O casamento dos sonhos

walderez noiva
Nesse dia, Walderes lembrou-se de D. Emília?

Tanto estardalhaço pelo casamento inglês! Brigas familiares do lado da noiva, a famosa discrição da família real britânica e muito, muito fru-fru; com que roupa comparecer, como se comportar, quem vai, quem fica, pode usar joias, quem entra com a noiva e… até uma família quase esquecida, a Imperial aqui da terrinha, manifestou-se contra a união do  nobre com a plebeia.

Um mundo parado em plena manhã de sábado em terras tupiniquins e outras, além mar, para ver o enlace; aquele mundinho que adora reis e rainhas do maracatu, da primavera, do samba, da jovem guarda, da televisão, do cinema e…  of course, da Inglaterra. E eu dei de lembrar dos casamentos de D. Emília! A noiva dos melhores casamentos que frequentei na infância.

Dessas coisas estranhas dos loteamentos urbanos, a Avenida Elias Cruvinel, lá em Uberaba, onde meus pais adquiriram uma casa e para lá se mudaram quando eu tinha cerca de seis meses de vida, era bem peculiar. Corredor de boiadeiros, estrada antiga que ligava a cidade à capital, Belo Horizonte, tinha duas pistas, divididas por uma elevação central, coberta de capim, por onde passavam os postes levando luz para o bairro. Papai, volta e meia, podava o imenso capinzal que crescia em meio à avenida, para que tivéssemos visão do outro lado, um imenso terreno cercado por uma tênue cerca de arame farpado e, até onde se sabe, pertencente à D. Emília.

Ocupando praticamente todo o quarteirão, o terreno em frente à nossa casa continha plantações de ocasião; milho verde era o mais constante e no extremo oeste do terreno ficava uma pequena casa, onde morava D. Emília. Criança, não guardei muito do que os adultos diziam sobre ela. Talvez viúva ou, quem sabe, abandonada pelo marido. Era mãe de dois filhos e, desses, um morava aqui em São Paulo. Até onde me recordo, ela estava sempre sozinha.

Certamente D. Emília foi a primeira mulher vestida de noiva que vi. Guardo na memória uma mulher morena, cabelos castanhos e compridos, um sorriso largo, lindo, cheio de dentes artificiais. Todavia era um sorriso bonito, sincero, um tanto ou quanto aéreo, como se a dona do sorriso estivesse longe, muito longe, quando então resolvia se casar. Sempre me lembro da querida senhora vestida de noiva.

Meus irmãos maiores já conheciam os sinais. De vez em quando era perceptível que D. Emília estava prestes a se casar. Preparava doces, bolos, essas coisas de festa e vestia minhas irmãs como damas de honra, meu irmão como pajem. Começo da tarde, já com um alvíssimo vestido branco, uma farta grinalda de tule e, nas mãos, um pequeno buquê de flores naturais a noiva sentava-se em um tosco banco de madeira, que ocupava a frente da casinha onde morava e, sentada, viajava nos sonhos e delírios de quem sabe onde fica Pasárgada, Shangrilá e outros paraísos da imaginação humana.

As crianças ficavam ao redor da noiva. Em um momento brincando, depois impacientes, querendo provar do banquete nupcial. Após o que se supõe ter sido a cerimônia a noiva, sorridente, servia os convidados. Nós e as crianças da vizinhança. Será que Waldênia e Walcenis, minhas irmãs mais velhas, perguntaram algum dia pelo noivo? Meu irmão Valdonei, certamente adorava bolos, roscas e, tanto Walderes quanto eu, éramos os apreciadores de doces. Tenho certeza de que não importávamos quanto ao noivo, sua ausência ou o dote e as demais implicações que, agora, percebo no casamento do príncipe com a plebeia americana.

Quantas vezes vimos tal cerimônia? Não sei. Na minha memória foram várias. E depois, quando apareceram outros donos dos terrenos e limitaram a residência de D. Emília, ela não durou muito. Faleceu, provavelmente, no final dos anos de 1960.

Guardo de D. Emília o casamento como algo descomplicado e feliz. Uma brincadeira com bolos e doces em uma bela tarde de sol. Talvez estivéssemos descalços, mas recordo guirlandas enfeitando os cabelos de minhas irmãs que, certamente, têm outras lembranças além dessas.

Que o jovem casal do momento possa sobreviver ao assédio da mídia, às fofocas quanto ao vestuário, ao disse-me-disse dos convidados. Tenho cá minhas dúvidas, mas acredito sinceramente que D. Emília, em seus delírios nupciais, foi mais feliz que o herdeiro da coroa inglesa. Como estou imbuído de bons sentimentos, só me resta desejar ao casal de agora a pureza e a felicidade de D. Emília que, para muitos alienada, experimentou mais casamentos felizes que todos os reis do planeta.

Até mais.

A Menina Que Queria Ser Bandeirante

Ronan Vaz, Lilia Pitta, Marcelo Ribas e José Luiz Filho em foto de Thaneressa Lima (Divulgação)
Ronan Vaz, Lilia Pitta, Marcelo Ribas e José Luiz Filho em foto de Thaneressa Lima (Divulgação)

“A Menina Que Queria Ser Bandeirante” é a quinta história do projeto “Arte na Comunidade 2” e foi apresentada nas escolas, individualmente, por cada um dos atores do projeto. Para encerrar o projeto, nas quatro cidades, ocorreu uma mostra teatral com montagens feitas por artistas locais, grupos regionais e da capital, Belo Horizonte. Como anfitriões, os contadores do “Arte na Comunidade 2” subiram ao palco e, juntos, contaram para toda a comunidade as HISTÓRIAS DO PONTAL DE MINAS. Nesta, reviveram as histórias contadas por cada um, mas com a participação dos quatro atores.  As imagens que ilustram este post são deste momento, quando nossos contadores apresentam a quinta história, d’A Menina Que Queria Ser Bandeirante.

Havendo interesse em reproduzir o texto ou interpretá-lo, pedimos a gentileza da citação da origem. Organizado pela Kavantan & Associados, o projeto Arte na Comunidade 2 foi patrocinado pela Alupar e Cemig, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e contou com o apoio das prefeituras de Ituiutaba, Canápolis, Monte Alegre de Minas e Prata.

Vamos à história:

A Menina Que Queria Ser Bandeirante

Original de Valdo Resende

(VOLTA A MÚSICA INICAL AO TERMINAR A PRIMEIRA HISTÓRIA. O CONTADOR MEXE NOS LIVROS, POR ALGUNS SEGUNDOS E, EM SEGUIDA, RETIRA E ORDENA OS QUATRO OBJETOS IDENTIFICADORES DE CADA CIDADE SOBRE A MALA/BIBLIOTECA. NOMINA O OBJETO E REFERE A CIDADE, SEMPRE EM ORDEM ALFABÉTICA).

A mala-biblioteca e os demais adereços utilizados em cena.
A mala-biblioteca e os demais adereços utilizados em cena.

Canápolis! O abacaxi é, para milhares de pessoas, um delicioso símbolo da simpática cidade. Ituiutaba! Cidade tão pródiga, tão rica, que poderia ser lembrada por produzir arroz, cana de açúcar, leite. Escolhemos o leite, porque toda cidade tem um pouco de nossa mãe. Monte Alegre! Há farinha de mandioca em diferentes regiões, outros países… Em Monte Alegre de Minas ela é mais gostosa. Feita com o requinte dos quitutes que colocam Minas em destaque na culinária brasileira. Prata! A mais antiga cidade do pontal de Minas. Mãe de outros dezesseis municípios e, ainda assim, com a maior extensão territorial na região. A gente olha para esses achados arqueológicos e pensa em Minas, lembra o Triangulo Mineiro muito antes de o Brasil nascer.

Claudia, uma menina que nasceu por aqui há muitos anos, gostava de imaginar como eram as coisas, antes que os portugueses viessem para a região, antes que o progresso chegasse modificando e melhorando quase tudo. Com tanta cidade bonita por aqui, fica difícil imaginar o Triangulo como uma grande floresta habitada por índios caiapós, bororós. Mas era assim! Uma imensa floresta dominando o serrado e escondendo ouro, pedras preciosas e muitas outras riquezas.

bandeirante em canápolis

A menina Claudia, loirinha, olhos claros, não tinha nenhum aspecto aventureiro. Era mais para mocinha de contos de fadas. Todavia, desde que ouviu falar sobre os bandeirantes, soube que seria um entre eles. A professora contou que as Entradas e Bandeiras eram como grandes cidades em movimento. Homens, mulheres, crianças, escravos e índios amigos, caminhando juntos com a missão de desbravar a terra e encontrar riquezas. A menina ficou imaginando como seria estar na comitiva de Fernão Dias Paes Leme, buscando esmeraldas. O bandeirante Fernão Dias saiu de São Paulo, rumo a Guaratinguetá e rumou para o centro de Minas Gerais. Achou turmalinas e pensou que fossem esmeraldas. “- Um grande herói!” Claudia disse em alto e bom som que seria uma bandeirante!

Os colegas da menina começaram a rir, a debochar. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Ela ignorou, pensando no ato que fez de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera. Bartolomeu Bueno da Silva passou por aqui, pelo Triangulo Mineiro, que na época já era conhecido como Sertão da Farinha Podre. Ele foi para Goiás, buscando ouro. Lá encontrou os bravos guerreiros Caiapós, que não entregariam seu território e suas riquezas sem luta. Foi então que ele ateou fogo em um pouco de aguardente, dizendo que era água, e que atearia fogo em todas as águas do território dos Caiapós. Os índios foram ludibriados e, crédulos, chamaram Bueno da Silva de diabo velho, na língua deles, o Anhanguera. A loirinha Claudia delirava com as histórias. Os amigos debochavam.  Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Ela dava de ombros, interessada em saber da história de sua terra, do nosso querido pontal de Minas.

bandeirante 7

Os primeiros habitantes de Minas Gerais foram os índios. Depois vieram os portugueses, mas antes desses, muito antes de chegarem com suas entradas e bandeiras, foram os africanos que habitaram várias regiões do estado. É! Escravos africanos que lutando por liberdade fugiram do homem branco e organizaram-se em quilombos. Um dos mais resistentes quilombos que a história guarda é a do Quilombo do Ambrósio, que existiu onde hoje é a cidade de Ibiá, próxima de Araxá.

Aliás, Araxá está entre os primeiros arraiais surgidos no Triangulo Mineiro. Depois veio Uberaba. Depois, o Prata. Antigo, antigo mesmo, é o Desemboque, que hoje é distrito de Sacramento. Desemboque era o nome que se dava ao Triangulo Mineiro, o grande espaço de terra entre o Rio Grande e o Rio Paranaíba. Depois é que chamaram essa região de Sertão da Farinha Podre. Claudia guardava cada detalhe dessa bela história na sua cabecinha de menina.

Desemboque era um centro por onde passavam as bandeiras, rumo ao chapadão mineiro e às terras de Goiás. Outra picada se fez por São Paulo, mas isso foi depois. Nessa primeiras bandeiras que alguns homens, rumando para o interior desconhecido, deixaram pendurados em árvores no mesmo município de Sacramento, alguns sacos de farinha para que, ao retornarem, houvesse alimento para todos. Quando voltaram, a farinha estava estragada.  Começaram a chamar o território de Sertão da Farinha Podre e… Como se diz hoje em dia… Pegou!

A menina começou a esparramar para as amigas, para a família, que seria bandeirante. Que iria desbravar o Triangulo, Minas, o Brasil. O pai da menina não gostava daquilo. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! E as lutas, as guerras, ela tinha noção de como havia sido? Que os caiapós, dóceis em um momento, entraram em guerra logo depois, defendendo com garra seu território? Que outro bandeirante, aliando-se aos índios Bororós, arregimentou 500 guerreiros e só assim conseguiram derrotar os Caiapós, em triste carnificina? Ser bandeirante. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida! Isso não é coisa de menina!

bandeirante 4

Claudia pesquisou muito. Como nessa história não havia mulheres? Foi estudando (PEGA UM LIVRO, COMO SE LESSE) que ela descobriu algumas grandes mulheres. Uma tal Ana de Oliveira, natural de Vila Nova, atualmente Sergipe, participou da formação de duas bandeiras. Duas! E foi perto do Pontal, no interior de Goiás, que uma mulher bandeirante é lembrada como heroína: Maria Diaz Ferraz do Amaral é chamada de Heroína de Capivari, por lutar ao lado dos homens num confronto com os Caiapós. A menina Claudia delirava entusiasmada: “-Veja, papai! Só aqui temos duas grandes mulheres bandeirantes!” Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!

O pai foi pedir ajuda na escola. Mesmo sabendo que as bandeiras são coisa do passado não gostava nada da ideia de ter uma filha bandeirante. Pediu ajuda e ambos, pai e orientadora educacional, resolveram falar com a menina, para fazê-la mudar de rumo. (COMO SE FOSSE O PAI, O CONTADOR MOSTRA-SE IRRITADO) Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!

A menina passou uns dias estudando, mergulhada nos livros. Quando parecia que havia esquecido os bandeirantes, a história da região, ela vinha com novidade: “- Papai, você sabia que foi um médico francês, Dr. Raymond Enric des Gennetes, residente em Uberaba, sabendo que a região estava entre dois imensos rios, o Rio Grande e o Rio Paranaíba e que esses sugeriam um triangulo agudo, propôs o triangulo para denominar a região?” O pai, já amuado por ter certeza que ela não mudaria de assunto, resmungou: “-Melhor Triangulo Mineiro que Sertão da Farinha Podre”. E ele voltou a falar com a orientadora. Tinham que fazer alguma coisa. Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!

Bandeirante 6

Acontece que foi a menina Claudia quem marcou uma reunião com o pai, a orientadora, a professora, e todos os colegas. Ela já estava cansada de ser chamada de doida! Eles então acharam que ela havia pirado de vez. Marcar reunião? Que ideia! Que doida!

No dia marcado, a sala de aula toda lá, querendo saber. O pai querendo entender o que iria acontecer. E a menina Claudia, pedindo a palavra, começou a falar: “- Vocês todos sabem que entradas foram expedições mandadas pelo governo português e que bandeiras foram iniciativas privadas, certo? Entradas e bandeiras tinham objetivos similares.” A criançada começou a murmurar.  Que ideia! Que doida! Agora virou professora. A menina Claudia respondeu; enérgica: “-Professora não, bandeirante!”. O pai colocou a mão na cabeça. Pobre menina! Ela continuou: “-Muitas bandeiras surgiram para aprisionar índios ou escravos africanos que haviam fugido de seus donos, não é mesmo? Outras surgiram movidas pelo desejo de encontrar metais e pedras preciosas. Em todas elas, havia sempre alguém com o desejo de encontrar remédios, plantas medicinais. Eu chamo essa pessoa de herborista! Eu vou ser bandeirante herborista!”

A classe calou-se. Os adultos também emudeceram enquanto a menina explicou que sabia que havia passado o tempo das bandeiras que formaram nossa região. Tinha também certeza que não há, por ali, índios e ou escravos em luta, mas um povo que precisa viver junto e em harmonia. Não só na região; em toda Minas Gerais, em todo o Brasil, há muito por descobrir sobre ervas medicinais. Nossas florestas grandiosas carecem de exploradores, de heróis bandeirantes que busquem alternativas de alimentos, de remédios em meio ao cerrado, ao chapadão, enfim, em todo o território brasileiro.

bandeirante 5

(O CONTADOR MUDA DE TOM, SOLENE, PARA ENCERRAR A HISTÓRIA) O tempo passou; a doutora Claudia tornou-se bandeirante respeitada, herborista de fama! Foi com ela que aprendi que os índios tupi-guarani chamavam pitanga de pyrang. E que essa frutinha colabora na prevenção do câncer. Ela também ensinou que os escravos africanos trouxeram a carqueja, bom para a digestão, para o fígado. Na escola, a doutora Claudia aprendeu a curar com agrião, guaco, alecrim, eucalipto, erva-cidreira, arnica… e continua, por aí, pesquisando nossa mata, na beira dos rios, buscando aprender a ajudar os outros através das nossas plantas. Uma bandeirante moderna! (CONCLUI COM ORGULHO E SATISFAÇÃO:) Que ideia! Uma menina bandeirante! Que doida!

GUARDA OS LIVROS, FECHA A MALA E SAI DE CENA.

Mas será o Benedito?

Mario Prata, “mineirim”, escreveu que “mas será o Benedito” é uma expressão de espanto diante de determinada situação. E conta uma história hilária para justificar o surgimento do dito popular que está no livro de mesmo nome. Benedito vem de bendito, bento, abençoado; Joaquim vem do hebraico e significa estabelecido por Deus. Joaquim Benedito, portanto, foi abençoado e estabelecido por Deus.

Joaquim Benedito Barbosa Gomes, o Ministro.

Joaquim Benedito Barbosa Gomes, abençoado e estabelecido Ministro do Supremo Tribunal Federal, não provoca espanto; transpira confiança. Todo mineiro, desconfiado por natureza, carece de transmitir confiança e o Ministro, nascido em Paracatu não foge à raça. Relator do Mensalão, o Ministro revelou para Mônica Bergamo (leia aqui) não “abaixar a crista em hipótese alguma”, o que leva a outro ditado: “mineiro dá um boi para não entrar em briga e uma boiada para não sair”. Mineiro, a gente sabe, briga sem receio até mesmo com mineiro, ou mineira; mesmo quando essa, mineira de nascimento, é a Presidenta da República.

Os comentaristas políticos estão se deliciando com a “derrota” de Dilma Rousseff em Belo Horizonte. A presidenta puxou uma briga política apoiando Patrus Ananias contra Marcio Lacerda, candidato apoiado por Aécio Neves. Sendo mineiro, não precisa ser expert político para prever a vitória do candidato de Aécio. Onde já se viu uma mineira, presidente, votar em Porto Alegre. Mas será o Benedito, dona Dilma?

Tudo bem que Dona Dilma fez carreira política entre gaúchos; quem pode atirar uma pedra, sendo mineiro de Uberaba e morando e votando em São Paulo? Mas que ela esqueceu o que é ser mineiro, isso esqueceu. E quem chamou a presidenta para meter a colher no caldeirão de Belo Horizonte foi algum adversário disfarçado em correligionário do cara de nome esquisito… Patrus? Esse nome bem que merece um “mas será o Benedito”…

D. Dilma e o Ministro, mineiros longe de MInas.

Benedito, o Joaquim, é bem mais mineiro que Dilma. Ela esqueceu que em Minas a gente chama de “entrão” aquele que não deve meter o bedelho onde não é chamado. O Ministro, sem paixões partidárias, leva consigo lembranças do caminho percorrido de Paracatu até Brasília.  Em suas andanças esteve ao lado de um grande mineiro como Frei Betto e bateu de frente com outro, Eduardo Azeredo, este governador. O Ministro revela um jeito cuidadoso de lidar com a vida, com as coisas. É verdade que cochilou publicamente; por isso informa que está tomando pó de guaraná. Isso é reconhecer-se humano. Mais um ponto para o cidadão. D. Dilma, reconhecidamente, faz um bom governo. Todavia escolheu um péssimo momento para interferir em Minas Gerais!

Lá em Uberaba vai rolar segundo turno. Que ninguém peça apoio a Dilma, a mineira que vota em Porto Alegre; correrá sério risco de perder a eleição. Nem peça apoio ao Ministro Joaquim Benedito Barbosa Gomes. Este volta ao serviço, pois ainda há muito Mensalão pela frente.

.

Boa semana para todos!

.

Nota: o livro Mas será o Benedito?, de Mario Prata, foi publicado pela editora Planeta.

.


Emicida agradece?

Manter-se na mídia não é fácil. O sujeito tem que fazer das tripas coração para conseguir espaço, tempo de exposição. É caro; muito caro. Exceto quando a polícia ajuda; no caso, a polícia mineira, dando um “up” na carreira do rapper Emicida, prendendo o moço por um “disse que disse”.

Poderiam ter indiciado o rapaz, chamado para esclarecimentos, essas coisas da justiça; mas, olha só que chance, prender um artista! E assim contribuíram para que o país todo soubesse que o moço esteve em Belo Horizonte;  colocaram o rapaz no topo dos comentários de redes sociais, contribuíram para a divulgação da música “Dedo na ferida”. Bom trabalho, senhores!

Volta e meia fala-se em “serviço de inteligência”; expressão que indica a ação de profissionais específicos agindo com bases científicas para solucionar questões difíceis. Provavelmente são dessa estirpe os que estão no caso da atriz nua na internet. Essa gente inteligente encontrou pobres diabos vivendo em quartos também pobres; supostamente entre esses os autores do crime. Outros calcularam que as fotos de Carolina Dieckmann tiveram oito milhões de acessos entre os dias 4 e 8 passados, e continuam por aí, como foi constatado por quem, hoje, entrou no site da Cetesb-SP (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental).

Nosso país é incrível. Um rapper é preso por suposto desacato e as fotos íntimas – agora públicas – de uma mãe de família são rastreadas até aos prováveis divulgadores (esses sim, com a absoluta intenção de socializar informações!). Tudo muito rápido; no entanto, há uma investigação em andamento de um servidor paulistano que adquiriu 106 imóveis por “suspeita de incompatibilidade em relação ao seu patrimônio”. Olha que chic! Propriedades incompatíveis com salário. Só falta o cara dizer que ganhou na loteria. Como isso envolve muita grana e gente poderosa, vai demorar muito para encontrar solução. Muito mesmo! Até minimizar a opinião pública.

A mesma demora em punição deverá ocorrer para o pessoal do Rio Grande do Norte. O escândalo tornou-se nacionalmente conhecido e comentado após reportagem no Fantástico, o programa dominical da Rede Globo. Uma mulher envolvida, com um descaramento impar, disse que foram retirados dos cofres públicos quase R$ 20 milhões. O mais irônico dessa notícia é ela cumpre prisão domiciliar! Ela e o marido, também envolvido no desvio de dinheiro.

Poderosos afanam dinheiro público e continuam na maior mordomia em prisão domiciliar, servidos por motoristas particulares, camareiras, cozinheiros, mordomos… O Emicida foi preso rapidinho e só livrou uma diária; ou será que o hotel cobrou a diária do rapaz que passou a noite no xilindró? Já os pequenos tarados por Carolina Dieckmann que vivem em locais bem pobrezinhos, cujo destaque no cenário moral e material fica por conta do domínio sobre o computador, logo estarão nas celas superlotadas de nossos presídios.

O pior dessas questões é sobrar a sensação de “pizza” ou de que polícia só existe para operações contra ou a favor de artistas. Para criminosos do setor público não há polícia, há justiça. A tal que é cega e – em nosso país – mais lenta que lesma paralítica. Para os artistas, porém, resta a fama. Carolina é mais comentada que as mocinhas das novelas de todos os horários; Emicida, penso eu, agradece toda essa “mídia espontânea” que será revertida em shows, venda de CDs e similares… E assim vamos vivendo, esperando justiça.

Até mais!

Trem grande, trem pequeno… O tamanho das coisas

Estamos próximos do dia 21 de abril, quando terminará a exposição “Guerra e Paz”. E antes que os dois grandes murais de Candido Portinari deixem São Paulo, cabe um último estímulo para quem ainda não esteve no Memorial da América Latina: uma reflexão sobre o real tamanho das coisas.

Por mais que sejam precisas as imagens são do tamanho do suporte que usamos para vê-las. Grande, médio ou pequeno, é só um suporte: o papelão, o vídeo, a tela do computador… É comum ouvirmos a expressão “imagem perfeita”, mas até mesmo as imagens em 3D perdem em dimensão para a realidade. O exemplo “da hora” pode ser a obra de Portinari, bastante divulgada com esta foto:

Qual é mesmo o tamanho das coisas?

Os murais “Guerra e Paz” (14 x 10m) foram pintados entre 1952 e 1956. Foi um presente encomendado pelo governo brasileiro para presentear a sede da ONU, em Nova York.  É legal perceber que as medidas – 14 x10m – são meras referências numéricas. Vista a reprodução acima, faria pouca diferença aumentar ou diminuir esses números. Na real, perante uma fotografia sempre carecemos de algo com o qual possamos estabelecer uma relação de escala com o objeto retratado. O padrão que mais nos facilita a compreensão do real tamanho das coisas é o próprio ser humano, já que temos uma idéia bem clara do que seja o tamanho de um adulto.

No painel central, imagem menor, o próprio pintor diante dos murais.

Pedi ao meu amigo Octavio Cariello que fizesse a foto acima com a intenção mesmo de fixar a verdadeira dimensão do trabalho de Portinari. Como está para o mundo. Como realmente é. E as pessoas todas no ambiente tornam-se pequenas em relação aos dois murais. É bom frisar que certamente, para aqueles que não forem até ao Memorial (O prazo está acabando!) as chances de conhecer de perto essa obra serão bem menores.

De São Paulo a exposição irá para Belo Horizonte (Qual é o real tamanho da Igreja da Pampulha, também esta com pinturas de Portinari?) e depois, para outros lugares. Quando voltar em definitivo para os EUA, se for mantido o esquema anterior, os murais ficarão em área reservada. Nem aquele turista visitante da sede da ONU terá chance de ver, ou rever “Guerra e Paz”. Restarão fotos, vídeos e outros materiais visuais com suas limitações.

Com todo o meu respeito aos grandes fotógrafos – que com um olhar bastante específico oferecem-nos imenso prazer estético – nada supera o contato direto; a experiência de estar em meio ao “trem”. (“Trem” é tudo – coisas, situações e pessoas – reduzidas pelo mineiro nessa simpática expressão. Para um mineiro há “trem bão”, “trem doido”, “trem chato”, “trem esquisito” e, o máximo, é quando escapa uma fala tipo “essa coisa é um trem esquisito, sô”.)

Mineiro que sou, recorro às expressões da minha terra, que me são comuns e, assim, possibilitar ao outro o entendimento do que vai pela minha alma. Só posso recorrer ao “mineirês” para que entendam o que é estar diante, por exemplo, do mar: “- Eita, trem grande, sô!” E foi exatamente o “Eita, trem grande, sô!” que exclamei, bem baixinho, diante da obra de Portinari.

“Eita, trem grande, sô!”

Sei lá o que cada visitante pensa diante da obra do grande pintor. Muito menos o que dirá aquele que ainda não foi. Só sei que é um momento raro, imperdível, para ver “esse baita trem que Portinari pintou”.

.

Bom final de semana.

.