.

Bravo, Santidade! Que a arte contribua para seres humanos assim, dispostos a quebrar obstáculos, a unir toda a gente.

Está um texto grandinho para uma segunda-feira. Todavia, vale a pena alardear todos os atos, mesmo que pequenos, que unem os povos desse planeta.

Paz para todos!

Nota: O texto original do Papa Bento XVI foi publicado no dia 31 de agosto, através de boletim da sala de imprensa da Santa Sé.