Histórias fora da live

Angélica Leutwiller

Uma coisa é fazer live com quem tenho pouca ou nenhuma intimidade. Outra coisa é fazer o mesmo tempo numa live com uma amiga como Angélica Leutwiller. Se no primeiro caso cabe elaborar uma pauta com temas, comentários e perguntas pertinentes, no segundo a tarefa é outra: selecionar assuntos e situações que permearam nossas vidas em algumas décadas… Décadas! (E a gente dá a primeira gargalhada, pois a palavra década implica tanta coisa que o melhor é rir).

Importa no Trem das Lives contar a carreira da pessoa, o histórico do profissional. De preferência evidenciar aspectos não divulgados e retomar, rever a trajetória dos nossos convidados. Quando não conhecemos… a gente levanta esse histórico. Já com amigos como Angélica Leutwiller é necessário escolher entre muitos fatos ocorridos ao longo de nossas vidas.

Nos conhecemos na Universidade. Fizemos parte de um grupo que tomou posse do Instituto de Artes para reivindicar alguns direitos. Após alguns dias de invasão, fomos tirados do Campus por uma tropa de choque. Sob aplausos!

Estreitamos amizade fazendo teatro e aí… Angélica visitou Uberaba e conheceu minha família. Em Ribeirão Preto visitou minha tia Olinda em uma festa de Santo Antônio. Estivemos em Campinas, quando nossa querida Heloísa Junqueira cantou na ópera A Flauta Mágica. Fomos para apresentações do coral no Rio de Janeiro… A gente andou por aí.

Em 1983 Caetano Veloso gravou Eclipse Oculto. Angélica adorava a música e sempre a pedia em todas as comemorações. Não foi essa a música que, tempos depois, dançamos com Regina Duarte na comemoração das 100 apresentações da peça A Vida é Sonho. Angélica fez parte do espetáculo e, na festa que já não me recordo onde foi, lá estava o trio Angélica, Heloisa e eu saracoteando pelo salão. Lá pelas tantas, D. Regina desceu do pedestal de onde observava a galera e veio caminhando em direção ao trio, passando a dançar conosco, o quarteto cercado por um monte de seguranças… (Outras gargalhadas e, ao mesmo tempo pensar essa coisa estranha que é a vida de certas pessoas tendo que dançar vigiadas por armários duros e mal-encarados).

Sorte de quem viveu os anos de 1980. Ainda com as boas vibrações dos desbundes dos anos de 1970 e antevendo novos tempos, já que a ditadura militar estava chegando ao fim. Nem tudo era festa. Rolou o primeiro surto de dengue. Uma noite de febre intensa, náuseas, vômitos e um pedido de socorro para a amiga. Angélica me levou ao médico e depois pra casa dos pais, onde me fez um mingau. Coisas de amiga/irmã.

Tenebroso foi quando minha família perdeu seis pessoas em um acidente de carro. Eu não tinha telefone e entraram em contato com Angélica, para que me desse o triste recado. Certamente um momento delicado e embaraçoso, posto que ela não conhecia as pessoas. Ela teve a delicadeza e o cuidado de anotar os nomes dos falecidos. Bizarro! Angélica sentada ao meu lado, pedindo-me calma e após o baque da notícia do acidente ler pausadamente a relação dos mortos.

Tenho tido muita sorte na vida. Longe da família encontrei amigos que cuidaram de mim com carinho e desvelo. E com arte também! Tive períodos de depressão e fui levado para um tratamento com música e cromoterapia. Angélica, junto a um grupo de cantoras incríveis que entoavam mantras enquanto eu, deitado em uma maca, recebia luzes de cores diversas; ouvia e me curava. Sorry! Ficar deprimido e ter Angélica Leutwiller cantando pra levantar o astral é pra encher o peito e, literalmente, “me achar!”

Domingo, no Trem das Lives, estarei todo pimpão e babão recebendo minha amiga. Lá falaremos sobre diversos momentos da carreira dessa artista de primeiríssima linha. Aqui, fica registrado um pouco do imenso carinho que tenho por ela e de alguns fatos que marcaram nossas vidas. Apareçam! Vale a pena conhecer Angélica Leutwiller.

Todos estão convidados!

God save the queen!

Qual o motivo de implicarem com a idade da Rainha Elizabeth II? Estão querendo que ela morra? O problema é a idade da soberana inglesa, 94 anos, ou a idade média do brasileiro ser de apenas 76,7 (IBGE) de vida? Não seria o ideal que todas as pessoas tivessem as mesmas possibilidades de sobrevida que os nobres e ricos do planeta?

As brincadeiras com Elizabeth II são, no mínimo, de humor duvidoso. Pior, escancaram o preconceito em uma cultura onde juventude é valor, quando não passa de breve fase da vida humana. Provavelmente as pessoas que criticam e criam memes sobre a Rainha tem seus pais ou avós mortos na casa dos 70, 80 anos.

Muitos dessas “humoristas” certamente não valorizam o SUS, que aumentou em muito a vida dos brasileiros e, certamente, desconhecem os tratamentos que levam à longevidade de uma pessoa. Confundem tratar a saúde com “harmonização facial”, procedimentos estéticos que mascaram o tempo, mas criam feições falsas, beiços imensos, caras rigidamente inexpressivas que, cá entre nós, a Rainha Elizabeth não tem…

Tenho ojeriza às críticas sobre a idade da Rainha Elizabeth. Nunca quis, nem quero ser súdito inglês. O que me incomoda, profundamente, é que em nosso país os idosos não são respeitados. Estamos vivenciando neste momento uma atitude dos governos paulistas – estado e município, a capital – tirando dos idosos a passagem gratuita nos meios de transporte: trens, metrôs e ônibus. É bom salientar que aposentado não tem aumento. Apenas reajuste que, para 2021, está empatado com a inflação. E a sociedade se cala.

Outro aspecto da desvalorização da velhice, no nosso país, está escancarado nas praias cheias, nos bares lotados durante a epidemia. Quantos desses frequentadores de locais aglomerados moram sozinhos? Quantos estão levando o vírus para dentro de casa e, com isso, colocando a vida de pais e avós em risco? A Rainha inglesa pode ficar afastada e, com toda a certeza, está protegida de gente irresponsável. Sim, é quase certo que ela sobreviverá à essa pandemia e, se a genética valer, ela ultrapassará os 100 anos, vivendo tanto quanto a Rainha Mãe. Pessoalmente, é o que desejo.

Nos versos do hino britânico, os ingleses pedem pela saúde e pela vida da Rainha: God save the Queen! Por aqui… Carecemos de campanhas para que cedam lugares em filas, em bancos de praça, em meios de transporte. Recentemente, a mãe de um amigo, já idosa, foi à feira e quis comer um pastel. Um casal consumindo pasteis ocupava três bancos, sendo que o terceiro banco destinaram ao suco e prato com o salgado. Sem lugar disponível, quando a idosa solicitou a cadeira deu início a uma discussão desagradável e desnecessária. Quantos exemplos similares teríamos para registrar?

Há outro lado: Fernanda Montenegro, neste dia 25, divertiu e emocionou o país ao lado de outra veterana, Arlete Salles, e da filha, Fernanda Torres. Neste momento, nas emissoras de televisão está o comercial onde Fernanda brilha. Fernanda e Arlete são exemplos ao lado de Lima Duarte, Francisco Cuoco, Natália Thimberg … Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Wanderléia… Todos acima dos 70 anos.  Também presenciamos inúmeras expressões de tristeza e respeito pela morte de Nicette Bruno que, não posso deixar de notar, viveu menos que a Rainha Elizabeth. Artistas idosos merecem nosso respeito tanto quanto a gente comum, seja de que profissão for.

Enfim, não vou falar de outro idoso a não ser eu mesmo. Tenho 65 anos! Já velho, para alguns, mas com a capacidade (dane-se a modéstia!) de muitas coisas! Entre elas escrever em defesa de gente mais velha do que eu. Eu gostaria muito que os “humoristas” que ironizam a idade de Elizabeth II olhassem para si mesmos, para o que tem, o que viram, o que farão. Tenho orgulho da minha idade e do tempo que já vivi – um pouco desapontado com o momento presente. Sobretudo tenho orgulho do que fiz. E tenho planos, muitos planos para o futuro. Estou aí, feito a Elizabeth, pronto para o que der e vier.

Não vou listar meus feitos, apelo para Macunaíma: “Ai! Que preguiça!” Agora, se quiserem fazer meme com minha idade, sou alguém que viu o homem pisar na lua, ouviu Elis Regina cantar Arrastão no Festival da Excelsior, usou calça calhambeque que era o que os jovens artistas da Jovem Guarda usavam e, se muito criança não percebi o horror que foi a instauração da ditadura militar, estive junto aos que lutaram pela democratização do país. Atendi Chico Xavier, assisti Bibi Ferreira, Ângela Maria, vi comício do acadêmico Mário Palmério e muito, muito mais…

Meu cotidiano de Pedro

A janela escancara um dia ensolarado e, preso, observo a rua tímida, como diria Chico Buarque. Sem Construção, o que emerge do escaninho de canções é Pedro Pedreiro, aquele penseiro esperando o trem.

Vejo uma moça andando lentamente, meio a esmo, segurando um cigarro e, na mão esquerda, uma máscara carregada pela alça. Dois mascarados, homens, não procuram namorados como diz outra antiga canção, esperam passageiros. Talvez esperem o Pedro que, cansado de esperar, resolva tomar um táxi.

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa

Um tempo de espera esse 2020. Ingênuo, cheguei a pensar que seriam 15, 30 dias. E os dias, semanas, meses… Tento entender as pessoas que entregam a vida à própria sorte e saem, procuram trabalho, amigos, vão a festas, reuniões. Isto porque, na real, vem aquela coisa do Pedro, de esperar a morte, ou esperar o dia de voltar pro Norte. Mas, que Norte é esse?

Norte real, geográfico, não tenho. Quero ficar por aqui mesmo. Voltaria pra terra que chamei de minha, mas meus pais já não estão lá. Trago-os nas lembranças, no coração, em orações cotidianas. Norte profissional tá lento, feito Maria Fumaça tentando sobreviver em tempo de trem bala. É a pandemia, me consolo. De Norte afetivo vou bem, obrigado, e nesse “quesito” me distancio desse Pedro Buarque de Holanda. Só nesse!

Esqueço momentaneamente as mazelas desse nosso mundo pra divagar na durabilidade e atualidade de Chico Buarque de Holanda. Penso sair da janela e pegar um monte de CDs. Uma overdose do compositor pode acalentar o coração. Acalentar me lembra Acalanto, um acalanto nada bom:

Dorm’inha pequena

Não vale a pena despertar

Eu vou sair por aí afora

Atrás da aurora

Mais serena…

Ah, está tudo muito difícil, mas a gente tem o Chico Buarque. E Elis, Bethânia, Nara, todas pra cantar as músicas do cara. Esse Cara que não é dele, é do Caetano. Ambos nos consomem com seus olhinhos infantis, como olhos de um bandido. Só que, tchau, Caetano, não estou para o que der e vier. Estou esperando! Como o Pedro:

Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
… o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal
Todo mês
Esperando a festa
Esperando a sorte…

Talvez minha única diferença desse Pedro Pedreiro é ter ouvido Chico desde a infância e, portanto, sei disso:

Pedro não sabe, mas talvez no fundo
Espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar

E assim sigo, teimoso, atrás de um sonho, mesmo que impossível. Segurando o desespero da falta de vacina, do excesso de ignorância, do desconforto da máscara que me faz encarar, por qualquer lugar que vá, a morte, a doença, o fim. Reluto, insisto e sonho. Quero voltar atrás.

Ser Pedro Pedreiro, pobre e nada mais

Paro de escrever e vou ali, feito Januária ou Carolina, olhando o mundo pela janela. Esperando o trem, um trem de mineiro

Que já vem, que já vem, que já vem ….

Dia do Professor no Trem das Lives

Professores!!! Somos, não estamos. Brengel e eu…

Não estamos, mas podemos viajar no Trem das Lives para homenagear os que são, os que estão… ou não (diria o grande Caetano Veloso). Assim, no próximo domingo, comemoraremos antecipadamente o nosso dia (Dia 15 – quinta-feira – quantos estarão trabalhando?). Brengel, que é um fofo, escreveu:

“É com muito carinho que o Trem das Lives está preparando uma edição especial alusiva ao Dia dos Professores. Educadores de regiões distintas do país contarão um pouco do seu dia a dia, das suas realidades e sonhos. Lições de vida emocionantes. Não falte”.

Eu… Bem, não vou citar o nome de ministro que menosprezou os profissionais da educação. Insisto, todavia, no dever de respeitar toda e qualquer profissão. Não se trata de colocar umas sobre as outras, mas de ordená-las segundo sua inserção na vida do ser humano. Pai e mãe, avós, tios, irmãos e primos não são profissionais, mas familiares do ser que, para aprender metodicamente, criteriosamente, qualquer coisa além do universo doméstico precisa de um PROFESSOR!

Não se pode esperar muito de alguém (Ministros e similares no poder) que não consegue reconhecer a própria caminhada e o que foi necessário vivenciar para dar cada passo . Por isso eu desafio qualquer um (Ministros e similares no poder) a entrar em uma sala e, sem a FORMAÇÃO ADEQUADA, sem polícia armada na porta ou dentro da sala, tentar dar aula para trinta, cinquenta, cem alunos ou mais. FORMAÇÃO ADEQUADA em negrito e maiúsculas, pois nosso ensino, em qualquer circunstância e mesmo com dificuldades, acontece com preparação detalhada, planejamento sério, consistente e responsável. Do contrário, seria aventura, irresponsabilidade.

Fiquem tranquilos. O Trem das Lives vem com muita tranquilidade e delicadeza viajar com professores legais (por legal entenda: devidamente formados, capacitados e experientes no que fazem), simpáticos, agradáveis, o que nos permite garantir uma hora de viagem agradável, com informação e diversão.

ANOTE: Trem das Lives – Domingo – 18h – No instagram.com/tremdaslives

Aguardamos todos vocês.

Obs. A foto é de antes da pandemia. Por isso, estamos bonitinhos. O Brengel, sempre sorridente, esbanjando simpatia; Euzinho, com meu jeito meio ranzinza ( – meio? Alguém irá exclamar). Meio. Reafirmo. Era dia de festa.

Até mais!

A HORA DOS ARQUITETOS DO SOM (PARTE 2)

Nando Cury nasceu em Botucatu, SP. Mora no bairro do Sumaré, São Paulo. No próximo domingo nós o conheceremos um pouco mais. Das crônicas publicadas por ele escolhemos, para hoje, uma que envolve o universo musical. Sobre música, Nando Cury diz:

“Adoro música. Participei de algumas bandas como Os Jetsons e XPTO (em Botucatu, nos anos 60). Fui um dos vocalistas e compositores de O Quarteto, nos anos 70. Nos Anos 80, estudei harmonia na Escola de Música Travessia e fiz parte do grupo vocal Piruá. Agora sou um dos integrantes da banda Beatles For All.”

O Trem das Lives, com Nando Cury, será no próximo domingo, dia 4, 18h no Instagram do Trem das Lives (@tremdaslives). Veja abaixo um relato da experiência musical do autor:

A HORA DOS ARQUITETOS DO SOM (PARTE 2)

Quase caí da carteira, quando Mário Bock, meu colega de turma, me contou a novidade. Ele havia conseguido pra mim, em 1973, no nosso segundo ano da Faculdade de Comunicação Objetivo, um estágio no estúdio de Rogério Duprat. Continuei não acreditando, então fui falar com o grande regente e arranjador. Passei 20 dias dentro do Studio Vice Versa, meio paralisado, só observando o Sá, o Guarabyra e os músicos da banda O Terço elaborarem músicas com apelos publicitários. Que, depois do arremate final de Duprat – incluindo arranjos, vozes, instrumentos e mixagem – virariam jingles famosos de conhecidos produtos.

De formação erudita, Rogério Duprat fundou o Grupo Música Nova, em 1961, já indicando ares de vanguarda. Como professor da Universidade de Brasília, junto com Damiano Cozzela e Décio Pignatari, cuidou da modernização da teoria e da prática musical no Brasil. Expandiu sua técnica de composição numa temporada que passou na Europa, onde estudou com influentes compositores da música contemporânea eletroacústica, o francês Pierre Boulez e o alemão Stockhausen. Apesar de ter gerado trilhas premiadas para teatro e cinema, a fama de Duprat só foi alavancada na época dos inesquecíveis Festivais da Música Popular Brasileira da TV Record. Exatamente no IIIº Festival de 1967, considerado o mais competitivo e de melhor qualidade musical. Realizado no Teatro Paramount, na Brigadeiro Luiz Antônio em São Paulo, o IIIº Festival contou com uma plateia, em sua maioria, composta por ruidosos estudantes universitários. A TV Record bateu o recorde mundial de audiência, para espectadores fiéis. Tive o privilégio de ser um deles, assistindo com amigos, cada música de cada etapa, através da tela do televisor preto e branco, lá da nossa sala de estar em Botucatu. A disputa não era só pela melhor canção e melhor intérprete. Rogério Duprat ganhou o prêmio de melhor arranjo com “Domingo no Parque” de Gilberto Gil, segunda colocada no festival. Venceu outro gigante chamado Hermeto Paschoal, que fez o arranjo para Ponteio de Edu Lobo, a grande campeã. Duprat usou, como bases, o canto e o violão de Gil, misturando os naipes de cordas e metais da orquestra com berimbau, os backing vocais e sons dos instrumentos dos Mutantes, de Rita Lee, Arnaldo Baptista (baixo) e Sergio Dias (guitarra).

No ano seguinte, em 1968, Duprat criou os arranjos de Tropicália, que lançou o Tropicalismo, um dos mais importantes movimentos musicais brasileiros. Nesta obra, os inventivos arranjos de Duprat sincronizaram-se com a criatividade exuberante que aflorava de um grupo especial de novos compositores do país. As canções do álbum, em sua maioria, levaram a assinatura de Caetano e Gil, como em “Panis et Circenses”, interpretada pelos Mutantes. Caetano e Gil tiveram ainda a parceria de dois poetas que se destacavam naquele momento. Torquato Neto compôs com Gil “Geleia Geral”, interpretada por Gil. E com Caetano a canção “Mamãe Coragem”, cantada por Gal. Capinam fez “Miserere Nobis” com Gil, que também foi o intérprete. Caetano Veloso assinou “Enquanto seu lobo não vem”, cantada por ele e “Lindoneia”, que ficou perfeita na voz de Nara Leão. Tom Zé foi o autor de Parque Industrial, para o coro de Gil, Caetano, Gal e Os Mutantes. Gal Costa conduziu divinamente o hit “Baby” de Caetano.

Dessa mesma época, valem ser destacados os arranjos de orquestra que Duprat construiu, para tornar ainda mais originais e cobiçados, os três primeiros álbuns dos incomparáveis Mutantes de: 1968 (que traz “Panis et Circenses”), 1969 (que leva “Não vá se perder por aí”) e 1970 (Divina Comédia ou Ando meio desligado).

Capa do disco Tropicália: projetada pelo artista plástico Rubens Guerchman.

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Obs.: a PARTE 1, que aborda personagens da formação musical do autor está no Facebook. Faça uma visita e conheça outros contos e crônicas em https://www.facebook.com/nandocury

Eu nasci assim… com a coragem de quebrar padrões

sonia braga

A foto de Sonia Braga na Vogue online me leva a lembrar Caymmi com sua “Modinha para Gabriela”: Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim… Um alvoroço na internet com a capa da revista. Tive a paciência de ler comentários prós e contras e, esses últimos, com frequência notável vindo de mulheres. “Ela precisa se cuidar!” é o subtexto da maioria. Mas, caso Sonia Braga fosse como as outras mulheres…

Algumas mulheres, e este post é dedicado a elas, são extraordinariamente criativas, levam a vida com o maior sucesso e decidiram ser como são. Sem grandes arroubos na tentativa de enganar o tempo. Cá para nós, ninguém ludibria o tempo. Exercendo o sagrado direito de pintar cabelo, fazer plásticas por todo o corpo, colocar pequenos detalhes postiços, não enganamos o tempo. Nos sentimos bem. Mas Sonia Braga…

nasci assim

Sonia Braga, Laura Cardoso, Fernanda Montenegro e Maria Bethânia são exemplos da contramão do aparente estabelecido. Como essas mulheres se cuidam? Recordo uma entrevista de Fernanda Montenegro para Marília Gabriela: “- Tomo banho todo dia, alguns não tomam!” Maria Bethânia, em recente entrevista ao programa do Pedro Bial confessou ter feito plástica nos seios. Laura Cardoso nunca fez plástica.

Essas mulheres são profissionais notáveis, de ponta, que frequentemente são incomodadas por pessoas do tipo que chamam a primeira dama francesa de feia, ou por outras, dessas que escondem a idade, evidenciando um inexplicável medo do tempo. É preciso uma coragem fora do comum para escrever um livro com a palavra epílogo no título. Fernanda Montenegro escreveu, dando clara alusão ao tempo que finda, a uma história que cessa. Essa gente, que teme a ação do tempo, deve ficar apavorada com o que a palavra epílogo sugere.

Maria Bethânia, lá atrás, deu voz a versos de Caetano Veloso: “… o amor tudo levou, o outono chegou, mas o dom da primavera ninguém vai me tirar, hoje eu estou pronta pra cantar!”. E continua cantando, e vai cantar sempre, lindamente. Tanto quanto Fernanda Montenegro e Laura Cardoso em novelas recentes e Sonia Braga, em Bacurau. Vou guardar na lembrança a cena em que Fernanda desatina e mata três em uma única cena, assim como não esquecerei Laura Cardoso brincando de ser abusada e prostituta.

Algumas crenças nos limitam; a da eterna juventude é uma delas. É encarando o tempo que convivemos com possibilidades e limites. Esses mesmos limites que, quando jovens, foram outros. O que vale, em todo e qualquer tempo, é nossa capacidade de aprender, de entender, compartilhar. Parar no tempo, no padrão “lindo e jovem” é alimentar medos; de que o cabelo caia, fique branco, que as rugas tomem conta, os músculos amoleçam e o corpo despenque. Todo o cuidado com o corpo e com a saúde é necessário; de preferência que seja realista, pois assim esse cuidado será maior. Eu nasci assim, me diz a foto de Sonia Braga. E eu completo, como se fosse ela: Vivi e estou assim. E só estou assim porque vivi. E mudo quando quiser.

Há pessoas que estão em constante luta para manter e expandir um espírito criativo. Não param e não se assustam com o tempo. Seguem em frente, com um jeito invejável de ser. Essas quatro mulheres se cuidam mais que, provavelmente, a maioria de todos nós. Cuidam da cabeça, lutam por coerência, por direito, liberdade, honra, dignidade. Mais que elogios, querem reconhecimento e exercer o livre arbítrio quanto ao que usar, como usar e, sobretudo, o que fazer. Por isso são grandes criativas, por isso são estrelas. E cabe a nós aprender com elas.

Até mais!

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Nota: As fotos que ilustram este post foram colhidas na internet, divulgando trabalhos das artistas citadas.

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CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO NO AMBIENTE CORPORATIVO veja em www.competency,com.br.

 

Ensinar criatividade

Neste final de semanas demos o start ao lançamento do curso de Criatividade e Inovação no Ambiente Corporativo, através da Competency do Brasil. Volto a lecionar uma matéria que adoro e que, há muito, venho pesquisando, estudando e buscando aperfeiçoamento. Escolhi imagens de 1998 para ilustrar este post, quando já dava aulas práticas e teóricas de criatividade na Unip, no curso de Propaganda e Marketing.

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Lúcia foi quem me presenteou com as fotos! 

O melhor livro que conheço sobre o assunto só sairia quatro anos depois, quando Domenico de Masi publicou La Fantasia e la Concretezza. A edição brasileira saiu no ano seguinte com o nome Criatividade e Grupos Criativos entregando, já no título, um dos aspectos caros ao autor: a criatividade enquanto fruto de uma coletividade.

Penso no indivíduo criativo como aquele que, frente aos problemas, sabe buscar soluções, criá-las e, quem sabe, até inovando aspectos antes não percebidos ou registrados. Fundamentalmente, quando se trata de ensino da criatividade, acredito que o educador deve respeitar a evolução do aluno (o que é novidade para este pode ser algo já manjado para alguém experiente), alertando o mesmo para a necessidade contínua de ampliar e aprofundar o próprio repertório.

O indivíduo criativo raramente trabalha só, daí a importância do grupo, do ambiente, da sociedade na qual ele está inserido. Todos nós precisamos de parcerias, imprescindíveis em todas as épocas, para todo e qualquer ramo da atividade humana. Qual a real importância do Papa Júlio II na vida e obra de Michelangelo? Quem foi a figurinista responsável pelo vestuário de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa durante o Tropicalismo? Quem foi o editor que leu com atenção devida a obra de Guimarães Rosa?

Sobram exemplos no estudo da criatividade enquanto fato coletivo, resultado de parcerias. Ecoam até hoje os efeitos dos 18 anos de parceria entre a inglesa Margot Fonteyn e o russo Rudolf Nureyev. Os indivíduos que olham o futebol com a frieza profissional necessária sabem da importância de médicos, massagistas, treinadores, além dos próprios parceiros de gramado no reinado de Pelé. E, outro aspecto não menos importante: a fundamental contribuição de pedreiros, engenheiros e demais profissionais da construção civil na concretização dos fantásticos projetos de Oscar Niemeyer.

É pensando nesse tipo de situações que busco exercitar e ensinar a criatividade, via algo que Domenico de Masi colocou em palavras e que sigo com dedicação e seriedade: “EDUCAR UM JOVEM OU UM EXECUTIVO PARA A CRIATIVIDADE HOJE SIGNIFICA AJUDÁ-LO A IDENTIFICAR SUA VOCAÇÃO AUTÊNTICA, ENSINÁ-LO A ESCOLHER OS PARCEIROS ADEQUADOS, A ENCONTRAR OU CRIAR UM CONTEXTO MAIS PROPÍCIO À CRIATIVIDADE, A DESCOBRIR FORMAS DE EXPLORAR OS VÁRIOS ASPECTOS DO PROBLEMA QUE O PREOCUPA, DE FAZER COM QUE SUA MENTE FIQUE RELAXADA E DE COMO ESTIMULÁ-LA ATÉ QUE ELA DÊ LUZ À UMA IDÉIA JUSTA”.

O mundo de hoje não está fácil. Só pra se ter uma ideia do que me ocorre a partir da proposição de De Masi: IDENTIFICAR A VOCAÇÃO AUTÊNTICA implica em refletir sobre muitas variáveis que vão desde o aspecto financeiro, passando pela região geográfica em que se está inserido, ou as implicações sociais de nossas escolhas. Ensinar alguém a escolher PARCEIROS ADEQUADOS envolve desde interesses, tempo e lugar, quanto família, igreja, negócios e por aí vai, sendo que os demais aspectos sugeridos (CONTEXTO, FORMAS DE EXPLORAÇÃO DO PROBLEMA, RELAXAMENTO E MEIOS DE ESTIMULAR A PRÓPRIA MENTE) deverão merecer abordagem semelhante para o exercício da criatividade individual e coletiva.

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Esse assunto me apaixona. E penso que seja do interesse geral e, especificamente, daqueles que frequentam este blog. Pretendo um post semanal – SEMPRE DE DOMINGO PARA SEGUNDA – sobre o assunto. Comente, envie sugestões, dúvidas. Vamos ter uma ideia mais ampla do assunto e de como penso tratar o mesmo em situação de ensino. Sugestões são bem-vindas!

Para quem estiver interessado no curso, entre e veja possibilidades no site www.competency.com.br.

Até mais!

PS: Aos meus alunos, do curso cujas fotos estão acima, meu forte abraço e a lembrança carinhosa que levarei enquanto estiver por aqui!

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