Narciso, estou na tv; mas não levo o prêmio

Narciso. O que vemos quando olhamos a TV?
Narciso. O que vemos quando olhamos a TV?

 

Hoje recebi uma solicitação com cheiro de ameaça, de recriminação. Algo tipo “quero só ver até quando você deixará de opinar sobre o BBB”. Revidei, quase asperamente, que meu silêncio sobre o tema já é uma tomada de posição. E pensei em repetir as ladainhas costumeiras tipo “desligue a televisão”, “mude de canal” e etc.. O poeta José Régio,que admiro, escreveu: “só vou por onde me levam os meus próprios passos…”. Portanto, posso começar pedindo para que deixem o BBB em paz.

Para criticar um “reality show” o correto é estabelecer um padrão (do que seja um bom programa desse tipo), ou buscar uma base que sustente comparações. Sabemos que um programa é ruim, porque temos noção do que seja um programa bom. No caso do BBB, me parece que a Rede Globo dá de dez a zero na concorrência e até na matriz, de onde veio o programa. Ou seja: o programa é bem feito, bem editado, bem comercializado, bem apresentado e, evidente, cheio de gente bonita.

Se tecnicamente o programa é bem feito, resta ir buscar o motivo de tantas críticas. Parece que o conteúdo e o comportamento, expresso pelos participantes concorrentes, seja o maior problema. Aqui cabe lembrar alguns versos de Caetano Veloso:

Quando eu te encarei frente a frente

Não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto

É que Narciso acha feio o que não é espelho…

Acontece – e está aqui o maior problema – que o programa é espelho sim. Um perturbador espelho de um tipo de jovem que anda por aí. Os participantes buscam de tal forma o prazer que só não são totalmente hedonistas por enfrentarem provas que provocam desconforto e não são, nem um pouco, prazerosas. Até parece que nossos jovens, fora dos espaços televisivos não saem, vorazes, buscando prazer a qualquer custo…

O que vemos é algo muito semelhante a nós mesmos.
O que vemos é algo muito semelhante a nós mesmos.

Pelo programa já passou gente de todo tipo. Semianalfabetos, alfabetizados, ricos, pobres, bonitos, feios, certinhos, desbocados, comportados, irresponsáveis… Jovens exatamente iguais aos que encontramos por aí. Nem mais, nem menos. E sendo eles mesmos concorrem ao grande prêmio que será conquistado após festas, namoros, algumas brigas, banhos de piscina, sessões de ginástica…, enfim, muito prazer e vida boa.

O indivíduo denominado BBB poderia estar entre as pessoas das relações de qualquer um de nós: irmão, sobrinho, filho, amigo, conhecido… Essa proximidade, essa semelhança, está entre o que incomoda aos críticos ferrenhos do programa?

Os concorrentes do BBB participam de festas, ganham carros e, entre outros, o prêmio máximo, “sem fazer nada”.  E há um montão de outros, aqui de fora, que também não fazem nada, exceto críticas ferrenhas, às vezes indelicadas. Resta perguntar, para cada crítico do programa, quais ações pessoais cotidianas estão sendo realizadas. Certamente leem livros, muitos livros. Nunca bebem, pois estão sempre nos cultos religiosos esperando o casamento para realizar atos sexuais para procriação. Trabalham, nas horas vagas, em asilos, orfanatos e, enfim, jamais assistem ao BBB porque desligam a TV, ou mudam de canal. É isso?

A semana está começando. Gente comum pode sonhar com a loteria. Gente jovem e bonita sonha em participar do BBB. Uns poucos estão lá e um sairá com uma bela grana. Todos os que não estão no programa podem fazer um milhão de outras coisas, inclusive ver televisão. Certo que continuarão as críticas; mas, qual a base? Qual o padrão comparativo? O que fazemos, realmente, no nosso cotidiano que nos torna diferentes de um BBB?

.

Até mais!

.

O salto, o mergulho…

Estou ouvindo e, volta e meia, vendo Elis Regina. Tranquilizem-se que é apenas um DVD, já que ainda não sou “médium”. Elis canta como quem salta de paraquedas. A associação leva a outra lembrança, quando Maria Bethânia canta que “o amor não é mais do que ato de a gente ficar, no ar, antes de mergulhar”. O salto, o mergulho…

Elis mergulhou com tudo nos palcos por onde cantou. Seu canto é visceral. Maria Bethânia ainda brilha entre nós; e é Caetano Veloso quem melhor define essa presença: “No palco Maria Bethânia; desenha-se todas as chamas do pássaro”. Leveza ou força, suavidade ou intensidade, a vida pede entrega. É, sobretudo, pela capacidade de entrega dos seres humanos em suas ações é que quero refletir.

De imediato quero lembrar e homenagear os atletas paraolímpicos brasileiros. Eles nos trouxeram 43 medalhas de Londres, sendo que 21 dessas são medalhas de ouro. Esses atletas são donos de um caráter exemplar e lembram-nos, sempre, que a vida segue em frente, que devemos encarar o que a sorte nos trás e ir além, atingindo nossos objetivos.

Vi alguns boletins das Paraolimpíadas de Londres; revi Fernando Fernandes, apresentando o programa ao lado de Flavio Canto, e refleti várias vezes sobre meus preconceitos contra essa gente que participa do BBB. O rapaz, que sofreu um acidente e, dando a volta por cima, tornou-se tricampeão mundial de paracanoagem. O ex-BBB é um exemplo público de alguém que soube viver, continuar a viver com o que a vida propiciou.

Grandes artistas, grandes esportistas, assim como um incontável número de pessoas estão entre aquelas que dão o salto, encaram o mergulho e ensinam-nos a viver.  É perceptível, em toda essa gente, a entrega sem ressalvas ao que escolheram, ou que lhes foi imposto para viver. Pegam o arado e seguem em frente, lembrando-nos a verdade bíblica:   “Aquele que põe a mão no arado e olha para trás não é digno do Reino de Deus” (Lucas 9,62).

Somos humanos! E assim, é com essa expressão que frequentemente caminhamos apenas até a esquina, subimos apenas o primeiro degrau, molhamos apenas os pés e, salto… Nem de paraquedas! Olhando para nosso cotidiano, em casa, no trabalho ou no grupo de amigos percebemos o receio de nossos amigos em saltar tanto quanto não admitimos nosso medo de mergulhar. Cobramos as posturas alheias e pouco revemos nossas próprias atitudes.

Tenho tentado mergulhar na vida. Venho dando pequenos pulos, como que ensaiando o grande salto. Viver intensamente! Trabalhar honestamente, tenazmente e, buscando evitar lamentos, seguir em frente. Neste momento, por exemplo, que o DVD de Elis Regina já terminou e que escrevo ouvindo canto gregoriano, percebo que foi dada a partida. Mais uma vez estou, com grandes amigos, prestes a dar mais um salto, outro mergulho. Mais um, que não será o último.

Neste atual projeto, temos idéia de onde queremos chegar; temos objetivos, metas. Planos tornados realidade e sonhos, para o futuro. O melhor de tudo é estar em movimento, sentindo o olhar de meus amigos, com tudo o que pode um olhar. Confiança, alegria, incerteza, força, dúvida, fé, amizade, briga… Estamos concluindo uma importante etapa do nosso trabalho e sinto-me de mãos dadas, caminhando rumo ao trampolim para o mergulho (Meu Deus, e eu não sei nadar!), subindo as escadas de um avião que nos levará para o grande salto (Quem tem as manhas de saltar de paraquedas?). O resultado disso, o futuro? Viver, continuar a viver.

.

Boa semana para todos.

.

Dedico este texto aos meus companheiros de trabalho no lançamento de “Um profissional para 2020”.

.

Notas:

1 – “O amor não é mais do que o ato…” é verso de Trampolim, de Caetano Veloso e Maria Bethânia.

2 – O verso de Caetano, definindo Maria Bethânia, é da música Tapete Mágico.

.