Era uma época boa, quando cachorros eram amigos do homem. Ninguém carecia de passear com eles catando cocô pelas ruas. Precisavam de carinho, de comida, não dessas rações, Deus me livre do que são feitas… Os cãezinhos viviam livres e felizes pelos quintais e vizinhança das casas. Na minha família atendiam por nomes como Sheik, Bilu, Japi. A maioria era vira-lata, os melhores para fazerem barulho quando alguém invadia a propriedade. Eram dois, no máximo, por residência, exceto pelas dezenas que viviam e acompanhavam D. Maria.
Era uma festa constante. D. Maria caminhando rumo à padaria, à venda, ou sabe-se lá para onde, acompanhada por cerca de duas dezenas de cachorros. De todos os tamanhos e diferentes raças. Ela conversava com todos e os múltiplos latidos, vários abanando os rabos, dificultavam a gente identificar a quem ela se dirigia. Ouvia-se de longe o barulho e crianças, como eu, corriam para a porta de casa para ver a passagem da Dona Maria dos Cachorros.
Uns a chamavam de Velha Suja, ou Porca; outros de Doida Varrida. O que a memória guarda é de longas saias, blusas largas e panos jogados sobre o corpo que, mais tarde, um artista chamou de parangolés. D. Maria dos Parangolés e seus cachorros, todos parados comportadamente na porta da padaria enquanto ela pegava seus pães. Na porta do açougue era uma algazarra, os bichos querendo entrar e a mulher impedindo-os e pedindo o que queria lá do meio da rua. Alguns clientes irritados com o avanço dos cachorros perante o cheiro de sangue eram ignorados, Dona Maria fazendo de conta que não os ouvia. Vez ou outra o açougueiro jogava um pedaço de carne no meio da rua. Os cãezinhos corriam alucinados. Junto com eles a Dona Maria, corria preocupada para o meio da rua, impedindo a passagem de carros e similares, protegendo a matilha.
Mamãe contava que aquela mulher escolheu viver com os cães. O marido era cachaceiro inveterado e judiava dela e dos filhos. Esses, cresceram e foram embora. Nunca voltaram e ela não teria ido atrás de nenhum deles. Um dia ela tomou coragem e, armada de um porrete, botou o marido pra correr, já então com o apoio de alguns cachorros que, defendendo a dona, partiram pra cima do homem. Foi quando passou a acolher todos os cães que apareciam por lá. Uns, levados pelos vizinhos, outros bem filhotinhos eram abandonados na porta da casa.
Vivendo entre os animais, conversando com eles, foi se afastando dos vizinhos, só se comunicando mesmo com fornecedores. O padeiro, o açougueiro; verduras, não. Cultivava em horta própria, assim como frutas vinham do pomar do fundo do quintal. De onde vinha a renda, não se cogitava. Talvez algum filho mandasse algum dinheiro; talvez ela possuísse alguma reserva proveniente de herança. O que era certo é que vivia tomando conta de si e dos cães, passeando alegremente com os bichinhos em meio a festa e cuidados. De sua passagem pelo passeio em frente da nossa casa ouvia-se os latidos e, acima desses, a voz da mulher chamando para perto de si aquele que descia para a rua.
Sem dar bola para os vizinhos, esses também se esqueciam dela, deixando-a em sossegada paz. Às vezes ela passava dias sem sair de casa, mas era vista cuidando do quintal, brincando com os bichos. Entrou para a história o dia em que se ouviu cachorros uivando, lamentando o corpo caído no meio da sala. Quem escutou disse que eram como um choro desesperado, dolorido. Quem viu, guardou a imagem de alguns cachorros lambendo a dona, como se tentando reanimá-la.
A notícia ruim se espalhou feito raio e como mágica o marido retornou. Tomou conta dos funerais e, anunciando a venda do imóvel, avisou aos curiosos que apareceram no velório que daria um fim na cachorrada. Alguns animais foram levados embora, adotados no mesmo dia. Outros foram vistos pelas ruas, dias depois. Sem os cuidados da dona trataram de dar rumo na vida. As ruas do bairro ficaram mais tristes e silenciosas.
De Dona Maria dos Cachorros ficou por muito tempo a lembrança. Diziam por lá pelo Boa Vista, em Uberaba, que quando malditos donos tiravam filhotes das mães e os jogavam em um canto qualquer, via-se nas noites um vulto de mulher, cheia de parangolés, alimentando-os e colocando-os no colo para ninar. Houve até gente que disse ter ouvido acalantos na voz da mulher, o que poucos acreditaram. É lenda, diziam. É bonito, mas é lenda. Deixem Dona Maria descansar em paz!
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Nota: Imagem criada com IA.









