A maior!

Semana em que Elis Regina e Nara Leão estão em foco na mídia brasileira. Que ótimo relembrar e homenagear essas artistas extraordinárias. Nas diferentes matérias sobre as duas cantoras invariavelmente recai sobre Elis o adjetivo maior. “A maior!”. Ninguém discorda; nem deve, nem pode. No entanto…

Provavelmente por sermos subdesenvolvidos, nós, brasileiros, tenhamos essa coisa do tamanho das coisas. O maior estádio, a maior usina hidrelétrica, a maior ponte… Esses exemplos arquitetônicos foram utilizados durante a ditadura militar, afinal os caras precisavam de dar motivos de orgulho para a gente do país. Mais ou menos nessa época a própria Elis disse em uma ou outra oportunidade que Maísa era a maior cantora, ou Gal Costa a maior cantora. Para Maria Bethânia reservaram o “a maior intérprete”.

A febre do “maior” veio depois de diferentes reinados. Nostalgia dos tempos coloniais, sem ter por aqui o charme das nobrezas europeias, inventamos títulos para praia – Quem não conhece “a princesinha do mar”? – criamos reis da voz, rainhas do rádio, rei da juventude, rei do baião, rainha da Jovem Guarda e, entre outros, para ficar bem claro que ainda não dispensamos as titulações nem mesmo em plena pandemia, agradecendo o trabalho de Teresa Cristina, elegendo-a Rainha das Lives. Serei sempre grato à cantora e compositora pelas noites em que nos salvou do desespero.

Afeto e reconhecimento estão entre diferentes sensações que caminham junto e em ordem invariável quando citamos nossas referências, nossas preferências. Se concordamos que Elis Regina é a maior, onde colocamos Nana Caymmi, Mônica Salmaso, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Elza Soares, Maria Bethânia, Alcione, Daniela Mercury? Caramba, ia deixando Dalva de Oliveira de fora, a Gal Costa! A Clara Nunes! Podemos colocar quantas cantoras na tal lista “A maior”?

As cantoras citadas no parágrafo anterior nos legaram (legam, ainda!) registros incríveis de inquestionável qualidade vocal. Todas elas, em um ou outro momento, nos arrebatam com suas interpretações e terão, como disse Elis, “a durabilidade do disco”, o que a gente sabe, graças à tecnologia, que essas vozes deverão estar por muito tempo conosco. Elis e Nara têm histórias peculiares em comum (veja aqui), mas neste texto quero enfatizar outros aspectos.

Nara Leão é páreo – se a gente necessitasse disso – para qualquer artista do mundo quando se coloca a representatividade como parâmetro. Milhares de quilômetros distanciam Nara de Leny Eversong, se pensamos em potência vocal. Sem dúvidas, é possível reconhecer e confirmar que o “fio de voz” de Nara foi mais forte que o de Lenny, ou de qualquer outra cantora. A moça rica de Copacabana norteou a Bossa Nova, subiu o morro e nos legou poesia e protesto, assinou junto com o pessoal da Tropicália e mandou às favas os preconceitos em relação a Jovem Guarda. Não é lero-lero. Comprova-se na discografia!

Elis Regina é páreo – e ela não precisa disso – para qualquer cantora do mundo quando se alia técnica e expressão, potência e domínio vocais. Representou como poucas a época em que viveu, mais ainda, sendo um retrato fiel do brasileiro: o ser batalhador que é arrimo de família, que enfrenta forças adversas para ganhar espaço. Nara, rica, fez o que bem quis e, cá para nós, sorte a dela. Elis, brigou feito fera para fazer o que queria, como queria. Briga com gravadoras, empresários, com o governo, com o universo machista onde transitou, brigas que precisavam levar em conta a necessidade de sustentar os seus.

Legal refletir sobre “a (o) maior” principalmente para uma juventude que, penso eu, confunde o ato de cantar com grito. É só assistir o The Voice” para confirmar a gritaria. É complicado abrir espaço profissional e, nesse país do “a maior” e dos “reis e rainhas de quase tudo”, o jovem já chega por baixo. Esquece a suavidade da Bossa Nova, por exemplo. João Gilberto ganhou o mundo colocando a voz em registro suave, como Nara e, na maturidade, Maria Bethânia. Dóris Monteiro é inesquecível e entre as cantoras atuais, Marisa Monte e Maria Rita sabem dosar potência e suavidade, brindando-nos com momentos deliciosos. Subir a voz é força expressiva. Todo cantor deveria aprender isso com Elis Regina, assim como a professora de suavidade – sem esquecer a precisão da expressão – é Nara Leão. As duas – em polos distintos – representam o que há de melhor em nossa música.

A imprensa usou e abusou da rivalidade entre cantoras. Não voltarei ao assunto (Veja aqui), posto que vejo pouca ou nenhuma novidade sobre a questão. A prática continua. Fora dessa necessidade de audiência, podemos refletir e discutir essa questão da adjetivação dos nossos artistas. São grandes, são maiores. Nunca em detrimento aos pares. São imensos em determinado momento, são fundamentais em outros. O que devemos é conhecer, reconhecer e agradecer quando houver o excelente trabalho de cada cantora, de cada artista. Há lugar para todo mundo.

Nos tempos dos registros físicos – discos em compacto, ou long play, fitas cassete, cds – o espaço era problema e, por isso, escolhi vozes femininas para minha coleção de discos. Uma razoável coleção de cds, indo de Aracy de Almeida à Zizi Possi. Ouço Elis tanto quanto ouço Maria Alcina, Evinha, Tetê Espíndola. Dedico horas à Zezé Motta, Beth Carvalho e também ao Quarteto em Cy. Giane e Inezita Barroso, tanto quanto Clementina de Jesus ocupam lugar especial e por aí vai. De A a Z, deixo rolar à vontade e, para lembrar um verso de Joyce Moreno, gosto de “canções que ninguém escuta”. Tenho muita coisa da Elis Regina, da Nara Leão, da Gal Costa. Quase tudo da Maria Bethânia, e quem me conhece sabe o lugar que Wanderléa tem no meu coração. Todas grandes! Todas são “a maior”!

Salve, Elis Regina! Salve, Nara Leão!

Um salve maior para todas as cantoras do Brasil!

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As fotos que ilustram este post estão em capas de disco de Elis (1977) e Nara (1968).

E o dono do bosque nem viu!

(Valdo, Lisa, Marta e Suzana)

– “Bora sentar que tô cansado”, informou o ancião da turma, todos testemunhas do primeiro show de Daniela Mercury na Paulista e do início e ocaso do Orkut. O tronco de madeira, em um delicado bosque da Lapa, aqui em São Paulo, remeteu aos bancos do jardim do convento, onde estudamos. Sim, convento! Ah, não somos religiosos (na acepção da função de quem se filia à uma ordem ou congregação).

O IAP – Instituto de Artes do Planalto, da UNESP, usava antigas dependências de um convento lá no Ipiranga, perto de – onde dizem – D. Pedro gritou. A construção segue padrões antigos, com formato quadrado e um jardim interno que, se falasse, ainda hoje causaria insônia e desgosto às tradicionais famílias. Sentados nesses bancos, foi possível ver dois queridos professores – com mestrado e doutorado – em briga homérica, tapas contidos pela então diretora que, sem pestanejar ordenou:  – Quieta, veados! (hoje ela seria processada?!).

Também desses bancos foi vista outra cena, trágica e hilária. Trabalho de final de ano, um aluno fez uma performance, lembrando antigos happenings, caminhando e dançando seminu pelos corredores da escola, aludindo à antigas manifestações de coros gregos. A tarefa – era uma avaliação de final de ano – deveria ser filmada. O encarregado do registro se esqueceu de colocar fita na máquina e… nada gravado. O aluno correndo pelado tentando bater no encarregado da filmagem foi o melhor evento daquele ano.

Temos dentes!

Tempo, tempo, tempo… (pra cada “tempo” conte 10 anos!) e assim chegamos ao final de 2021. Um encontro tão complicado quanto acertar a economia mundial. A primeira tentativa foi de estarmos todos às 9h00 no tal bosque, lá na Lapa. – Quem acorda cedo? Dá licença.

– Mas, a exposição da Suzanita termina às 13h!

– A gente pode chegar 12h30?

– Poderíamos fazer um piquenique!

– Tenho que sair às 14h.

Após negociações e pequenas sutilezas por faltas anteriores (- Lisa sarou da gripe?) nos encontramos, felizes, serenados, com a confiança e certeza dos grandes afetos. Somos quatro amigos. Estamos juntos há mais de trinta anos. E, para carregar na poesia que é viver uma grande amizade, devo registrar que “vivemos em acordo íntimo, como a mão esquerda e a direita”.

Suzana, a anfitriã do dia: – Queria ter balançado com vocês. A Martinha é muito vaidosa. Amo😍. E o Valdo? Meu amor até a última vista. Lisa, nossa gueixa maravilhosa.  Ficaria ao seu lado o tempo todo.

No evento, uma exposição com os trabalhos recentes de Suzana (vejam aqui). Uma incrível combinação de delicadeza e força. Após usar o balanço, citado acima, fomos conversar, sentadinhos e tranquilos, como sempre. “– Quem ficar na beirada pode ser cortado depois!” Risada geral.

Há pessoas que precisam de iates, castelos. Outras carecem de prataria e cristais nas refeições. Um número considerável precisa de um copo de qualquer coisa alcoolizada, um cigarrinho do capeta para segurar a onda. E é por isso que preciso registrar nosso banquinho, lembrando bancos de outrora. Estando juntos já é o bastante. “– Cara, a gente agora conversa de dores… aqui, ali!”, mais gargalhadas. E somos amigos! E somos felizes. Esse tipo de amizade, de encontro, de convivência que desejo para todos, com meus votos de FELIZ NATAL! ÓTIMO 2022!

Fim da coisa: Lisa, delicada, nos deu confeitos com recheio de goiaba. Feitos por ela. Suzana nos presenteou pequenos vasos, com diferentes tipos de flores, sobre uma base rústica, preparada por Darli, único marido presente no recinto. Marta e eu agradecemos os presentes (- Que falta de gentileza! Rsrsrsrsr). Em uma grande demonstração de força de vontade cheguei na Bela Vista com todos os docinhos intactos.

E vou repetir: simples assim. Um banquinho, quatro amigos, obras de arte feitas por um deles e, certamente, um dos melhores encontros do ano. Desejo mais uma vez o mesmo para todos, durante todo o ano que se avizinha.

Boas festas!

Nota: sutis referências. No título, Chico Buarque, e na citação de Fernando Pessoa, sobre acordos íntimos…

Aos que nos divertem, inspiram e propiciam encantamento

O setor cultural, em 2018, empregava 5 milhões de brasileiros. Parte considerável desse contingente é de trabalho informal. Os dados do IBGE comprovam que em São Paulo, por exemplo, de um milhão de postos de trabalho, 650 mil são informais. É bom lembrar aos desatentos que informal significa não ter horas extras, férias, fundo de garantia, cesta básica, convênio médico… É bom também enfatizar que para o trabalhador informal fica difícil a manutenção de uma reserva financeira, pois entre um trabalho e outro o profissional passa vários períodos sem remuneração. E aí veio a pandemia.

Ficar em casa é o indicado para quem pode. Àqueles que não puderam parar, cuidados redobrados. Serviços essenciais estão mantidos e toda e qualquer aglomeração deve ser evitada. Cinemas, teatro, casas de shows, circos, baladas, bares foram fechados. Nem todos tem a visibilidade que chama milhões de pessoas e de reais. Uma imensa parcela, vulnerável, sem trabalho, enfrenta a situação com lances inovadores ou por pura sobrevivência. Nosso bem-estar emocional carece das diferentes formas artísticas, conforme nossas preferências, para que possamos seguir em frente. A classe artística se vira como pode. Alguns exemplos estão acessíveis via celular, computador.

teresa cristina e lula
Teresa Cristina conversa com Lula

O que seria das noites de milhares de pessoas sem as lives da Teresa Cristina? Todos os dias, sem grandes estardalhaços, ela está lá, cantando e conversando com as pessoas. Sem nenhum instrumento acompanhando, ela canta, interrompe pra dar risada, pegar “cola” de partes das letras das canções. E chama todo mundo pra roda. Retoca o batom, assinala o tamanho da própria testa e ri, divertindo-se com os comentários do público. Vem gente famosa, tipo Daniela Mercury e Bebel Gilberto; mas também vem outras, como uma moça de Manaus cantando Cazuza, ou um Casal de Porto Alegre, expondo as agruras geradas pelo preconceito. Teresa não tem patrocínio. Ela nos diverte começando às 22:00 e seguindo por três, quatro horas adiante.

Sábado passado, enquanto a Rede Globo reprisava um Altas Horas, em que Teresa estava entre os artistas homenageando Zeca Pagodinho, a live da cantora seguia firme, ela rindo por estar em dois espaços simultaneamente. É ótimo não contar e presenciar coisas inesperadas, como Chico César abrindo a porta para que o gato de estimação saísse para passear, ou o Lula, o Luís Inácio Lula da Silva, ao lado da esposa em situação caseira, íntima, conversando sobre uma de suas canções preferidas, Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues. Lula lembrou o fato de Teresa não ter patrocínio.

Isadora Petrin
Momentos de Isadora Petrin em Amores Difíceis

Isadora Petrin faz teatro online. A peça Amores difíceis está na internet, em sessões via Zoom, o site que permite interação visual entre pessoas. O grupo Arte Simples, do qual Isadora é integrante, dividiu a peça em cenas isoladas, pequenos solos que são apresentados pela atriz e, em dias alternados, por outra integrante do grupo, Andrea Serrano. O trabalho, dirigido por Tatiana Rehder, é uma ótima experiência nesses tempos de quarentena. Uma alternativa para quem está sem possibilidade de trabalho por conta da pandemia. Para quem quiser ver, e participar, é bem divertido. As atrizes conversam com a plateia e, um exemplo de interação que guardarei com carinho: em dado momento, Isadora solicita participação, contracenando com um voluntário. E assim, aos 64 anos, fiz publicamente uma cena como o Romeu, para a graciosa Julieta interpretada pela atriz. Sem patrocínio, o grupo solicita colaboração via “chapéu virtual”.

O material de trabalho de determinados artistas são os próprios artistas, o corpo e a voz. O canto de Teresa e as cenas de Isadora são exemplos. Elas não estão recebendo salário e ainda nos propiciam diversão e entretenimento. Haveria muito mais gente trabalhando, em tempos normais, ao lado dessas profissionais. Músicos, instrumentistas, técnicos de som, iluminadores, montadores, cenógrafos, figurinistas; enfim, toda a gama de profissionais que compõem um show ou uma peça de teatro. Como essas pessoas estão sobrevivendo?

Em termos mercadológicos não basta pensar só nas grandes capitais, com suas casas de show, seus teatros imensos, e atualmente vazios. Há que se colocar na pauta inúmeros espaços culturais, parque e circos, ou os tão populares bares, espalhados pelo país que, fechados, não possibilitam trabalho para quem canta ao vivo enquanto os fregueses degustam salgadinhos e tomam cerveja. Nem todos dispõem dos mecanismos virtuais para, no mínimo, continuarem na lembrança do público como Tereza Cristina e Isadora Petrin. Pouquíssimos tem a visibilidade necessária para garantir horários na TV e patrocínio, expandindo ações pela rede virtual.

Aqueles que nos divertem, nos inspiram, que nos propiciam momentos de puro encantamento, precisam de nós. Artistas, produtores, técnicos e auxiliares da área de cultura e entretenimento carecem da atenção dos nossos dirigentes. Outro tanto de prestadores de serviço para esses profissionais (costureiros, maquiadores, motoristas, faxineiros, bilheteiros, garçons, marceneiros, eletricistas, seguranças…) aguardam ansiosos por ações oficiais que garantam a sobrevivência do setor.

Em São Paulo um projeto de lei, a PL 253, visa auxiliar trabalhadores da cultura e espaços culturais de pequeno porte. Foi criada uma Frente Parlamentar em Defesa da Cultura, suprapartidária, que protocolou pedido de auxílio imediato para os profissionais impedidos de trabalhar por conta da situação vigente (para assinar a petição, clique aqui). Outra iniciativa, a Associação de Produtores Teatrais Independentes (conheça as ações da APTI clicando aqui) lançou campanha de apoio a técnicos e artistas em situação de vulnerabilidade. Segundo a associação, há em São Paulo 25.000 profissionais em situação crítica. Há outras iniciativas, em outras cidades e estados. Vamos ficar atentos.

Como vai, como vai, como vai, vai, vai? (Alguém se lembra do Arrelia?) Eu… Estamos indo; às vezes bem, outras nem tanto. Hoje fui acordado pelo interfone. A vizinha, querendo saber como estou, colocou o filho adolescente à disposição caso eu precise de algo lá de fora. Há solidariedade em São Paulo. Então, meu querido Arrelia, onde você estiver, saiba que eu vou bem, muito bem, bem, bem. E apelo para o seu nome, para que todos se lembrem que palhaços, cantores, atores, bailarinos, iluminadores, enfim, toda essa gente que nos dá alegria, prazer, diversão e entretenimento, agora carece de nós. E se você, que me honra com sua leitura, puder ajudar, deixo aqui meu sincero agradecimento.

Até mais.

Atenção:

VEJA AS LIVES DE TERESA CRISTINA CLICANDO AQUI . INFORMAÇÕES SOBRE A PEÇA AMORES DIFÍCEIS CLICANDO AQUI

 

 

E a banda passa!

chico e nara e jair
Jair Rodrigues, Nara Leão e Chico Buarque, em 1965

Nunca pensei em ver “A Banda” passar. Aquela mesma, “A Banda”, do Chico Buarque que prefiro na voz de Nara Leão e que, invadindo a infância, permaneceu no cantinho de meus grandes afetos. Há como não gostar de “A Banda”? E se de repente… E não é que a banda passou de novo! A história veio bonita e meio torta, bem torta mesmo; mas, quem tá preocupado com linha reta?

Eu não “estava à toa na vida” e sim, tomando banho. Aos poucos a música, de longe, foi se aproximando, se aproximando. Logo recordei ser o primeiro sábado após o carnaval, quando sai aqui pelas ruas do bairro um simpático bloco conhecido como “Enterro dos Ossos”, fechando as festas de Momo na Bela Vista. Meu amor, não me chamou! Mas me avisou que a banda subia a nossa rua vinda lá dos lados da Rua Martiniano de Carvalho em direção à Brigadeiro Luis Antonio.

“Despedi-me da dor” e ainda molhado, enrolado em toalha de banho, fui pra janela ver a banda passar. Estávamos todos lá: o “homem sério” abandonou o caixa e saiu para a rua e, nesta, “o faroleiro” empunhava copo de cerveja como troféu. Várias namoradas, de todas as formas, de todas as idades estavam acompanhando a banda ou paradas, no passeio, “para ver, ouvir e dar passagem”.

O bloco “Enterro dos Ossos” é cheio das manhas. Tem lá sua porta-estandarte, seu abre-alas – uma charanga toda colorida e enfeitada – e músicos que formam uma suave e deliciosa banda. Esta enche nossas ruas de velhas canções de outros carnavais. Pura nostalgia! Grandes marchinhas, marotas e sempre, sempre “cantando coisas de amor”.

Eu não estava pensando em Chico Buarque! Nem em Nara, nem na música que venceu o Festival de Música Popular Brasileira de 1965, empatando com “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, cantada por Jair Rodrigues. Nem mesmo pensava em fim de carnaval. Era apenas sábado e no domingo, dia 5, Daniela Mercury tomaria a cidade com seu Trio Elétrico e aí sim, eu iria fazer o meu “enterro dos ossos”. Foi então que…

Filmei a passagem do bloco pela minha rua para mostrar via redes sociais aos amigos e familiares. Quis registrar o contraste do “meu” quarteirão vazio e, a partir da esquina, a rua tomada pelo bloco. Lamento não ter o registro ideal, mas, caro leitor, observe no vídeo abaixo que há um pequeno edifício à esquerda em frente do qual o bloco está parado. E parou porque no segundo andar, no terraço, uma simpática velhinha dançava e acenava aos foliões. Como não lembrar que “O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou”?

Hoje é domingo; no outro, com Daniela Mercury, dancei pouco e tomei um banho de chuva de mais de duas horas. Esta noite está silenciosa e as ruas do Bexiga estão sossegadas. Essas mesmas ruas cheias de momentos como aquele em que, vendo a senhorinha dançando no terraço, dei-me conta e exclamei: “- Foi isso que o Chico Buarque viu!” e transformou em canção, e povoou o coração de milhares de brasileiros com lembranças de bandas que cantam coisas de amor.

Tempos bicudos. Tais como aqueles que vieram após o golpe militar. Recordo que, na época, havia murmúrios que condenavam a nostalgia de Chico por “fugir” da realidade com uma “velha” marchinha. Cinquenta anos depois, vendo “O Enterro dos Ossos” e a Bela Vista em festa veio-me a certeza de que é este o Brasil que é nosso; alegre, leve, suave, o país que “tomou seu lugar depois que a banda passou”.

A banda ou o bando que tomou o país em 1964 passou; outro bando que está por aí, impedindo o país de cantar, também terá seu fim. Paramos para brincar carnaval, mas já voltamos. Estamos aqui, atentos, prontos para continuar. E lutaremos por um país melhor porque também amamos bandas, blocos, carnaval, e belas senhorinhas cantando nos terraços.

Até mais!

Boa música para começar o carnaval

Dalva de Oliveira e Marlene.
Dalva de Oliveira e Marlene.

“Hoje, eu não quero sofrer

Hoje eu não quero chorar

Deixei a tristeza lá fora

Mandei a saudade esperar…”

Penso em carnaval e recordo os versos de “O primeiro Clarim” , criação de Klécius Caldas e Rutinaldo Silva que tive o privilégio de ver Dircinha Batista cantar.  Dircinha foi uma cantora extraordinária, talentosa tanto quanto sua irmã, Linda Batista.

“… Hoje eu não quero sofrer

Quem quiser que sofra em meu lugar…”

Algumas músicas de carnaval tem esse poder de alimentar sonhos e, incrível, fazer com que grandes tristezas sejam transformadas em belíssimos versos. E é possível sair pelos salões, quando há salões, cantando e dançando uma triste sensação de rejeição, como esse Malmequer, composição de Newton Teixeira e Cristóvão de Alencar:

Eu perguntei a um malmequer

Se meu bem ainda me quer

E ele então me respondeu que não

Chorei, mas depois eu me lembrei

Que a flor também é uma mulher/

Que nunca teve coração…

Não é porque é carnaval que a gente perde o senso crítico. Algumas gravações para o carnaval de 2014 são no mínimo lamentáveis. Sabem-se lá quantas são as tramas dos negócios que permeiam “músicas para consumo”; todavia, na falta de algo que seja efetivamente bom, não seria legal regravar uma bela canção e fazê-la voltar na boca do povo?  João de Barro e Noel Rosa e tantos outros  merecem suas canções gravadas nas vozes de Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Claudia Leitte. Mais que músicas e atitudes autopromocionais, esperamos grandes canções dessas profissionais. E a propagar versos precários e medíocres, porque não cantar, por exemplo, Estrela-do-Mar, de Marino Pinto e Paulo Soledade? De quebra ainda homenageariam a grande Dalva de Oliveira:

Um pequenino grão de areia

Que era um pobre sonhador

Olhando o céu viu uma estrela

E imaginou coisas de amor ô-ô-ô/

Passaram anos, muitos anos

Ela no céu, ele no mar

Dizem que nunca o pobrezinho

Pode com ela encontrar.

Talvez nossos cantores de agora não cantem esse tipo de música pela impossibilidade de enfiar um “tira o pé do chão” no meio da letra. Ou então, imaginem só Elizeth Cardoso dizendo um “Levanta o braço ai!” entre os versos de “As Pastorinhas”!

A estrela d’alva

No céu desponta

E a lua anda tonta

Com tamanho esplendor

E as pastorinhas

Pra consolo da lua

Vão cantando na rua

Lindos versos de amor

João de Barro e Noel Rosa sempre tiraram o pé do chão. As canções de carnaval ou são marchinhas, ou marcha-ranchos… E são tão geniais que não carecem de um “Quem gostou faça barulho”, porque é impossível ficar calado quando a música é boa. Lá pelas tantas, o coro é geral e fortíssimo em versos como esses:

Linda criança

Tu não me sais da lembrança

Meu coração não se cansa

De sempre e sempre te amar.

Emilinha Borba, Elizeth Cardoso e, abaixo,as irmãs Dircinha e Linda Batista
Emilinha Borba, Elizeth Cardoso e, abaixo,as irmãs Dircinha e Linda Batista

Tenho certeza de que as primeiras músicas de carnaval que me fizeram a cabeça foram cantadas por Marlene e Emilinha Borba. Esta última era extremamente popular com sua Chiquita Bacana e, na minha infância eu gostava da ideia de um “tomara que chova três dias sem parar”. Aliás, bem propícia para esse ano, quando estamos na eminência cantar com muita verdade que  “a minha grande mágoa é lá em casa não ter água e eu preciso me lavar…”. Já Marlene, era a melhor. A mais bonita e a grande intérprete com seu “Apito no samba, “Lata d’água” e tantos outros. Mas, há sempre um mas… A primeira paixão musical de carnaval veio com Dalva de Oliveira, uma das maiores cantoras deste país. Depois de “Máscara Negra  (Zé Kéti/Hildebrando Matos), o carnaval, marchinhas e marchas-rancho entraram definitivamente na minha vida. Há quem resista a esses versos?

Tanto riso

Oh, quanta alegria

Mais de mil palhaços no salão

Arlequim está chorando pelo amor da Colombina

No meio da multidão…

Se estiver difícil ouvir “bagunceiras” e outras bobagens, tente isso: Ao clicar nos títulos das canções abrirá um link para ouvir a música no Youtube. Há alguns vídeos com cenas interessantes. Divirtam-se!

E bom final de semana!

Até!

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Noite de Creedence, tico-tico e frio!

creedence

Tudo tinha começado perfeito após ampla e meticulosa preparação pra uma noite quente composta pelo tripé “Drogas, sexo e rock and roll”. No quesito drogas a opção recaiu sobre cigarros e vodca. No item rock and roll, algo mais suave, para noites de frio, tipo Creedence Clearwater Revival; para o sexo Vanilda, a tatuada, havia encontrado o parceiro certo: um italiano legítimo do Brás paulistano, barba cerrada, olhos verdes e cheio de amor para dividir. Vanilda cantarolou por todo o dia:

Hey, tonight

Gonna be tonight

Don’t you know i’m flyin

Tonight, tonight…

Vanilda já esteve mais presente neste blog.  Muito trabalho, um pouco de solidão voluntária ( -Só tem homem porcaria dando sopa, Vavá! Os interessantes têm dona ou dono…). Enfrentando o inverno rigoroso deste ano, a moça resolveu sair da toca, embora com critérios: “- Sexo, Vavá, só com qualidade!” De preferência, completei por ela, com um parceiro jovem e tarado. Virando os olhos e simulando desdém, minha amiga limitou-se a responder: “- Óbvio!”.

Claro que tratando-se de Vanilda, hibernar significa doses generosas de vodca, palavrões direcionados ao clima e discos nacionais com boa música. O que me causou espanto foi a escolha do já quase distante CREEDENCE, com sua música do final dos anos sessenta, início dos 70. Informando ter conhecido o italiano em um site de relacionamento, em sala de bate-papo sobre o festival de Woodstock, optou por um clima musical pertinente. Antes de ouvir minha censura pela paquera virtual, Vanilda tratou de dar a ficha do moço: amigo do amigo, primo do amigo, vizinho do amigo… Portanto, gente conhecida e quase de confiança.

Santo Deus! Essas redes virtuais que elevam fotos e nomes à categoria de amigos! O fato é que Vanilda e o amigo de um monte de amigos marcaram um encontro real, ocorrido recentemente, em uma rara noite sem passeada. Preparando-se, Vanilda enfrentou uma funilaria completa: fez pé, mão, esfoliação, hidratação, depilação, massagem e, lindamente renovada, foi ao supermercado. Comprou vodca, uísque, mais vodca, um guaraná, outra vodca – agora uma russa autêntica – e, vai que a noite pedisse algumas cervejas… Comprou uma dúzia. Com certa censura perguntei: – E a comida, mulher? Ela, sorrindo, lembrou novamente a banda americana. “- Vavá! Comida… Basta um feitiço, meu querido…”

I put a spell on you

Because you’re mine.

You better stop

The things that you’redoing…

Vanilda, eu soube depois, continuando a preparação da grande noite, cuidou do ambiente com orquídeas de diferentes cores e tipos, rodeadas de espadas de São Jorge… “- É isso aí, Vavá! Pra ilustrar preferências e, ao mesmo tempo, contar com a ajuda do Santo”. Deixou velas à mão, caso o moço fosse tímido, pois ela adora fazer tudo às claras. “- Não gosto de perder detalhes, você sabe!” e vestiu-se com um vestido leve, sem botão, zíper ou qualquer outro empecilho que a impedisse de livrar-se rapidamente do mesmo.

creedence1

Pontual, o rapaz chegou armado com uma caixa de bombons para, como ele fez questão de frisar, “o depois”, com uma piscadinha de cafajeste. Vanilda fingiu não ver a piscada obscena e, grata pela ausência da ansiedade da espera, roçou suas cinco tatuagens pelo corpo do rapaz (Para quem não sabe, as tatuagens de Vanilda estão na nuca, tronco e membros…). Ciente de sua capacidade em enfeitiçar, cantarolou um trecho de “The Night Time is The Right Time”, enquanto puxou o moçoilo para o sofá, para um primeiro round:

You know the night time, oh, is the right time

To be with the one you love

I said the night time, oh, is the right time

To be with the one you love…

Em seguida, enquanto Vanilda preparava nova dose de vodca, com gelo e laranja, o italiano do Brás, mexendo em alguns discos sobre a mesa de centro, encontrou um single de DANIELA MERCURY. Entusiasmado, pediu para ouvir a faixa e Vanilda, contrariada, pois estava no clima CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL, resolveu consentir. Antes que a baiana rodasse a saia e soltasse a voz, o rapaz cochichou para Vanilda: “- Feche os olhos!”. Vanilda obedeceu e a música rodou:

Tico-tico-rei

Um tico-tico tá

Ta outra vez aqui

O tico-tico ta comendo o meu fubá

O tico-tico tem, tem que se alimentar

Que vá comer umas minhocas no pomar…

As mãos do rapaz percorreram o corpo de Vanilda com a mesma rapidez da música. Ritmo de toques certeiros em pontos-chave, enlouquecendo a tatuada que não conseguia fugir – também não queria – e via-se a beira de um orgasmo monumental, sem que o rapaz lhe desse a menor chance de respirar. De repente, não eram apenas as mãos do moço a tocar o corpo de Vanilda…

Oh! Por favor, tire esse bicho do seleiro

Porque ele acaba comendo o fubá inteiro

Tira esse tico de cá, de cima do meu fubá

Tem coisa que ele pode pinicar…

Em meio ao supremo entusiasmo a temperatura explodiu no apartamento de Vanilda. As doses de vodca, “o pássaro fora do seleiro”, tudo enlouquecendo a tatuada que, pretendendo estender a euforia, soltou-se dos braços do rapaz iniciando um pega-pega entre orquídeas e espadas de São Jorge. Afoita para fugir do moço, já nua, aguardando ansiosamente ser alcançada, Vanilda resolveu dividir seu prazer com a noite e,abrindo tempestuosamente a porta para o terraço, no nono andar, expôs o corpo para a lua ausente de uma noite gelada. A corrente de ar bateu forte. Vanilda travou!

O choque térmico provocou um tremendo “revertério”. Qualquer coisa tipo nervo ciático, entrou em colapso total, travando Vanilda nua; os gemidos de prazer substituídos por outros, dolorosos. O italiano – daqui para frente denominado “escroto” – caiu na gargalhada e Vanilda mandou-lhe vasos de orquídea em meio a palavrões, palavrões, palavrões…

Após expulsar o princípio de amante e arrastando-se até o telefone, Vanilda chamou-me, para levá-la ao pronto-socorro. Foi complicado enfiá-la, tortinha da silva, dentro do meu limitado Celta. Pior foi aguentar seu humor estragado, e os muitos palavrões, só porque liguei o rádio e estavam tocando Creedence:

Someone told me long ago

There’s a calm before the storm

I know, it’s been comin’for some time…

… I want now, have you ever seen the rain?

Levei minha amiga de volta ao apartamento quando a noite já ia adiantada, chuvosa e fria. Já disposta, Vanilda resolveu limpar o apartamento da lembrança da noite frustrada. Suspirando e caindo na gargalhada, ela ofereceu-me bombons, presente do italiano, enquanto agitava uma espada de São Jorge pelo ar…

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Até!

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Notas musicais:

Hey,Tonight – John Fogerty

Iput a spell on you – Screamin’ Jay Hawkins

TheNight Time is The Right Time – Roosevelt Sykes

Tico-tico no Fubá –Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros

Haveyou ever seen the rain? – John Fogerty

(valdoresende)

Virada Cultural, o congestionamento de shows

Capa do disco que Wanderléa reproduzirá no Palco do Municipal
Capa do disco que Wanderléa reproduzirá no Palco do Municipal

Revitalizar o centro velho de São Paulo é tarefa para gigantes. Hoje, no começo da tarde, passando pela Avenida Senador Queiroz tive a impressão de que a região estava sendo tomada pela triste turba dos viciados em crack. Ocorre que recentemente presenciei outros grupos similares na Praça Clóvis, bem ao lado da Praça da Sé, e também nas imediações da Praça Júlio Prestes, onde ficará o palco principal da Virada Cultural.

Durante 24 horas ocorrerão mais de mil shows na Virada Cultural 2013. Mil! Nos demais 364 dias do ano tudo fica como sempre e a maioria das pessoas fogem da região. Obviamente que não seria viável ter shows todos os dias; mas se os shows ocorressem semanalmente, seriam mais de cinqüenta; mensalmente, seriam mais de 80 shows. Todavia, haveria real interesse em revitalizar a região? Poderiam, por exemplo, melhorar a limpeza das ruas durante todo o ano; para aqueles que, como eu, passam diariamente por lá, já seria uma ação admirável.

A Virada Cultural, nos atuais moldes, faz um grande alarde. A ideia veio de Paris e, lógico, como continuamos colonizados, não há o que discutir. Os franceses sabem tudo…  Assim, temos um evento que é quantitativamente impressionante. Mais de mil shows em dezenas de palcos espalhados por vários pontos do centro velho. Para dar uma ideia aos que não moram em Sampa optei por montar uma listinha do que eu gostaria de ver:

No Palco da Praça Júlio Prestes:

18h (sábado) – Daniela Mercury e Zimbo Trio
21h (sábado) – Gal Costa
6h (domingo) – Elza Soares e Gaby Amarantos

No Palco do Theatro Municipal, onde os shows reproduzirão discos completos:

21h (sábado) – Fagner: “Manera Fru-Fru Manera” (1973)
3h (domingo) – Ângela Rô Rô: “Ângela Rô Rô” (1979)
6h (domingo) – Walter Franco: “Revólver” (1975)
9h (domingo) – Wanderléa: “Wanderléa… Maravilhosa” (1972)
12h (domingo) – Jorge Mautner: “Jorge Mautner” (1974)
15h (domingo) – Eumir Deodato: “Deodato 2” (1973)

No Palco do Largo do Arouche:

17h (domingo) – Fafá de Belém

Observando a pequena relação só tenho de optar entre Gal Costa e Fagner. No mais seria necessário apenas ter saúde para uma maratona de vinte e quatro horas de shows. E antes que alguém me chame de velho devo afirmar que a Virada Cultural é ótima para quem consome quantidade. Acontece que gosto de música; prefiro ouvir e não gosto de cantar enquanto meus artistas queridos estão cantando. Adoro ouvi-los e a possibilidade de dormir, por exemplo, durante o show de Jorge Mautner é, no mínimo, constrangedora.

Há tantos outros que gostaria de ver! Ano passado passei por vários lugares. Sempre lamentando, como agora, o que não teria condições de ver e me perguntando, como hoje, porque não podemos ter 50 shows por semana. Com cinco dezenas de shows semanais haveria a possibilidade de um mesmo tanto de estilos, de formas expressivas. A Virada Cultural repete, infelizmente, o que nos faz sofrer durante todo o tempo: é só mais um dia de congestionamento em São Paulo. Um imenso congestionamento de shows.

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Boa diversão e bom final de semana para todos!

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