Histórias fora da live

Angélica Leutwiller

Uma coisa é fazer live com quem tenho pouca ou nenhuma intimidade. Outra coisa é fazer o mesmo tempo numa live com uma amiga como Angélica Leutwiller. Se no primeiro caso cabe elaborar uma pauta com temas, comentários e perguntas pertinentes, no segundo a tarefa é outra: selecionar assuntos e situações que permearam nossas vidas em algumas décadas… Décadas! (E a gente dá a primeira gargalhada, pois a palavra década implica tanta coisa que o melhor é rir).

Importa no Trem das Lives contar a carreira da pessoa, o histórico do profissional. De preferência evidenciar aspectos não divulgados e retomar, rever a trajetória dos nossos convidados. Quando não conhecemos… a gente levanta esse histórico. Já com amigos como Angélica Leutwiller é necessário escolher entre muitos fatos ocorridos ao longo de nossas vidas.

Nos conhecemos na Universidade. Fizemos parte de um grupo que tomou posse do Instituto de Artes para reivindicar alguns direitos. Após alguns dias de invasão, fomos tirados do Campus por uma tropa de choque. Sob aplausos!

Estreitamos amizade fazendo teatro e aí… Angélica visitou Uberaba e conheceu minha família. Em Ribeirão Preto visitou minha tia Olinda em uma festa de Santo Antônio. Estivemos em Campinas, quando nossa querida Heloísa Junqueira cantou na ópera A Flauta Mágica. Fomos para apresentações do coral no Rio de Janeiro… A gente andou por aí.

Em 1983 Caetano Veloso gravou Eclipse Oculto. Angélica adorava a música e sempre a pedia em todas as comemorações. Não foi essa a música que, tempos depois, dançamos com Regina Duarte na comemoração das 100 apresentações da peça A Vida é Sonho. Angélica fez parte do espetáculo e, na festa que já não me recordo onde foi, lá estava o trio Angélica, Heloisa e eu saracoteando pelo salão. Lá pelas tantas, D. Regina desceu do pedestal de onde observava a galera e veio caminhando em direção ao trio, passando a dançar conosco, o quarteto cercado por um monte de seguranças… (Outras gargalhadas e, ao mesmo tempo pensar essa coisa estranha que é a vida de certas pessoas tendo que dançar vigiadas por armários duros e mal-encarados).

Sorte de quem viveu os anos de 1980. Ainda com as boas vibrações dos desbundes dos anos de 1970 e antevendo novos tempos, já que a ditadura militar estava chegando ao fim. Nem tudo era festa. Rolou o primeiro surto de dengue. Uma noite de febre intensa, náuseas, vômitos e um pedido de socorro para a amiga. Angélica me levou ao médico e depois pra casa dos pais, onde me fez um mingau. Coisas de amiga/irmã.

Tenebroso foi quando minha família perdeu seis pessoas em um acidente de carro. Eu não tinha telefone e entraram em contato com Angélica, para que me desse o triste recado. Certamente um momento delicado e embaraçoso, posto que ela não conhecia as pessoas. Ela teve a delicadeza e o cuidado de anotar os nomes dos falecidos. Bizarro! Angélica sentada ao meu lado, pedindo-me calma e após o baque da notícia do acidente ler pausadamente a relação dos mortos.

Tenho tido muita sorte na vida. Longe da família encontrei amigos que cuidaram de mim com carinho e desvelo. E com arte também! Tive períodos de depressão e fui levado para um tratamento com música e cromoterapia. Angélica, junto a um grupo de cantoras incríveis que entoavam mantras enquanto eu, deitado em uma maca, recebia luzes de cores diversas; ouvia e me curava. Sorry! Ficar deprimido e ter Angélica Leutwiller cantando pra levantar o astral é pra encher o peito e, literalmente, “me achar!”

Domingo, no Trem das Lives, estarei todo pimpão e babão recebendo minha amiga. Lá falaremos sobre diversos momentos da carreira dessa artista de primeiríssima linha. Aqui, fica registrado um pouco do imenso carinho que tenho por ela e de alguns fatos que marcaram nossas vidas. Apareçam! Vale a pena conhecer Angélica Leutwiller.

Todos estão convidados!

Marília Pêra Canta

Marília Pera em Elas Cantam Roberto

Atrizes e cantoras, atrizes ou cantoras; duas funções distintas e frequentemente associadas a uma pessoa: Barbra Streisand, Madonna e, no Brasil, Marília Pêra.

Por conta do sucesso momentâneo há cantoras que, ocasionalmente tornam-se atrizes. Maria Bethânia contracenou com Chico Buarque e Nara Leão em “Quando o Carnaval Chegar”, filme dirigido por Cacá Diegues. Whitney Houston soltou a voz, protegida por Kevin Costner em “O Guarda Costas”.

Beyoncé está no caminho do cinema e não se sabe onde irá parar. Madonna acaba de estrear como diretora do filme “W.E.”, sob uma chuva de críticas e Barbra Streisand reina; como atriz, como cantora, como diretora.

Algumas atrizes brasileiras soltam o gogó, sem nenhuma pretensão à carreira de cantoras. Fernanda Montenegro e Marieta Severo, por exemplo, estão entre as atrizes que fizeram participações especiais em disco. Outra grande atriz, Bibi Ferreira, tem feito mais discos e shows que peças teatrais. Entretanto, nos shows, Bibi prioriza repertório de canções já interpretadas em memoráveis montagens como “My Fair Lady”, “O Homem de La Mancha”, “Gota D’água”, “Piaf” (sobre a cantora francesa Edith Piaf) e, entre outras, “Bibi Vive Amália”, onde lembrou a cantora portuguesa Amália Rodrigues.

Marília Pêra é aclamada como a mais completa entre nossas atrizes. Ela interpreta, dança, canta e é premiada diretora. A atriz tem uma carreira marcante em se tratando de musicais. Pessoalmente destaco “Roda Viva” (1968), “A Vida Escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato” (1970) e “A Estrela Dalva” onde Marília interpretou Dalva de Oliveira. E aqui é bom notar que a atriz encarou interpretar aquela que é considerada uma das maiores cantoras brasileiras.

Música, propriamente dita, foi conteúdo de espetáculos extraordinários da atriz. Em “Elas por Ela” (primeira montagem em 1989 com uma remontagem em 1992) Marília Pêra mostrou versatilidade musical lembrando grandes cantoras brasileiras; entre essas, a paulistana Isaura Garcia, a baiana Gal Costa e a mineira Wanderléa. No show Marília somou ao canto, os trejeitos vocais e gestuais de todas as homenageadas. Especificamente musical também foram dois espetáculos: “Marília Canta Ary Barroso” (2003) e “Marília Canta Carmen Miranda” (2005).

Capa do disco que lançou Marília com cantora

Com tanta música no currículo, Marília Pêra deveria configurar-se entre as grandes cantoras brasileiras. Tanto é que em 1975 lançou-se como cantora, com um show, “Feiticeira”, roteirizado por Fauzi Arap e Nelson Motta. Tornado disco, não obteve sucesso. Marília gravou temas de novelas, fez participações especiais em diversos discos e shows. A mais recente, em disco e DVD, foi uma participação no show “Elas Cantam Roberto”.

A boa notícia é que o disco de Marília será editado em formato digital, pela gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro. Veja no final deste todos os nomes envolvidos em cada uma das faixas do álbum e tenha uma visão do que é o disco.

Penso que é um equivoco mercadológico não ter dado o devido tratamento aos trabalhos musicais de Marília Pêra. Não tenho a menor simpatia por esse tipo de comparação com a qual termino este, mas devo admitir que é verdadeira: Se fosse nos EUA, Marília Pêra seria, além de atriz consagrada, grande vendedora de discos. Resta o consolo de saber que as principais criações da cantora Marília Pêra estão registradas e garantidas para a memória do cancioneiro nacional.

Bom final de Semana!

Nota: As faixas do disco.

1. Dança da Feiticeira (Guto Graça Melo e Nelson Motta)
2. Bem-te-vi (Luhli e Lucina) – Participação de Luhli e Lucina
3. Samba dos Animais (Jorge Mautner)
4. Coelho Branco (Guto Graça Melo e Nelson Motta)
5. A Natureza (Zé Vicente da Paraíba e Passarinho do Norte em adaptação de Geraldo Azevedo)
6. Alô Alô Brasil (Eduardo Dussek)
7. Canção Pra Inglês Ver (Lamartine Babo)
8. Não Digas Nada (João Ricardo e Fernando Pessoa)
9. A Cara do Espelho (Guto Graça Melo e Nelson Motta)
10. O Medo (Alceu Valença)
11. Avô do Jabor (Nelson Motta) – Participação do grupo Vímana
12. Sem Essa (Duda e Jards Macalé)
13. Estado de Choque (Guto Graça Melo e Nelson Motta)