Não sobrevivemos sem eles

Foto: arquivo pessoal

A greve dos coletores e profissionais da limpeza urbana é um momento de consciência da importância desses prestadores de serviço. Aquele profissional que trabalha correndo pelas ruas da cidade recolhendo sacos pesados, muitos fedorentos, sob chuva ou sol, recebe salários irrisórios. A média é de R$ 1.560,93 por mês, conforme o Portal Salário.

Há um consórcio atuando na região que privatizou a coleta de lixo. Os efeitos da administração das empresas responsáveis estão sendo sentidos pelos santistas e moradores de outras cidades da Baixada. Os passeios estão cheios, algumas esquinas lotadas de sacos de lixo levando o transeunte a invadir a rua para poder caminhar.

A situação é perigosa. Os ratos e baratas já invadem as ruas a céu aberto e outros insetos já são percebidos sobrevoando os entulhos. O péssimo odor é o menor dos problemas da insalubridade que nos ronda. Corremos o risco de um surto de dengue, Chikungunya e leptospirose, entre outros males possíveis.

A solução é um salário justo. Os profissionais pedem 7% de reajuste nos salários, elevando a média salarial para R$ 1.670,19! Aqueles que julgam errada a greve dos coletores trabalhariam por tal salário? O que importa para a sobrevivência do ser humano? Nenhuma categoria profissional é melhor ou mais importante que a outra. No entanto, algumas são necessárias e fundamentais; dentre essas, os coletores.

Já escrevi sobre o trabalho desses profissionais na minha rua. Admiro o astral alegre, a educação ao cumprimentar e saudar os moradores. Há alguns pormenores como, por exemplo, pararem no prédio vizinho para se abastecerem de água potável para consumo próprio. Cabe então lembrar aos que criticam a greve de dentro de gabinetes com ar-condicionado, café e água à disposição, que há uma série de seres humanos correndo pelas ruas para recolher o que descartamos.

Espero que a situação termine com o atendimento às propostas da categoria. Pensando na minha saúde, no meu conforto e bem-estar, desejo que consigam e que, na próxima, peçam muito mais! Eu poderia fazer uma lista de prestadores desnecessários, mas deixo para que cada um pense na sua. Uma coisa é certa: sem nossos coletores, sem a cidade limpa, não sobreviveremos.

Os profissionais úteis

A manhã de segunda chama para as responsabilidades que temos para a semana. Além do trabalho cotidiano há que pagar contas, marcar médico e, necessário, dar uma paradinha para olhar o mundo. Pelo noticiário é o hábito costumeiro; há outras possibilidades simples como, por exemplo, abrir a janela e olhar a vida pulsando no céu, na rua, na vizinhança. O som familiar do caminhão vem junto com a voz dos coletores de resíduos e o ritual se repete.

Um rapaz vem à frente, facilitando o trabalho dos colegas que jogarão os sacos no interior da carroceria do caminhão. Acenam para moradores simpáticos, gritam entre si. O caminhão para em frente ao edifício vizinho. Entram rapidamente e tomam água, já à espera deles. Fresca e visivelmente gelada. O mínimo do tanto que devemos fazer por esses coletores dos resíduos que produzimos. Eles seguem com seu costumeiro alarido, falando coisas que não entendo, mas que percebo carregadas de bom humor.

Um adolescente bem vestido sai do sobrado em frente portando um saco bem cheio de sabe-se lá o que e entrega em mãos do coletor. Cumprimentam-se e o rapaz volta, abrindo a porta de um carro e toma seu rumo. Penso que nem tudo está perdido, já que há jovens percebendo nossa parceria fundamental com esses profissionais úteis, verdadeiramente necessários.

Certamente aguentaríamos algumas semanas sem o trabalho deles se produzíssemos apenas resíduos recicláveis. Mas, há os orgânicos, que em pouco tempo apodrecem e se indevidamente tratados resultam em doenças, pestes. E em seu árduo trabalho esses profissionais nos livram da proliferação de ratos, de baratas. O cheiro é péssimo. No entanto os rapazes coletores passam alegres, sem máscaras, expostos a coisas estragadas e podres que saem de nossas casas. Deveriam usar máscaras! Na real, deveríamos pensar e produzir algo que não os sufocasse e garantisse saúde enquanto correm pelas ruas limpando a cidade.

Coletores, varredores, hortelãos, lavradores, faxineiros, jardineiros, os seres úteis. Claro que médicos também são imprescindíveis, assim como engenheiros, dentistas, professores e outros profissionais. A questão é que há médicos, por exemplo, que só nos salvam se tivermos dinheiro para pagar a conta. E há os médicos dos postos públicos, essa maravilha brasileira que torna um médico o ser absolutamente útil. Assim como nossos coletores sofrem sem máscaras, o médico do “postinho” também sofre por não ter equipamentos necessários. Esse é o nosso mundo.

Sou interrompido pelo latido de dois cães que, devidamente amarrados pelos donos, se estranham no passeio público. Noto que os donos são obesos e lerdos, contrastando em muito com o corpo esguio e ágil dos coletores já próximos da esquina quando virarão e os perderei de vista. E penso em alguns desses profissionais que no exercício diário, correndo contra o tempo, e forçados pelo volume de trabalho acabam tornando-se campeões de corridas, fazendo valer o ditado que nos orienta a transformar limão em limonada.

Penso no sonho de cada coletor. Certamente, não foram crianças sonhadoras desejando correr pela cidade atrás de um caminhão fétido e sujo. São humanos, acreditam em um Deus, têm família, cuidam dos pais, dos filhos. Cuidam de nós, saneando nossas ruas, levando embora o que não queremos dentro de nossas casas. Não são estranhos, nem podem ser. São úteis. Merecem salário justo, digno. E sobretudo devemos à eles o respeito. Esse respeito que temos pela vida, pela nossa saúde, que depende do trabalho deles para que tudo caminhe da melhor maneira possível.