Sobre votos… ou a permanência temporária

 

clausura
O leste do planeta, visto aqui de casa.

Tempos de clausura, nossas casas tornadas conventos, mosteiros. A pandemia levando-nos a experimentar uma vida reclusa, o mundo visto de longe. Também vivenciamos o belo gesto japonês de cumprimentos sem contato físico. Precisamos dos gestos, das expressões para transmitir sensações, afetos, posto que o costume de tocar o outro está temporariamente impedido.

Conventos com freiras e frades vivendo em clausura costumam causar estranhamento em grande número de pessoas. O que leva jovens mulheres à clausura, mantendo raros e parcos contatos com o mundo? Algumas, conforme regras do grupo, cobrem o próprio rosto e evitam contato até mesmo com companheiras, quiçá da comunidade. Por que alguns rapazes deixam tudo para dedicarem-se a viver uma vida monástica, “longe do mundo”, em pequenas celas?

Querem viver ao modo deles, é a resposta óbvia. E é esse modo que, de certa forma, estamos aprendendo. Limites estreitos para quem vive em apartamento, bem menor que as tradicionais casas religiosas, nosso ir e vir está restrito ao quarto, sala, banheiro, cozinha… E o contato com o mundo exterior é intenso via janelas que dão pra rua. Por graça divina temos a TV, o celular, a Internet e o mundo, imenso, fica do tamanho de nossas telas, com a qualidade dos nossos planos de acesso. Para quem vive em casa com quintal e jardim (um luxo enorme!) não precisa cavar o próprio túmulo, como os religiosos que fazem voto de permanência em seus mosteiros. Pode sim, com calma e desvelo, cultivar um jardim, uma horta.

Pensando em votos, recordo os tradicionais votos de pobreza, castidade e obediência que, com frequência, costumam aquecer indagações sobre quem opta pela vida monástica. Como abdicar do sexo, dos bens materiais e, para brincar com uma expressão comum nesses nossos tristes dias, como deixar de lado “a minha opinião” em favor de um voto de obediência?

“Opinião” tá liberado, e inundam-se as redes sociais com incontáveis opiniões. Na real, os mosteiros beneditinos, entre similares, caracterizam-se pelo tempo dedicado ao estudo. Vou enfatizar nos moldes das redes sociais: E S T U D O ! ! ! Daí que não vem de mosteiros “opiniões” sobre a terra ser plana, ou que “isso é só uma gripezinha”, ou ainda que os anos de repressão militar é que foram bons! E S T U D O !!! E seria legal aproveitar o momento que nos impede de consumir (Não por pobreza voluntária, mas por shoppings fechados) para exercitar a paciência, já que rola uma castidade também involuntária.

Sobre castidade, não posso deixar de citar um possível protocolo que a atualidade exige: O ser entra na rede social, procura um chat de encontros e, depois de alguma negociação, algumas revelações de gostos e preferências, marca um encontro. Atenção ao P R O T O C O L O ! Tranquem-se em um hotel, ou motel, e guardem quinze dias, pois Cazuza e Frejat, mais do que nunca, continuam atuais: o” meu tesão agora é risco de vida”… obviamente, exceto para os casais estáveis. Aos demais, segurem a onda, apelem para práticas alternativas ou… vivam o celibato. Freiras e frades conseguem.

Tempos de clausura… Cá pra nós, se a casa foi edificada com afeto, se o relacionamento foi construído e está sendo mantido pelas vias do amor, até que a vida fica fácil. E a gente tem mais é que agradecer aos céus a oportunidade da experiência monástica. Pra nossa sorte, e com a certeza que a fé nos propicia, tudo isso vai passar. Todavia, é possível guardar vários momentos desse intenso aprendizado.

Até mais.

Aos que nos divertem, inspiram e propiciam encantamento

O setor cultural, em 2018, empregava 5 milhões de brasileiros. Parte considerável desse contingente é de trabalho informal. Os dados do IBGE comprovam que em São Paulo, por exemplo, de um milhão de postos de trabalho, 650 mil são informais. É bom lembrar aos desatentos que informal significa não ter horas extras, férias, fundo de garantia, cesta básica, convênio médico… É bom também enfatizar que para o trabalhador informal fica difícil a manutenção de uma reserva financeira, pois entre um trabalho e outro o profissional passa vários períodos sem remuneração. E aí veio a pandemia.

Ficar em casa é o indicado para quem pode. Àqueles que não puderam parar, cuidados redobrados. Serviços essenciais estão mantidos e toda e qualquer aglomeração deve ser evitada. Cinemas, teatro, casas de shows, circos, baladas, bares foram fechados. Nem todos tem a visibilidade que chama milhões de pessoas e de reais. Uma imensa parcela, vulnerável, sem trabalho, enfrenta a situação com lances inovadores ou por pura sobrevivência. Nosso bem-estar emocional carece das diferentes formas artísticas, conforme nossas preferências, para que possamos seguir em frente. A classe artística se vira como pode. Alguns exemplos estão acessíveis via celular, computador.

teresa cristina e lula
Teresa Cristina conversa com Lula

O que seria das noites de milhares de pessoas sem as lives da Teresa Cristina? Todos os dias, sem grandes estardalhaços, ela está lá, cantando e conversando com as pessoas. Sem nenhum instrumento acompanhando, ela canta, interrompe pra dar risada, pegar “cola” de partes das letras das canções. E chama todo mundo pra roda. Retoca o batom, assinala o tamanho da própria testa e ri, divertindo-se com os comentários do público. Vem gente famosa, tipo Daniela Mercury e Bebel Gilberto; mas também vem outras, como uma moça de Manaus cantando Cazuza, ou um Casal de Porto Alegre, expondo as agruras geradas pelo preconceito. Teresa não tem patrocínio. Ela nos diverte começando às 22:00 e seguindo por três, quatro horas adiante.

Sábado passado, enquanto a Rede Globo reprisava um Altas Horas, em que Teresa estava entre os artistas homenageando Zeca Pagodinho, a live da cantora seguia firme, ela rindo por estar em dois espaços simultaneamente. É ótimo não contar e presenciar coisas inesperadas, como Chico César abrindo a porta para que o gato de estimação saísse para passear, ou o Lula, o Luís Inácio Lula da Silva, ao lado da esposa em situação caseira, íntima, conversando sobre uma de suas canções preferidas, Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues. Lula lembrou o fato de Teresa não ter patrocínio.

Isadora Petrin
Momentos de Isadora Petrin em Amores Difíceis

Isadora Petrin faz teatro online. A peça Amores difíceis está na internet, em sessões via Zoom, o site que permite interação visual entre pessoas. O grupo Arte Simples, do qual Isadora é integrante, dividiu a peça em cenas isoladas, pequenos solos que são apresentados pela atriz e, em dias alternados, por outra integrante do grupo, Andrea Serrano. O trabalho, dirigido por Tatiana Rehder, é uma ótima experiência nesses tempos de quarentena. Uma alternativa para quem está sem possibilidade de trabalho por conta da pandemia. Para quem quiser ver, e participar, é bem divertido. As atrizes conversam com a plateia e, um exemplo de interação que guardarei com carinho: em dado momento, Isadora solicita participação, contracenando com um voluntário. E assim, aos 64 anos, fiz publicamente uma cena como o Romeu, para a graciosa Julieta interpretada pela atriz. Sem patrocínio, o grupo solicita colaboração via “chapéu virtual”.

O material de trabalho de determinados artistas são os próprios artistas, o corpo e a voz. O canto de Teresa e as cenas de Isadora são exemplos. Elas não estão recebendo salário e ainda nos propiciam diversão e entretenimento. Haveria muito mais gente trabalhando, em tempos normais, ao lado dessas profissionais. Músicos, instrumentistas, técnicos de som, iluminadores, montadores, cenógrafos, figurinistas; enfim, toda a gama de profissionais que compõem um show ou uma peça de teatro. Como essas pessoas estão sobrevivendo?

Em termos mercadológicos não basta pensar só nas grandes capitais, com suas casas de show, seus teatros imensos, e atualmente vazios. Há que se colocar na pauta inúmeros espaços culturais, parque e circos, ou os tão populares bares, espalhados pelo país que, fechados, não possibilitam trabalho para quem canta ao vivo enquanto os fregueses degustam salgadinhos e tomam cerveja. Nem todos dispõem dos mecanismos virtuais para, no mínimo, continuarem na lembrança do público como Tereza Cristina e Isadora Petrin. Pouquíssimos tem a visibilidade necessária para garantir horários na TV e patrocínio, expandindo ações pela rede virtual.

Aqueles que nos divertem, nos inspiram, que nos propiciam momentos de puro encantamento, precisam de nós. Artistas, produtores, técnicos e auxiliares da área de cultura e entretenimento carecem da atenção dos nossos dirigentes. Outro tanto de prestadores de serviço para esses profissionais (costureiros, maquiadores, motoristas, faxineiros, bilheteiros, garçons, marceneiros, eletricistas, seguranças…) aguardam ansiosos por ações oficiais que garantam a sobrevivência do setor.

Em São Paulo um projeto de lei, a PL 253, visa auxiliar trabalhadores da cultura e espaços culturais de pequeno porte. Foi criada uma Frente Parlamentar em Defesa da Cultura, suprapartidária, que protocolou pedido de auxílio imediato para os profissionais impedidos de trabalhar por conta da situação vigente (para assinar a petição, clique aqui). Outra iniciativa, a Associação de Produtores Teatrais Independentes (conheça as ações da APTI clicando aqui) lançou campanha de apoio a técnicos e artistas em situação de vulnerabilidade. Segundo a associação, há em São Paulo 25.000 profissionais em situação crítica. Há outras iniciativas, em outras cidades e estados. Vamos ficar atentos.

Como vai, como vai, como vai, vai, vai? (Alguém se lembra do Arrelia?) Eu… Estamos indo; às vezes bem, outras nem tanto. Hoje fui acordado pelo interfone. A vizinha, querendo saber como estou, colocou o filho adolescente à disposição caso eu precise de algo lá de fora. Há solidariedade em São Paulo. Então, meu querido Arrelia, onde você estiver, saiba que eu vou bem, muito bem, bem, bem. E apelo para o seu nome, para que todos se lembrem que palhaços, cantores, atores, bailarinos, iluminadores, enfim, toda essa gente que nos dá alegria, prazer, diversão e entretenimento, agora carece de nós. E se você, que me honra com sua leitura, puder ajudar, deixo aqui meu sincero agradecimento.

Até mais.

Atenção:

VEJA AS LIVES DE TERESA CRISTINA CLICANDO AQUI . INFORMAÇÕES SOBRE A PEÇA AMORES DIFÍCEIS CLICANDO AQUI

 

 

João Bosco, o astro e uma fina ironia

Ontem vimos a volta da novela O Astro. Hoje é aniversário de JOÃO BOSCO. Certamente a abertura da novela não foi pensada como um presente para o compositor mineiro. Todavia, manter BIJUTERIAS, a música de JOÃO BOSCO & ALDIR BLANC na abertura da novela é mais que homenagem, é obrigação.  Melodia e letra se fundem para  caracterizar com maestria a personagem central proposta por JANETE CLAIR.

Em setembro,
se Vênus ajudar,
virá alguém.
Eu sou de Virgem
e só de imaginar
me dá vertigem…

E é com refinada ironia que a letra de ALDIR BLANC introduz o personagem, embalada na deliciosa melodia de JOÃO BOSCO. Não foi por acaso que ontem, no primeiro capítulo, o mago interpretado pelo grande FRANCISCO CUOCO entregou uma ametista ao “sucessor” RODRIGO LOMBARDI. Música e personagem estão casados, muito bem casados.

Minha pedra é a ametista,
minha cor, o amarelo,
mas sou sincero:
necessito ir urgente ao dentista.

Penso que a abertura de uma novela seja peça fundamental para o sucesso da trama. Isso quando o autor consegue mostrar em cada capítulo, tenha o folhetim 60 ou 200 episódios, uma face da proposta original. Um exemplo clássico é VALE TUDO, com a canção de CAZUZA interpretada por GAL COSTA. Na atual reprise do canal Viva, não consigo deixar de ver a abertura e ouvir GAL, melhor cantora de rock deste país, detonando um “Brasil” com seu incomparável talento. E talvez o sucesso da novela esteja nesse aspecto: a cantora intima: “Brasil, mostra a tua cara” e a cena acontece, com as falcatruas de um país marcado pela corrupção.

Afeita ao folhetim clássico, JANETE CLAIR também batia forte, “mas sem perder a ternura”. A autora deixou a receita de sucesso: “mande a personagem para o pelourinho”, o que vimos já no primeiro capítulo, com a prisão de Quintanilha. Mas as personagens de JANETE são heróis, mas sempre são seres humanos. A autora escreveu e a dupla JOÃO BOSCO & ALDIR BLANC confirma:

Tenho alma de artista
e tremores nas mãos.
Ao meu bem mostrarei
no coração
um sobre e uma ilusão.

Sessenta capítulos foram anunciados pela emissora de TV. E teremos a oportunidade de conviver com uma boa história, introduzida  por boa música na abertura. Novela é coisa de brasileiro. E por mais críticas que venham contra, fomos já fisgados pelo vício da boa história. E sempre que esta ocorrer, estaremos frente ao vídeo, curtindo; afinal, o JOÃO BOSCO aniversariante, unido ao genial letrista ALDIR BLANC, nos define com graça e ironia:

Eu sei:
na idade em que estou
aparecem os tiques, as manias,
transparentes
feito bijuterias
pelas vitrines
da Sloper da alma.  

Vamos lembrar a abertura original da novela?

Até!

(Publicado originalmente no Papolog)