O mundo que vem por aí

Um imenso e inusitado barulho, nesse final de semana, levou-me a pensar no fim do mundo. O som intenso, desagradável e inesperado fez-me, por segundos, acreditar que o fim seria assim, chegando como surpresa; visita inesperada e inevitável, já que a mesma sabe que estamos em casa. Fiquei bem quietinho, sem verbalizar meu receio e comecei a sonhar com um novo planeta, um mundo idealizado em meus sonhos.

Teatro de Marionetes da República Tcheca. Foto: Valdo Resende
Teatro de Marionetes da República Tcheca. Foto: Valdo Resende

Creio que eu manteria nesse novo mundo, os velhos castelos, monarcas de reinos distantes, reis e rainhas do maracatu e do congado. Soberanos justos, leais, honestos, que assumiriam o reino como extensão da própria família; que chamariam súditos de filhos e que seriam capazes de dar a própria vida pelos seus.

Marionetes de Praga Foto Valdo Resende

Sendo impensável um mundo sem música, eu impediria o fim de todos os bons instrumentistas. Junto com eles os compositores, os cantores para todos os tipos de gente, cantando em todos os ritmos, preservando as boas canções de todos os tempos. Músicos que fariam de seu trabalho a trilha sonora das gentes; que permaneceriam em todas as situações, colocando música em cada momento.

A exposição foi denominada "Gepetos de Praga", referência ao criador de Pinóquio.
A exposição foi denominada “Gepetos de Praga”, referência ao personagem criador de Pinóquio.

Nesse velho novo mundo, o dever deveria equilibrar-se com o lazer. O fruto do trabalho renderia uma vida agradável para patrões e empregados que, nesses tempos, assumiriam a condição de parceiros. Seria fundamental que na mudança, para que valha a pena mudar, os indivíduos entendessem que vivemos em uma cadeia onde somos absolutamente necessários uns aos outros.

Gepetos de Praga

No meu rápido esboço de mundo pensei nas idéias e pessoas divergentes que poderiam surgir. Alguns poderiam ansiar pelo poder, pela posse e inevitáveis lutas viriam. Portanto, do mundo que já temos, seria fundamental levar os heróis, os bravos, os sonhadores; todos prontos garantindo a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Que coisa boa, antiga…

foto valdo resende

Sábado, o mundo que esbocei na noite de insônia, apareceu materializado em marionetes vindas da República Tcheca, expostas no Centro Cultural da Caixa, logo ali, na Praça da Sé. Estava ali a mistura de sonho e realidade aprendida nos livros, em romances, em filmes e, sobretudo, no teatro. Conversei rapidamente com as monitoras que, preparando uma oficina, contaram-me do teatro que se faz em Praga.

Teatro de fantoches

Recordei, então, a época em que fiz teatro com fantoches e, diante dos expressivos bonecos tchecos, contei para a menina minha lembrança de Palomares, a impressionante e inesquecível montagem de Ana Maria Amaral. Os bonecos não são apenas personagens de aventuras, contos de fadas, comédias. Em Palomares, Ana Maria Amaral mostrou todas as possibilidades dramáticas de uma montagem com bonecos através da narrativa do incidente nuclear no vilarejo espanhol.

Ali, observando e brincando, nem comentei com o amigo, autor de algumas das fotos que estão aqui, sobre meus devaneios de fim de mundo. Todavia, enquanto tentava manipular o boneco fiquei pensando no que eu faria caso me fosse dado o poder para recomeçar…

Valdo Resende

Muito difícil manipular um boneco! Como pensar um novo mundo deixando para trás a tragédia grega, a comédia dell’arte, o teatro de Shakespeare, de Molière e, entre todos os outros, o Teatro de Marionetes de Praga? Decididamente, pouco tenho a acrescentar para uma nova vida, para um mundo que vem por aí. Talvez seja melhor pensar menos em fim de mundo e trabalhar mais, melhorando esse que temos. Afinal a insônia passou, a exposição acabou e o mundo tai, bonitinho tanto quanto é possível em uma segunda-feira.

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Boa semana!

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Antes do final do mundo

valdoresende.wordpress.com

Começar o ano falando em final do mundo… Tudo por conta de D. Jovelina, a simpática senhorinha do quarto andar. É a segunda vez que ela toca a campainha do meu apartamento. Como a vizinhança sabe que “trabalho com internet”, e que a “internet sabe tudo”, D. Jovelina queria saber quando seria o fim do mundo. “- Entra lá, querido! Veja a data, por favor!” D. Jovelina deixou a jovem lá pelos anos 70, ficou só a Jovelina… Esconde a idade e antes dizia sempre ter 55 anos. Um dia, no elevador, informei a ela que estava mais nova que eu. Semanas depois ela contou sua idade ao porteiro, em voz bem alterada; acho que queria que eu ouvisse. Aumentou para 58.

“- Para que saber o dia do fim do mundo, D. Jovelina?” A resposta foi rápida e óbvia:

– Quero fazer um monte de coisa antes de morrer!

– E se a senhora morrer antes do final do mundo?

– Que brincadeira sem graça, querido!

Resolvi continuar com a brincadeira “sem graça”:

– Uai, D. Jovelina, o negócio é para depois de amanhã!

– Valha-me, Deus! Só vou ter tempo mesmo é de ir para Aparecida do Norte. Tem certeza, querido? Meu coração está disparado, preciso de um copo com água. Você tem remédio para pressão? De repente, D. Jovelina aproximou-se dos 80, ou de algo que pareça com sua idade real. Uma velhinha com medo de morrer.

A primeira vez que D. Jovelina apertou a campainha queria saber de remédio para pressão. Percebi a idiotice da minha brincadeira, correndo o risco de ter uma defunta em casa por conta do final do mundo. Resolvi livrar minha barra da mentira boba.

– Espera, D. Jovelina, estou em site errado. Aqui estão falando de outra coisa, a data correta é 21.12.2012. Ainda tem muito tempo!

– O que diz ai, meu querido? Esqueci o óculos; você pode ler?

Pela primeira vez resolvi ler sobre o assunto. Nossa! Cada coisa! Tempestades cósmicas, asteroides e planetas, ETs, inversão dos pólos e uma infinidade de possibilidades que estariam na Bíblia, passam pelos Maias e vem até Chico Xavier.

Enquanto lia, D. Jovelina ia listando ações para antes do final do mundo: mandar rezar uma missa para a sogra, defunta antiga; ir em uma praia de nudismo; fazer uma grande comilança com todas as massas italianas; transar com o vigia do padaria da esquina, vender jóias e objetos de arte para levantar fundos – Para que, D. Jovelina?

– Nada pior que defunto pobre, querido! Tem que ter capital!

– Mas se o mundo acabar, quem vai usar essa grana?

– Alguém, ‘Seu Valdo”, sempre sobra alguém.

– E se esse alguém for a senhora?

– Veja aí a importância de garantir o dinheiro, querido!

Pensei em ponderar a realidade de tudo isso com a vizinha. Fazer o que? Ela acredita que os EUA mandaram fazer grandes caixões, que cabem quatro defuntos, para economizar espaço! De qualquer forma, para tranquilizar a consciência, insisti, lembrando uma antiga aula de teologia e tentando dar início a novo rumo na conversa: “- D. Jovelina, o mundo acaba quando cada ser humano morre.” Ela me olhou como se eu estivesse falando javanês. E fez um último pedido: “- Querido, não quero morrer sozinha; na véspera do dia 21, posso dormir na sua casa?”  Como um raio, caiu a ficha de um item da lista sendo dita: “na véspera, dormir de conchinha”. Minha paciência, normalmente curta, chegou ao limite: -“D. Jovelina, deixa de ser sacana e vá procurar sua turma!”

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A velhota saiu com uma cara amuada. E eu fiquei pensando em adiantar o final do mundo, antes de ter que “dormir de conchinha” com D. Jovelina. Ninguém merece!

Ninguém merece mesmo!!!

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