E lá se foi Astrud!

Às vezes é bom parar e fazer uma indagação básica sobre os reais motivos de certas coisas como, por exemplo, o Brasil pouco conhecer Astrud Gilberto, a cantora falecida aos 83 anos lá longe, nos EUA, em 5 de junho passado. É bem verdade que as velhas gerações sabem que ela foi casada com João Gilberto. Os apaixonados por Bossa Nova sabem que é dela a voz da primeira gravação da música Garota de Ipanema em inglês. Um estrondo mundial! Mas, parece que fica nisso.

Baiana de nascimento, Astrud Gilberto continuou com o sobrenome do marido famoso, após poucos anos de casamento. Um marido “legal” que excluiu o nome da moça nos créditos do disco de 1964 que tornou a canção, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes ,a segunda música mais gravada do mundo. Astrud puxou a onda e ganhou o Grammy Award lá, debaixo do nariz das americanas. Não foi o primeiro, nem o único. A carreira de Astrud tinha tudo para ficar no primeiro disco, já que para Stan Getz, o cara que a acompanha em Garota de Ipanema, ela era apenas uma dona de casa… Não se sabe bem o que uma dona de casa estaria fazendo dentro de um estúdio, exceto para ser vítima de machismo. Já a cantora, seguiu em frente.

Dos dezenove álbuns que compõem a discografia da cantora, fora as participações como convidada em faixas de outros discos, pouquíssimo se ouviu dela no Brasil. Se foi difícil na era do disco físico, pelo menos agora podemos ter acesso a doce voz da cantora e compositora brasileira. Vale a pena ouvir. E vale a pena se perguntar: por que temos a mania de não valorizar nossos artistas, principalmente os que fazem sucesso no exterior? Aconteceu com Carmen Miranda, mas também é algo que acontece com Joyce Moreno, que canta mais no Japão do que aqui, na terrinha. O Trio Esperança, aquele da Jovem Guarda, gravou CDs incríveis na França e, por aqui, ninguém conhece esse trabalho. E por vamos nós e vão nossos artistas.

O triste é sermos levados pela indústria, impondo-nos gente medíocre, músicas de gosto para lá de duvidoso, mas com apelo fácil e, portanto, atingindo o público.  Um grande “sucesso” musical passa primeiro pelo pagamento de grana para que o “artista” apareça na televisão, sem mais nem menos, com espaço para apresentar duas, três, ou mais canções. Esses mesmos, que compram sucessos em “fábricas” onde um reduzido vocabulário incita ao álcool enquanto lamenta dores de corno. As cervejas adoram e patrocinam. Para que pensar, se beber é mais fácil?

Certamente essa gente de sucesso das grandes festas e feiras não é responsável pela nossa desatenção para com artistas nacionais que fazem carreira no estrangeiro. Com certeza não é problema que pare o país. Todavia, seria bom a gente se perguntar os motivos de idolatrarmos tanto os estrangeiros e, quando um dos nossos faz sucesso por lá, por aqui nem os iguais – aqui, estou explicitando os baianos – costumam aplaudir. Uma questão incômoda. Cantores e compositores baianos aclamam com justiça João Gilberto, mas colocam outros, como Astrud, num estranho limbo.

Lá se foi Astrud! Longe do Brasil. Aclamada pela mídia de todo o planeta, que fez questão de lembrar que a moça recebeu míseros 120,00 dólares pela gravação de Girl from Ipanema. O mínimo que o sindicato americano permitia a um profissional do setor. Todavia permanecerá lembrada pela primeira canção e por outras, como Fly me to the moon, Berimbau, A Certain Sadness, Ponteio e, entre dezenas de gravações competentes, uma deliciosa versão de A Banda, de Chico Buarque (Parade, na versão cantada pela cantora). Insisto: Vale a pena ouvir!

Stevie Wonder, lembrando velhas canções

Stevie Wonder lembra Antonio Carlos & Jocafi

Stevie Wonder, lembrando velhas canções
Stevie Wonder, lembrando velhas canções

Fui capturado pelo som de Stevie Wonder nesta madrugada e quebrei (Sem culpa!), a promessa de não ver o Rock in Rio via TV. Fazer o que; o cara é ótimo e, sacana, pegou-me pelo coração quando chamou uma de suas cantoras (Amigos, como o César, me alertaram: a moça é Aisha Morris, filha de Stevie) e atacou de “Garota de Ipanema”, com direito a improvisações de seus colegas instrumentistas. Um momento genial do encontro da música brasileira com o cantor e o grupo americano.

Stevie é velho conhecido de todos nós. A platéia canta junto, tranqüila e afinada, todos os grandes sucessos do astro. E o tempo vai e vem nas canções que são trilha de nossas vidas nesses cinqüenta anos de carreira desse artista. Ele transborda sinceridade quando diz que nos ama. Um amor antigo que começou lá atrás, quando Stevie Wonder cantou pela primeira vez no Brasil. Os jornais da época noticiaram que ele não queria voltar para os EUA, apaixonado que estava pelo nosso país.

É de lá, desse passado quase remoto, que Stevie Wonder resgatou um refrão, logo após “Garota de Ipanema”:

Você abusou

Tirou partido de mim abusou…

Não me restou alternativa exceto exclamar um sonoro palavrão; – Caramba! de onde ele tirou isso? A platéia foi na onda e repetiu o refrão, lindo, junto com a voz aguda de Stevie Wonder. Todavia os versos restantes, penso, ele esperava que a platéia cantasse; não rolou. Uma pena!

…Mas não faz mal,

é tão normal ter desamor

É tão cafona sofrer dor

Que eu já nem sei

se é meninice ou cafonice

O meu amor

Se o quadradismo dos meus versos

Vai de encontro aos intelectos

Que não usam o coração como expressão…

Foi lá, dos anos 70, que Stevie Wonder lembrou os versos de Antonio Carlos & Jocafi. Da música bonita que fez a cabeça de muita gente. Precisamente, nas férias de julho de 1971, eu não era o Tarzan, mas tinha uma namorada chamada Jane. E em um bailinho, onde tudo começou, conheci a garota (jamais esquecida, tinha uma semelhança com Barbra Streisand, sendo mais bonita que a cantora americana). Adivinha qual música dançamos de rosto e corpo coladinho?

…Que me perdoem

Se eu insisto nesse tema

Mas não sei fazer poema

Ou canção que fale de outra coisa

Que não seja o amor

Se o quadradismo dos meus versos

Vai de encontro…

Velho e bom Stevie Wonder, que além de todo o repertório fantástico que criou com suas composições – que continuarão atravessando gerações – ainda tem ouvidos para além, para as canções de outras terras, da nossa terra.

Quando ele começou os acordes de “Garota de Ipanema”, parei para ouvir o tratamento que daria ao grande sucesso de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. A interpretação foi digna do peso que essa música tem para todos nós. No entanto, ao entrar nos acordes de “Você Abusou”, o músico americano deixou claro que vai muito além da superfície, ouvindo nossas canções com o afeto que elas merecem.

Eu, só posso agradecer pela grata lembrança. Da música, de Antonio Carlos & Jocafi, dos meus 16 anos ao lado da loirinha Jane, que não abusou, mas que deixou ótimas lembranças. Vamos lembrar a canção?

Stevie terminou sua apresentação cantando com Janelle Monáe, uma nova paixão de muita gente. Três da madrugada…

Ouçam a canção, é bonita!

É  para lembrar; e tenham um bom final de semana!