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Meus sobrinhos João e Antônio felizes, no calor do Piauí.

Frio dói. Qualquer mínima parte do corpo, quando exposta, dói. Toca a ficar encolhido, envelopado, enrolado, acebolado. Saudade dos 40ºC de São Raimundo Nonato. Muita e real saudade. Calor, por maior que seja, incomoda, mas não dói. É só arranjar uma bela sombra, de preferência acomodado em uma rede, com uma boa jarra de suco de caju do lado, um bom livro, ou um bom som e a vida, vira canção.

A vida aqui só é ruim

Quando não chove no chão

Mas se chover dá de tudo

Fartura tem de montão…

Conheci bem o município de São Raimundo Nonato, no Piauí, antes de qualquer outra localidade nordestina. Cheguei de avião, cheio de curiosidade, em Petrolina; lá estava o aeroporto mais próximo para o sudeste do Piauí. Na cidade pernambucana fui molhar os pés no Rio São Francisco – atendendo pedido de meu pai – e atravessei a ponte para Juazeiro, na Bahia.

…Juazeiro nem te lembras desta tarde
Petrolina nem chegaste a perceber
Mais na voz que canta tudo ainda arde
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê…

Magicamente conheci três Estados nordestinos em uma única tarde. Desci em Petrolina, calor escaldante, aproveitei o frescor das águas cantarolando o verso de Caetano Veloso “Velho Chico vens de Minas” e, viajante, atravessei a ponte, de passagem pela Bahia para, poucas horas depois, entrar no Piauí.

Uma tarde no Rio Parnaíba, no Piaui. Nem tudo é caatinga por lá.

A caatinga é uma experiência inesquecível. O calor exasperante no clima semiárido assusta e principia nosso entendimento do que seja o vaqueiro, o sertanejo. De imediato recordei os cangaceiros e entendi suas roupas de couro, seus aboios tristes enfrentando os espinheiros, lutando pela própria vida. Mas é sol e as tardes são mornas, cálidas; as noites são gostosamente frias.

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixaras aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.

Ah, esse frio que dói. Demais! Muito! Só faz aumentar em mim o desejo de ir embora; quero viver meus últimos dias sob o sol! Sonho com o calor do nordeste. Um dia, pego minha Anarina, e vou. Quero o norte de Minas, o sul da Bahia, o sudeste do Piaui, o litoral das Alagoas…

Sombra, uma bela rede. Tudo é melhor no calor.

Enquanto isso não acontece, fico aqui, com minha taça de vinho tinto, quase “bebinho da silva”, correndo o risco de, enquanto bebum, chorar com cena de novela e invejando Gabriela, com todo o calor que ela não promete, tem.

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Até mais.

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Notas:

Os trechos citados, respectivamente, são:

O último pau de arara, canção de Venâncio,Corumbá e J. Guimarães

O ciúme, canção de Caetano Veloso

Brisa, poema de Manoel Bandeira

As fotos são do arquivo pessoal da minha comadre Vânia Lourenço Sanches

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