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jards_macalé

Decidi lá na adolescência, que não queria “ficar dando adeus às coisas passando” e assim, pensando que gostaria de “passar com elas”, sempre estive pronto para sair, ir embora. Percebo, passados tantos anos, que as idéias de “Movimento dos barcos”, de Jards Macalé e Capinan, estão entre os norteadores da minha vida.

Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo…

Essa música forte, na voz intensa de Maria Bethânia, é, na minha modesta opinião, o que há de melhor em termos de uma canção sobre o fim de um relacionamento. O quarto e o quinto versos da letra de Capinan são de uma beleza aterradora:

Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei…

Precisamente, Jards Anet da Silva nasceu em um 03 de Março de 1943 no Rio de Janeiro. Hoje, no domingo em que escrevo este post, o músico completa 70 anos. Parece que a origem do apelido está em um antigo jogador do Botafogo, tão ruim de bola quanto o jovem Jards. Grande fera da música brasileira, a carreira de Jards Macalé é sólida, com trabalhos marcantes que contribuíram para o sucesso dos baianos. Além de Maria Bethânia, Jards comparece em trabalhos de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa.

Em parceria com Wally Salomão, Macalé criou alguns grandes sucessos para a voz límpida de Gal Costa. Quem é jovem, quem foi nos anos de 1970 para cá, identifica-se tranquilamente com os versos de “Mal Secreto”:

..Se você me pergunta: “Como vai?”
Respondo sempre igual: “Tudo legal!”
Mas quando você vai embora
Morro meu rosto no espelho
Minha alma chora…

Sempre fui grato aos dois compositores e não sei dizer, nem de longe, quantas vezes me senti o “rapaz esforçado”, exposto via Gal:

Não fico parado, não fico calado, não fico quieto
Eu choro, converso
E tudo o mais jogo num verso
Intitulado mal secreto

O criador do “Banquete dos Mendigos” tem um longo histórico. Bastaria uma canção para colocá-lo entre os nossos maiores criadores musicais; ou há alguém que, conhecendo, não goste de “Vapor Barato”?

Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio
Eu não preciso de muito dinheiro
(Graças a Deus)
E não me importa, honey
Oh, minha honey baby

Jards Macalé e Wally Salomão (fonte: site do compositor)

Jards Macalé e Wally Salomão (fonte: site do compositor)

Novamente com o parceiro Wally Salomão, Jards, em Vapor Barato, retrata uma geração, um momento brasileiro (1971) via show “Fa-Tal, Gal a todo vapor”. Fez isso com tal maestria que ouvindo Gal lembramos do Brasil de então e do rapaz da esquina, parado no ponto de ônibus, desolado em um banco de jardim:

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu tô indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto (quem sabe)

Ah, cidadão Macalé. Pudera eu dizer pessoalmente o quanto gosto dessas canções, o quão importante foi pensar e refletir, durante toda a minha vida, enquanto cantarolava esses versos:

Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento

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Feliz aniversário, Jards Macalé!

Boa Semana para todos.

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As fotos que ilustram este post estão divulgadas no site do compositor.

Veja mais sobre Macalé em:

http://www.jardsmacale.com.br/

As letras das canções acima e de outras criações do compositor estão em:

http://www.mpbnet.com.br/musicos/jards.macale/index.html

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