Petula Clark, voz que vence o tempo

Nem só de plásticas, Botox e silicone sobrevivem os grandes. Há cantores cuja voz, que é o que conta, permanece impecável.  Limpa, sem sinal de idade nenhuma. Petula Clark que o diga. Aos 80 anos, com aspecto de agradável senhorinha (sim, ela poderia parecer esses monstrengos transformados  pelo bisturi de incautos doutores!), a cantora inglesa volta ao disco. “Lost in You”, o novo trabalho de Petula Clark será lançado na próxima semana.

Petula Clark, novo disco

Tomei conhecimento de Petula Clark na mesma época que conheci The Beatles. A cantora tomou conta das paradas mundiais com “Dowtown” (clique aqui para ver e ouvir) que, no Brasil, recebeu uma graciosa versão interpretada pelo Trio Esperança. Quando se fala em Petula Clark e The Beatles, vem a expressão “invasão britânica”, quando jovens músicos ingleses tomaram conta do mundo.

Gosto da voz de Petula Clark desde 1967, ano em que ela gravou “This is my song”, a canção de Charles Chaplin para “A Condessa de Hong Kong”. Este é o último filme do grande Carlitos e a “condessa” foi interpretada pela belíssima Sophia Loren. A voz de Petula Clark espalhou-se por todos os cantos do planeta cantando o tema do filme.

Apaixonei-me por Petula Clark, como quase todo adolescente, quando vi o filme “Goodbye, Mr. Chips”. Neste, um colégio inteiro de garotos encantam-se pela esposa do tímido professor, interpretado por Peter O’Toole. Toda a graça do filme está na deliciosa corista, o papel de Petula, que abandona o teatro pelo professor. Uma cena inesquecível é a da voz de Petula, sobressaindo-se ao coro na celebração dominical (veja aqui).

Petula Clark divulga novo disco

Não é fácil achar discos de Petula em nosso país, como também é difícil encontrar discos de Gigliola Cinquetti, por exemplo. Temos oferta de sobra dos discos de loiras platinadas, peitos volumosos, cuja performance reside fundamentalmente em videoclipes bem produzidos. Com o advento da internet é possível adquirir discos de grandes talentos sem sair de casa; assim, não vamos nos preocupar com distribuidores vendidos às gravadoras multinacionais. Quem tiver interesse é ir atrás dessa extraordinária cantora que é Petula Clark.

Após defender o direito de aposentadoria do Papa Bento XVI, é bom começar a semana postulando pelo outro lado, daqueles que, como Petula Clark, não brigam com o tempo, nem pretendem interromper o trabalho, mas caminham serenamente com ele e, graças no mínimo ao bom senso,no máximo ao bom Deus, permanece com a voz impecável no semblante sereno de quem vive em paz com a própria idade.

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Boa semana para todos!

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Atenção:

1) Veja a própria cantora divulgando o vídeo clicando aqui.

O Papa Alemão e o Pintor Judeu

Mundo pequeno, “mundo veio e sem portera” como é dito lá em Minas. Sem porteiras, cercas, divisões. Culturalmente são tantas as barreiras! Há uma brutal divisão econômica, entre os poucos ricos e os muito pobres; há divisões religiosas, onde cada grupo reivindica para si a correta interpretação da verdade divina. E há barreiras geográficas, temporais, afetivas…  O tal “mundo veio” tem mais “portera” que mundo; por isso me sensibilizou tanto um pronunciamento do Papa Bento XVI sobre “Deus, arte e beleza” (Sim, eu leio o que o Papa escreve! hehehehe).

Chagall - Judeu a Rezar (O Rabi de Vitebsk), 1914, óleo sobre tela, 104 x 84 cm Veneza, Museo d'Arte Moderna

Primeiro fiquei interessado no que o Papa diria sobre arte. E gostei! “A arte é capaz de expressar e tornar visível a necessidade do homem de ir além do que se vê, manifesta a sede e a busca pelo infinito. Na verdade, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e uma verdade que vão para além do cotidiano. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, direcionando-os para o alto.”

Vivendo no Vaticano – e quem já esteve por lá sabe que a gente tropeça em obras de arte por todos os corredores, nas paredes, no chão, no teto – não é difícil entender a familiaridade de Sua Santidade com o tema. O próprio é pianista e manifesta preferência por Mozart e Bach. Obviamente, ao exemplificar suas posições estéticas, Bento XVI foi para a grande herança católica: as grandes catedrais góticas e as imensas igrejas românicas. Surpresa boa foi o grande líder religioso ir além das fileiras católicas, citando dois artistas judeus.

Um concerto do luterano Bach foi regido pelo maestro Leonard Bernstein. O Papa confessou uma experiência estética singular ao ouvir a música de Bach sob a regência do americano Bernstein, judeu ucraniano na origem. Até ai, tudo bem, já que tradicionalmente a música não respeita fronteiras ideológicas, religiosas ou políticas. A boa música atravessa gostos e preferências pessoais atingindo o âmago do individuo de qualquer idade ou raça. A surpresa maior veio com outra citação do Papa, lembrando o pintor Marc Chagall.

Chagall, A Crucificação
Chagall, A Crucificação Branca, 1938 óleo sobre tela, 155 x 140 cm Chicago, The Art Institute of Chicago

Textualmente, o Papa escreveu: “… quantas vezes quadros ou afrescos, fruto da fé do artista, nas suas formas, nas suas cores, na sua luz, nos levam a dirigir o pensamento a Deus e fazem crescer em nós o desejo de chegar à fonte de toda a beleza. Permanece profundamente verdadeiro o quanto escreveu um grande artista, Marc Chagall, que os pintores por séculos tingiram os seus pincéis naquele alfabeto colorido que é a Bíblia”.

Marc Chagall, judeu por excelência, tem o reconhecimento de um Papa alemão, que viveu de perto os horrores do nazismo. (O Papa foi obrigado a alistar-se, tendo desertado antes do final da guerra). Muitos afirmarão que Chagall não careceria de reconhecimentos específicos, uma vez que a comunidade artística inteira respeita seu legado, tendo reconhecido-o em vida. O que conta, aqui, é a quebra de barreiras, a união entre os povos.

Chagall, A Queda do Anjo, 1923-1947, óleo sobre tela, 148 x 189 cm Basileia, Kunstmuseum

Bento XVI, sendo alemão de origem, entende a importância de seus gestos perante o povo judeu. Certamente é por isso que foi o primeiro pontífice a visitar um museu judaico e, em seus textos, apareçam as agradáveis lembranças de um Bernstein ou de um Chagall. Gosto da idéia de um Papa quebrando barreiras, derrubando porteiras. Muito bom saber que uma das maiores barreiras mundiais – a língua – tenha sofrido um duro golpe através de ato atribuído a ele: quando ainda sacerdote, durante o Concílio Vaticano II, o futuro Papa apresentou a proposta da realização da missa em língua local em vez de latim.

Bravo, Santidade! Que a arte contribua para seres humanos assim, dispostos a quebrar obstáculos, a unir toda a gente.

Está um texto grandinho para uma segunda-feira. Todavia, vale a pena alardear todos os atos, mesmo que pequenos, que unem os povos desse planeta.

Paz para todos!

Nota: O texto original do Papa Bento XVI foi publicado no dia 31 de agosto, através de boletim da sala de imprensa da Santa Sé.