A Uberaba do meu tempo

uberaba85

Havia no meu tempo uma Uberaba

Era calma, suave, cheia de tardes bucólicas.

A cidade da minha infância tinha um absoluto céu azul,

Chuvas fininhas, intermináveis, irritantes.

Aventura era encontrar Maria Boneca portando o brinquedo

E fugir, para descansar sob a sombra da Gameleira.

Na exposição de gado meus pais compravam mexericas

Levando-me a preferir, sempre, mexericas ao Zebu.

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No meu tempo Uberaba tinha córregos a céu aberto

Guardados por muretas que nos serviam de encosto

Antes das sessões do Metrópole, do Palace

Esperando caronas do Padre Nicolau após aulas no Cristo Rei.

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Brincava no Mangueirão, passeava pelos trilhos da Mogiana,

No parque infantil da Praça Rigoleto de Martino (hoje só resta a Codau!)

O autor do Hino do Uberaba Sport, o time que, na Uberaba do meu tempo

Rivalizava com o Independente, o Nacional…

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No Boa Vista éramos todos sobrinhos da Tia Carola

Fazíamos teatro com a Belinha

Sabíamos que era maio pelas congadas

E que era dezembro no presépio de d. Castorina.

Foram tempos de festas constantes

Quando bastavam as quermesses de santos e santas

Soando sinos e cânticos nas sete colinas de Uberaba.

Parque Fernando Costa, Uberaba, MG. Foto Valdo Resende

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A minha Uberaba tinha crônica ao meio-dia

O festival do Chapadão de Teatro e de Música

O Observatório, no Lavoura e Comércio,

Tudo criação do Ataliba Guaritá, o Netinho.

Raul Jardim fazia o “Escutando e Divulgando”

Lídia Varanda reinava na PRE-5

E Nhô Bernardino terminava o dia na hora do Ângelus.

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Noite de Uberaba tinha o Parque Boa Vista (Eu era o filho do rei!)

O circo do Cheiroso, batuques no terreiro de Mãe Marlene

Cartas pelas mãos abençoadas de Chico Xavier

Mamãe rezando terço, aguardando-me dormir na noite sempre calma da cidade.

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Recordo o café oferecido pelas freiras do Carmelo

As aulas na Escola Estadual Fidélis Reis

As tardes de jogos no pátio da Igreja Nossa Senhora das Graças…

Tantas coisas como essas que continuam na Uberaba de hoje.

Que vejo longe, sei de ler, de ouvir contar

A cidade de agora é de quem por lá está.

Chácara dos Eucaliptos, foto by Valdo Resende

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Há uma Uberaba que é minha, feita de sonhos acalentados

De planos vitoriosos, de projetos engavetados.

Guardada por todo o sempre e sempre teimando em sair à tona

Aquela cidade ganha meus dias, ocupa minhas noites de insônia.

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Neste dois de março Uberaba faz 193 anos

A cidade de agora é porque um dia foi outra

Essa outra que chamo “minha”

Impregnada em ruas e morros,

Acalentando ternamente o coração transforma-se sempre

Vive o hoje, comemora o agora

Segue rumo ao tempo em que alguém, lá longe, lembrará:

A Uberaba do meu tempo…

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16 comentários sobre “A Uberaba do meu tempo

  1. nei

    Docemente nostálgico, acendeu em mim a saudade de minha infancia em Campinas, coisas tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Escrever com o coração é isso aí.

  2. Valdo Resende oi! Comecei a ler seu post sobre nossa Uberaba das 7 colinas e eis que meu coração bateu mais forte ao ler “Cristo Rei”.
    Era o colégio dos meus pais, Eunice e Erwin Pühler. Tenho certeza q de onde estiverem estarão orgulhosos do ex-aluno brilhante e “saudoso”.
    Paizinho se lembrava com detalhes de cada aluno e seus olhos explodiam de alegria ao revê-los.
    Eles amavam o q faziam e durante cinco décadas muitos jovens passaram pelas mãos deles.
    Sou desde já sua fã, seguidora fiel e divulgadora.
    Valeu demais conhecê-lo. Você me remete à Uberaba querida e a meus paizinhos ama-
    dos.
    Meu carinho, Brunhrilde M F S L F Pühler de Resende

  3. Walcenis

    Lendo esse texto, a vontade que dá, é o desejo que tudo volte tal qual era antes.
    Parabéns Uberaba sempre querida!

    1. Olá!
      A praça referida não existe mais. Ela ficava na esquina da Avenida Elias Cruvinel com a Rua João Pinheiro. Foi demolida para dar lugar aos tanques da Codau.
      Abs.

      1. LUIZ ALBERTO GUIMARAES MOLINAR

        Existe, sim! Porém, é uma rotatória. É na confluência do início da av. da Saudade e a r. Hildebrando Pontes, em frente de onde se localizava os portões de acesso do então Estádio Boulanger Pucci, do Uberaba Sport, no bairro Mercês. Após, remodelação do local, em 2018, a placa indicativa do logradouro foi retirada, entretanto no GPS aparece o nome da praça.

  4. poliana cristina vitorino

    Olá, Valdo tudo bem ? Me chamo Poliana Vitorino, sou advogada e estudante de História na UFTM e gostaria de trabalhar seu poema no projeto PIBID, nas escolas da rede Estadual de Uberaba – MG. Gostaria da sua autorização para tanto. Parabéns pelo belo trabalho.

      1. Olá, Poliana. Obrigado pelo contato. Moro em São Paulo e não conheço o projeto PIBID. Vc pode me dar informações sobre o mesmo? Não tenho problemas em autorizar, mas preciso saber exatamente do que se trata. Fico feliz em que tenha gostado do meu trabalho. Abraços

    1. Olá, Poliana. Obrigado pelo contato. Moro em São Paulo e não conheço o projeto PIBID. Vc pode me dar informações sobre o mesmo? Não tenho problemas em autorizar, mas preciso saber exatamente do que se trata. Fico feliz em que tenha gostado do meu trabalho. Abraços

  5. Maria Abadia Prata Barsam

    Valdo, que maravilha! Também eu viajei no tempo! Amei!voce retratou tudo de forma suave, terna! Mexeu com nossos corações. Parabéns!!

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