A carretilha e os nossos quintais

Os quintais já foram lugares mágicos. Cheios de vida e movimento, ensaiando-nos para o que viria a ser a rua, o bairro, a cidade e o mundo todo. Uma colmeia aqui, uma casa de marimbondos ali, um formigueiro que teimava em aparecer acolá, a riqueza de acontecimentos de um quintal era imensa. Território de Shakespeare, nosso cãozinho vira-lata que defendia seu espaço dos gatos da vizinhança. Variados pássaros visitavam pés de frutas e canários e curiós eram tratados com desvelo pelo meu irmão.

Além do nosso quintal, outros também permanecem na memória. Na casa de uma tia, em Ribeirão Preto, havia um chiqueiro onde presenciamos o milagre da vida quando da chegada de vários porquinhos nascidos em uma única tarde. Em outro quintal, em Campinas, a magia era de frutas raras lá em Uberaba: maçã verde e romã. Uma pequena mostra se comparada com a imensa variedade de verduras e frutas da horta e do pomar de meu avô, ou do vizinho ao lado, com amoras, goiabeiras, mamoeiros.

Acima dos limites do quintal havia o céu. E a gente achava que estava nas alturas quando, escondidos dos adultos, brincávamos sobre os telhados. Dali se via longe, muito longe para nossos primeiros anos. Abaixo, sob nossos pés, tínhamos a certeza de mistérios. Até poderia ser algum tesouro, desses dos contos de fadas. Com certeza, a terra recebia nossas fezes e urinas, feitas em “casinha” separada do corpo da casa. E de outro lado do quintal retirávamos de um profundo poço água, ação facilitada com o uso de uma carretilha.

Puxar um balde cheio de água é tarefa árdua, facilitada por essa peça comum que, hoje, tornada peso de papel em minha mesa guarda histórias e a lembrança de meu pai. Nunca soube que a invenção da nossa carretilha foi de um tal Arquimedes, lá na Grécia. A nossa foi feita pelo meu pai, que era craque em pegar coisas e transformá-las, fazendo outras coisas. Quando necessário, ligava a forja e após aquecer o metal, dava-lhe a forma desejada com muitas marteladas e um esmeril.

Não tenho a noção da distância entre o poço de onde extraíamos nossa água  e a fossa onde fazíamos necessidades. Graças aos céus crescemos com saúde e, em pouco a água veio canalizada, assim como o sistema de esgotos chegou até o nosso bairro. Com essas novidades foram embora os medos de cair nos dois profundos buracos do nosso quintal. Cair em um deles era a sorte entre morrer afogado na água ou, literalmente, cair na merda.

Hoje entendo a diferença entre poço e cisterna, esta feita para reservar água da chuva. Chamávamos de cisterna, o buraco revestido com uma camada de tijolos, o que impedia deslizamento de terra tornando a água barrenta. Puxando água com apoio da carretilha vinha água para o banho de todos, para que nossas roupas fossem lavadas, e após fervida, ser utilizada para a comida, refrescada em filtro ou pote de barro para nosso consumo.

Depois foram sumindo as árvores frutíferas, os canteiros de verduras, os jardins. Tudo em favor de cimento e de uma duvidosa “limpeza”. É mais higiênico, dizem. O calor aumentou e sobra, para quase todo mundo, esconder-se dentro de casa e apelar para o ar-condicionado. Nos quintais, vasos tentam substituir a terra e só fazem mesmo é dar vida limitadas pelo espaço restrito, pela pouca e rasa terra.

Do quintal da minha antiga casa guardo uma carretilha. Pesada e, bem feita, ainda em perfeito funcionamento, embora eu não tenha nada a puxar, exceto as lembranças. Essas, não carecem de esforço nenhum para virem à tona. Fluem com um mero olhar, intensificam-se no tato, no cheiro característico do ferro, no peso do tempo incapaz de causar esquecimento.

Valdo Resende ( Este texto é da série “Cacarecos, badulaques e bugigangas”. )

Vavá e o copo campeoníssimo

O que permanece na lembrança quando se tem três anos de idade? Será que a história fixada na nossa mente é real ou alimento oriundo de conversas alheias, registros diversos, ou de acontecimentos similares posteriores. O certo, certíssimo, é que em 1958 eu completei três anos.

Quando o Brasil começou a trajetória rumo à primeira Copa do Mundo, ganhando de 3 x 0 da Áustria no dia 08 de junho, ainda faltavam dez dias pra que eu completasse meus três aninhos. O fato é que essa data lembra um hábito lá em casa, meu pai indo para o quintal soltar fogos à cada gol brasileiro. Sem foguetório no dia 11/06, quando o Brasil empatou com a Inglaterra e duas sessões de estrondos no quintal pelos 2 x 0 contra a União Soviética no jogo seguinte, dia 15.

Para uma criança prestes a completar três anos deveria ser, no mínimo, uma situação intrigante. “Onde vim parar?”, pensaria o pequerrucho vendo um monte de gente aboletada em volta de uma caixa, de onde saia a voz de um sujeito falando “feito louco, alucinado e criança” e, num dado momento, todos berrando “gol” e o chefe da casa correndo para o quintal e, junto à vizinhança, enchendo o céu de estrondos festivos.

Será que festejaram meu aniversário em 18 de junho de 1958? Ou deixaram de lado, já que dia seguinte, o Brasil jogaria com o País de Gales? E ganhou, de 1 x 0 como ganhou em seguida os dois últimos jogos, fazendo 5 gols na França e outros 5 na Suécia. Que fartura! Bom lembrar que fazíamos 5 gols nos adversários.

Daquela Copa na minha vida permaneceu um copo! De todos os cacarecos de ocasião para consumo de torcedores, herdei um copo autêntico, virgem – relíquia que veio a ser – desde quando o Brasil se sagrou Campeão Mundial de Futebol. Não recordo bulhufas sobre quem adquiriu, quem era o verdadeiro dono, quanto custou, onde foi comprado. Estava entre os objetos pertencente aos meus avós, Maria e José, e tendo o Vavá no “plantel canarinho”, pedi e recebi como herança.

Provavelmente minhas recordações da Copa do Mundo sejam mais as de 1962, quando euzinho completei 7 anos e ganhei de véspera o Bicampeonato, no Chile. Véspera, pois o jogo final foi no dia 17 de Junho! (lembra, faço no dia 18!). O Brasil fez três gols na Tchecoslováquia. O primeiro gol do Amarildo, o segundo do Zito e o terceiro foi de quem? De quem? Do Vavá! Viva o Vavá!

Dessa segunda Copa guardei e alimento carinho por Garrincha, Amarildo, Vavá e o fabuloso Gilmar! Já escrevi por aí que foram os primeiros jogos que vi pela televisão. Um vizinho colocava um aparelho na porta do bar e no começo da noite a vizinhança corria para ver a exibição dos jogos. Na minha cabeça de menino, sem qualquer informação sobre os recursos de repetição, achava que o Brasil jogava duas vezes no mesmo dia. E, melhor, ganhava nos dois jogos! Naquela tela cheia de chuviscos, a figura de Gilmar se sobressaia e eu aprendi a amar os dribles de Garrincha.

Meu copo amarelinho guarda lembranças dos melhores anos da minha infância. Aos quinze anos, novamente na véspera do meu aniversário, vi com olhar adolescente o Brasil vencer a Itália obtendo o tricampeonato de 1970. Havia o burburinho de coisas acontecendo no país do “ame-o ou deixe-o” que não couberam no meu copo. Assim como foi com outro olhar, mesmo sem conter a alegria, que vi o país vencer em 1994 e em 2002. Outros tempos, outros esquemas muito distantes dos dois primeiros campeonatos.

Olhando para o copo, escolhendo melhores imagens para compartilhá-lo com quem me honra lendo esse blog, sinto-me obrigado a encarar o tempo, a vida: No quesito esporte sempre fui um perna de pau, como dizem daqueles que não jogam bem o futebol. E, para ser honesto, quando criança ninguém lá em casa me chamava por Vavá. Era Cido, Cidinho e, por ser um ranzinza precoce ganhei o apelido de Jiló.

Selma da Matta, uma querida amiga, foi a primeira a me fazer gostar de ser chamado de Vavá. Tinha resistência ao apelido, provavelmente por não me ver como o Vavá da nossa seleção. Fiz as pazes com o apelido já adulto. Já sabia então o motivo de, ao dizer meu nome, perguntarem se eu me chamava Edvaldo. Era por conta do Vavá, Edvaldo Izídio Neto. Marcou cinco gols em 1958 e mais quatro em 1962. Bicampeão! O Leão da Copa, como foi chamado, está entre poucos que marcaram gols em final de Copa do Mundo. Ah, e também jogou no Palmeiras, onde deixou a lembrança de 71 gols!  

Morando atualmente em Santos, estou bem perto do Canal 5 e volta e meia passo pela estátua em homenagem ao Pelé. Infelizmente, o primeiro grande evento que presenciei na cidade foi o cortejo para o enterro do Rei do Futebol.  Momento somado aos primeiros, simbolicamente registrados no interior do meu copo canarinho.  Um copo que, “sorry, brothers!”, cacareco, bugiganga ou relíquia histórica não vendo, não troco, não dou. É meu, bem guardadinho esperando ver, antes que a morte nos separe, o Brasil ser hexa, hepta, octo…

Até mais!

Obs. Este post é parte dois da série “Cacarecos, badulaques e bugigangas”, que teve início com o post “Pote de Lobisomem e um pouco mais”.

Maníaco por cacarecos

Entre as múltiplas funções das pedras de um jogo de dominó estão a facilidade em compor escadas, estabelecer limites da coxia em espaços imaginários ou criar rotundas no fundo de um palco. Tampas de tubos de pasta de dente podem se tornar pés de uma mesa; umas sobre as outras formam belas colunas e, com a parte menor para baixo, simulam vasos. Tampas de garrafa são bandejas onduladas e caixas de fósforo se transformam em armários… Foi assim, brincando com cacarecos que iniciei minha paixão por cenários.

Penso ter sido sorte não dispor de um quarto cheio de brinquedos. Isso nos permitiu, incluindo aqui irmãos e primos, a transformar latas de sardinha em vagões de trem de ferro, cascas de nozes em carapaças de tartarugas e latas de extrato, ou de óleo, em pés de lata. Aprendemos rapidamente a transformar câmaras de bicicleta em estilingues após identificarmos as forquilhas mais resistentes nas goiabeiras do quintal e por aí seguimos, somando bolas de gude, piões, carrinhos e toda a sorte de brinquedos aos nossos artefatos caseiros.

As pessoas crescem e param de brincar. Algumas. Outras continuam brincando – que é a melhor definição que assumo para teatro: brincar de ser! No meu caso, o lado estranho de algo legal, iniciado lá na infância, tornou-se um razoável vício em guardar coisas. Um acumulador, dizem atualmente. Uma dificuldade considerável em desapegar-se de coisas que, quase sempre, perdem função e serventia.

Obviamente que há desculpas esfarrapadas para acumular bobagens. Minha preferida é pelo fato de vir de uma época, e de um determinado grupo social, em que guardávamos bexigas pelo maior tempo possível e, quando presenteados, desembrulhávamos o objeto com o máximo cuidado para, em ocasião propícia, dar novo destino ao papel que poderia ser uma capa de caderno, forrar o fundo de uma gaveta e até embrulhar um novo presente. A vida não era fácil!

Há justificativas afetivas: a caneca presenteada pela tia, o copo e a imagem da santa que se tornaram lembranças da avó, o par de esporas usado pelo pai quando no exército, a lanterna que acompanhou o avô ao longo de 40 anos na Mogiana, o potinho que veio da vizinha, a espanhola D. Antônia, o livro usado por minha mãe quando na escola… Deixar essas e outras bugigangas gera uma culpa que nem Freud resolve!

Acontece que, entre o brinquedo e a lembrança, há os badulaques (essa palavra muito usada por D. Laura), os bagulhos (com outra função para a molecada de hoje) e as tralhas, amigas das traças e teias de aranha. Por que alguém guardaria tampas sem panela? Potes de plástico sem tampas, copos e pratos díspares, roupas número 40 para quem já beira ao 48? Vidros de compotas vazios, alguns cheios de rolhas inúteis, outros cheios de parafusos sem porcas… E para dar um fim nessa constrangedora relação há os restos de tintas já secas, inúmeros suportes para mangueiras de chuveiro e pedaços de vela nunca encontrados quando acaba a energia.

Há muito tenho consciência de ter manias de guardar coisas. Lá atrás, quando tive um quintal para chamar de meu “colecionei” fósforos queimados, vidros de energético e embalagens plásticas do concorrente, o tal que vem cheio de lactobacilos vivos. Quando questionado sobre a tal mania bancava o artista plástico: “- Vou fazer uma instalação!”. Da casa grande para um kitchenette, a futura fracassada instalação foi toda para o lixo e, algum tempo depois, já professor, passei a acumular papéis.

Revistas para exemplificar anúncios, mídia cards para diferentes exercícios, embalagens diferentes para atividades em criatividade… Jornais, malas diretas, papeis de embrulho personalizados… Encartes, brindes, materiais de ponto de venda… E de cada objeto tornado exercício o registro físico em papeis, muitos papéis, posto que arquivos digitais não têm a menor graça…

Da primeira terapia guardo os exercícios de desapego que, em bom português, nada mais são do que jogar cacarecos fora, dar destino ao que ainda possa ter e, prêmio garantido: ganhar espaço. Periodicamente pratico o tal exercício, mas percebi nesses dias, ao preparar minha mudança, que aqui e ali driblei legal essa coisa de desapego. Posso exemplificar com panelas de pressão obsoletas, agendas usadas desde o século passado, leques de um frustrado projeto teatral e, entre outras, vários canudos que são suporte para papel toalha e papel higiênico.

Quantas coisas úteis estão inúteis por aí? Quantos cacarecos absolutamente sem utilidade ocupam espaços que, livres, no mínimo deixariam ambientes mais bem arejados? Difícil! Minha solidariedade àqueles que, como eu, têm essa mania estranha. E assim, só me resta continuar mesmo sabendo que virão recaídas!

Bora desapegar!