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censura

Penso que o ser humano tem o hábito de fugir do que interessa e, para isso, apega-se a subterfúgios doidos. Por exemplo: é mais fácil questionar a virgindade de Maria, ou conjecturar se Jesus Cristo transou ou não com Maria Madalena. Difícil é seguir o mandamento máximo, “ame ao próximo como a ti mesmo”. Temos dificuldade em amar alguns dos nossos familiares, volta e meia temos ojeriza aos vizinhos, desprezamos pessoas por várias razões… E somos cristãos. Pra não encarar o que JC disse, para nem tentar vivenciar o tal mandamento, o melhor é desconversar com perguntas tipo “o que seria de Cristo se Judas não o traísse?”.

Além de fugir do que interessa, é fácil constatar o quanto as pessoas têm de dificuldade em encarar a própria realidade, a própria história. Quando alguém resolve investigar nossa vida pode descobrir aquela covardia camuflada, o egoísmo exacerbado, a usura, a maledicência, a gula, um furto. Também pode constatar que traímos, que fomos desonestos ou que, apegados aos bens materiais, deixamos até amigos e familiares em dificuldades enquanto compramos bolsas e perfumes caríssimos em viagem a New York.

Rabelais, o renascentista francês, já assinalou lá no século XVI sobre as dificuldades que temos em encarar o simples fato de que somos animais, ou meros seres humanos. Temos odores desagradáveis, acordamos com hálito de corrimão de pensão e não encaramos com tranquilidade nem mesmo a necessidade vital de devolver à natureza parte do que consumimos em termos de sólidos e líquidos, nomeando tal devolução por idiotas números “1” e “2”.

Penso em tantos motivos que levam nossos artistas a tornarem-se censores! Pode ser um monte de coisa e, entre elas, a mais banal atitude mesquinha que é temer que alguém possa ganhar alguns trocados escrevendo uma biografia. Inventam tantas desculpas, tantos motivos! E nenhum assume ser censor, embora para tal atitude não existir outra denominação.

Vamos fazer de conta que toda a quizumba não seja por conta de grana? Então, para colaborar com nossos queridos ídolos que querem ver suas vidas bem bonitinhas nas biografias, proponho uma biografia padrão. Vejam o modelo abaixo. É só substituir o “Fulano de tal” pelo nome do ídolo de sua preferência. Certamente com uma biografia “fofa”, eles percebam o ridículo de suas atitudes e pensem melhor antes de censurar o trabalho alheio.

Fulaninho de tal, uma biografia autorizada

anjosafado

Fulano de tal, o mais querido ídolo da MPB, nasceu em uma linda tarde de primavera. Magicamente, naquele dia um uirapuru pousou e cantou na árvore mais próxima da janela do lar da família de tal, prenunciando uma vida reta e plena de glórias. Com três anos, já sinalizando um futuro de êxitos musicais, fulaninho cantava em todas as reuniões familiares. Aos cinco criou sua primeira composição, escrevendo a letra e a melodia, mesmo sem ter sido alfabetizado e sem conhecer notação musical.

Um jovem religioso, Fulaninho rezava quatro vezes ao dia, nunca pensando ou fazendo maldades. Guardou-se sexualmente, chegando puro ao casamento, sublimando os desejos da carne em dias e dias de incansável trabalho social, ajudando velhinhas em sessões de Pilates. Nunca mentiu, nem blasfemou, nem cobiçou mulher ou homem, sempre honrando sua querida mãezinha e ajudando o papaizinho nas despesas do lar.

Na adolescência, cantando gratuitamente em festas de debutantes e botecos de esquina, foi descoberto por Beltrano de tal, empresário que conduziu o Fulaninho ao sucesso. De la para cá, o grande público sabe de tudo do ídolo mais querido das famílias do Brasil. Fulaninho guarda como o momento mais especial de sua brilhante carreira o dia em que, cantando, curou Cicraninha de tal, fazendo com que a garota tetraplégica viesse a tornar-se campeã de ginástica olímpica.

Os momentos mais difíceis de sua carreira ficaram no passado. Todavia, Fulaninho jamais superou ter emitido um arroto após o jantar na recepção de Dona Mariolinha Costa. Tambem ficou no passado aquele momento triste em que nosso ídolo, sem ter tido uma boa noite de sono, foi obrigado a usar blush para subir ao palco.

Sem esquecer suas raízes, o mais amado da MPB realiza shows de graça para a comunidade, doa cestas básicas para o retiro dos artistas e segue feliz sem fumar, sem beber, fazendo sexo apenas para procriação e dormindo sete horas por noite. Fulaninho prefere não comentar, mas doa 50% do que ganha para os órfãos de Tegucigalpa. A escolha do lugar distante é para justificar o nobre lema: fazer o bem sem olhar a quem.

Fulaninho se sente realizado. Aguarda pacientemente o dia em um anjo vira buscá-lo para que possa se juntar ao coro celeste em eternos louvores ao Criador. Que Deus fique com ele.

Boa semana para todos.

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