Os Impressionistas em São Paulo

Muito bom morar em uma cidade como São Paulo: a cidade que recebe Caravaggio no MASP também expõe 85 quadros impressionistas, vindos diretamente de Paris. A mostra, denominada Impressionismo: Paris e a Modernidade – Obras-Primas do Museu d’Orsay está no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro da cidade.

“Impression soleil levant” (1872) o quadro de Monet que dá nome ao movimento

O Impressionismo é apaixonante e pede aprofundamentos diferenciados conforme o artista, a obra. Monet é um artista peculiar, próximo e distante de Cezanne. Gauguin, presente na história de vida de Van Gogh tem particularidades próprias que o tornam totalmente diferente do amigo. Renoir deixou pinturas memoráveis, feitas ao ar livre, enquanto Degas pintou o interior de teatros, o palco visto de dentro.

A grande exposição em São Paulo pode ser vista pelo jovem estudioso de arte, sequioso de ver de perto aquilo que conhece por reproduções gráficas. Também pode ser apreciada por aquele cidadão que nunca estudou arte e nem sabe o motivo de um movimento ser dito impressionista. As obras falam por si, conquistam pela qualidade técnica, pelas diferentes acepções de beleza formando, no todo, um grande tratado estético.

O Impressionismo: Diferentes formas de olhar, de perceber e captar o objeto.

O Impressionismo encerra um momento peculiar da arte no final do século XIX, sendo antecedente fundamental de toda a pintura do século XX. Uma fase que implica em quebra de padrões tradicionais, abandono de convenções em favor da liberdade de expressão e de pesquisa formal. Muitos fatores contribuíram para as mudanças que explodem com o Impressionismo. A busca por captar um instante, uma impressão observada propiciará manifestações individuais e há, nesse curto período de tempo, grandes e profundas divisões.

A exposição no CCBB apresenta três gerações distintas do movimento francês; os impressionistas, como Manet, Monet, Renoir e Cézanne; os pós-impressionistas, como Van Gogh e Gauguin, e os Nabis (profetas), com obras de artistas como Pierre Bonnard e Edouard Vuillard. Estão dispostos em quatro andares do Centro Cultural e carecem, basicamente, de mais do que uma hora de apreciação, mais que uma única visita para contato eficaz. Duas justificativas básicas:

O trabalho de Paul Cézanne busca captar formas, de sintetizá-las, expressá-las por ângulos diversos. Ele é antecedente direto da grande arte que faria de Pablo Picasso um dos maiores gênios da pintura no século XX. Não é com um olhar “de quem passeia pelo shopping” que esse artista será percebido em sua totalidade. Cézanne merece um olhar reflexivo, um tempo que é investimento para que possamos entender melhor o Cubismo de Braque e Picasso.

Cézanne – ‘Rochers près des grottes audessus de Château-Noir’ 1904.

Claude Monet é o impressionista por excelência. Sua obra é síntese do movimento. Nela, percebemos que o artista impressionista realiza uma “operação primária”, justapondo pinceladas em complexa tarefa de misturas de cores “puras”. Essas misturas resultam em novas cores conforme a intenção e necessidade do artista em captar um local, uma situação, um personagem. A obra se completa com outra operação, esta a cargo do espectador.  Ao observar a mistura ótica, dos fragmentos elaborados pelo artista, o espectador completa o resultado visualizando a imagem proposta. Esse é o grande diferencial da arte impressionista: o receptor participa da obra finalizando-a através da observação.

Tal qual no filme famoso, gostaria de ser vigia do CCBB. Poderia ver sozinho e tranquilamente esses 85 trabalhos. E da distância que quisesse. Porque os quadros impressionistas têm essa característica: devem ser vistos de uma distância razoável; três vezes a medida maior do quadro, dizem os especialistas. Assim, se um quadro tiver 1m de largura, o ideal é observá-lo a 3m de distância. Com tanta gente nos corredores do CCBB, terá muita sorte quem conseguir ver as telas conforme ensinam os nossos mestres.

Fico empolgado com esse tema; também com a oportunidade de contar com um evento que é de grande estímulo para que conheçamos mais, pesquisemos mais. A riqueza impressionista é imensa; é o grande ponto de partida para outros momentos, fortes, intensos e encantadores. Deixei de citar alguns fatos históricos, alguns artistas. Outras oportunidades virão; por enquanto importa ver, rever, descobrir, conhecer através das telas o que nos emociona, o que provoca admiração.

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Bom final de semana!

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Anote: Impressionismo: Paris e a Modernidade – Obras-Primas do Museu d’Orsay; Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, Centro. De 4 de agosto a 7 de outubro. De terça-feira a domingo, das 10h às 22h. Entrada: Gratuita.

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Caravaggio chegou!

Estão em Roma alguns dos principais trabalhos de Caravaggio. Na penumbra de igrejas, sob uma irritante vigilância de padres que não ficam contentes com apreciadores de arte. Então, a melhor maneira para observar “A conversão de São Paulo” ou “A crucificação de São Pedro”, por exemplo, é fingir-se de fervoroso católico visitando a Igreja de Santa Maria Del Popolo. Todo mundo representa; o teatrinho compensa. Caravaggio é um dos maiores artistas do Barroco italiano.

A conversão de São Paulo, sob estrita vigilância dos padres da Igreja de Santa Maria del Popolo, em Roma. De lá, não sai fácil.

Em São Paulo, na exposição que começa hoje no MASP e que irá até setembro, ninguém precisará rezar. E não será por falta de obras sacras, já que estarão expostas obras como o “São Francisco em meditação” e o “São Jerônimo que escreve”, dois bons exemplos da técnica, da perícia e da capacidade expressiva do pintor italiano. Além de trabalhos do artista há outros, cuja autoria não é comprovada, e ainda uma terceira categoria de obras, feitas por admiradores do artista e por isso denominados “caravaggescos”. O nome da exposição: “Caravaggio e seus seguidores”.

Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) viveu pouco, mas intensamente. A vida conturbada é motivo de curiosidade para muitos e é comum perceber o interesse de jovens, encantados com as transgressões do pintor. Entre as ações rebeldes de Caravaggio há o fato de ter usado como modelo, para pintar a Virgem Maria, uma prostituta chamada Lena, amante do pintor. Não só dissoluto, Caravaggio também foi violento e teve sua carreira comprometida por lutas, ferimentos e fugas. A última levou-o para longe de Roma e o pintor passou seus últimos dias tentando o perdão papal, morrendo em Porto Ércole, antes de conseguir retornar para Roma, o principal mercado de arte do período.

A Medusa Murtola é, deste post, a única obra exposta no MASP.

A pintura de Caravaggio – o nome do artista vem do lugarejo onde nasceu – é de um brutal e emocionado realismo. São composições dramáticas, violentas, buscando a emoção do receptor. O Barroco é um período em que a Igreja Católica busca responder aos avanços da Reforma Protestante. As construções e a arte barroca visam reforçar a fé católica, direcionar as sensações dos fiéis para o alto; prato cheio para figuras espiritualizadas, devotas, nobres. Caravaggio rebela-se contra o que foi denominado Maneirismo e escolhe seus modelos entre o povo e cria cenas religiosas com perturbadora realidade.

O domínio técnico do claro-escuro é absolutamente notório na obra de Caravaggio. As obras do pintor emergem da escuridão e cabem perfeitamente na penumbra de locais sacros como a Capela Contarelli, onde estão pinturas sobre a vida de São Mateus, ou as citadas acima, da Igreja de Santa Maria Del Popolo, que estão na capela Cerasi.

A Ceia em Emaús, exemplo da grande obra do artista, está na Galeria Nacional, em Londres.

O trabalho do artista está no Museu do Louvre, em Paris; no Palácio Barberini, em Roma; na Galeria Nacional, em Londres e, além das Igrejas e do museu do Vaticano, nas maiores galerias italianas tais como a Galeria Degli Uffizi e a Galeria Borghese. Se é difícil para o cidadão comum visitar todos esses lugares, visitar uma exposição dedicada ao artista é fundamental. Daí a relevância desse evento para os habitantes de São Paulo e para todos os que possam visitar a cidade.

Detalhes sobre horários, dias e preços estão em www.masp.art.br/masp2010

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Até mais!

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