Canta Brasil!

Esperar destaque para a música brasileira de um programa denominado The Voice é chover no molhado. Somos colonizados e há muitos, entre nós, que pensam que “gritar” em inglês faz do sujeito um grande cantor. O certo é que há um número considerável de brasileiros que entendem parcamente o que diz – canta – cada candidato; assim, pouco importa se o indivíduo pronuncia parcamente ou porcamente.

Nossa música é sofisticada; muito sofisticada! O suficiente para avaliar qualquer cantor, qualquer tipo em qualquer região vocal e sob diferentes aspectos. Por exemplo: quantos concorrentes do The Voice cantariam bem o “Brasileirinho” (Waldir Azevedo – Pereira da Costa) ou o “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu – Eurico Barreiros)? Sem firulas, sem exageros, pois não há necessidade disso. Precisa ter folego, dicção privilegiada, capacidade de interpretação acima do comum para interpretar tais canções.

http://www.youtube.com/watch?v=x6LUKiqO5bU

Os concorrentes, dizem, gostam de mostrar extensão vocal. Bom, para esses, há ótimas possibilidades: “Na baixa do sapateiro” (Ary Barroso), “Carinhoso” (Pixinguinha – João de Barro) e “Rebento” (Gilberto Gil) são apenas algumas possibilidades. Entre as mais difíceis considero “Rosa-dos-Ventos”(Chico Buarque), “Sabiá” (Tom Jobim – Chico Buarque), “Eu te amo” (Caetano Veloso) e entre muitas canções de Milton Nascimento, gostaria de ver alguém encarando “Saudade dos aviões da Panair”. (Dele, Milton, com Fernando Brant, também conhecida como “Conversando no bar”).

http://www.youtube.com/watch?v=BzeTU7KEeXY

 

Estou comemorando antecipadamente o “dia do samba” (dia 2 próximo) e quero mais samba, mais chorinho, samba-canção, enfim, de mais música brasileira. Em se tratando de samba, por exemplo, os candidatos de concursos vocais – se querem mostrar que realmente cantam – deveriam arriscar um “Cai dentro” (Baden Powell e Paulo César Pinheiro) que, por sinal, só ficou excelente na voz de Elis Regina.

http://www.youtube.com/watch?v=PvTx4s6GpUA

Sinto que esta é uma batalha perdida (apenas uma batalha!). O tempo costuma vencer todos os candidatos que, com suas músicas estrangeiras, caem no esquecimento. Sempre lembraremos Ney Matogrosso, Elza Soares (Hoje lembrada no The Voice pela excelente Cristal), Vicente Celestino, Gal Costa, Maria Bethânia, Nelson Gonçalves, Tom Zé, Maysa e, é claro, João Gilberto. Estou lembrando alguns grandes interpretes brasileiros que, com toda a certeza, em um ou outro momento cantaram música estrangeira. Todavia, gente como Maria Bethânia não será lembrada por “What is new”; esses intérpretes formidáveis (e podem aumentar a lista!) serão lembrados por sussurros afinados cantando Bossa Nova ou pela voz colocada com perfeição na personalíssima cadência do samba.

Há muito tempo um grande cantor, tão grande que foi chamado de “Rei da Voz”, gravou “Canta Brasil”. O nome desse cantor é Francisco Alves. Depois, veio a gravação de Ângela Maria e, bem depois, Gal Costa regravou a mesma canção, que é de Alcyr Pires Vermelho e David Nasser. Vou concluir este post com a letra deste samba exaltação, pois sinto muita falta dessas canções na nossa televisão; quem sabe, em algum programa, o nosso Brasil musical possa ser prioridade!

http://www.youtube.com/watch?v=YTS6slDGzHA

As selvas te deram nas noites teus ritmos bárbaros E os negros trouxeram de longe reservas de pranto Os brancos falaram de amor em suas canções E dessa mistura de vozes nasceu o teu canto

 

Brasil, minha voz enternecida Já dourou os teus brasões Na expressão mais comovida Das mais ardentes canções

 

Também, na beleza deste céu Onde o azul é mais azul Na aquarela do Brasil Eu cantei de norte a sul

 

Mas agora o teu cantar Meu Brasil quero escutar Nas preces da sertaneja Nas ondas do rio-mar

 

Oh! Este rio turbilhão Entre selvas e rojão Continente a caminhar No céu, no mar, na terra! Canta Brasil!!

 

Bom final de semana para todos!

Pé quente, cabeça fria

Gilberto Gil, abaixo ao lado de Nana, é o dono do "pé quente, cabeça fria"
Gilberto Gil, abaixo ao lado de Nana, é o dono do “pé quente, cabeça fria”

Para ser bem honesto estou no limite da paciência. Não com o momento, não com a situação em si, mas com a superficialidade sobrando, os julgamentos correndo soltos e inconsequentes e as súbitas e imensas certezas que tomaram conta de quase todo mundo. O momento é de euforia escancarada…

Pé quente, cabeça fria, dou-lhe uma
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe duas
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe três
Saia despreocupado
Você pode conquistar o mundo dessa vez

Sem querer puxar o breque, e estando muito longe de perder a esperança, penso que o momento é de conquista mesmo; mas de possibilidades concretas, pensadas e, sobretudo, refletidas com responsabilidade. Estamos mudando e Victor Olszenski, com lucidez e embasamento teórico, abre outras perspectivas em texto publicado com o título “Como as manifestações públicas impactam as empresas” com indícios dos caminhos que virão.

Porque ler o texto do Victor? Primeiro porque somos público e para o público que somos há empresas governamentais nos prestando serviços. Há outras empresas, contratadas pelo governo, que atendem ou deveriam atender nossas atividades. O texto é analítico, sem apelos emocionais, sem exageros de retórica. É um profissional de marketing pensando o marketing daqui para frente. E é bom atentar para como as coisas funcionam.

Pé quente, cabeça fria, dou-lhe uma
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe duas
Pé quente, cabeça fria, dou-lhe três
Saia despreocupado
Faça tudo que você queria e nunca fez

Estamos mudando. Melhor que mudar o mundo é mudar nossas vidas, o “nosso quadrado”. Ontem, na Universidade, passamos um bom tempo discutindo política e educação. Nós, professores, precisamos muito discutir educação. O texto do Victor alertou-me para a necessidade de discutir mais, com profundidade, com frieza analítica e buscando, mais que o arranjo momentâneo, as soluções corretas, mesmo que em longo prazo. Cada indivíduo pensando soluções na própria área em que atua.

Enquanto escrevo faço uma pausa durante o jogo  Brasil x Uruguai. E é óbvio que, brasileiro, vou discutir futebol, e também palpitar na saúde, pensar em um caminho para resolver a seca no nordeste, apostar em soluções para o trânsito na capital paulista… Vou reclamar da lentidão da internet, do almoço demorado, do preço dos remédios. Tenho direito; temos direitos!

Pé quente, cabeça fria, numa boa
Pé quente, cabeça fria, na maior
Pé quente, cabeça fria, na total
Saia despreocupado
Mas cuidado porque existe o bem e o mal

Brasileiro está descobrindo que pode reclamar e que quem reclama não é chato, apenas exigente e com direitos. Ao longo de muitos anos acreditei que uma das piores coisas que fizeram contra o país foi o fato de colocarem na cabeça de muitos a idéia de que “reclamar é chato”, que “quem reclama tem problemas” ou ainda que aquele que reclama “agita a maioria e provoca situações desagradáveis”.

O mal momentâneo é que as redes sociais tornaram-se “redes de exigências”, todo mundo querendo arrumar a casa. Bom até certo ponto. Bom mesmo se além de palpitar na casa alheia todos pensarem em como resolver a própria casa. As reclamações dos outros são oportunidades de crescimento, é o alerta do Victor Olszensky.  O que os outros têm a reclamar em relação a nós mesmos?

Pé quente, cabeça fria, numa boa
Pé quente, cabeça fria, na maior
Pé quente, cabeça fria, na total
Saia despreocupado
Mas se alguém se fizer de engraçado, meta o pau.

Outro dia li alguém pedindo qualquer coisa musical estrangeira ao reclamar do som que anda rolando nas passeatas. Esse cidadão não deve conhecer Os Mais Doces Bárbaros (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia), os intérpretes de “Pé quente, cabeça fria” que é a música para minhas revoluções particulares. O  individuo levou-me a pensar em fazer um post lembrando grandes canções políticas brasileiras. Aí, li o texto do Victor, pensei no que as pessoas reclamam do meu trabalho…  Esse sim, é o maior (e o mais difícil) exercício que deve ser feito com muito “pé quente e cabeça fria”! Antes que façam passeata embaixo da minha janela…

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Até mais!

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Nota:

Doces Bárbaros foi show, filme e disco feito pelos quatro baianos em 1976. Segundo Caetano Veloso a idéia foi de Maria Bethânia. “Os mais doces bárbaros” é a primeira faixa do disco. Pé quente, cabeça fria pode ser ouvida clicando aqui.

 

Animações para um aniversário.

Quando vi as capas de discos no site “Animated Albums” fiquei fissurado na ideia de ter a brincadeira com algumas capas de discos brasileiros. Estava no Papolog e Paulo Simões me ofereceu como presente algumas capas com animações simples, puro divertimento. Um presente para não ser esquecido e permanecer online. Vamos aos gifs:

Começando com os olhos do Chico Buarque? “Olhos nos olhos – verdes, amarelos, vermelhos – Quero ver o que você diz! Quero ver como suporta me ver tão feliz!”

Chico Buarque_FINAL

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E se é pra brincar com olhares, Adoniran me traduziu: “De tanto levar flechada do teu olhar, meu peito parece até sabe o que?…

Adoniran Barbosa_FINAL

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E depois de Adoniran, que compôs “Bom dia, Tristeza” junto com Vinícius de Moraes, música imortalizada na voz de Maysa vejamos os inesquecíveis e expressivos olhos da cantora.  “Se todos fossem iguais a Maysa, que maravilha viver…”

maysa_final

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“Batidas na porta da frente, é o tempo! Eu bebo um pouquinho…” pra aguentar todas as fortes emoções que Nana Caymmi propicia. É barra!

Nana_FINAL

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Pra aguentar a saudade de tudo, apelo pro Carcará, aquele que “pega, mata e come”.  E vou seguindo, levando a vida com lembranças de Nara, Zé Keti e João de Vale. Somos todos de “Opinião”.

Nara

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E se é pra lembrar, com reverência e respeito, vamos sempre colocar acima, onde merecem! Tom Jobim e Elis Regina.

elis e tom

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Mas aniversário é dia festa! E “você precisa saber da piscina, da margarina, da gasolina” com toda a trupe da Tropicália.

Tropicalia

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Brincar um pouquinho no doce encontro de Caetano Veloso e Gal Costa…

gal e caetano

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E deixar cair uma lágrima, pura emoção, como Maria Bethânia, afinal, amanhã é o dia do nosso aniversário. Gosto de comemorar meu natalício pensando que em algum lugar há uma festa pelos aniversários de Bethânia, Paul McCartney e, sendo assim, não escreverei por aqui. Vou bebemorar!

Maria Bethania

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 Obrigado ao Paulo Simões, pelo trabalho legal e divertido.

Até mais!

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Virada Cultural, o congestionamento de shows

Capa do disco que Wanderléa reproduzirá no Palco do Municipal
Capa do disco que Wanderléa reproduzirá no Palco do Municipal

Revitalizar o centro velho de São Paulo é tarefa para gigantes. Hoje, no começo da tarde, passando pela Avenida Senador Queiroz tive a impressão de que a região estava sendo tomada pela triste turba dos viciados em crack. Ocorre que recentemente presenciei outros grupos similares na Praça Clóvis, bem ao lado da Praça da Sé, e também nas imediações da Praça Júlio Prestes, onde ficará o palco principal da Virada Cultural.

Durante 24 horas ocorrerão mais de mil shows na Virada Cultural 2013. Mil! Nos demais 364 dias do ano tudo fica como sempre e a maioria das pessoas fogem da região. Obviamente que não seria viável ter shows todos os dias; mas se os shows ocorressem semanalmente, seriam mais de cinqüenta; mensalmente, seriam mais de 80 shows. Todavia, haveria real interesse em revitalizar a região? Poderiam, por exemplo, melhorar a limpeza das ruas durante todo o ano; para aqueles que, como eu, passam diariamente por lá, já seria uma ação admirável.

A Virada Cultural, nos atuais moldes, faz um grande alarde. A ideia veio de Paris e, lógico, como continuamos colonizados, não há o que discutir. Os franceses sabem tudo…  Assim, temos um evento que é quantitativamente impressionante. Mais de mil shows em dezenas de palcos espalhados por vários pontos do centro velho. Para dar uma ideia aos que não moram em Sampa optei por montar uma listinha do que eu gostaria de ver:

No Palco da Praça Júlio Prestes:

18h (sábado) – Daniela Mercury e Zimbo Trio
21h (sábado) – Gal Costa
6h (domingo) – Elza Soares e Gaby Amarantos

No Palco do Theatro Municipal, onde os shows reproduzirão discos completos:

21h (sábado) – Fagner: “Manera Fru-Fru Manera” (1973)
3h (domingo) – Ângela Rô Rô: “Ângela Rô Rô” (1979)
6h (domingo) – Walter Franco: “Revólver” (1975)
9h (domingo) – Wanderléa: “Wanderléa… Maravilhosa” (1972)
12h (domingo) – Jorge Mautner: “Jorge Mautner” (1974)
15h (domingo) – Eumir Deodato: “Deodato 2” (1973)

No Palco do Largo do Arouche:

17h (domingo) – Fafá de Belém

Observando a pequena relação só tenho de optar entre Gal Costa e Fagner. No mais seria necessário apenas ter saúde para uma maratona de vinte e quatro horas de shows. E antes que alguém me chame de velho devo afirmar que a Virada Cultural é ótima para quem consome quantidade. Acontece que gosto de música; prefiro ouvir e não gosto de cantar enquanto meus artistas queridos estão cantando. Adoro ouvi-los e a possibilidade de dormir, por exemplo, durante o show de Jorge Mautner é, no mínimo, constrangedora.

Há tantos outros que gostaria de ver! Ano passado passei por vários lugares. Sempre lamentando, como agora, o que não teria condições de ver e me perguntando, como hoje, porque não podemos ter 50 shows por semana. Com cinco dezenas de shows semanais haveria a possibilidade de um mesmo tanto de estilos, de formas expressivas. A Virada Cultural repete, infelizmente, o que nos faz sofrer durante todo o tempo: é só mais um dia de congestionamento em São Paulo. Um imenso congestionamento de shows.

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Boa diversão e bom final de semana para todos!

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Sempre no Vapor Barato de Jards Macalé

jards_macalé

Decidi lá na adolescência, que não queria “ficar dando adeus às coisas passando” e assim, pensando que gostaria de “passar com elas”, sempre estive pronto para sair, ir embora. Percebo, passados tantos anos, que as idéias de “Movimento dos barcos”, de Jards Macalé e Capinan, estão entre os norteadores da minha vida.

Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo…

Essa música forte, na voz intensa de Maria Bethânia, é, na minha modesta opinião, o que há de melhor em termos de uma canção sobre o fim de um relacionamento. O quarto e o quinto versos da letra de Capinan são de uma beleza aterradora:

Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei…

Precisamente, Jards Anet da Silva nasceu em um 03 de Março de 1943 no Rio de Janeiro. Hoje, no domingo em que escrevo este post, o músico completa 70 anos. Parece que a origem do apelido está em um antigo jogador do Botafogo, tão ruim de bola quanto o jovem Jards. Grande fera da música brasileira, a carreira de Jards Macalé é sólida, com trabalhos marcantes que contribuíram para o sucesso dos baianos. Além de Maria Bethânia, Jards comparece em trabalhos de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa.

Em parceria com Wally Salomão, Macalé criou alguns grandes sucessos para a voz límpida de Gal Costa. Quem é jovem, quem foi nos anos de 1970 para cá, identifica-se tranquilamente com os versos de “Mal Secreto”:

..Se você me pergunta: “Como vai?”
Respondo sempre igual: “Tudo legal!”
Mas quando você vai embora
Morro meu rosto no espelho
Minha alma chora…

Sempre fui grato aos dois compositores e não sei dizer, nem de longe, quantas vezes me senti o “rapaz esforçado”, exposto via Gal:

Não fico parado, não fico calado, não fico quieto
Eu choro, converso
E tudo o mais jogo num verso
Intitulado mal secreto

O criador do “Banquete dos Mendigos” tem um longo histórico. Bastaria uma canção para colocá-lo entre os nossos maiores criadores musicais; ou há alguém que, conhecendo, não goste de “Vapor Barato”?

Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio
Eu não preciso de muito dinheiro
(Graças a Deus)
E não me importa, honey
Oh, minha honey baby

Jards Macalé e Wally Salomão (fonte: site do compositor)
Jards Macalé e Wally Salomão (fonte: site do compositor)

Novamente com o parceiro Wally Salomão, Jards, em Vapor Barato, retrata uma geração, um momento brasileiro (1971) via show “Fa-Tal, Gal a todo vapor”. Fez isso com tal maestria que ouvindo Gal lembramos do Brasil de então e do rapaz da esquina, parado no ponto de ônibus, desolado em um banco de jardim:

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu tô indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto (quem sabe)

Ah, cidadão Macalé. Pudera eu dizer pessoalmente o quanto gosto dessas canções, o quão importante foi pensar e refletir, durante toda a minha vida, enquanto cantarolava esses versos:

Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento

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Feliz aniversário, Jards Macalé!

Boa Semana para todos.

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As fotos que ilustram este post estão divulgadas no site do compositor.

Veja mais sobre Macalé em:

http://www.jardsmacale.com.br/

As letras das canções acima e de outras criações do compositor estão em:

http://www.mpbnet.com.br/musicos/jards.macale/index.html

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Mangueira é um “Catavento a Girar”

Logo ali já se vê o carnaval chegando. É bom escrever sobre sambas de enredo e grandes escolas. Pra continuar vou de Mangueira, a Estação Primeira, cantada em verso e prosa desde sempre.

Cartola, o pavilhão nas mãos de quem o defende com amor e Jamelão. É Mangueira
Cartola, o pavilhão nas mãos de quem o defende com amor e Jamelão. É Mangueira!

Mangueira poderia ser qualquer lugar. As mangueiras proliferam-se pelo país. Belém do Pará, por exemplo, é lembrada por seus mangueirais. Transformar um lugar comum em algo mítico, especial é privilégio da criação artística. Em artes plásticas, em prosa, em poesia ou música, tudo pode ser transformado em sonho, diante de qualquer que seja a realidade. a música colocou no mapa da música brasileira uma Mangueira, eternizada nos carnavais, indo muito além de um único período do ano.

Mangueira é poesia em canção, como em “Sei lá Mangueira”, a criação dos mestres Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho.

Visto assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá, não sei
Em Mangueira a poesia fez um mar…

Esse mar vem de longe e, desde lá já merecia uma “Exaltação à Mangueira”, feita por Aloísio Augusto da Costa e Enéas Brites, imortalizada na interpretação de Jamelão:

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou
O morro com seus barracões de zinco
Quando amanhece que esplendor…

Quando a poesia vai embora, em Mangueira apela-se para o passado. Dá samba bonito! Herivelto Martins já sabia disso quando criou “Saudosa Mangueira”:

Eu sou do tempo do Cartola
Velha guarda o que é que há?
Eu sou do tempo em que
Malandro não descia
Mas a policia no morro também não subia…

Falando em Cartola a lembrança desse morador permanece em Mangueira, nos sambas belíssimos, de uma brutal e encantadora simplicidade como “Alvorada”, onde Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho celebram as belezas do morro e da mulher brasileira:

…Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida…

Cartola é símbolo da escola, como Nelson Cavaquinho que, junto com Guilherme de Brito criou um dos sambas mais geniais de todos os tempos. Fico sempre na dúvida se a melhor interpretação deste samba é de Jamelão, Elis Regina ou Beth Carvalho:

Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira…

Ah, Estação Primeira. De Dona Neuma, Dona Zica, de Jamelão de voz inconfundível, do “ Bumbo da Mangueira” Jorge Benjor tão bem homenageou e que Gal Costa canta como ninguém:

Eu conheço esse bumbo
Esse bumbo é da mangueira…
Ele sobe e desce o morro
Com cadência e precisão
E desfila na avenida
Batendo no compasso
Do meu coração
Bum, bum, bum…

Mangueira, a escola, vem encantando gerações. Levou a poesia de Chico Buarque e o som inconfundível de Tom Jobim para o alto, para o morro, junto aos sambistas da escola de cores verde e rosa:

…A minha música não é de levantar poeira
Mas pode entrar no barracão
Onde a cabrocha pendura a saia
No amanhecer da quarta-feira
Mangueira
Estação Primeira de Mangueira.

E é assim, só com versos de músicas de altíssima qualidade. Qual escola tem uma história contada dessa forma? Cantada? É fácil pra todo brasileiro gostar da escola de samba, amar suas cores, mesmo nunca tendo ido ao Rio, ao morro.

A música de Mangueira atravessou todas as fronteiras e fez da escola de samba um ícone, amado por quem gosta de samba e do Brasil. E pra terminar esse primeiro post só mesmo a lembrança desse “catavento a girar”, no “Chão de esmeraldas” cantado na composição de Chico Buarque e Hermínio Bello de Carvalho.

Me sinto pisando
Um chão de esmeraldas
Quando levo meu coração
À Mangueira…

Soberba, garbosa
Minha escola é um catavento a girar
É verde, é rosa
Oh, abre alas para a Mangueira passar!

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Até!

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Nota:

Logo mais escreverei sobre o carnaval da Mangueira neste ano de 2013. Antes resolvi preservar o texto acima, que havia sido publicado originalmente no Papolog, em 05/01/201

O efeito Gadú

Vício de quem faz blog, e de quem trabalha com comunicação, a verificação da audiência é um hábito. Os altos e baixos de um blog, por exemplo, relacionam-se com outras variáveis além dos assuntos abordados em cada post. Grata surpresa, de repente os números sobem muito, e já aprendi a descobrir razões; terça-feira, em menos de quarenta minutos, minha audiência triplicou e após descobrir o motivo, resolvi denominá-lo “efeito Gadú”.

Maria Gadú canta no seriado. Foto: Louco por elas/TV Globo

Ontem, na Rede Globo, Maria Gadú fez uma participação especial no programa “Louco por elas”. Foi como convidada de Violeta (Gloria Menezes) em um sarau familiar. A cantora não fez feio ao brincar de atriz e ainda mostrou-se simpática ao dividir vocais com Dudu (Thiago Martins), Dora (Laila Garin) e Santiago (Zéu Britto).

O seu amor

Ame-o e deixe-o

Livre para amar

Conheci a música “O seu amor” com as vozes apaixonantes dos “Doces Bárbaros”. O quarteto formado por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia canta “O seu amor” em um momento mágico do show, registrado em disco em 1976. A harmonia dos quatro grandes artistas, amigos na vida e nos palcos, é de uma suavidade emocionante para a canção criada por Gilberto Gil.

O seu amor

Ame-o e deixe-o

Ir onde quiser

No programa, durante o sarau familiar, Maria Gadú se acompanha ao violão e forma um inusitado quarteto com os personagens de ficção, também cantores na vida real. Foi simples e bonito, como a canção.

O seu amor

Ame-o e deixe-o brincar

Ame-o e deixe-o correr

Ame-o e deixe-o cansar

Ame-o e deixe-o dormir em paz

Os mais “Doces Bárbaros”

Um pouco após o final do programa, já finalizando o meu dia, fui verificar o número de visitantes do blog e me surpreendi com uma quantidade enorme de visitantes. O melhor, é que eles não paravam de crescer. As pessoas começaram a pesquisar “Maria Gadu Ame-o e deixe-o” e chegaram neste blog. Escrevendo sobre o aniversário de Caetano Veloso citei a cantora e a música em questão.

O seu amor

Ame-o e deixe-o

Ser o que ele é.

O efeito Gadú continuou e, também na quarta-feira, tive uma audiência superior ao habitual. Resolvi escrever por duas razões: agradecer aos visitantes, fãs da cantora, e também por constatar algo que, penso, muitos concordarão comigo.

Há uma falta imensa de bons programas musicais na televisão. Temos programas que constantemente apresentam números musicais e outros, esporadicamente, como o seriado estrelado por Eduardo Moscovis e Deborah Secco. O brasileiro gosta de música. Gosta de boa música e posso dar dois exemplos que confirmam isto: as centenas de pessoas que buscam saber mais sobre uma canção interpretada por Maria Gadú em um seriado, apresentado após as 22h00 e, o segundo, o imenso sucesso do programa The Voice, com seus participantes com inegáveis qualidades musicais.

É frequente a imposição de muito lixo musical pelas grandes gravadoras, verdadeiras donas da programação de emissoras de rádio e similares. É ótimo saber que o público de uma jovem cantora como Gadú é levado por uma bela canção e, mais que a mera audição, sai buscando detalhes da mesma.

Se você chegou até aqui, clique, veja o grupo e ouça a canção com os mais “Doces Bárbaros”. Quem sabe, esta seja o impulso para conhecer outras canções e uma bela história, de um quarteto formado por quatro amigos…

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Até mais!

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