“A festa é na avenida”

Atente para a mensagem da ilustração!
Creio ser pertinente, somar ao post, essa mensagem fundamental.

Se “a festa é na avenida”, como canta Arlindo Cruz, vamos desligar a TV, o computador e cair na folia. Nunca é demais alertar que avenida, no dito samba, é metáfora para todo espaço onde possamos brincar o carnaval. Se nem todos podem ir ao sambódromo, se há cidades onde não ocorrerão desfiles por falta de verbas e outros problemas, o jeito é apelar para a criatividade, a boa vontade e celebrar a alegria de viver.

Quem já esteve no Sambódromo, seja o de São Paulo ou o do Rio de Janeiro, sabe o quanto a transmissão da televisão é incompleta. Nossos caros profissionais, por mais que se esforcem, não conseguem ir além do óbvio. Enquanto as câmeras buscam mulheres bonitas, gente famosa, o detalhe inusitado, os apresentadores enchem nossos ouvidos com mesmices de todos os anos: É sempre perigoso o momento em que a bateria vai entrar no recuo; será que vai dar tempo da escola passar? Lá, encantados com o espetáculo, quando atingidos no âmago pelo desfile, nos esquecemos de tudo e somos felizes.

Estar em um desfile é permitir-se vivenciar a festa em plenitude; assistir, na arquibancada ou no camarote, é compactuar e interagir com todas as personagens do samba: a elegância da comissão de frente, a delicadeza refinada de mestre-sala e porta-bandeira, a técnica invejável do passista, a sensualidade gritante das cabrochas, o luxo dos destaques, o impecável artesanato das alegorias e, experiência única, o som absolutamente contagiante de uma bateria. A TV mostra por partes. No sambódromo ou na avenida, vivenciamos o todo.

“Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, diz outra canção, essa de Caetano Veloso. Se não vamos ao desfile da escola, há o trio elétrico, o bloco de rua. O samba ganha todos os espaços e permite a todos nós a alegria da criança, dona de si e da rua. Caminhamos apressados, tensos, por ruas e avenidas durante quase todo o ano. Corremos o risco de esquecer que trabalhamos tanto para que possamos brincar, confortavelmente, com nossos familiares, amigos e conhecidos. E brincar, aqui, é no sentido pleno de estar e ser feliz.

Nas ruas, ou praças, ou mesmo em botecos de esquina, esse é o momento para dançar frevo, sambar ou, simplesmente movimentar o corpo na cadência de uma marchinha. Há quem prefira os blocos gigantescos, na onda de uma Daniela Mercury ou com os Filhos de Gandhy na querida São Salvador; há os que começam com o Galo da Madrugada em Recife, após terem passado pelo Cordão do Bola Preta, no Rio de Janeiro. O melhor bloco é, sempre, aquele que a gente curte; eu, por exemplo, gosto do “Enterro dos ossos”, todo sábado após o carnaval, que encerra as atividades carnavalescas aqui do bairro.

Nem escola, nem bloco de rua? Ainda há bailes, dos mais sofisticados aos mais simples, com a criançada do condomínio, ou com os próprios familiares, afastando os móveis da sala. Permita-se brincar! Permita-se ser alegre, como o menino que dá uma rasante na avenida, com uma toalha amarrada ao pescoço, fingindo-se de Superman. Este é o verdadeiro espírito da festa carnavalesca; sair da rotina e brincar, de ser rei, sapo, rico, pescador, mulher gato, homem aranha… Na escola, no bloco, no salão do condomínio, a ordem é brincar e ser feliz.

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Bom carnaval!

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Nota: As peças que ilustram este post, é da Presença Propaganda. Grato ao Fernando Brengel, o folião mais animado da Vai-Vai!

Narciso, estou na tv; mas não levo o prêmio

Narciso. O que vemos quando olhamos a TV?
Narciso. O que vemos quando olhamos a TV?

 

Hoje recebi uma solicitação com cheiro de ameaça, de recriminação. Algo tipo “quero só ver até quando você deixará de opinar sobre o BBB”. Revidei, quase asperamente, que meu silêncio sobre o tema já é uma tomada de posição. E pensei em repetir as ladainhas costumeiras tipo “desligue a televisão”, “mude de canal” e etc.. O poeta José Régio,que admiro, escreveu: “só vou por onde me levam os meus próprios passos…”. Portanto, posso começar pedindo para que deixem o BBB em paz.

Para criticar um “reality show” o correto é estabelecer um padrão (do que seja um bom programa desse tipo), ou buscar uma base que sustente comparações. Sabemos que um programa é ruim, porque temos noção do que seja um programa bom. No caso do BBB, me parece que a Rede Globo dá de dez a zero na concorrência e até na matriz, de onde veio o programa. Ou seja: o programa é bem feito, bem editado, bem comercializado, bem apresentado e, evidente, cheio de gente bonita.

Se tecnicamente o programa é bem feito, resta ir buscar o motivo de tantas críticas. Parece que o conteúdo e o comportamento, expresso pelos participantes concorrentes, seja o maior problema. Aqui cabe lembrar alguns versos de Caetano Veloso:

Quando eu te encarei frente a frente

Não vi o meu rosto

Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto

É que Narciso acha feio o que não é espelho…

Acontece – e está aqui o maior problema – que o programa é espelho sim. Um perturbador espelho de um tipo de jovem que anda por aí. Os participantes buscam de tal forma o prazer que só não são totalmente hedonistas por enfrentarem provas que provocam desconforto e não são, nem um pouco, prazerosas. Até parece que nossos jovens, fora dos espaços televisivos não saem, vorazes, buscando prazer a qualquer custo…

O que vemos é algo muito semelhante a nós mesmos.
O que vemos é algo muito semelhante a nós mesmos.

Pelo programa já passou gente de todo tipo. Semianalfabetos, alfabetizados, ricos, pobres, bonitos, feios, certinhos, desbocados, comportados, irresponsáveis… Jovens exatamente iguais aos que encontramos por aí. Nem mais, nem menos. E sendo eles mesmos concorrem ao grande prêmio que será conquistado após festas, namoros, algumas brigas, banhos de piscina, sessões de ginástica…, enfim, muito prazer e vida boa.

O indivíduo denominado BBB poderia estar entre as pessoas das relações de qualquer um de nós: irmão, sobrinho, filho, amigo, conhecido… Essa proximidade, essa semelhança, está entre o que incomoda aos críticos ferrenhos do programa?

Os concorrentes do BBB participam de festas, ganham carros e, entre outros, o prêmio máximo, “sem fazer nada”.  E há um montão de outros, aqui de fora, que também não fazem nada, exceto críticas ferrenhas, às vezes indelicadas. Resta perguntar, para cada crítico do programa, quais ações pessoais cotidianas estão sendo realizadas. Certamente leem livros, muitos livros. Nunca bebem, pois estão sempre nos cultos religiosos esperando o casamento para realizar atos sexuais para procriação. Trabalham, nas horas vagas, em asilos, orfanatos e, enfim, jamais assistem ao BBB porque desligam a TV, ou mudam de canal. É isso?

A semana está começando. Gente comum pode sonhar com a loteria. Gente jovem e bonita sonha em participar do BBB. Uns poucos estão lá e um sairá com uma bela grana. Todos os que não estão no programa podem fazer um milhão de outras coisas, inclusive ver televisão. Certo que continuarão as críticas; mas, qual a base? Qual o padrão comparativo? O que fazemos, realmente, no nosso cotidiano que nos torna diferentes de um BBB?

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Até mais!

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A estrela mais linda!

cano

O rosto sereno ficou longe dos exageros de maquiagem. Os cabelos grisalhos, tudo indica, nunca receberam tinta. A casa está longe das suntuosas mansões com piscinas e decoração “de não sei quem”. É possível ver retratos dos familiares nas paredes, imagens de santos em oratórios. Os vestidos, se foram de grife, nunca tiveram marcas ostentadas. O sorriso largo, o olhar límpido e uma franqueza serena são as marcas que Dona Canô deixou para o mundo.

A fama imensa dos filhos Caetano Veloso e Maria Bethânia não afetou o comportamento da mãe, D. Canô. Numa época em que há familiares disputando espaço em revistas de fofocas, e em que mães apelam para botóx, afins  e outras  “produções”, forçando a barra para uma possível semelhança com as filhas ( -Parecemos irmãs!), Dona Canô notabilizou-se por uma sincera novena dedicada a Nossa Senhora da Purificação.

canô

Do seu cantinho, em Santo Amaro da Purificação, Dona Canô tornou-se estrela. Não precisou de homens de preto, arma em punho, para garantir uma segurança paranóica de mãe de artistas ricos e famosos. Abriu sua casa para a população da pequena cidade e tornou-se madrinha de inúmeras crianças da vizinhança. Defendeu o Rio Subaé, poluído por empresas inescrupulosas e seguiu a vida, com sorriso nos lábios, determinação nas atitudes, uma postura ética e moral admirável.

É bonito ver os filhos sendo abençoados pela mãe. A cena registrada em filme sobre Maria Bethânia (Pedrinha de Aruanda) é singela. Também é confortante ouvir a voz segura de Dona Canô louvando os santos em ladainha também registrada por Maria Bethânia  no CD Cânticos Preces Súplicas à Senhora dos Jardins do Céu.  Todavia, foi Caetano Veloso quem nos brindou com a foto da mãe, na capa do disco “Muito” (Dentro da Estrela Azulada), em 1978. Uma imagem transgressora por si. O cantor e compositor, humano, mostra-se menino, protegido no colo da mãe.

muito 1978

Dona Canô, dizem, foi exemplo.  É bom salientar que exemplo ela foi. Uma senhora da Bahia, mãe de muitos filhos que lhe deram netos, bisnetos. Dos dois filhos muito famosos ela continuou sendo mãe. E por ser mãe, tornou-se estrela. Tão linda quanto as verdadeiras mães sabem ser. A música de Caymmi foi para Mãe Menininha do Gantois; certamente, essa outra “estrela mais linda” dividiria, com tranquilidade, o verso da música com D. Canô. Duas estrelas que permanecerão na lembrança da gente.

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Até mais!

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O efeito Gadú

Vício de quem faz blog, e de quem trabalha com comunicação, a verificação da audiência é um hábito. Os altos e baixos de um blog, por exemplo, relacionam-se com outras variáveis além dos assuntos abordados em cada post. Grata surpresa, de repente os números sobem muito, e já aprendi a descobrir razões; terça-feira, em menos de quarenta minutos, minha audiência triplicou e após descobrir o motivo, resolvi denominá-lo “efeito Gadú”.

Maria Gadú canta no seriado. Foto: Louco por elas/TV Globo

Ontem, na Rede Globo, Maria Gadú fez uma participação especial no programa “Louco por elas”. Foi como convidada de Violeta (Gloria Menezes) em um sarau familiar. A cantora não fez feio ao brincar de atriz e ainda mostrou-se simpática ao dividir vocais com Dudu (Thiago Martins), Dora (Laila Garin) e Santiago (Zéu Britto).

O seu amor

Ame-o e deixe-o

Livre para amar

Conheci a música “O seu amor” com as vozes apaixonantes dos “Doces Bárbaros”. O quarteto formado por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia canta “O seu amor” em um momento mágico do show, registrado em disco em 1976. A harmonia dos quatro grandes artistas, amigos na vida e nos palcos, é de uma suavidade emocionante para a canção criada por Gilberto Gil.

O seu amor

Ame-o e deixe-o

Ir onde quiser

No programa, durante o sarau familiar, Maria Gadú se acompanha ao violão e forma um inusitado quarteto com os personagens de ficção, também cantores na vida real. Foi simples e bonito, como a canção.

O seu amor

Ame-o e deixe-o brincar

Ame-o e deixe-o correr

Ame-o e deixe-o cansar

Ame-o e deixe-o dormir em paz

Os mais “Doces Bárbaros”

Um pouco após o final do programa, já finalizando o meu dia, fui verificar o número de visitantes do blog e me surpreendi com uma quantidade enorme de visitantes. O melhor, é que eles não paravam de crescer. As pessoas começaram a pesquisar “Maria Gadu Ame-o e deixe-o” e chegaram neste blog. Escrevendo sobre o aniversário de Caetano Veloso citei a cantora e a música em questão.

O seu amor

Ame-o e deixe-o

Ser o que ele é.

O efeito Gadú continuou e, também na quarta-feira, tive uma audiência superior ao habitual. Resolvi escrever por duas razões: agradecer aos visitantes, fãs da cantora, e também por constatar algo que, penso, muitos concordarão comigo.

Há uma falta imensa de bons programas musicais na televisão. Temos programas que constantemente apresentam números musicais e outros, esporadicamente, como o seriado estrelado por Eduardo Moscovis e Deborah Secco. O brasileiro gosta de música. Gosta de boa música e posso dar dois exemplos que confirmam isto: as centenas de pessoas que buscam saber mais sobre uma canção interpretada por Maria Gadú em um seriado, apresentado após as 22h00 e, o segundo, o imenso sucesso do programa The Voice, com seus participantes com inegáveis qualidades musicais.

É frequente a imposição de muito lixo musical pelas grandes gravadoras, verdadeiras donas da programação de emissoras de rádio e similares. É ótimo saber que o público de uma jovem cantora como Gadú é levado por uma bela canção e, mais que a mera audição, sai buscando detalhes da mesma.

Se você chegou até aqui, clique, veja o grupo e ouça a canção com os mais “Doces Bárbaros”. Quem sabe, esta seja o impulso para conhecer outras canções e uma bela história, de um quarteto formado por quatro amigos…

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Até mais!

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Alguns detalhes sobre Altamiro Carrilho

Antes dos primeiros versos de “Detalhes” é o inesquecível som de uma flauta que faz com que identifiquemos a canção. Altamiro Carrilho faz uma abertura brilhante para aquela que está entre as maiores canções da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Nem sempre nos damos conta do quanto um instrumentista importa em nossas vidas; mas não dá para imaginar “Detalhes” sem aquele som simples, tão característico, evocando toda uma situação mágica e encantadora, precedendo a interpretação impecável de Roberto Carlos (Clique para ouvir).

Em 1971 Altamiro Carrilho participou da gravação de “Detalhes”. No mesmo ano, no VI Festival Internacional da Canção, a banda de Altamiro dá um maravilhoso suporte para Wanderléa. Cantando “Lourinha”, de Fred Falcão e Arnoldo Medeiros, Wanderléia deixava evidente que já estava longe da Jovem Guarda, interpretando este gracioso chorinho com o acompanhamento preciso e virtuoso de Carrilho.

Com Roberto Carlos e Wanderléa conheci o flautista genial que foi Altamiro Carrilho. Tão genial que me levou a fantasiar que a flauta foi um instrumento criado para solo de chorinhos, maxixes, marchinhas… Altamiro Aquino Carrilho (21/12/1924) começou a carreira em 1949, gravando com Moreira da Silva. “Brasileirinho” (Waldir Azevedo e Pereira Costa) e “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo) são gravações antológicas, tanto quanto “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu), só para citar alguns registros instrumentais.

Certamente a música “Detalhes” está entre as mais executadas nas emissoras de rádio e tv do Brasil. Não é só; Altamiro Carrilho está presente também em outros grandes sucessos; é difícil imaginar “Meu caro amigo” (Chico Buarque e Francis Hime) sem o flautista; e na gravação original da trilha do seriado Gabriela, é ele a dar um colorido especial, enriquecendo a interpretação de Gal Costa

O que e o quanto mais temos de Altamiro Carrilho em nossas vidas, na música brasileira? Se acontecer uma pesquisa aprofundada é certo que encontraremos muito mais do músico que faleceu, aos 87 anos, nesse 15 de agosto. Será um encontro com gente do nível de Pixinguinha, Vicente Celestino, Caetano Veloso, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Jacó do Bandolim, Clara Nunes e mais, de outro universo onde estão Bach, Beethoven, Chopin… Muito, muito grande esse Altamiro Carrilho.

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Até!

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Nota: o falecimento de Altamiro Carrilho foi destaque em toda a imprensa. O G1 apresentou uma seleção de entrevistas que valem uma visita; clique aqui para acesso aos vídeos.

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Sete mil vezes Caetano Veloso

Impossível não reverenciar Caetano Veloso quando este grande, entre os maiores compositores brasileiros, completa 70 anos. O natalício será neste próximo dia sete de agosto. Difícil escrever algo novo sobre Caetano já que o mesmo, merecidamente, será homenageado pelos maiores intelectuais deste país; difícil também escrever para alguém que escreve tão bem! Mas, vamos lá, deixar o coração falar para homenagear alguém que, ao longo de tantos anos, propiciou momentos incríveis para milhões de brasileiros.

Claudia Cardinale e Brigitte Bardot
Todo mundo, como Caetano, sonhava com Cardinale e Bardot

A primeira música que emerge, quando penso em Caetano Veloso, fala de um amor arrebatador. Todavia, como a música brasileira é sempre presente em minha vida, inclusive em sala de aula, falar em primeira é falar em “Alegria, alegria”. Criança – eu tinha 9, 10 anos – pouco sabia que em música brasileira não se usava guitarra elétrica. A música daquele rapaz cabeludo da Bahia era contagiante; eu não usava nem lenço nem tinha documento e era, como todo garoto de então, apaixonado por Brigitte Bardot, com uma grande queda para Claudia Cardinale. Tudo era uma grande festa!

…Espaçonaves, guerrilhas

Em Cardinales bonitas

Eu vou

Em caras de presidentes

Em grandes beijos de amor

Em dentes, pernas, bandeiras,

Bomba e Brigitte Bardot…

A vida tratou de ensinar-me que Caetano Veloso era mais que “Alegria, Alegria”. Antes de completar 17 anos saí de casa pela primeira vez. Foram tempos conturbados para todo o país e eu, como o baiano de Santo Amaro da Purificação, também tive que vir embora. “No dia em que eu vim-me embora” a canção de Caetano Veloso e seu parceiro Gilberto Gil, é trilha profunda para o retirante que sou.

…E quando eu me vi sozinho

Vi que não entendia nada

Nem de por que eu ia indo

Nem dos sonhos que eu sonhava…

Caetano Veloso foi embora para Londres onde criou “London, London”, uma das mais belas canções com a capital inglesa como tema, e voltou para um Brasil de sempre, com “podres poderes” que demoraram a tomar rumo. Longe de Uberaba fui ao primeiro show daquelas quatro figuras mágicas, então denominadas “Doces Bárbaros”: Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Quem é da minha geração pode entender qual o impacto de, em um mesmo palco, encontrar quatro imensas feras da nossa música. Isso em uma época onde não rolavam festivais de verão e similares. No show, no disco, o aprendizado que persigo e que pretendo seguir enquanto vivo:

O seu amor

Ame-o e deixe-o livre para amar…

Ame-o e deixe-o ir aonde quiser…

Ame-o e deixe-o ser o que ele é…

Alguém importa quando importa para a vida de muita gente. É o caso de Caetano Veloso que, creio, seja autor de canções para a vida da maioria dos brasileiros. Desde o primeiro disco o compositor, também excelente cantor, jamais fugiu de suas raízes populares. Gravou Vicente Celestino com o mesmo respeito que gravou Chico Buarque; fez sucesso com canções de Peninha, Roberto Carlos e atualmente segue em parceria nos palcos, ao lado de Maria Gadu.

Caetano Veloso 70 anos

Poderia alongar-me aqui e escrever sobre a trilha sonora de “Velhos Marinheiros”; a adaptação do romance de Jorge Amado foi para os palcos de São Paulo, com uma trilha baseada em Caetano Veloso; meu amigo Ivan Feijó participou deste trabalho e corrigiu-me a memória (vejam no comentário abaixo). No espetáculo teatral dirigido por Ulysses Cruz, Ivan contribui com as canções de Vicente Celestino. Poderia escrever sobre as inesquecíveis aulas de Dirce Ceribeli, na UNESP, introduzindo semiologia através das letras das canções do compositor. Poderia contar um monte de histórias; várias delas com “Eclipse Oculto” como tema.

Nosso amor não deu certo

Gargalhadas e lágrimas

De perto fomos quase nada

Tipo de amor que não pode dar certo

Na luz da manhã

E desperdiçamos os blues do Djavan…

Tantas histórias de tantas vidas com a música de Caetano Veloso ali, presente; marcando acontecimentos, tornando pessoas inesquecíveis. As canções são sempre novas para quem não as conhece. Tornam-se vivas e tornam vivas as pessoas, mesmo que o tempo tenha ficado longe demais. Muitas histórias, mas hoje é segunda-feira…

– Vamos trabalhar!

Então, deste humilde blog quero desejar outros 70 anos ou setenta mil vezes setenta para Caetano Veloso. Penso que basta uma música para fazer célebre um grande compositor. Sou contra cobranças ou exigências de novas canções, novos sucessos, outra “Sampa”. Cada pessoa tem sua preferência e, em se tratando de Caetano Veloso, esse leque é bastante amplo. Eu prefiro “Sete mil vezes”. Feliz de quem pode amar e, para esse amor, tomar emprestada a música e a letra de Caetano Veloso para soltar o gogó….

Sete mil vezes eu tornaria a viver assim
Sempre contigo transando sob as estrelas
Sempre cantando a música doce
Que o amor pedir pra eu cantar
Noite feliz, todas as coisas são belas
Sete mil vezes, e em cada uma outra vez querer
Sete mil outras em progressão infinita…

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Feliz aniversário, Caetano Veloso!

Boa semana para todos!

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Saudade do calor do Piauí

Meus sobrinhos João e Antônio felizes, no calor do Piauí.

Frio dói. Qualquer mínima parte do corpo, quando exposta, dói. Toca a ficar encolhido, envelopado, enrolado, acebolado. Saudade dos 40ºC de São Raimundo Nonato. Muita e real saudade. Calor, por maior que seja, incomoda, mas não dói. É só arranjar uma bela sombra, de preferência acomodado em uma rede, com uma boa jarra de suco de caju do lado, um bom livro, ou um bom som e a vida, vira canção.

A vida aqui só é ruim

Quando não chove no chão

Mas se chover dá de tudo

Fartura tem de montão…

Conheci bem o município de São Raimundo Nonato, no Piauí, antes de qualquer outra localidade nordestina. Cheguei de avião, cheio de curiosidade, em Petrolina; lá estava o aeroporto mais próximo para o sudeste do Piauí. Na cidade pernambucana fui molhar os pés no Rio São Francisco – atendendo pedido de meu pai – e atravessei a ponte para Juazeiro, na Bahia.

…Juazeiro nem te lembras desta tarde
Petrolina nem chegaste a perceber
Mais na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê…

Magicamente conheci três Estados nordestinos em uma única tarde. Desci em Petrolina, calor escaldante, aproveitei o frescor das águas cantarolando o verso de Caetano Veloso “Velho Chico vens de Minas” e, viajante, atravessei a ponte, de passagem pela Bahia para, poucas horas depois, entrar no Piauí.

Uma tarde no Rio Parnaíba, no Piaui. Nem tudo é caatinga por lá.

A caatinga é uma experiência inesquecível. O calor exasperante no clima semiárido assusta e principia nosso entendimento do que seja o vaqueiro, o sertanejo. De imediato recordei os cangaceiros e entendi suas roupas de couro, seus aboios tristes enfrentando os espinheiros, lutando pela própria vida. Mas é sol e as tardes são mornas, cálidas; as noites são gostosamente frias.

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixaras aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.

Ah, esse frio que dói. Demais! Muito! Só faz aumentar em mim o desejo de ir embora; quero viver meus últimos dias sob o sol! Sonho com o calor do nordeste. Um dia, pego minha Anarina, e vou. Quero o norte de Minas, o sul da Bahia, o sudeste do Piaui, o litoral das Alagoas…

Sombra, uma bela rede. Tudo é melhor no calor.

Enquanto isso não acontece, fico aqui, com minha taça de vinho tinto, quase “bebinho da silva”, correndo o risco de, enquanto bebum, chorar com cena de novela e invejando Gabriela, com todo o calor que ela não promete, tem.

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Até mais.

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Notas:

Os trechos citados, respectivamente, são:

O último pau de arara, canção de Venâncio,Corumbá e J. Guimarães

O ciúme, canção de Caetano Veloso

Brisa, poema de Manoel Bandeira

As fotos são do arquivo pessoal da minha comadre Vânia Lourenço Sanches

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