Fragmentos: o vai e vem da memória

Detalhe da exposição no Barroco Arte Café

O que nos vem à mente quando recordamos algum fato, alguma pessoa? Certamente não é o todo. Há imagens “padrão” que identificam e nos levam para o Egito (Pirâmides) ou Salvador (Elevador Lacerda), ou qualquer outro lugar do planeta. Diante da lembrança de um ser humano, afirmam por aí, o mais difícil é recordar a voz. Parece que a voz é a primeira coisa que esquecemos das pessoas que se vão.

Uma cidade inteira, como São Paulo, possui infinitos pontos para se memorizar e, parece, conforme a época um ou outro assume preponderância. Quando cheguei por aqui o Viaduto do Chá mantinha sua importância, mas eu me orientava e dominava a cidade pelo “alto”. Se o Pico do Jaraguá me avisava que estava chegando, as torres da Paulista, o Edifício Itália e a torre do Banespa orientava meu ir e vir, descobrindo a metrópole.

Desejei, desde a primeira ideia, ilustrar meu livro com fotos de Uberaba. E, sem dúvida, me incomodava a “paisagem” enquanto composição tradicional que, apesar de reavivar a memória carregava em si um distanciamento, uma falta de foco. Busquei sanar minhas inquietações com visões bem particulares da cidade, com ângulos precisos, que deveriam revelar, estimular e, sobretudo, reativar a memória. E usei, sem medo de ser feliz, de imagens antigas, obtidas em momentos únicos, precisos, sem me preocupar com “altas definições”.

Um conjunto significativo das imagens publicadas no livro está exposto no Barroco Arte Café. São 20. Aquelas que, representativas, atingiriam o leitor de toda e qualquer idade.

Quando terminamos o livro, aí já entrando o trabalho de edição e diagramação de Flávio Monteiro, as discussões e debates orientando nossas decisões e algumas premissas foram adotadas.

Temos um único grupo de crianças, de muito longe no tempo, e apenas um cidadão atual parcialmente mostrado nas fotos. No mais, a cidade é quase deserta, devendo ser preenchida por quem a vê, pelas recordações e vivências do leitor. O preto e branco leva a que o receptor veja no tom que queira, com quietude esmaecida pelos anos ou com as cores da festa, do momento vivido.

Algumas “sutilezas” estão evidentes. O descaso para com prédios históricos, o desmatamento desnecessário, um arame farpado aqui, uma grade ali e, por aí vai. É o receptor que, disposto ou não, passará por cada detalhe detendo-se ou não diante do detalhe da imagem.

A exposição “Fragmentos: O vai e vem da memória” ficará no Barroco Arte Café até o dia 22 de dezembro. Os livros também podem ser adquiridos no local. Quem não pode ir até a cidade mineira pode ter uma ideia da exposição no velho casarão ocupado pelo espaço cultural. Para aquisição de livros e quadros (Sim, estão à venda) converse com o pessoal do local. São simpáticos e atenciosos.

Até mais!

Quase todos e + memórias

Um registro visual da maioria dos presentes nos eventos de lançamento de “O vai e vem da memória”. Até onde me recordo estão quase todos. Lamentavelmente faltam, além de alguns amigos, o pessoal do Barroco Arte Café, em Uberaba, e o pessoal do Portella Bar, aqui em São Paulo.

Foi uma novidade, na minha carreira e na de alguns amigos, fazer lançamento de livro em locais que não livraria. Deu tudo certo e foi muito bom. Em Uberaba desfrutamos do conforto de um antigo casarão com pé-direito alto e janelas, muitas janelas. Aqui em São Paulo ficamos prioritariamente no passeio, o que facilitou o distanciamento nesses tempos tão difíceis.

Agradeço profundamente aos colaboradores de última hora – Agostinho Ermes, Adryana Gabriela e Andréia Rezende, em Uberaba; e Neusa de Souza, aqui em Sampa -, e também aos parceiros neste trabalho: Sonia Kavantan, João Eurípedes Sabino, Simone Gonzalez, Fernando Brengel e um, especialíssimo, ao meu companheiro Flávio Monteiro.

O lançamento, em Uberaba, só foi possível com o apoio de Walcenis, minha irmã, e Carmen Veludo, fundamentais para que a logística pensada se tornasse realidade. Na terrinha, tivemos o apoio de Kiko Pessoa, do Barroco Arte Café, e aqui em São Paulo, Sérgio “Bahia”, no Portella, ambos nos acolhendo e facilitando-nos as ações pensadas.

A0s meus familiares, amigos, colegas, ex-alunos, conhecidos, meu muitíssimo obrigado. Um monte de coisas para mais memórias!

Agora é seguir em frente. A exposição, em Uberaba, permanece até dia 22. Os livros já estão disponíveis para venda neste blog e, em breve, anunciaremos os eventos previstos para prosseguimento deste trabalho.

Muito obrigado!

Valdo Resende / Dezembro de 2021

O vai e vem da memória – São Paulo!

Hoje, 4 de dezembro de 2021, lançaremos em São Paulo o meu novo livro, O vai e vem da memória. O evento começará às 15h00 no Portella Bar, na Rua Professor Sebastião Soares de Faria, 61, aqui na Bela Vista.

Comigo, Valdo Resende, estarão o diagramador Flávio Monteiro, a revisora Simone Gonzalez e, mais tarde, teremos a presença de Fernando Brengel, meu parceiro na divulgação do livro. Também teremos Sonia Kavantan, que me honrou com um belo texto de apresentação e, infelizmente, sentirei falta de João Eurípedes Sabino, autor do prefácio, que mora em Uberaba, onde o evento de lançamento do livro ocorreu em 27 de novembro passado.

Esta pequena equipe, somada aos funcionários do Portella Bar, irá receber os amigos e interessados nesse trabalho. Aguardamos todos vocês!

O livro

Entrelaçando fatos que se complementam, “O vai e vem da memória” reúne crônicas, contos e poesias contando a história de uma cidade – Uberaba, MG – sob a perspectiva de alguém que nasceu em um bairro, o Boa Vista e mora longe, na Bela Vista, em São Paulo. Vivendo como tantos brasileiros, viaja no tempo, reconstrói espaços e cria um mosaico em um vai e vem aonde cada texto vale por si, referenciando retirantes e migrantes.

Serviço:

O vai e vem da memória – Valdo Resende

Elipse, Arte e Afins Ltda – 312 páginas – R$ 65,00

De volta à rua onde nasci

Guardem essa data: 27 de novembro. Neste dia lançarei meu novo livro, “O vai e vem da memória”, em Uberaba, MG. O evento será a partir das 16h00, no Barroco Arte Café, que fica na Rua João Pinheiro, 213. Nasci nesta mesma rua, há muitos anos, no século passado… Estou feliz com essa oportunidade. Se o tal “nada acontece por acaso” estiver valendo, será um dia inesquecível. Vejam, a seguir mais informações:

“O vai e vem da memória” transita entre Uberaba e São Paulo

Novo livro de Valdo Resende, publicado pela editora Elipse, Arte e Afins, “O vai e vem da memória” (ISBN 978-65-00-00287-4) será lançado em 27 de novembro de 2021, em Uberaba, MG. O autor nasceu na cidade mineira cujo bicentenário foi comemorado em 2020. Em seguida fará o lançamento também na capital paulista, onde reside.

Autor, diretor teatral e escritor, Valdo Resende publicou o romance “dois meninos – limbo” e a coletânea “A Sensitiva da Vila Mariana”, ambas pela Elipse, Arte e Afins.

Entrelaçando fatos que se complementam, “O vai e vem da memória” reúne crônicas, contos e poesias contando a história de uma cidade – Uberaba, MG – sob a perspectiva de alguém que nasceu em um bairro, o Boa Vista, e mora longe, em São Paulo. Vivendo como tantos brasileiros, viaja no tempo, reconstrói espaços e cria um mosaico em um vai e vem onde cada texto vale por si, referenciando retirantes e migrantes.

Memória e emoção contam uma história da cidade onde viveu Chico Xavier, lembrando personalidades locais e nacionais como o imortal Mário Palmério e os compositores Joubert de Carvalho e Cacaso (Antônio Carlos de Brito).

Histórias de cidades são contadas a partir de seus fundadores, de grupos de personagens ilustres que desbravam continentes, atravessam mares, ultrapassam serras e montanhas, vencem grupos adversos. Em “O vai e vem da memória”, o recorte parte da vida de alguém que foi menino livre, brincando em campos e várzeas locais, e que no processo de desenvolvimento descobre a cidade em que vive, os mecanismos que a compõem, as forças que em constante jogo buscam equilíbrio necessário à sobrevivência de seus protagonistas.

Quintais, festas religiosas e hábitos culturais estão lado a lado com personagens presentes em toda e qualquer família convivendo com outros, esses habitantes que percorrem ruas da maioria das cidades brasileiras. A escola, a igreja, os meios de comunicação aproximando mundos, o tempo inexorável que transforma em passado o que foi vivido, as personagens que se constituem em exemplos e, em um país onde a economia provoca migrações, a cidade passa a ser vista de longe.

Com prefácio do escritor mineiro João Eurípedes Sabino, atual presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, “O vai e vem da memória” tem apresentação do autor pela produtora cultural Sonia Kavantan. O projeto gráfico, diagramação e capa são de Flávio Monteiro. As fotos que compõem o livro são do próprio autor.

EXPOSIÇÃO FRAGMENTOS VISUAIS

Para o lançamento em Uberaba, no Barroco Arte Café, Valdo Resende preparou a exposição “Fragmentos Visuais”, com reprodução de imagens que compõem o livro e complementam a narrativa.

Ao escolher ângulos e detalhes específicos de locais uberabenses, em imagens permeadas pelo vazio e solidão da cidade, o autor propõe um diálogo entre as memórias narradas no livro e as memórias particulares de cada espectador.

Uma escola de arte, espaço expositivo de pinturas e fotografias, além de sessões musicais, o Barroco Arte Café encantou o autor. O estabelecimento fica na Rua João Pinheiro, rua que é capítulo do livro. De quebra, o local oferece quitutes da inconfundível cozinha mineira.

Serviço:

O vai e vem da memória – Valdo Resende

ISBN 978-65-00-00287-4 Elipse, Arte e Afins Ltda.

312 páginas – R$ 65,00

Lançamento: 27 de novembro/2021 – 16h00

Barroco Arte Café – Rua João Pinheiro, 213

Uberaba – MG

Viajantes do Trem das Lives

Quarta live, a única em que dividimos o mesmo espaço físico

A letra do Trenzinho Caipira, que Ferreira Gullar fez para a música de Heitor Villa-Lobos começa no singular:

Lá vai o trem com o menino

Lá vai a vida a rodar…

Bom, como o pessoal que acompanha o Trem das Lives sabe, são dois meninos. Na verdade, dois rapazes… Ok. Dois senhores são os condutores desse Trem. Fernando Brengel e eu.

Quando começamos, lá no ano passado, estávamos em quarentena (ainda estamos, mais ou menos) e a necessidade era sair para o mundo, encontrar pessoas, conversar, trocar experiências, ampliar essas, conhecer e facilitar que fossem conhecidas, e por aí vai.

Nessas 52 semanas, por isso e por aquilo, resolvemos colocar nosso trenzinho nos trilhos também nas quintas-feiras e aí veio mais gente, vieram colaboradores e mais histórias, muitos temas, a gente conversando na quinta como se rolasse um boteco básico, desses que a gente senta com amigos e fala de tudo um pouco.

O vídeo abaixo, o segundo em que insistimos numa chamada, é o 99º vídeo que entrou em nosso canal, no YouTube. No próximo domingo, 18h00 horas, faremos nossa primeira transmissão direta e ao vivo da plataforma e, além de comemorarmos 1 ano de vida, também celebraremos 100 vídeos, registrando essa gostosa experiência.

Já me perguntaram o que ganhamos com isso. A melhor resposta está em cada vídeo, com gente da “Europa, França e Bahia”, com histórias de pessoas experientes, somadas às histórias de outras, jovens, destemidas, corajosas. Um monte de gente que eu não conhecia, convidadas pelo Brengel, outras tantas que apresentei a ele e, juntos, apresentamos aos “viajantes do Trem das Lives”, como gostamos de chamar todos os que entram e participam da live.

Contamos, Fernando e eu, muitas outras faces de nós mesmos através de nossos amigos, sendo esses a grande maioria dos entrevistados no nosso Trem. Mas, teve gente que não conhecíamos, vindas via Jennifer Monteiro (ela me dizendo: – Tenho certeza que você vai mandar bem nessa!), teve outras que o Brengel conheceu ali, me substituindo. Essas pessoas tornadas amigas, nos deram muita coisa, todavia, não há como mensurar os reencontros. Estes, sejam por conta desta maldita pandemia, sejam pela razão que os amigos estão longe, muito longe.

E a gente, que adora arriscar, “brincou de teatro” no Trem das Lives. Descobri gostar da ideia de fazer escada (no jargão das artes cênicas, facilitar para o outro) sendo eu mesmo para conversar com o Brengel tornado Papai Noel, Vidente e, pasmem, Coelho da Páscoa… E nos fantasiamos para o carnaval, assim como nos vestimos a caráter para vários outros momentos.

Enquanto escrevo vou percebendo o tamanho desse nosso ano, a quantidade de temas, as mil e uma histórias… O Trem das Lives é o trem mais rodado do planeta sem que seus condutores saiam de suas casas. Bonito isso! Muito bom mesmo!

Desejo nesta oportunidade deixar registrado aos que possam pensar que escolhemos Trem das Lives por eu ser mineiro, na real foi sugestão do Flávio Monteiro em brainstorming doméstico. Assim, o batateiro (é esse o apelido da gente que nasceu em São Bernardo, no ABC) foi o autor do nome. O Brengel embarcou, eu idem e foi assim.

Enfim, mas não menos importante, quero agradecer. Manifestar minha gratidão aos que nos honraram dividindo conosco suas experiências, suas histórias. Aos que entraram e participaram no exato momento em que estávamos online. Aos que viram depois os vídeos com o registro de cada viagem. E vou agradecer ao Brengel, meu grande parceiro nessa jornada! A gente tem ideia, a gente aprimora e, não tem outra, a gente faz! Faz direito? A gente tenta. Faz melhor? Não que outros, que não estamos aqui para isso, estamos aqui por nós mesmos e, por isso sim, vamos melhorando.

Estou feliz por agradecer. Estou feliz por comemorar. Domingo, estaremos online, 18h00, direto do canal do Trem das Lives no YouTube. Vejam comemorar conosco.

E, só para não perder o costume, o “filho de padre de paróquia pobre” (me chamam assim em casa) vai pedir mais uma coisa. Vejam o vídeo e façam o que a gente está pedindo. Se vocês não fizerem, creiam-me, pediremos de novo. Beijos!

Glenda e Rogério

Rogério era do tempo em que bastava um olhar da mãe para que, rabo entre as pernas feito cachorro sem dono, procurasse um canto para sossegar. A mãe tinha um olhar mais expressivo do que qualquer cineasta alemão. Havia o olhar de “cala essa boca”, ou outro, muito temido em dia de festa: “para de comer”. Alguns mais ameaçadores que os outros, tipo “em casa a gente conversa”, ou aquele, antecedendo tabefes, o “agora eu te pego”.

O tempo dos olhares maternos foi substituído por outros, mais interessantes, que ele julgava saber emitir para o ser observado: era um olhar pedinte, tipo “posso falar com você”, outro mais ousado, revelando um “quero te comer”. Em momentos de autoestima elevada arriscava um soslaio, informando um “aproveita que sou gostoso”, ou um “vem que estou disponível”. Não passava pela cabeça dele que os olhares só funcionavam quando correspondidos previamente, anteriormente ao olhar. Assim, um “posso falar com você” só era correspondido quando a vontade antecedia, e o mais desejado, o “quero te comer”, só resultava em concretude se o tesão já estivesse instalado.

Vieram outros tempos, aqueles em que é preciso trabalhar. Travou muitas batalhas com colegas de serviço, chefes, diretores, subalternos. Embates confusos onde era claro e cristalino que cada parte pensava emitir via olhar a mensagem correta: “sujeitinho estúpido”, “esse babaca não sabe nada”, “tá pensando que eu sou da tua turma?” Verbalizadas, as mensagens eram bem civilizadas. “Você não entendeu direito”, “vem cá que eu te ensino isso”, “não posso sair hoje, fica para outro dia”.

A fixação dele pelo olhar alheio, a certeza do olhar enquanto emissor de toda e qualquer mensagem prosseguiu ao longo da juventude e, sabia ele, só se casaria com alguém por quem se apaixonasse, evidentemente, pelo olhar. Castanhos, verdes ou azuis, não importaria, exceto pela expressão: o grande amor seria a dona de um olhar expressivamente avassalador! Não foi bem assim.

Glenda era de origem libanesa, alta, corpo esguio recoberto por pele macia, morena. O cabelo farto, longo, descia pelos ombros em ondas suaves, caindo sobre o colo após emoldurar o rosto. Uma boca carnuda prometia palavras doces, beijos carinhosos. O olhar, esse não era visto, já que Glenda só aparecia publicamente durante o dia e usando imensos óculos escuros. Pelo menos foi o que disseram dela, depois que Rogério a conheceu,

Glenda e Rogério. Os nomes combinavam, pensou o rapaz desde o primeiro encontro quando, passeando no Ibirapuera com amigos comuns, foram apresentados. Poucos centímetros mais baixa que o moço, Glenda levantou o rosto com firmeza, apertando-lhe a mão esboçando um leve sorriso. Quis o destino que mais pessoas se aproximassem do grupo que, assim, deixou o casal à sós. Rogério não resistiu:

– Posso ver seus olhos? Quero muito!

Glenda, ao longo da vida, habituara-se a ouvir e discernir cuidadosamente a intensão contida na fala. Isso começou quando, muito pequena, percebeu nuances na voz materna que não condiziam com a realidade. A mãe dizia “coma, está uma delícia” para qualquer gororoba que a menina mal conseguia engolir. Também ficou clara a real afeição que a mãe tinha pela avó paterna. A sogra chegava e a mãe, com uma sutil frieza, sugeria “você não vai beijar sua avó?”.

Bem novinha, Glenda descobriu o ódio na fala da empregada, cansada de recolher roupas e outros objetos fora dos seus lugares. Também percebeu, sem sair do quarto, quando os irmãos mentiam dizendo estar estudando ou que já estavam prontos para dormir. Ironia, falsidade, mentira, tudo era transparente no grupo que a mãe recebia para o chá, fazendo com que a menina ficasse avessa a reuniões e, crescendo, preferia ficar sozinha.

Conhecia a pessoa pela voz. Reconhecia a segurança dos professores que dominavam o que ensinavam tanto quanto o leve tremor na voz dos inseguros. Percebeu o blefe na arrogância do primeiro chefe, que ladrava com poucas possibilidades de ataque, tanto quanto a maldade e a inveja de colegas de trabalho, concorrentes ou não ao cargo em que ela atuava.

– Sua voz não esconde seu desejo – ela respondeu ao novo conhecido.

Rogério afirmou querer muito. Repetiu, reiterou. Precisava ver o olhar da moça. Ela sorriu e limitou-se a balbuciar, antes de ir embora: – Outro dia!

Sem deixar telefone, e-mail, ou qualquer contato, Glenda desapareceu pelas alamedas do parque, rindo e conversando com os amigos. Só aí ele percebeu que os amigos que ficaram com ele não conheciam a moça. Buscou o telefone e começou a vasculhar as redes sociais dos conhecidos. Logo encontrou uma página de Glenda onde, em poucas fotos disponíveis, ela estava com óculos escuros.  Seria cega de um olho, ou estrábica? Teria fotofobia? Nada disso, informou um conhecido da moça, aliviando os iniciais temores do rapaz:

 – É mania! Já estivemos juntos em uma festa em uma chácara. Havia piscina. Ela tirou os óculos para nadar. Normais!

O que seria normal para o sujeito? Rogério ficou impaciente. O conhecido não dizia nada além do subjetivo “normal”. Ele precisava ver, conhecer o olhar de Glenda. Vasculhou as redes sociais e, com as fotos todas restritas, fechadas para desconhecidos, foi adicionando, curtindo, comentando, pedindo amizade…

– Não compartilhou nada, confidenciou Glenda à prima, Dulce. – Isso bem diz o que a voz insinua, um egoísta que quer tudo para si.

Dulce argumentou apontando exageros nas suposições da prima, já que seria preconceito afirmar qualquer coisa do rapaz. Até então, ele falara pouco mais que o “quero ver seus olhos”. Tudo o que Dulce gostaria era de ter uma voz cheia de desejo lhe pedindo para ver muito mais que os olhos. Não entendia a postura da prima quanto ao rapaz tanto quanto também não se conformava com a mania da moça de usar óculos escuros.

Foi na casa da bisavó, já bem velhinha, que Glenda descobriu revistas antigas, quando então se apaixonou pelo visual de estrelas de Hollywood e seus óculos escuros, chapéus de grandes abas, vestidos coloridos. Foi a primeira de sua turma a introduzir a mania que, tempos depois, tomaria conta de muitas meninas: tornou-se “cosplay”, passando então a vestir-se como as grandes atrizes dos anos 50.

Glenda poderia estar vestindo saias rodadas de tecido estampado, ou sóbria, dentro de conjuntos justos, deixando evidentes as formas generosas, torneadas, herança de sua mãe. Com “fantasias” mais sutis que heroínas de filmes fantásticos, Glenda era bem aceita em qualquer ambiente. Gostava de ser identificada como mulher elegante, refinada, misteriosa. Para Rogério não sobrou nada além da indignação do primeiro encontro.

– O babaca não percebeu que eu estava vestida como Katherine Hepburn nos anos 40!

Rogério não sabia quem foi Katherine Hepburn, muito menos reconheceu outra Hepburn, Audrey, quando viu Glenda pela segunda vez, caracterizada como a jovem Audrey em Charade, usando um conjunto vermelho, luvas brancas e chapéu também branco. Avisada por Dulce da chegada de Rogério, em plena noite, dentro de uma choperia, Glenda resolveu brincar, sacando os óculos escuros, mesmo se sentindo mal por quebrar o estilo da estrela americana. O rapaz percebeu a intenção dela em não permitir que ele conhecesse seu olhar. Reagiu com ironia:

– Que sol quente, não! Ou você é maconheira?

Glenda mostrou seu lado Betty Davis, a estrela que tinha tanto talento quanto língua afiada, mostrando ao rapaz o que aprendera ouvindo, analisando e refletindo sobre a voz humana.

– Sua voz me diz que você é um babaca, que tem medo de se envolver, que acha que pode impor às pessoas a sua vontade e, sobretudo, dono de uma inexperiência brutal em relação ao sexo oposto, em suma, inseguro!

E tirando os óculos, encarou com altivez um embasbacado Rogério que, olhando-a firmemente, emudeceu.

Ela não gostou da voz dele.

Ele não gostou dos olhos dela.

Terminou ali o que nunca havia começado. Seguiram em frente, sozinhos e infelizes, até que os céus se compadeceram de ambos. Glenda se apaixonou por Diego, o mudo. Rogério se casou com Manuela, cega, olhar esgazeado e sem vida.

Ambos estão felizes…dizem.

Voltaram a se encontrar e, para não darem um ao outro o braço a torcer, antes que ele a visse ela já havia retirado os óculos escuros da bolsa. Ele limitou-se a sinalizar um cumprimento com a cabeça, sem nada dizer.

(Valdo Resende / Primavera de 2020)

Ilustração: Detalhe/Mural do Centro de Arte Popular – Cemig Belo Horizonte – MG. Foto: Flávio Monteiro

Futebol! Deus guarde nossos atletas.

Foto: Flávio Monteiro

Jogadores do Goiás não entraram em campo neste domingo por dez atletas do time estarem contaminados com o COVID_19. Os trâmites demoraram o suficiente para a televisão iniciar a transmissão e só depois informar a suspensão do jogo. Outro time, o Imperatriz, do Maranhão também não jogou, pois doze jogadores também receberam diagnóstico positivo para o vírus. O alagoano CSA, time da série B do Nacional substituiu oito atletas e jogou contra o Guarani. SUBSTITUIU! (Esses atletas substituídos horas antes do jogo não estavam em contato com os companheiros?).

Jogadores de futebol são atletas que contam com apoio jurídico na formulação de contratos, na administração da imagem e das atividades com publicidade, entre outros possíveis empreendimentos. Esse departamento jurídico de atletas, empresários e das próprias agremiações não conseguem barrar os interesses financeiros envolvidos nos campeonatos de futebol e aí está o imbróglio. E mais uma pergunta cabe aqui: a pandemia está sob o controle de quem? Dos interesses de quem?

Deus nos livre, só mesmo Ele. Estive ontem em uma farmácia, dessas de rede nacional. O teste para verificar como estou em relação ao vírus fica por R$ 140,00 e a profissional de plantão, simpaticíssima, informou que o mesmo tem 97% de probabilidade de acerto. Você paga na verdade de otário, pois em seguida, caso a doença se manifeste, estão aí os 3% para garantia jurídica de quem está vendendo a coisa.

Deus livre nossos jogadores! A CBF – Confederação Brasileira de Futebol, contratou o Hospital Albert Einstein que identificou erro na coleta de material e, pedindo novo material, atrasou a entrega de resultados. Essa foi a explicação para o ocorrido entre Goiás X São Paulo. Quem coletou esse material? Segundo o noticiário, o hospital (UM DOS MELHORES DO PAÍS!) já forneceu “diagnóstico positivo equivocado” de 26 jogadores do Red Bull Bragantino. O que nos leva a, mais uma vez, apelar pra Deus. Se até hospital do nível do Einstein está cometendo equívocos… Deus livre a todos nós!

OUTRA SITUAÇÃO: A do simples funcionário que, todo dia, precisa atender aos interesses de patrões desnaturados, em um país sem Ministro da Saúde e onde o Presidente, em relação à pandemia, não passa de propagandista ordinário, tentando enfiar goela abaixo dos brasileiros um remédio que, se válido, não nos teria levado a ultrapassar a marca de 100.000 óbitos.

Dá para entender as razões da morte atingir principalmente as pessoas mais vulneráveis? Precisa desenhar?Não custa refletir: mesmo errando ou atrasando o diagnóstico de um jogador de futebol, este, caindo nas garras do COVID terá o próprio Einstein para onde buscará a cura., ou outra instituição de excelência no tratamento médico. Têm dinheiro e convênio médico daqueles que cobrem até unha encravada. Aos demais, aqueles que precisam de tomar ônibus, metrô ou trem, às vezes carecendo dos três meios para chegar ao trabalho, cabe… rezar: Para que esses transportes não estejam lotados, para que consigam viajar e – milagre! – não serem contaminados. E caso sejam, que consigam pelo menos um leito vago, um tratamento digno.

MAIS OUTRA SITUAÇÃO: A dos pais empregados que, sem apoio governamental, são pressionados pelos patrões e precisam deixar os filhos na escola. Ora, se em um jogo de futebol, com 22 atletas em campo (sem contabilizar os demais) a proporção de infectados beira aos 50% (se contabilizarmos os demais essa proporção pode subir) como é que fica a cabeça de um pai, de uma mãe ao ter que encaminhar o filho para a creche, para a escola? Quem garante a saúde da criança que permanecerá em grupo durante tempo maior, bem maior, que uma partida de futebol? Não há humano que garanta imunidade e, caso o faça, está mentindo. Deus guarde e cuide das nossas crianças!

O que me leva a escrever este texto é o fato de perceber pouca atenção dada ao fato ocorrido hoje: Jogadores de futebol! Pessoas que, por definição, têm ótima saúde e, por isso mesmo, sendo profissionais de ponta do futebol nacional teriam guardado quarentena e ficado longe de possível contaminação. Atletas com altos salários, suporte jurídico, influência na mídia, se submetem aos interesses financeiros de agremiações, da própria CBF e até das empresas de comunicação, que lucram horrores com as transmissões. Será que é por isso, pela grana, que os meios não dão a real dimensão do absurdo que é constatar em atividade tantos jogadores infectados? Deus guarde nossos atletas.

Deus guarde todos nós!

Para quem quiser ver a matéria do jornal, na íntegra, clique aqui.

Até mais!

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