Os mercados e a Lo Prete

O Ver-o-Peso, em Belém do Pará. Foto: Divulgação

Há mercados e o mercado da Lo Prete, a Renata dos jornais noturnos. A âncora dá show de competência e, somando forma e conteúdo, esbanja o que falta por aí: credibilidade. Um porém é quando o assunto é o “mercado”. Invariavelmente a Lo Prete chama comentaristas de economia – uma gente com jeito de pau-mandado – para que comentem as irritações, as exigências, as reclamações do setor mais obscuro e tenebroso da economia brasileira. O “mercado”.

O que passa pela cabeça do cidadão comum quando a simpática jornalista diz o tal substantivo? Quatro mercados distintos, além do da Lo Prete, me vêm a cabeça. Três deles são mais charmosos! Ter tido a felicidade de conhecer tais mercados me dão ideia do que diz o jornal:

O Mercado Modelo, em Salvador, está inserido em cenário de pura magia. Meu itinerário preferido sugerido é ir direto para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, cantarolar Caymmi enquanto visita o local e, saindo, tomar rumo para o Elevador Lacerda só para, lá de cima, tomar ciência de quão bela é a Bahia de todos os santos e deuses. Desça e vá direto ao Mercado Modelo. O local é cheio de obras de arte e artesanato para os consumidores. Comprei em um box um tríptico de madeira muito simpático e paguei os tubos. Continuando a passear encontrei o artista, autor do objeto comprado que me ofereceu o mesmo objeto por menos da metade do preço. Básico: mercado é coisa de sujeito que explora até a última gota da força do trabalho de outros.

Outro mercado mágico é o Ver-o-Peso, lá em Belém do Pará. Inúmeros corredores repletos de ervas e similares da Amazônia nos impõe a absoluta riqueza da floresta e seu potencial para a medicina em prol da nossa saúde. Cura-se quase tudo com as ervas disponíveis no Ver-o-Peso. Entre o que não se cura é a ganância humana e a safadeza da indústria farmacêutica que pega o que a natureza nos dá, mexe aqui e ali, mistura, e vende a preços absurdos. Pior, vai, pega a erva, analisa e cataloga para depois registrar patente. As histórias são muitas! Básico dois: mercado se apropria e coloca em escala industrial com preços abusivos aquilo que pode ser obtido praticamente de graça. Tipo água!

O Mercado Municipal, em São Paulo, me lembra um resumo do mundo da comilança. Sanduíche de mortadela é um dos atrativos do local. Volumoso, farto! Uma delícia. Viagem ao mundo se faz legal em bancas de frutas: de Tegucigalpa, Istambul, até a querida Varginha… Tudo o que a gente conhece e o que se pode imaginar em cheiro, textura, sabor. Uma festa para o paladar que, quando empolgamos, deixamos quantias imensas no pagamento das frutas. O preço imenso é justificado pela distância. Navio, avião, caminhão, carrinho de feira. Básico três: mercado compra um monte e repassa para a gente no preço da unidade. Não reclame, vá buscar vinho no Porto! Aproveite e visite Portugal.

Na real, no cotidiano, o “mercado da Lo Prete” são os mercadinhos da vizinhança. Aqui bem perto de casa há dois, bem perto um do outro. Ontem fui comprar bananas. No primeiro, seis reais o quilo. No segundo, quatro e noventa. Uma observação atenta e a banana barata estava madura, carecendo de consumo mais rápido. Não pretendendo estocar banana e conhecendo o “macaco que habita em mim”, comprei a fruta madura. Básico quatro: mercado nunca perde. Abaixa o preço. E o grande mercado não abaixa, joga fora para manter lá em cima o preço da bugiganga.

Renata Lo Prete – Foto: divulgação.

Terminando minha viagem mercadológica volto à querida Lo Prete. Ojeriza é a palavra que me ocorre para definir a sensação que me vem quando a âncora diz: “o mercado reagiu”, “o mercado não gostou”, “o mercado não concorda”, ou qualquer outra expressão. Nem Renata Lo Prete, nem os comentaristas paus-mandados dizem de quem exatamente estão falando. Quem foi o “cidadão de bem” que reagiu pessimamente com a porcentagem baixa do empréstimo consignado? Certamente aquele banqueiro acostumado a ter 400% de lucros e que ameaça suicídio quando essa margem desce para 350%. Ou então é algum ocupante daquele prédio horroroso da Avenida Paulista, onde ficava um pato ridículo que diz bem qual o interesse dos mandantes que habitam tal local.

Um nome, D. Renata! Pelo menos um nome, na hora de referir-se ao mercado. A gente sabe que quando a senhora diz o Governo, que é do Lula que se está falando. Como tem nome os ocupantes da prefeitura, dos ministérios todos quando citados. Agora, ficar só no mercado! Será que a jornalista quer que a gente acredite que é o Sr. Antônio, o das bananas mais caras referidas acima, quem faz o país dançar conforme suas vontades? De qualquer forma, resta dizer que é facílimo resolver todos os problemas financeiros da população, D. Renata. É só “fazer” o Governador de Minas e a gente mesmo aumentar nossos salários em 258%. Simples assim!

(Sem) Destino de Mineiro

Como mineiro fora de Minas Gerais, em um período das férias e em quase todos os feriados volto para casa. É obrigação. Sendo trabalhador brasileiro, e professor, só posso viajar depois do quinto dia útil: dinheirinho no bolso, contas pagas e aí, sim, sair com tranquilidade.

Façamos as contas: primeiros cinco dias úteis, dar de mamar aos braços – não fazer nada é bom demais – e acertar as finanças. Em seguida, no mínimo uma semaninha em casa, no meu caso, em Uberaba. Pelo calendário do mês de julho de 2012 o quinto dia útil será na próxima sexta, dia 6. Uma semana em casa, já salta pro dia 14 (D. Laura não vai gostar de eu sair lá em pleno sábado, dia 14; vai mais o domingo, 15). Aí, lembrando que sou trabalhador, devo voltar dia 29 para descansar dois dias, 30 e 31, das peripécias da viagem. Sobraram exatamente 13 dias para férias.

A idéia de estar em Minas já me faz totalmente mineiro e esquecido das influências verbais paulistanas uma pergunta não me sai da cabeça:

– Prondéquieuvô?

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Valdo Resende foto by Luis

Quando meu amigo Luis, lá da UNIP, fez essa foto, as férias estavam distantes.  Qualquer cidade da lista acima valeria um bom período de férias, exceto “Radiator Springs” (Não quero, obrigado!) e eu acrescentaria ainda outras: Tegucigalpa, Belém do Pará, Helsinki, Cairu, a Ilha de Páscoa…

– Prondéquieuvô?

Algumas viagens, já feitas, estão amorosamente arquivadas. Acumulei lembranças, álbuns de retratos, camisetas, bonés e muitos outros cacarecos. Somando todas essas bugigangas às que o cotidiano obriga e tenho uma enorme quantidade de coisas sobre as quais devo  “montar guarda”. Isso se torna mais um empecilho em cada momento de férias: quem fica para guardar a tralha toda? Então percebo que a grande viagem, aquela sonhada desde a adolescência, ainda não aconteceu.

Sem Destino / Easy Rider
Easy Rider, viagem e liberdade

Minha geração foi beneficiada com Easy Rider  (Sem Destino), o filme produzido por Peter Fonda, dirigido por Dennis Hopper, que ainda revelou Jack Nicholson. Jovens americanos, em 1969, buscam liberdade pessoal, distância de hábitos e costumes obsoletos. Era a Contracultura, resultante de fenômenos sociais que remontam a Segunda Grande Guerra, aos conflitos no Vietnã e à Guerra Fria. As personagens do filme (contrariamente ao título dado no Brasil) tinham destino definido, um festival em New Orleans. Dois jovens atravessando os EUA sobre motos. Em dado momento entra um terceiro. A idéia é de total liberdade.

Adolescente, somei literalmente “Sem Destino”, dos americanos, ao nacional “Sem lenço e sem documento”, da música “Alegria, alegria” de Caetano Veloso. Nasceu o sonho. Sair por aí, sem destino, sem pousada, sem hotel, sem bagagem, sem lenço, sem documento.

O governo militar tratou de amedrontar a molecada de então. A gente sabia de gente que desaparecia e tínhamos medo da polícia (que então, não existia para proteger o cidadão, mas o Estado). Isso resultou em que cresci portando documentos. Sem oportunidades sonhadas de trabalho em minha terra, viajei para o mundo com destino geográfico definido, mas com a indefinição do vir a ser, do que seria possível conseguir.

– Prondéquieuvô?

Como milhares de migrantes brasileiros eu venho, desde então, voltando para casa. Há viagens e viagens, se é que me entendem. Poucas foram concretizadas. Já fiz viagens emocionantes para muito longe; outras, inesquecíveis, para bem perto. Todas com destino traçado e com documento no bolso. E centenas de viagens para o cosmo, o profundo dos oceanos, o interior das grandes florestas…

Tenho a impressão de que, volta e meia, deixo de programar minhas férias esperando o momento de sair por aí. Pode ser de bicicleta, moto, carro. Até mesmo a idéia de ser andarilho me é fascinante. O sonho permanece. Sair por aí, livre de amarras, de conceitos, de regras, de vontades alheias. Apenas viajar. A idéia é instigante e só faz martelar em minha cabeça de mineiro:

– Prondéquieuvô?

Como mineiro, respondo: – Por enquanto, sei não, sô!

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Boa semana!

Vasto mundo, aqui mesmo!

Há uma pequena lista que, até aqui, só eu conhecia. É uma modesta relação das visualizações deste blog mundo afora(Vejam o quadro). Sim, há um monte de pessoas por este “mundo, vasto mundo” que vez em quando entram nesse pequeno espaço e tomam conhecimento do que escrevo. É coisa tipo “Europa, França e Bahia” (reverenciando Mário de Andrade e seu Macunaíma); gente de terras que nunca vi, donos de idiomas que não falo, que aparecem não sei exatamente de onde, e nem sei como aqui chegaram.

 

Para ser bem honesto, primeiramente me envaideço. Tudo bem que uns tenham entrado por engano, via “tags” abrangentes (Uma chance de ganhar um amigo!). Pode ser que outros venham por saudade do Brasil. Há também os amigos (Muitos, graças aos céus!), e os ex-alunos.  Sei de alguns, explorando o planeta: na Espanha, na Dinamarca, Inglaterra, Austrália, Estados Unidos… E de amigos, que estão em Portugal, França, Japão… Não sei quantos e quais estão por aí, nesses outros países. De alguns, poucos, há comentários e mensagens, via Facebook, que permitem identificação precisa.

Segundamente (reverenciando Dias Gomes e seu Odorico Paraguaçu) tenho urticária de tanta curiosidade. Quem são essas pessoas? Tailândia, Indonésia, Lituânia? São várias centenas e não creio ter tantos alunos, nem tantos amigos assim. Há alguém nesse “mundo, vasto mundo” que me honra com sua visita e que tenho muita vontade de saber quem é. Pode ter vindo atrás de algum artista, uma música, uma peça de teatro; chegou até aqui para saber de Uberaba, de Minas Gerais, da Bahia de Jorge Amado, de Belém do meu Pará. Quem serão essas pessoas?

Vasto mundo, aqui mesmo!

Sou de uma geração que esperava dois, três, dez dias por uma carta; há muitos, como eu, que recordam a dependência da telefonista para telefonemas interurbanos, para ligações internacionais. Meu querido Carlos Drummond de Andrade, lembrando-me que “se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução”, demorava um pouco mais para atingir esse “vasto mundo” que, na era da Internet, favorece-me  com a rapidez e a instantaneidade da comunicação virtual, fazendo que esse “vasto mundo” seja aqui mesmo. Por isso fico encantado e, insisto, curioso. Quem é que me honra com sua visita por esse Brasil e por todo esse mundão de Deus?

Peço perdão aos que estão sempre por aqui; aqueles que já me conhecem, um pouquinho que seja, compreenderão essa curiosidade, esse estranho prazer que é ser lido em Luxemburgo e também em algum recanto da imensa Rússia. Cá, entre todos nós, sinto-me pertinho de Minas Gerais, Tocantins, Piauí, Rio de Janeiro, Pará, Paraná, Bahia. Sinto-me extensão de São Paulo, um pequeno braço de Uberaba. Mas tenho vontade de ir além, criar outros laços, já que não  há limites pra conhecer gente e fazer amizades. Daí escrever este post, aos mais distantes, aos saudosos do Brasil, àqueles que buscam um pouco daquilo que escrevo. Por isso, peço: por favor, quando possível, matem essa curiosidade. Digam nem que seja apenas o nome e o lugar de onde estão vendo/lendo este blog. Desde já, meu muitíssimo obrigado. E aos que estão sempre por aqui, um carinho especial.

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Boa semana para todos!

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Nota:

O trecho citado de Carlos Drummond de Andrade é do “Poema de sete faces”.

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