A mudança de Laura

Olhando para o computador travado ela se sentiu mais uma vez refém de algo não solicitado, não desejado. Não era a primeira vez que Laura se sentia assim, impotente diante de forças que estão muito além do que minimamente ela poderia enfrentar. Menina, bem menina, saiu da roça onde os pais amealhavam um pedaço de terra e, chegando na casa da madrinha que oferecera cama e comida durante o período da escola, ela descobriu o rádio.

A Madrinha Elvira gostava de jornais e revistas, mas a menina ainda não sabia ler. Gostava das fotografias impressas, das capas ilustradas com desenhos coloridos de casais apaixonados. Nada se comparava ao rádio com programas musicais, noticiários, novelas. Foi uma mudança e tanto! Do som de pássaros, dos ventos balançando árvores, dos animais no curral e no chiqueiro, ela passou a ser acordada por vozes graves dizendo “bom dia!” seguidos da alegre resposta de Elvira: Bom dia!

Apesar do medo diante de tantas novidades ela se manteve forte. Era desejo dos pais que conseguiram fazê-la entender ser necessário aprender a ler, a fazer contas, a conhecer as ciências. Tudo isso poderia e deveria ser utilizado no próprio campo onde eles prometeram, e ela sonhava, um dia voltaria em definitivo. Laura só não conseguia perceber quando ocorreria tal retorno.

Viver com a madrinha era mudança “para mais de metro”, ditado que aprendeu na cidade. O leite era entregue na porta, bem cedinho e em seguida vinha o pão, quentinho. Em dias alternados passavam o verdureiro, um vendedor de doces e, vez em quando, o carteiro batia palmas no portão. Iam à igreja com frequência, à praça com coreto no final das tardes de domingo, alegradas por uma banda com muitas marchas e modinhas. Pelo menos uma vez por mês iam ao cinema e Laura jamais esqueceu a luz apagada, a tela imensa e o primeiro filme, um romance açucarado. A madrinha chorava com a história. Ela se encantava com as imagens.

Muitos anos depois, já adulta e casada, deu-se conta de que a televisão tinha provocado outros hábitos e também o telefone tivera, aos poucos, colocado o carteiro em segundo plano.  Laura alimentou dúvidas sobre o bem que a tv poderia proporcionar, pois percebera que a câmera mostrava o que os donos da emissora queriam, o ângulo que eles desejavam. Já o telefone facilitara a vida de quem tinha leitura fraca, de quem não gostava de escrever.

Por muito tempo ela permaneceu fiel ao costume de enviar cartões de aniversário, por ocasião da Páscoa e pelas festas de final de ano. Em menos de uma década novas atitudes, novos protocolos, as respostas foram escasseando e definitivamente cessando substituídas por cartões virtuais. Nem se achava cartões para comprar. Tudo estava sendo rápido demais. Tão rápido que se fazia difícil perceber o que estava sendo imposto, as necessidades que estavam sendo criadas por conta de novidades, algumas não solicitadas, como as atualizações do computador. Laura estava cansada de correr atrás das mudanças que vinham de fora.

Tudo acelerado, vertiginoso. Todo consumo vira lixo. Os diferentes discos, compactos, k-7 e cds. As fitas VHS e os dvs, tudo rapidamente transformado em material obsoleto, ocupando espaços dentro de imóveis cada vez menores e mais caros, por isso mesmo exigindo que discos, fitas, livros se tornassem arquivos invisíveis, virtuais, inúteis com o computador travado, com a ausência de energia elétrica e as baterias descarregadas.

Já quase aposentada ela resistiu bravamente às redes sociais. Assumiu a imagem de mulher fora do tempo, só usando o computador para ler, pesquisar, utilizar serviços bancários e, ao telefone, só atendendo parentes e amigos próximos. Essa postura não veio por acaso, mas em consequência de perda de documentos por ataque de vírus e outras ameaças de golpes por telefone e e-mail. E de uma ojeriza que impunha mais do que o necessário, ser preciso ter o objeto do ano. O carro novo, o último modelo de telefone. Ela via crescer uma indisposição, uma resistência ao não desejado.

Nos últimos tempos, longe do trabalho, limitou-se a um aparelho básico para o caso de receber ou fazer chamadas urgentes. Contatos restritos a parentes, amigos, um pronto-socorro e um médico de confiança. Recebendo notícias via computador, gostava de pesquisar o mesmo fato, tentando saber o que realmente acontecia e o que cada empresa de comunicação estava defendendo. A tv fechada utilizada apenas para filmes e documentários, abandonando definitivamente as novelas que a encantaram na infância.

Então já enfrentara as piores mudanças advindas da morte do marido e da única filha, vítima de uma “bala perdida”, esse eufemismo para a incapacidade humana de controle da criminalidade. Ficara sozinha, morando fora do país o único neto com quem só conversava raramente, o que ela preferia acreditar ser fruto da diferença de fusos horários. Foi quando irritada diante do computador travado que pensou no futuro, em outras possíveis e previsíveis mudanças. Decidiu ser ela a autora e protagonista da vida que sonhara; algo que poderia ser vivido no tempo que lhe restava.

Dias depois riu quando um técnico sugeriu mais memória, outro eufemismo absurdo. Resistiu à ideia de um novo computador. Utilizou a pequena capacidade que ainda restava do aparelho para pesquisar, durante algumas semanas, até encontrar algo que atendesse aos objetivos pensados e decididos. E Laura encontrou. Uma casa de repouso no campo para pessoas em idade avançada, mas ainda com capacidade e disposição para mexer com horta, jardim e, se com vontade, a possibilidade de cuidar de galinhas, patos, porcos e outros animais domésticos.

Foi em uma segunda-feira que carregadores encontraram Laura, de pé e decidida, ao lado de duas malas modestas, apenas com roupas, uma maleta com álbuns de retrato e um caderno de lembranças. Segurava uma pequena bolsa com documentos, e o fatídico, mas necessário telefone celular. Os homens vieram para levar tudo, móveis e utensílios para uma instituição que ela escolhera. Viu saírem das janelas as cortinas, das paredes os quadros com paisagens e retratos familiares. Despediu-se de pequenos bibelôs, vasos com flores, o pequeno santuário e cada uma das imagens que ele abrigara.

Antes que os carregadores terminassem todo o trabalho chegou um conhecido corretor, com quem ela deixou a chave para que o imóvel pudesse ser vendido. Saiu sem olhar para trás, um leve sorriso nos lábios. Essa mudança, a penúltima, desejada e sonhada desde menina, de volta ao campo,  só seria interrompida pela mudança definitiva, fim de caminho nesse mundo, o que, certamente, não dependeria dela o dia, a hora e a forma de acontecer.

Usuários ou otários?

Com certeza não sou o único no planeta que, ao ligar o computador, o infeliz emperra exigindo que eu faça uma atualização não solicitada. Ocorre também com o telefone, com sites, apps e o escambau. Atualização! E dá-lhe sabe-se lá qual novidade, pois quando a máquina volta a funcionar nada acontece. Só uma certeza: não é para minimizar os custos dos programas, das assinaturas, das licenças de utilização. Outra certeza é a que, com um tempo muito curto, nossos aparelhos ficam incapazes por não comportarem tanta novidade tornando-se obsoletos e obrigando-nos a comprar um novo.

Não possuindo um computador que “canta Babalu em grego” e não tendo internet poderosa como a da ONU, as coisas demoram mais um pouco aqui em casa. Isto é: ontem, por exemplo, foram HORAS aguardando as atualizações “exigidas” e baixadas sem terem sido pedidas. A razão do tempo maior, é a lenda, foi por ter ficado mais de uma semana sem ligar o computador, daí terem acumulados novidades que, após as malditas esperas, não são minimamente percebidas.

Uma maquininha das boas está pelos olhos da cara. Algo que vai de 8 a 10 mil reais para quem pode pagar e há outras, por volta de 2 a 3 mil reais para serem adquiridas em 10 prestações sem juros, como é o caso do meu objeto, como comprova a imagem. Aqui está o x da coisa e a razão do ódio. PAGO E O OBJETO NÃO É MEU. O fabricante me cede um “espião” para vigiar meus desejos, vontades, necessidades e só não envia meus nus para o espaço porque não os faço. Compro um objeto que, para ser usado, careço de comprar programas e pagar sites e pagar, e pagar e pagar… Ganhar mesmo, só os malditos vírus.

Será que sou o único a me descabelar de raiva dessa situação? Será que mais alguém sonha com autonomia sobre um mero aparelho de uso pessoal? Nossos governantes não deveriam atuar para impedir essas enormes extorsões camufladas em “atualizações”? Para usar este word acabo de pagar R$ 449,00 mais impostos. Ao invés de um “obrigado”, os canalhas me enviaram um e-mail informando a data da nova cobrança em 2024. Ou seja, é como se a velha Remington ou sua contemporânea Olivetti me cobrassem aluguel pelo uso das teclas datilográficas.

Considero como a primeira grande aquisição da minha vida uma máquina de escrever Olivetti Studio 46. Leve, útil, pequena o bastante para não se tornar um estorvo. Uma paixão que me acompanhou por muitos e muitos anos. Cuidadoso, nunca precisei encaminhá-la ao conserto e tinha um único problema: a fita com tinta nas cores preta e vermelha um dia acabava. Como bom produto que era, avisava na medida em que ia perdendo nitidez, o preto virando cinza, o vermelho um rosinha vagabundo. Às vezes uma cor terminava primeiro. A gente usava a outra, acionando apenas uma tecla.

Não tenho a menor intenção em voltar ao século XX para reviver as dores e as delícias da datilografia. A questão é que já perdi as contas de quantos computadores tive, e maior ainda a quantidade de telefones celulares descartados por “incompatibilidade” com novidades não desejadas. E assim vou indo: De um lado, me sinto superior perante, por exemplo, a indústria automobilística, e gosto de me gabar por não ter sucumbido ao desejo de comprar um “carro do ano”, cuja maior novidade costuma ser coisas do tipo maçaneta diferentona. De outro lado, sou o otário que contribui para o lixo eletrônico com aparelhos em bom estado, mas tornados inúteis pelos seus malditos fabricantes ou que é obrigado a esperar por uma “atualização” que não fará absoluta diferença no meu cotidiano.

Minha arma é a escrita. Quem sabe um dia, ainda nesta encarnação, consiga ver esse quadro modificado. Me resta escrever e provocar: você, caro leitor, que se acha o máximo por comprar carro do ano, o último celular, o computador mais poderoso! Tu é tão otário quanto eu, mesmo sobrando a grana para pagar todas as contas de despesas desnecessárias. Portanto, deixe de ser otário e faça sua parte nessa contenda. Vamos formar um clube da luta contra essa joça toda?

O Estropiado

Mamãe Laura diria: “Tadinho!” Papai Bino faria um novo. Compraria as peças todas aqui e ali, pegaria outras das caixas cheias de badulaques aparentemente inúteis e, quietinho num canto, construiria algo absolutamente personalizado. Tio Manoel, mesmo sem formação para tal ato, tentaria consertar o estropiado. Com paciência de Jó, meu tio chegaria do trabalho, desmontaria o cacareco e horas depois, sem terminar, deixaria pra continuar posteriormente. Tia Olinda, esposa do Manoel, ficaria irada. Um brasileiro aqui em casa dá um jeitinho…

Todo um parágrafo sem ir direto ao assunto. Não é fuga. É dificuldade mesmo. O estropiado é um computador. Desses pequenos, tela acoplada, que vêm dentro de uma maleta pra gente carregar pra todo lado. Vai aqui, anda acolá, sobe ônibus, entra em metrô, abre e fecha, abre e fecha, sacoleja inúmeras vezes e o mais visível dos problemas: quebrou-se o mecanismo do abre e fecha…

Os males vêm de longe. Como o ancião com problemas que é, a lentidão do estropiado é de fazer tartaruga se achar Ayrton Senna. Volta e meia ameaça pifar: fica parado horas no mesmo lugar, um iconezinho rodopiando e, muito tempo passado volta a funcionar, em desesperado amor à utilidade para a qual foi feito. A memória está supimpa. Inteiraça! Quanto ao mecanismo abre e fecha…

Já que estamos em quarentena, e não levaremos o convalescente a lugar nenhum, vamos consertá-lo. Inspiração em Bino e Manoel, pega-se um suporte de ferro em L, originalmente pensado pra sustentar varal de cortina e, com cola quente, faz-se com que o estropiado mantenha-se aberto, ereto… Mas, sem poder voltar a ser fechado. Laura diria: ”Tadinho”.

O observador que vos escreve sempre entrando nessa história com a mesma ladainha: “Vamos comprar um novo, temos dinheiro, não precisamos disso; esse computador vai te deixar na mão na hora mais necessária; a gente aproveita e compra um também pra mim. O meu tá pedindo. Depois não diga que não avisei”.

O brasileiro do jeitinho aqui de casa evita comprar qualquer coisa. É o sujeito mais anticonsumo que conheço. Quase um avarento, adjetivo que não se confirma em supermercado nas sessões de gordices: chocolates, bolachas, batatas fritas em pacote… No mais, protela compras pesquisando preço. Um ser sensato.

A gambiarra feita para manter o estropiado em condições é… gambiarra! Sempre carece de manutenção e assim, ontem, nova sessão de cola quente. De repente, o marasmo da quarentena é quebrado em tom de tragédia: ”O computador quebrou de vez”.

O trágico tem razão de ser por um trabalho a ser entregue nos próximos dois dias. “Salvou?”. Sim, estava salvo. “Use o meu computador. Eu fico só com o celular”. Entre torturar o outro com o fatídico “eu avisei” e lavar a louça, fui pra cozinha, o telefone pendurado em minha frente pra ver Teresa Cristina. Não passo noite sem a live da cantora. A tragédia teve segundo ato.

O arquivo não estava totalmente salvo. Um mês de trabalho perdido. Tensão máxima. Ira, desespero, desolação e eu, na tentativa de suavizar o momento: “Toma cachaça!” Beber, é consenso, melhora a vida. Pinga recusada, toca a ver o que é possível fazer em dois dias. Voltei pra Teresa Cristina, em noite de homenagem a Morais Moreira. De vez em quando olhava pra sala, saber como estava a trágica tempestade. Nova interrupção: “Não acredito”!

Essa coisa humana de velar defunto. Ajeita daqui, arruma dali e, já que é pra providenciar o velório, carece de tirar o estropiado morto da tomada. Antes, bom lembrar: Um outro mal do dito cujo é a bateria; não carrega mais. E nessa de liberar a tomada… O fio estava mal colocado. Sem bateria, sem energia, foi só uma morte temporária. Capenga, mas vivo. Funções vitais presentes.

Alvíssaras! Alegrias! Cachaça! Alívio e um sarro básico, “Vacilão”, seguido de um veredito sem apelo, sem negociação: “Amanhã compraremos um novo computador”. Feito. E ao estropiado… O merecido descanso.

Até mais.