O gado, Chico e os Dinossauros

Slide1

Uberabense distante, a comemoração do aniversário da cidade é acontecimento que suscita lembranças, reascende o passado. Por outro lado, aqui e por todos os lugares em que estive ao anunciar que sou de Uberaba recebo de volta a identificação imediata da cidade mineira onde nasci.

“- Lá é terra de gado, do Zebu! De gente de muito dinheiro”, dizem. Aviso logo que não sou fazendeiro, que não pertenço às famílias de criadores que trouxeram o gado indiano para o Brasil. Falo da Exposição, da Feira Agropecuária do Parque Fernando Costa. Lembro tempos de criança que ignorando o governo militar que nos foi imposto ficava orgulhoso por ver, bem de perto, todos os Presidentes da República…

Slide2

Os grandes pavilhões de gado da Exposição eram religiosamente visitados. Se não nos dispensavam das aulas do Cristo Rei matávamos aula, e andávamos sorrateiros, evitando um flagrante de pais ou familiares. Foi lá, também, que descobri o significado da palavra carisma durante um show de Roberto Carlos. O “Rei” cantava e, do local onde estava percebi, surpreso, que eu era o único a não olhar para o palco. Foi por acaso, mas depois voltei a olhar e confirmei o fato. Roberto Carlos cantando e as pessoas, como que tomadas, mantinham os olhos fixos no cantor.

“- Terra do Chico Xavier, não é mesmo?”, dizem outros, invariavelmente com a complementação: “estive lá, conheci o grande líder espírita”. Conto, todo orgulhoso, do meu primeiro emprego, em uma agência bancária onde tive a oportunidade de conhecer Chico Xavier. Ele era simpático, educado, carinhoso… Entrava na agência sempre sorrindo, saudando todos os presentes.

Slide4

Pra ser honesto, naquela época mantinha distância do espiritismo. Em casa, todos católicos, éramos orientados à respeitar e ficar longe. Chico faleceu; eu não morava em Uberaba, mas já frequentava centros espíritas paulistanos. Minha irmã mais velha e outros familiares passaram horas na fila imensa formada para o último adeus ao grande Chico Xavier. Quem faz questão de dar um adendo nas conversas sobre Chico Xavier sou eu: – Indo a Uberaba, não deixe de conhecer a Casa de Antusa. Um lugar abençoado que ainda mantém a aura da grande médium que ali atendeu milhares de pessoas.

“- Não é lá que tem os dinossauros?”, perguntam alguns; é a referência mais recente sobre a minha cidade. Conheci muitos arqueólogos e esses sempre lembram o trabalho dos paleontólogos em Peirópolis. As pesquisas científicas em Uberaba divulgam outra faceta da cidade, o conhecimento como prioridade. No museu estão expostos fósseis de Dinossauros e de outros animais, despertando a curiosidade de adultos e crianças.

Denuncio minha idade quando informo que conheci a Estação Ferroviária de Peirópolis, onde hoje funciona o Museu dos Dinossauros. O marido de minha prima Maria era telegrafista da Companhia Mogiana e, volta e meia, passava temporadas trabalhando na pequena estação. Também informo que, sempre que possível, vou ao local, muito bonito.

Slide3

Estive em Peirópolis recentemente; fui levado pela querida Edna Idaló. Fomos almoçar na Toca dos Dinossauros uma deliciosa comida mineira. Convite da Edna que, aniversariante, teve a carinhosa ideia de colocar-me junto de sua família para uma simpática comemoração. As fotos de Peirópolis enfeitam este post, priorizando os jardins, homenageando Edna e marcando o aniversário da minha cidade.

Sei que milhares conhecem Uberaba como a Capital do Zebu. Também que milhões associam a cidade ao maior médium de todos, Chico Xavier. Neste dois de março, estas lembranças são singelo presente para minha cidade, deixando um convite para todos os que me honram lendo este blog. Visitem Uberaba! Terra do Zebu, do Chico e dos Dinossauros.

Até mais!

As cinzas e os homens

O escritor e o médium

A imprensa noticiou a possibilidade de divisão das cinzas de Gabriel García Márquez entre México e Colômbia. Os dois países reivindicam a “posse” dos restos mortais do autor de “Cem Anos de Solidão”. Também não duvido de que a Argentina entre na briga, já que foi lá que um editor acreditou na viabilidade da obra e publicou o êxito maior do autor colombiano. Fiquei pensando se partiriam o corpo ao meio caso o escritor não tivesse sido cremado, ou em três partes; quem ficaria com os membros, ou o tronco, ou a cabeça? O que diria Gabriel García Márquez de tudo isso? Ah, os seres humanos!

Recordei a pinimba entre duas cidades mineiras, Uberaba e Pedro Leopoldo, sobre o legado de Chico Xavier. Os ânimos de ambas as cidades ficaram exaltados, simultaneamente velados, na disputa pela herança do médium. Uberaba constrói um memorial e , por lá, virou museu a casa onde Chico morou. Pedro Leopoldo transformou em memorial a casa onde Chico nasceu; lá estão expostos todos os livros psicografados pelo médium e centenas de biografias do mesmo. Quando as prefeituras tratam do assunto é preponderante nas avaliações e ponderações das mesmas o potencial turístico, ou seja, a possibilidade de levantar grana em cima da lembrança de Chico Xavier.

Quem deve ficar com as cinzas de Gabriel García Márquez? Qual cidade merece os rendimentos sobre a memória de Chico Xavier?  Não sei. Essas discussões são inevitáveis já que os principais envolvidos, até onde eu saiba, não deixaram nenhuma instrução ou registro de decisão sobre essas questões. O que é certo é que o escritor nunca voltou para a Colômbia, mesmo com uma doença letal, e nem Chico, também doente, manifestou desejo de retornar para a cidade onde nasceu.

Tudo ficaria mais simples se planejássemos também nossa pós-morte. Não estou dizendo aqui dos meros interesses materiais – testamento, seguro de vida e similares – mas, além desses, também dos interesses afetivos e até mesmo religiosos. Como os egípcios! Qual razão para não pensar em nosso túmulo e no local onde queremos o mesmo? Registrar o tipo de funeral que pretendemos evitaria especulações e discussões sobre imagens, flores, velas e rituais funerários. Escolher a foto – para os túmulos que levarão fotos – e o epitáfio para a lápide. Como seria o anúncio do velório, da missa de sétimo dia? Havendo cerimônia religiosa, como seria esta, que imagem e qual texto estariam naqueles pequenos folhetos de lembrança e pedido de oração?

Vivemos preferencialmente ignorando a morte seja como algo definitivo ou como término da passagem pelo planeta. Vivemos a ilusão da eternidade, do infinito, entrando em parafuso perante uma doença qualquer. Ignoramos a marcha do tempo e negamos os sinais deste, às vezes de forma absurdamente radical; adotamos plásticas e outras práticas que deformam ou expõem a precariedade humana perante o tempo. A morte vem, inexorável, e os primeiros legados são os dilemas para os sobreviventes próximos. Com qual roupa vestir o defunto? Quais os rituais religiosos? O que fazer com os cacarecos todos? Afinal, ninguém discute o que fazer com joias e saldo bancário; mas e as cartas, os álbuns de retratos, as lembranças de viagem?

Conheço pessoas que são categóricas quando este tipo de assunto é abordado: “- Não é problema meu”, brincam, fugindo do assunto. Há outras que não revelam testamento; garantem com isso um melhor tratamento dos possíveis herdeiros. Todavia, me parece, a maioria das pessoas morre deixando um monte de situações para que outros solucionem; exemplo claro disso são as disputas como essas, envolvendo Gabriel García Márquez e Chico Xavier e milhares de outras, de pessoas comuns, mas que também deixaram coisas e cinzas.

Decisões e desejos de futuros defuntos, penso eu, devem ser discretas, íntimas, para pequenos círculos. De qualquer forma seria engraçado ver socialites disputando nas “caras” da vida as cerimônias mais sofisticadas para si mesmas; mas, insisto que é melhor que sejam discretas, sem grandes alardes. O máximo que permito publicar sobre meu fim, que espero esteja bem distante e que seja bem suave, tomo emprestado de um poeta maior:

… Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

(Fernando Pessoa – em “O guardador de rebanhos”)

Até mais!

.