E NO MUNDO DIZEM QUE SÃO TANTOS…

Saltimbancos como somos nós!

Aos 17 anos descobri que parcelas de um povo assumem as características de quem os governa. Há uma parcela de oportunistas que aguardam o momento certo para entrar na onda ou sair dela. Há uma parte da população que se mantém apática, outra que ignora o entorno, outra ainda que “está em Nárnia” e, entre outras posturas, há os que não se contentam e batem de frente com seus governos.

A aula que recebi, aos 17 anos, foi de gente fascista, autoritária, que por absoluta estupidez se achava superior aos demais. Como os governos vigentes. Eram tempos de ditadura e conheci a metodologia de então quando fui sequestrado para que me obrigassem a dar a informação que queriam. Simples assim! Sem diálogo, sem debate, sem discussão. Um adolescente se nega a dizer o que sabe e é sequestrado em um bar de esquina, diante de seis testemunhas, levado a força, aterrorizado sob ameaças absurdas, sendo espancado e tendo como “herança” três anos de colete ortopédico e uma coluna que sinaliza problemas ainda hoje.

Eram tempos de ditadura militar! De um lado o meu pai, homem simples e trabalhador. Do outro, uma “família de gente de bem”. Dinheiro e posição social. Um sistema judiciário complicado, advogados subornados pela outra parte e, 10 anos após – DEZ ANOS! – o processo foi arquivado por insuficiência de provas. Seis testemunhas oculares, um exame de corpo de delito que comprovou o descolamento de cartilagem de uma vértebra e, entre outras, um bilhete que me obrigaram a escrever, apresentado como documento de que eu tivesse ido por vontade própria não constituíram provas. A justiça é cega…

Anos depois, já no ABC paulista, entrei pela primeira vez em uma favela. O cheiro de esgoto a céu aberto era esquecido quando servido o café fresquinho feito por senhoras asseadas. Mães, como a minha! Nunca me esqueci do chão varrido, dos móveis velhos e quebrados, mas limpos e enfeitados com toalhinhas bordadas, pintadas! Nas paredes, reproduzi depois em uma peça de teatro, uma página dupla de revista com um time de futebol – invariavelmente o Corinthians! – e uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida. Desde então soube que nas favelas, que hoje chamamos comunidades, vivem seres humanos como eu, como todos nós.

Foi no ABC, especificamente em Santo André, que descobri a luta de pessoas por um pedaço de terra para morar. E foi lá também que após uma tempestade, em um mês de janeiro que me traumatizou, estive envolvido em uma ação de crianças soterradas sob dois metros cúbicos de barro, após o barraco ter caído morro abaixo com as fortes chuvas. Por outro lado, os moradores do bairro enfrentavam ações de despejo de gente inescrupulosa, interessada em lucro, mesmo que este fosse a custo da morte de outros.

Final dos anos de 1970, já se fazia fundamental novas atitudes perante o fracasso dos governos militares. Os trabalhadores reconheciam sua força que, grande descoberta, crescia com braços parados. As greves voltavam ao cenário após anos de ditadura feroz e Lula era o norteador de quem desejava lutar por uma vida melhor para si, os seus e o próximo. Os patrões só nos ouvem quando tomamos atitudes como a greve. O movimento culminou no surgimento de um partido político e tenho orgulho em ter participado de ações que arrecadaram assinaturas para o reconhecimento do PT, o Partido dos Trabalhadores.

Esse é o meu lado. O de quem trabalha. Nunca tive dúvidas de que além das batalhas externas ao PT haveria outras, talvez piores, internas. Decepções, desânimo, desalento fizeram parte de um universo onde trabalhadores também são oportunistas, apáticos, autoritários, corruptos. Mas acima de tudo são lutadores, batalhadores, sonhadores. Sobreviventes!

Mais tempo na roda e vi um estádio lotado de torcedores mandando Dilma Rousseff “tomar no cu”. Não me surpreendeu o absurdo silêncio de quem, antes, já havia se calado perante ofensas públicas à Luiza Erundina. O país misógino exteriorizava apenas uma de suas faces, acrescidas de outras na onda que levou Lula para a prisão e, em seguida, a eleição do sujeito que a partir de ontem está prestes a deixar Brasília.

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo […]

Eso es lo que siento yo en este instante fecundo

Negros, Nordestinos, Artistas, Cientistas, Médicos, Religiosos, Juízes do Supremo! Todos estiveram – e ainda estão – sob a mira de fascistas para quem nada vale exceto a palavra de alguns obtusos. Voltei aos meus 17 anos, percebendo agora a verdadeira dimensão das ações de gente tenebrosa. A diferença é que não me senti só. Estive em Fortaleza há poucos dias e tanto em um casamento quanto em uma festa de aniversário estiveram presentes os sinais de mudança. Notícias de todos os lados davam conta de união contra o fascismo vigente. Nunca estivemos sós. Apenas acuados por uma pandemia aguardando o momento certo de agir.

Só um dia depois e a euforia está passando. Que ninguém se engane! Há um país para ser reconstruído. E se o outro lado não percebeu, o lado que se apossou de cores e símbolos nacionais como seus, o país também é nosso! De quem não aceita 100 anos de sigilo, de quem reconhece a importância tanto da ciência quanto da religião. De quem nutre imenso amor pela liberdade, pelo direito de ir e vir! O Brasil é feito de gente de todas as raças. Nesta eleição mostramos ao mundo que podemos nos unir frente ao perigo do autoritarismo e da tirania.

Seria bom que o tema da canção que escolhi como título e abertura deste texto fosse pleno. Todos juntos! Não estamos. E, dentre todos os projetos políticos e sociais necessários, talvez o mais urgente e importante seja este: reunir o maior número possível de brasileiros sob o abrigo da democracia, a segurança do conhecimento científico, o conforto da religião, a confiança na lei. Uma tarefa dificílima, mas, isso é certo, vale a pena. Todas as penas!

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Notas:

A foto acima, com Chico Buarque e Lula, foi copiada da página do Facebook do Presidente eleito.

O título e o verso que abre este texto é da música TODOS JUNTOS, da peça Os Saltimbancos, de Chico Buarque, Sergio Bardotti e Luis Enriquez Bacalov. Ouça a belíssima interpretação de Mônica Salmaso

“Volver a los 17” é canção de Violeta Parra, que admiro nas vozes de Mercedes Sosa e Milton Nascimento.

Ziriguidum 67

“Um mineiro em Santos”

Quando as coisas andam sem cor e se a sensação é de vida estagnada, o jeito é seguir o conselho da minha dileta Márcia Gomes Lorenzoni: “É preciso dar um ziriguidum na vida!” Para deixar claro, seria algo tipo dar um up, diriam atuais adolescentes, ou sair da caixa como indica o coaching da hora colocando-nos “in” ou “out” em relação a quase tudo. Todavia, ao invés de um “up”, a gente pode carecer mesmo é de ir para os lados e, alerto, um bom ziriguidum pode ocorrer dentro, em cima, embaixo ou fora da caixa.

Li que aos 60 e poucos de idade a gente passa a priorizar arnica e canela de velho aos bons hidratantes. É vero! Aos 65, aposentados por idade, agradecemos não ver luzes brancas no final de túneis com vultos desconhecidos vindo nos buscar. E quando em meio ao período em que sessenta se confunde com “cê senta e fica quieto”, vieram: um acidente, uma demissão e uma pandemia, levando-me, como diria Belchior, a ficar “mais angustiado que o goleiro na hora do gol”.

Bobagem enfrentar o tempo. Ainda mais porque, sendo abstração humana, o tempo ignora relógios, calendários. Ele simplesmente segue em frente e já sabemos nosso destino nessa dimensão. Daí que a gente corre o risco de ser um tal velho, aquele da canção de Chico Buarque:

O velho sem conselhos

De joelhos, de partida

Carrega com certeza

Todo o peso dessa vida…

Eu hein! Na real, penso que a vida só pesa quando olhamos para trás, já que não temos ideia do que teremos pela frente. Assim, o passado é lastro (gosto dos lastros que me norteiam!), mas o tempo que nos virá é o que merece maior atenção, planejamento, cuidado…  Quanto tempo? Não sei. Pode ser uma semana, uma ou mais décadas, ou… Segundos (Nãooooo!)!   Quem quiser que meça, ou tente medir o tempo que lhe reste. Eu vou é viver e, de preferência, com um grande ziriguidum!

Ziriguidum, para alguns, pode ser um corte de cabelo, uns copos de cerveja a mais, uma noite alucinante de sexo, uma tentativa de crime perfeito, uma surra no vizinho chato… Euzinho, que nasci no mesmo dia em que D. Maria Bethânia, curto coisas mais intensas (para lembrar Sonia Braga em Aquarius), e posso até aceitar “uma pedra falsa, um sonho de valsa” desde que seja para viver uma grande paixão por alguém como Gal, cantando Folhetim (Chico, sempre ele!).

Todos as situações dos 60 em diante, citadas acima, levaram-me primeiro ao fundo do poço, intensamente! Fazendo vir à tona o Álvares de Azevedo que carrego desde a infância:

Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã…

E, mineiro, comecei a matutar. Recordando Marcinha, só sairia dessa com um bom ziriguidum. Depois de pensar, repensar, planejar, discutir, desistir, insistir, recomeçar, tudo num círculo constante vivenciado ao lado do Flávio Monteiro até que a decisão viesse. O ziriguidum! E euzinho, estagnado e velhinho da Bela Vista, com meu boné italiano e cachecol enrolado no pescoço, passei a cantarolar Raul Seixas:

Ah! Eu é que não me sento

No trono de um apartamento

Com a boca escancarada, cheia de dentes

Esperando a morte chegar…

Os sinais foram dados neste mesmo blog, também nas redes sociais. “Estou em Santos, sou de Santos. Cidade que escolhi como destino”. Concretamente e NÃO definitivo, pois continuarei aberto a outros possíveis ziriguiduns. Aos 67, que chegarão em breve, continuarei contando histórias, certamente com o mar entre os protagonistas. Aliás, Dorival Caymmi não me tem saído da cabeça e dos lábios, murmurando canções pelas praias da cidade:

Andei, por andar andei

E todo caminho deu no mar

Andei, pelo mar andei

Nas águas de Dona Janaína…

Ziriguidum é bom, recomendo a todos, todas e todes. Não importa a idade! Outras faces deste momento que vivo virão por aqui em uma série de textos que, segundo prometi ao Edison Derito, deverá ter por título “Um mineiro em Santos”. Espero continuar com a atenção de quem me leu até aqui!

Até mais!

Páginas viradas

Para Fátima Borges, a Fafa.

Mesmo planejada, a mudança não deixou de ser brusca. Tinha sido uma vida atribulada, feita de oito, dez horas de trabalho diário mais ações paralelas à atividade profissional. Jantares, teatros, noites de festas, domingos no museu. A vida exigia presença, participação e ela gostava muito de tudo isso. Aos poucos foi se cansando mais, querendo uma tranquilidade de há muito desejada. Ignorar relógio, esquecer o calendário para poder olhar para a vida, manhãs de sol, tardes preguiçosas, noites de caminhadas tranquilas e descompromissadas. Estabeleceu data para aposentadoria e prometeu a si mesma que deixaria qualquer atividade por tempo indeterminado. Queria experimentar o não fazer nada. E assim foi.

Perdeu-se a conta de quanto tempo ela permanecera ali, sentada no sofá da sala, a televisão ligada sem que prestasse atenção à novela, ao noticiário. Mantinha o olhar fixo, o semblante sem qualquer reação ante a visão de um prato de requintada culinária, um desastre aéreo, um escândalo político. Resolvida a cumprir a recente promessa não quis ler, escrever, bordar, pintar, nada. “Já trabalhei muito! Agora não faço nada”. Nem mesmo a própria comida, o cuidar da casa, das roupas, das unhas, pele e cabelo.

Com o tempo Teresa percebeu que a televisão era gatilho para o alheamento da patroa. A ajudante de décadas preparava o café da manhã antes de acordá-la. Após o asseio matinal, Maria sentava-se diante de uma fruta, pão, queijo. Café, não. Nem chá, nem leite. Suco. “Quero um tempo para me lembrar quem fui antes de trabalhar ininterruptamente por esses 30 anos”. Pedido de cancelamento do jornal atendido, deixou que vencesse a assinatura de revistas, periódicos. Gostou até de evitar convites para seja lá qual for o evento e foi, aos poucos, também cortando encontros corriqueiros, exceto de grandes amigas e parentes próximos, deixando de receber visitas protocolares de conhecidos, parentes distantes.

Berenice, a sobrinha mais velha, era a única a visitá-la regularmente. “A saúde vai bem? Precisa de alguma coisa?” Teresa não gostava das perguntas feitas à patroa que preferia responder com monossílabos indiferentes à intensa curiosidade da sobrinha. Em dado momento a moça ofereceu um novo celular e, ignorando o desinteresse e atenção da tia, insistiu em atualizá-la quanto à maneira de usar redes sociais, identificar chamadas, medir batimentos cardíacos e as demais maravilhas do recente modelo do aparelho… E orientou a tia até a fazer uma playlist, deixando como exemplo canções da primeira fase da carreira de Chico Buarque. “Eu sei que a senhora gosta. Vou deixar aqui, tocando. Se quiser desligar é só apertar aqui. Não se esqueça de carregar a bateria”. A tia gostava realmente do compositor, ouvindo cada uma das músicas familiares desde a adolescência e sua juventude.

A Rita levou meu sorriso, no sorriso dela meu assunto

Levou junto com ela o que é de direito…

A sobrinha tinha ido embora deixando o aparelho ligado e as canções preencheram aquelas primeiras horas matutinas fazendo histórias virem à tona. Maria recordou um violão quebrado quando soube que um namorado desnaturado, filho da mãe, havia feito serenata para uma zinha qualquer. Sabendo do fato ela foi ao apartamento do sujeito, entrou silenciosa, decidida, e ante um olhar atônito do rapaz, bateu com o violão sobre as teclas de um piano… “Causou perdas e danos!”. A lembrança era boa e Maria sorriu. Algo tão inusitado que realçou o brilho do olhar e ela notou a claridade do dia, o sol batendo forte no terraço. Teresa percebeu mudanças quando trouxe um suco que antecedia o almoço. “Hoje não quero almoçar. O Chico me basta”, sentenciou Maria já nos primeiros acordes de mais uma canção.

Toda gente homenageia, Januária na janela

Até o mar faz maré cheia, pra chegar mais perto dela…

Ela resolveu bisbilhotar a tal playlist e notou que o autor da coisa havia priorizado entre as canções de Chico Buarque aquelas que remetiam a mulheres específicas: Rita, Januária, Bárbara, Ana, Carolina, Cristina, Beatriz, Maria, Rosa, Angélica… Aumentou o volume para espanto da empregada que retornou, rápida e assustada, temendo ter acontecido algo ruim. Maria aproveitou a presença da outra: “Temos vodca e gelo? Coloque nesse suco de laranja, por favor!” Vodca às onze horas! O olhar da mulher ao relógio dispensou a pergunta. Maria insistiu: “Capricha, Teresinha! Por favor! Vou procurar “Teresinha” para te homenagear”.

Vieram com a bebida canções e performances até então desconhecidas de Teresa que, em dado momento, sucumbiu aos convites e passou a bebericar com a patroa. De início tímida, aos poucos foi entrando na sintonia da outra e nem se surpreendeu quando Maria foi ao quarto e voltou vestida apenas com meia arrastão, cinta liga, uma minúscula calcinha vermelha. Teresa recusou mudar de roupa. A outra desligou o celular e ligou o aparelho de som, mais potente, enchendo o início da tarde com o som de CDs, a coleção do compositor que há muito estava abandonada.

Ai se mamãe me pega agora, de anágua e combinação

Será que ela me leva embora, ou não…

Improvisando coreografias, escolhendo canções nos diferentes discos, quando bebericaram a quarta ou sexta dose quebraram de vez a barreira já tênue entre patroa e empregada, Maria convencendo Teresa a dançar como se fosse “Bárbara”, dançando nuas pela sala, a possibilidade de ir além quebrada com sonoras gargalhadas após definição de território: “Olha aqui, Maria, ‘desesperada e nua’, sim, sabendo que ‘serei sua’, não. Eu quero é o Antenor! Gosto muito!” Após muitas risadas, Maria retomou o telefone anunciando uma ideia: “Será que o Juvenal ainda me quer?”.

Juvenal, ex-colega de trabalho, também recém aposentado, vivendo tranquilo com a esposa e tomando conta de netinhos todas as tardes titubeou ao convite de Maria, estranhando a hora, a quarta-feira, a voz esgazeada pelo álcool da amiga por quem morria de tesão e de quem não tinha notícias há meses. “Venha agora, Juvenal. Você ainda me quer, eu sei. Vem agora! Você não tem uma boa desculpa para sair à noite. Então venha ao banco, diz que irá acompanhar um amigo durante exame de vistas, diz alguma coisa, Juvenal! Ou mudo de ideia! Página virada, Juvenal!”.

Encantada e feliz pela repentina e intensa saída de Maria do marasmo de meses, Teresa arrumou rapidamente alguns petiscos, reformou o balde de gelo, verificou a quantidade de bebida no armário e prometeu, sob juras aos deuses e santos, permanecer fechada no quarto de hóspedes até ser chamada de volta. Últimos momentos antes da chegada do amante, Maria despiu-se protegendo o corpo apenas com um roupão leve, esvoaçante e transparente, sentenciando ao término de outra velha canção, da moça que desatinou: “Não vou desatinar, Teresa. Chega! Não sou dessas!”, já colocando outra música, olhando no relógio. “Juvenal que não se atrase!”. As duas ainda voltaram a bebericar e dançar.

Chego a mudar de calçada

Quando aparece uma flor

E dou risada do grande amor…

Chico Buarque e Gal Costa, cúmplices involuntários de Maria, pronunciaram junto com a campainha o último verso de O Samba do Grande Amor:

Mentira!

Maria despachou Teresa para o quarto e, antes de atender a porta, avaliou-se no espelho, abrindo um pouco mais o decote, ajeitando o cabelo. Calma, colocou uma premeditada canção do onipresente Chico também na voz de Gal Costa. Juvenal seria burro demais se não partisse para o objetivo da visita ao ser recebido pela folhetinesca mulher “que só diz sim” sem manhã seguinte, sem qualquer compromisso. Calmo e competente, a escolha de Maria não desapontou, nem diminuiu um mínimo sequer da magia daquela tarde.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu

Que me deixa maluca quando me roça a nuca…

Teresa só pode sair do quarto quando o sol estava se pondo, atendendo ao chamado da patroa, novamente sozinha na sala. “Estou faminta!”. E sem dizer mais nada voltou ao silêncio costumeiro, mas com um inconfundível brilho nos olhos. Pura satisfação. Teresa, ainda sob efeito da vodca, não economizou comentários. Contou não esperar jamais ver a patroa em trajes íntimos, quase bêbada, bailarina performática. Tão quietinha! Tão ensimesmada! Quem podia imaginar que, rápida e resolvida, arranjaria um encontro em menos de uma hora? Conclui em dado momento que a razão deveria ser esse Chico Buarque, milagreiro! Quem diria! Que compositor porreta! Maria abandonou o silêncio perante o prato cheio: “Chico é ótimo, Teresa; mas eu sou apenas quietinha. Sabe, eu sou safada; muito safada!”. Rindo muito, cumplices, mergulharam nas delícias de uma boa massa, Chico cantarolando na noite alegre e quente de mais um verão.

Pintar, vestir
Virar uma aguardente
Para a próxima função…

Valdo Resende / 2022

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Notas musicais:

Páginas viradas, o título, é expressão usada por Chico Buarque em Folhetim (Chico Buarque, para a Ópera do Malandro – 1979) gravada por Nara Leão, fez enorme sucesso em 1978 na voz de Gal Gosta.

A Rita (1966) – Chico Buarque – é o disco cuja capa virou meme, o Chico sério e sorrindo. Neste disco há outro nome de mulher, Cristina, irmã de Chico homenageada em “Será que Cristina volta”.

Januária (1968) – Chico Buarque – Do terceiro LP do compositor. Deste disco consta “Ela desatinou”, e “Carolina” também mencionadas acima.

Ai, se eles me pegam agora (1979) – Chico Buarque –  a data é de quando foi lançado o álbum com as músicas da peça A ópera do malandro. A canção citada é interpretada pelo grupo As Frenéticas.

O Samba do Grande Amor (1984) – Chico Buarque – O vídeo com Chico e Gal cantando é imperdível. Gal “revira os olhinhos” em momento de puro charme.

O meu amor (1979) – Chico Buarque – Do mesmo disco da Ópera do Malandro, com interpretação de Marieta Severo e Elba Ramalho. A gravação, um ano antes, de Maria Bethânia em dueto com Alcione foi um grande sucesso. Teresinha, a canção também citada acima, foi gravada por Bethânia e, no disco de 1979 tem registro de Zizi Possi.

Na Carreira (1983) – Chico Buarque e Edu Lobo são os autores dessa música para o final de O Grande Circo Místico, criado para o Balé Teatro Guaíra. Na trilha há “Beatriz” e “A história de Lilly Braun”, outras mulheres citadas pelo compositor.

Outras mulheres citadas acima e no cancioneiro de Chico:

Bárbara e Ana (Ana de Amsterdam) são da trilha da peça Calabar, o Elogio da Traição, proibida pela ditadura em 1973. Chico Buarque e Caetano Veloso cantam essas canções no show gravado ao vivo em Salvador, lançado em 1972. 

Maria, está em Olha Maria, do LP Construção (1971) e está também em Anos Dourados, esta em parceria com Tom Jobim, de 1987.

A Rosa, é aquela doida pela Portela, vestida de verde e rosa… há uma gravação genial de Chico em dueto com Djavan.

Angélica, na real, é Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel Jones e da jornalista Zuzu Angel. Stuart foi torturado e morto pela ditadura e Zuzu, buscando pelo filho, morreu em duvidoso acidente, em 1976. Chico Buarque, em parceria com Miltinho, do MPB4 gravou Angélica em 1982.

Elza, para ouvir!

Eu gostaria de morrer em casa, de causas naturais, como Elza Soares. Entre paredes conhecidas, sem a frieza do quarto hospitalar, perto de pessoas da família, com lucidez e visão para identificar quem vier me buscar. Espero merecer tal graça. Quanto à Elza, fui alertado por Flávio Monteiro: “- Merecido. Ela sofreu antes, ao longo da vida, tudo o que tinha que sofrer!” Realmente, não carecia de mais nenhuma dor.

Morte, certeza que costumamos recusar, nos pega de surpresa, nos deixa meio sem rumo. E a gente toca a pensar em quem faleceu. Incomoda um pouco ler tanto sobre Elza Soares sem que citem suas canções, interpretações. Penso que a melhor homenagem é ouvi-la e, por isso, resolvi indicar sugestões de fã.

Gosto de “Boato”, música de João Roberto Kelly, na voz de Elza Soares, gravado em 1960. No final do samba Elza repete o refrão imitando Dalva de Oliveira, Miltinho e Alaíde Costa. Um absurdo potencial de quem fazia o que bem queria com a voz. Tá bom para começar?

Em raros registros – 3 cds – feitos graças ao trabalho de Zuza Homem de Mello, estão gravações de Elza ao vivo, nos anos de 1960. Dois desses momentos no programa Fino da Bossa (Elis Regina e Jair Rodrigues) e um no Corte Rayol Show (Renato Corte Real e Agnaldo Rayol). Quem não ouviu Elza Soares e Elis Regina cantando “Devagar com a louça” (Haroldo Barbosa e Luis Reis) fica nessa mania de “melhor” que citei em post passado. Bobagem! As duas são melhores. Elas cantam como se tivessem ensaiado durante meses, como se formassem dupla com anos de experiência e dão aula de senso rítmico, divisão ímpar. Essa gravação simplesmente precisa ser ouvida:

Na real, voltando por onde poderia ter iniciado, comecei a gostar de samba enredo ouvindo Elza e, na hierarquia dos afetos, minha primeira citação /indicação vai para “Bahia de Todos os Deuses” (Salgueiro, 1969).

“Nega baiana, tabuleiro de quindim

Todo dia ela está na Igreja do Bonfim

Na ladeira tem, tem capoeira…”

Outra referência afetiva é de “Lendas do Abaeté” (Mangueira, 1973) e, inesquecível, “A Festa do Divino” (Mocidade Independente de Padre Miguel, 1974), esse é samba de quando a cantora foi intérprete da Escola na avenida. Atenção, por favor: no quesito samba enredo, Elza Soares sempre manifestando sua predileção pela Mocidade, não deixou de cantar sambas de outras escolas. Música boa é para ser cantada, de preferência, por quem sabe.

Começo dos anos de 1980, no Instituto de Artes da Unesp, Dirce Ceribelli utilizava canções de Caetano Veloso para nos ensinar Jakobson. Entre essas, “Língua”, que o compositor divide interpretação com Elza Soares em momento icônico. E logo depois tive a oportunidade de vê-la, no Centro Cultural Vergueiro. Mulher bonita, gostosa, com pernas colossais, por aqui e ali diziam ser a Tina Turner brasileira. Mania infeliz essa nossa. Tina é ótima, mas Elza não carece de comparações. Foram tempos de mudança, em que Elza, sem deixar o samba, deu ênfase para todo o seu potencial musical.

“Dura na Queda” (Chico Buarque), “A carne” (Marcelo Yuka, Seu Jorge, Wilson Cappellette), “Rio de Janeiro” (Anderson Lugão), “Flores Horizontais” (Zé Miguel Wisnik, Oswald de Andrade)… eleger uma canção é difícil, pois cada uma dessas vai além do universo musical. Elza, definitivamente, assumia seu lugar como voz de um povo, de uma raça, de um gênero, características que acabaram levando-a para o plural, tornando-se cantora de povos, raças, gêneros.

“Flores horizontais

Flores da vida

Flores brancas de papel

Da vida rubra de bordel…”

Quero concluir essas breves indicações do repertório de Elza sugerindo audição de outros duetos além de Língua (todo mundo, me parece, quis cantar com ela). Chico Buarque (Façamos – Cole Porter, versão de Carlos Rennó), Letícia Sabatella (A Cigarra – Elza e Letícia), Luiz Melodia (Fadas – Luiz Melodia) … Mas, entre tantas parcerias, volto no tempo, lá para os anos de 1960 para indicar um trio: Elza, Elis e Jair cantando “Se acaso você chegasse” (F.Martins, Lupicínio de Oliveira), na mesma coletânea citada acima. É ouvir os três e lamentar imensas perdas, três figuras máximas da nossa música.

Certamente deixei alguma grande interpretação. Fatal deixar de lado vários, entre tantos momentos intensos de puro talento de Elza Soares. Espero que este texto estimule a ouvir e ir bem mais além. A cantora está na nossa música e sua história – vasta e forte – permanecerá.

Ave, Elza Soares!

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Nota: Todas as canções estão nas plataformas digitais.-

Para Uberaba, aqui de longe

Sei que ainda vou voltar… onde hei de ouvi cantar uma sabiá (Chico Buarque, Tom Jobim)

Um ano sem ir a Uberaba (maldita pandemia!). Toca a viver de lembranças…

E eu sinto uma saudade insana da estrada, da sensação de voltar, chegar na cidade onde nasci.

As primeiras saídas, tentativas de mudança foram confusas. Era um querer vir, não querendo, diria a personagem popular. Era comum viajar chorando, o rosto escondido, olhando a noite pela janela do ônibus. A juventude garantia ânimo e força para voltar na semana seguinte. Era o ir e vir constante, gerando sextas-feiras de ansiedade, segundas-feiras de cansaço.

São Paulo e a vida, aos poucos, exigindo outras posturas. E de uma vez por semana, passei a visitar a cidade uma vez por mês. Não contabilizei o tempo. Mas o trabalho foi exigindo e, aos poucos, a vida mudando… Uberaba passou a tomar todos os feriados.

Tempo, tempo, tempo… E chegou o período de ir só nas férias, em aniversários especiais, visitas a doentes. Nunca mais que quatro meses sem visitar a cidade. Não pensava, nunca cogitei de ficar distante um ano inteirinho.

201 anos! O ano que não vi. Um ano!

Ano passado era pra ter sido uma festa enorme, a gente comemorando o bicentenário da cidade com lançamento do Uberaba 200 anos – No Coração do Brasil, “Euzinho” lá, entre os poetas da cidade no livro organizado por Martha Zednik de Casanova.

Foi o que tinha de ser.

Hoje acordei após sonhos. Nesses, estava lá, como em muitos outros. Esta quarentena infinda não manda nos meus sonhos. E o bom de sonhar é que o tempo não conta. Vejo meu quintal como há muito não é mais, com goiabeira, laranjeira, mamoeiro, jabuticabeira… Sonho com o quarto que dividi com meu irmão e que, após ele se mudar para Brasília, pintei todos os móveis de preto, para desalento da família (Eu era dark e não sabia!). Sonhos… Minha cidade dentro dos meus sonhos.

Uberaba! Tá na hora de pedir versos emprestados a Caetano Veloso:

“por mais distante, o errante navegante, quem jamais te esqueceria…”

A pandemia ainda está aqui, aí, em todo o Brasil. O que deveria ser festa pede apreensão, cuidado dobrado. Recebo notícias de minhas irmãs, trancadas sem que sejam Carmelitas, Concepcionistas. Não vão ao Carmelo, à Medalha Milagrosa. Não vão a lugar nenhum. E, daqui, reitero: Não saiam! Tomem cuidado! A vacina taí!

“por mais distante, o errante navegante, quem jamais te esqueceria…”

Por mais que vivamos tempos sombrios, ninguém vai nos tirar os sonhos, os desejos. Por isso lá vai meu desejo maior neste 02 de março:

Feliz aniversário, Uberaba! Que todos tenham saúde!

Que todos os doentes se curem! Que todos sejam vacinados.

Que possamos estar juntos novamente, presencialmente!

Feliz aniversário, Uberaba!

Um café com Marilena Ansaldi

São tantas perdas! E a gente segue, ficando lembranças. Perdemos Marilena Ansaldi nesta última terça-feira, dia 9 de fevereiro. Uma mulher notável, grande artista. Um dia tive a oportunidade de entrevistar a atriz que, quando bailarina, atuou no Teatro Bolshoi, em Moscou. Ela estava atuando em Hamletmachine, onde também operava som e luz: “Um velho desejo, buscar a total unidade do ator em cena, onde o personagem se ilumina”. Disse-me Marilena.

Fui recebido em seu apartamento. Senti a responsabilidade em conversar com a atriz que conheci em “Geni”, o espetáculo baseado na personagem da Ópera do Malandro, de Chico Buarque. O compositor criou músicas belíssimas para o trabalho idealizado pela atriz. Entre essas, Mar e Lua:

…Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

Começamos nossa conversa por “Geni”, quando ela me disse: “Não faço peças, me apaixono por temas, por personagens. A partir dessa paixão, dessa identidade, é que realizo meu trabalho”. Essa declaração, que escrita aqui soa como manifesto, não deixa de sê-lo. A diferença está na maneira absolutamente tranquila em dizer algo que, naquele momento, pareceu-me papo íntimo entre amigos. Foi assim, Marilena Ansaldi tratou-me como um amigo.

No apartamento amplo, elegante, fiquei pouco tempo na sala. “– Você aceita um café? Vamos até a cozinha, vou fazer um café pra você”. E aí a conversa fluiu com a intimidade que um cafezinho permite, ainda mais quando preparado pela dona da casa. E pude ouvir Marilena Ansaldi falando com tato, emoção. Contundente sem deixar de ser calma. Uma personalidade forte.

Falamos sobre nosso país e, revendo o texto que publiquei, parece que a entrevista ocorreu ontem: “No Brasil sempre existiu a ditadura econômica e a ditadura da livre expressão. Os políticos descobriram que dando a liberdade de expressão, pouca, tudo fica como estava” e prosseguiu o assunto do qual extraí algumas citações:

“Contudo, sabemos que uma real modificação só pode ocorrer a partir da ação coletiva”.

“Nossos movimentos políticos são medíocres, mentirosos, tapeiam muito!”

“Se as pessoas fossem mais lúcidas, se lessem mais…Só a partir da consciência é que poderá surgir uma ação direta, efetiva”.

Generosa, Marilena me deu uma tarde de boa conversa. Fiquei impressionado com a lucidez e a tranquilidade de afirmações do tipo, “as coisas irão piorar, muito. Não tem como, é só olhar para o que está aí”. Não se tratava de mero pessimismo, mas de um olhar sensível sobre a realidade.  Falou de facismo, nazismo, não se referindo à existência de organizações, mas a formas de atitudes. O exemplo, na entrevista, era por conta de uma onda de crimes contra homossexuais: “Não é um fato isolado. A violência está tomando forma na comunidade. Os criminosos sabem que não serão punidos, nem procurados”.

Foi em 1987. Tempos difíceis! Luiz Antônio Martinez Correa havia sido brutalmente assassinado. Jânio Quadros fazia coro à homofobia, proibindo bailarinos homossexuais no Ballet da Cidade de São Paulo. “A AIDS é uma peste que recaiu sobre a sexualidade, o ato mais bonito da natureza foi atingido. Justamente quando as pessoas começavam a ver o sexo assim, como a coisa bonita que é”.  

E o que poderíamos pensar para o próximo ano? “Este ano é consequência do que vem atrás. A minha lucidez faz com que eu some. A vida é uma somatização de coisas. Essas estão aí. Podem melhorar um pouquinho ou piorar muito. De alma, pode melhorar; de fato, não.” Parece que foi ontem!

Alguma saída? “Existem seres e seres humanos. Na verdade, a essência do homem, o que chamamos de índole, a sensibilidade é que é o grande mistério. Se a sensibilidade se desenvolve, então teremos um mundo melhor. Se a gente soubesse mais, se fôssemos mais sábios! Esse grande mistério, o bem, o mal…” A atriz revelou um desejo: “o único espaço, seja onde for, em que eu gostaria de estar sempre é o palco.” E, com humor, finalizou: “mesmo que realizando um trabalho para cobrir os prejuízos do anterior”.

Tive a boa sorte de conversar uma tarde com Marilena Ansaldi. Desses momentos que ficaram inesquecíveis pelo todo, marcado por expressões do tipo “vai piorar, é só olhar o que há”, ou “nós permitimos o que há”, que me pareceram fortes, fatalistas, mas ao que a mulher respondia com arte, com delicadeza e sensibilidade. “Só um minuto, vamos tomar um último cafezinho” E aí, falamos sobre as peças que viriam, sobre quando sairia a matéria, sobre viagens e excursões da artista… Após esse momento nos encontramos apenas duas vezes. Nessas ela me tratando com generosidade, amizade. Inesquecível!

Meu cotidiano de Pedro

A janela escancara um dia ensolarado e, preso, observo a rua tímida, como diria Chico Buarque. Sem Construção, o que emerge do escaninho de canções é Pedro Pedreiro, aquele penseiro esperando o trem.

Vejo uma moça andando lentamente, meio a esmo, segurando um cigarro e, na mão esquerda, uma máscara carregada pela alça. Dois mascarados, homens, não procuram namorados como diz outra antiga canção, esperam passageiros. Talvez esperem o Pedro que, cansado de esperar, resolva tomar um táxi.

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa

Um tempo de espera esse 2020. Ingênuo, cheguei a pensar que seriam 15, 30 dias. E os dias, semanas, meses… Tento entender as pessoas que entregam a vida à própria sorte e saem, procuram trabalho, amigos, vão a festas, reuniões. Isto porque, na real, vem aquela coisa do Pedro, de esperar a morte, ou esperar o dia de voltar pro Norte. Mas, que Norte é esse?

Norte real, geográfico, não tenho. Quero ficar por aqui mesmo. Voltaria pra terra que chamei de minha, mas meus pais já não estão lá. Trago-os nas lembranças, no coração, em orações cotidianas. Norte profissional tá lento, feito Maria Fumaça tentando sobreviver em tempo de trem bala. É a pandemia, me consolo. De Norte afetivo vou bem, obrigado, e nesse “quesito” me distancio desse Pedro Buarque de Holanda. Só nesse!

Esqueço momentaneamente as mazelas desse nosso mundo pra divagar na durabilidade e atualidade de Chico Buarque de Holanda. Penso sair da janela e pegar um monte de CDs. Uma overdose do compositor pode acalentar o coração. Acalentar me lembra Acalanto, um acalanto nada bom:

Dorm’inha pequena

Não vale a pena despertar

Eu vou sair por aí afora

Atrás da aurora

Mais serena…

Ah, está tudo muito difícil, mas a gente tem o Chico Buarque. E Elis, Bethânia, Nara, todas pra cantar as músicas do cara. Esse Cara que não é dele, é do Caetano. Ambos nos consomem com seus olhinhos infantis, como olhos de um bandido. Só que, tchau, Caetano, não estou para o que der e vier. Estou esperando! Como o Pedro:

Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
… o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal
Todo mês
Esperando a festa
Esperando a sorte…

Talvez minha única diferença desse Pedro Pedreiro é ter ouvido Chico desde a infância e, portanto, sei disso:

Pedro não sabe, mas talvez no fundo
Espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar

E assim sigo, teimoso, atrás de um sonho, mesmo que impossível. Segurando o desespero da falta de vacina, do excesso de ignorância, do desconforto da máscara que me faz encarar, por qualquer lugar que vá, a morte, a doença, o fim. Reluto, insisto e sonho. Quero voltar atrás.

Ser Pedro Pedreiro, pobre e nada mais

Paro de escrever e vou ali, feito Januária ou Carolina, olhando o mundo pela janela. Esperando o trem, um trem de mineiro

Que já vem, que já vem, que já vem ….