O que é arte mesmo?

arte

Todo radicalismo é, no mínimo, chato. É tenebroso, doentio, prepotente, soberbo, orgulhoso e, a história registra, também é assassino. E burro! Irritantemente burro. Ultimamente temos presenciado radicalismos da direita – o que implica haver outro, o da esquerda. Ambos teimam em impor modo de ver, sentir e viver aos outros. Radicais são donos da verdade, embora nem sempre se saiba o que é a verdade.

Temos agora um imenso contingente de pessoas alçadas à categoria de críticos de arte, com posições assentadas em moral, bons costumes, religiões e ninguém, mas ninguém mesmo, citando Tatarkiewicz (A Grande Teoria) ou, então, Pareyson (A teoria da formatividade in Os Problemas da Estética). Isto pra citar dois, entre os grandes teóricos. Exposição, peça de teatro, um quadro, foram vítimas de uma censura ilícita (já que não há censura no país) e entre os argumentos vem o costumeiro atentado ao pudor assentado na conclusão de que “Isto não é arte”.

Seria pedir pouco ao receptor de denúncias que conceituasse a dita cuja, já que, acatando acusações e determinando a suspensão de eventos ou a retirada de objetos expostos, juízes e delegados devem, no mínimo, saber sobre o que estão agindo; portanto, sabem o que é arte e, assim sendo, quem poderá dizer que temos profissionais despreparados?

Venho lecionando há mais de duas décadas em universidades e nunca encontrei alunos que soubessem conceituar arte. Ok, lá é um lugar para se aprender. No entanto, é de se estranhar que o indivíduo passe por oito, dez anos de escola e entre na universidade sem a capacidade de conceituar sobre algo que está presente no cotidiano de todo mundo. Todos falam de arte, todos reconhecem produtos e manifestações artísticas, mas o que é arte mesmo?

Profissionais de medicina têm agido sobre o rosto de muitas pessoas, em procedimentos de estética duvidosa, mas ninguém questionou se isto é medicina ou não. E quando morre-se de calor em construções já condenadas à ação de aparelhos de ar condicionado não se questiona se tal local é ou não obra de engenharia. Outros exemplos são possíveis, mas creio que medicina e engenharia são um bom mote para indagar sobre motivos que levam indivíduos a discutir arte, principalmente aqueles que confundem arte com entretenimento.

Sobre a pecha de “arte” e “artistas” há muita coisa por aí, feita inclusive por gente que gaguejaria quando questionada sobre a imitação e a mimese em Platão e Aristóteles. O que diriam os moralistas de plantão sobre o paradigma formalista de Clive Bell ou com que prazer orientariam suas falas com base no que Collingwood escreveu (The Principles of Arts).

Creio que os radicalistas que andam se manifestando por aí não querem saber de Platão, Tatarkiewicz, Bell, Collingwood, Pareyson… Querem é impor sua ignorância e sua interpretação de mundo sobre os demais. Querem que todos vejam a lascívia que está na mente deles, a pornografia, a zoofilia; uma moral que é boa pra manchete de jornal e pra alardear uma preocupação com o que outro deve ver e fazer.

Tenho estudado arte ao longo de toda a minha vida. Não sou teórico, sou estudioso. Acredito profundamente a arte como elemento questionador que propõe reflexão e que, quando julga, deixa de ser arte. Não vou, neste post, publicar as definições de arte aceitas pela comunidade acadêmica e que têm norteado meu trabalho profissional. Vou sim, questionar os críticos de plantão, moralistas de ocasião, donos da verdade: O que é arte mesmo? Conceitue!

Até mais!

A biografia autorizada de nossos discretos ídolos

censura

Penso que o ser humano tem o hábito de fugir do que interessa e, para isso, apega-se a subterfúgios doidos. Por exemplo: é mais fácil questionar a virgindade de Maria, ou conjecturar se Jesus Cristo transou ou não com Maria Madalena. Difícil é seguir o mandamento máximo, “ame ao próximo como a ti mesmo”. Temos dificuldade em amar alguns dos nossos familiares, volta e meia temos ojeriza aos vizinhos, desprezamos pessoas por várias razões… E somos cristãos. Pra não encarar o que JC disse, para nem tentar vivenciar o tal mandamento, o melhor é desconversar com perguntas tipo “o que seria de Cristo se Judas não o traísse?”.

Além de fugir do que interessa, é fácil constatar o quanto as pessoas têm de dificuldade em encarar a própria realidade, a própria história. Quando alguém resolve investigar nossa vida pode descobrir aquela covardia camuflada, o egoísmo exacerbado, a usura, a maledicência, a gula, um furto. Também pode constatar que traímos, que fomos desonestos ou que, apegados aos bens materiais, deixamos até amigos e familiares em dificuldades enquanto compramos bolsas e perfumes caríssimos em viagem a New York.

Rabelais, o renascentista francês, já assinalou lá no século XVI sobre as dificuldades que temos em encarar o simples fato de que somos animais, ou meros seres humanos. Temos odores desagradáveis, acordamos com hálito de corrimão de pensão e não encaramos com tranquilidade nem mesmo a necessidade vital de devolver à natureza parte do que consumimos em termos de sólidos e líquidos, nomeando tal devolução por idiotas números “1” e “2”.

Penso em tantos motivos que levam nossos artistas a tornarem-se censores! Pode ser um monte de coisa e, entre elas, a mais banal atitude mesquinha que é temer que alguém possa ganhar alguns trocados escrevendo uma biografia. Inventam tantas desculpas, tantos motivos! E nenhum assume ser censor, embora para tal atitude não existir outra denominação.

Vamos fazer de conta que toda a quizumba não seja por conta de grana? Então, para colaborar com nossos queridos ídolos que querem ver suas vidas bem bonitinhas nas biografias, proponho uma biografia padrão. Vejam o modelo abaixo. É só substituir o “Fulano de tal” pelo nome do ídolo de sua preferência. Certamente com uma biografia “fofa”, eles percebam o ridículo de suas atitudes e pensem melhor antes de censurar o trabalho alheio.

Fulaninho de tal, uma biografia autorizada

anjosafado

Fulano de tal, o mais querido ídolo da MPB, nasceu em uma linda tarde de primavera. Magicamente, naquele dia um uirapuru pousou e cantou na árvore mais próxima da janela do lar da família de tal, prenunciando uma vida reta e plena de glórias. Com três anos, já sinalizando um futuro de êxitos musicais, fulaninho cantava em todas as reuniões familiares. Aos cinco criou sua primeira composição, escrevendo a letra e a melodia, mesmo sem ter sido alfabetizado e sem conhecer notação musical.

Um jovem religioso, Fulaninho rezava quatro vezes ao dia, nunca pensando ou fazendo maldades. Guardou-se sexualmente, chegando puro ao casamento, sublimando os desejos da carne em dias e dias de incansável trabalho social, ajudando velhinhas em sessões de Pilates. Nunca mentiu, nem blasfemou, nem cobiçou mulher ou homem, sempre honrando sua querida mãezinha e ajudando o papaizinho nas despesas do lar.

Na adolescência, cantando gratuitamente em festas de debutantes e botecos de esquina, foi descoberto por Beltrano de tal, empresário que conduziu o Fulaninho ao sucesso. De la para cá, o grande público sabe de tudo do ídolo mais querido das famílias do Brasil. Fulaninho guarda como o momento mais especial de sua brilhante carreira o dia em que, cantando, curou Cicraninha de tal, fazendo com que a garota tetraplégica viesse a tornar-se campeã de ginástica olímpica.

Os momentos mais difíceis de sua carreira ficaram no passado. Todavia, Fulaninho jamais superou ter emitido um arroto após o jantar na recepção de Dona Mariolinha Costa. Tambem ficou no passado aquele momento triste em que nosso ídolo, sem ter tido uma boa noite de sono, foi obrigado a usar blush para subir ao palco.

Sem esquecer suas raízes, o mais amado da MPB realiza shows de graça para a comunidade, doa cestas básicas para o retiro dos artistas e segue feliz sem fumar, sem beber, fazendo sexo apenas para procriação e dormindo sete horas por noite. Fulaninho prefere não comentar, mas doa 50% do que ganha para os órfãos de Tegucigalpa. A escolha do lugar distante é para justificar o nobre lema: fazer o bem sem olhar a quem.

Fulaninho se sente realizado. Aguarda pacientemente o dia em um anjo vira buscá-lo para que possa se juntar ao coro celeste em eternos louvores ao Criador. Que Deus fique com ele.

Boa semana para todos.

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A turma do contra

Um pedido de suspensão do filme “TED” e uma nova investida contra a obra de Monteiro Lobato são situações que me ocupam neste momento.

Um deputado encontrou um meio de projeção fora do horário eleitoral ganhando o noticiário ao pedir a proibição do filme “TED”, de Seth MacFarlane, estrelado por Mark Wahlberg que interpreta um jovem que tem amizade com um urso de pelúcia da infância à idade adulta.

Mark Wahlberg é o astro de TED.

Segundo o deputado, que foi ao cinema junto com o filho, um garoto com 11 anos, o tal filme passa “a mensagem de que quem consome drogas, não trabalha e não estuda é feliz”… Um pai zeloso. Interessante é o deputado preocupar-se com a “mensagem”, o que em si já dá uma ótima discussão sobre as funções desse tipo de produto – ou o deputado desconhece que o objetivo da indústria cinematográfica é arrecadar grana?

O cinema de consumo não é propriamente indicado para educar os filhos. No máximo serve para que pais discutam com as crianças questões tais como as apresentadas em “TED”. É simples assim: ao invés de proibir, discutir com o filho a validade da situação.  Ou será que o deputado não consegue encontrar argumentos para convencer o filho da impropriedade das situações apresentadas no filme?

Evitar o cinema e ir para uma biblioteca poderia ser um ótimo conselho ao pai deputado (ou seria deputado pai?). Todavia lá, já sabemos, ele encontrará Monteiro Lobato. E conforme alguns cidadãos, mestres em educação, o célebre escritor é um perigo para a sociedade, com obras “racistas” e “sexistas”.

O “perigoso” Monteiro Lobato.

Os autores da denúncia contra “Negrinha” estão preocupados com a legalização da aquisição da obra pelo MEC – Ministério da Cultura, e com o texto de apresentação da obra. Este seria “ruim e demonstra a falta de cuidado que o MEC está tendo com o assunto.” Um extenso documento discute e aponta as razões dos autores que analisam e interpretam a obra de Lobato buscando confirmar as hipóteses que justificariam as denúncias.

Mais uma vez devo repetir o argumento: discutir a obra é melhor que proibi-la. Resta saber se os professores brasileiros têm condições de discutir a obra de Lobato, ou de qualquer outro escritor para, assim nortear as reflexões de seus alunos. A atitude dos tais mestres em educação é paternalista, pois pretendem entregar a “receita” pronta, quando o problema começa atrás, nas escolas que não preparam professores com competência para discutir literatura com a profundidade necessária.

Bom saber que há pais preocupados com a qualidade dos filmes, assim como há “mestres” preocupados com o conteúdo literário disponibilizado para as escolas pelo MEC. Também é bom lembrar que ninguém deu procuração para esses vigilantes da moral, bons costumes e do politicamente correto. Não vejo diferenças entre esses sujeitos e a horrenda personagem magnificamente interpretada por Laura Cardoso em Gabriela. Tenho a impressão que os vigilantes da vida real têm motivos sórdidos, como a megera criada por Jorge Amado e, como ela, também têm algo a esconder: no caso dos vigilantes da vida real, os verdadeiros motivos dessas ações.

Quero ver tudo. Quero ler tudo. É a melhor forma de desenvolver o discernimento necessário para optar e escolher meu próprio caminho. Incluo entre o tudo que quero ver e ler as tentativas dessas pessoas autoritárias, querendo que o mundo dance no ritmo delas. É assim que seguiremos, discutindo, debatendo, mantendo esse delicioso hábito democrático: o da manifestação e discussão de idéias. Será que esses indivíduos, pretendendo proibições, não concebem a idéia de que discutir um tema gera crescimento?

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Até mais!

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