O espírito da Copa baixando por aqui

Garrincha, o único “Mané”. Alegria do Povo.

Não tem pra ninguém. Daqui para a frente a prioridade e a estrela máxima passa a ser a Copa do Mundo. Tempo e espaço utilizados para a divulgação da escalação de Tite são os melhores indicadores de quem é que irá dominar o noticiário. Não adianta a atriz ajoelhar levantando aos céus imagem e preces a Nossa Senhora. Nem mesmo a presença de Lula no Egito. Nada hoje foi mais importante que os jogadores que tentarão o hexa.

Primeiro grande problema: Philippe Coutinho está no álbum, mas ficou de fora da escalação. Figurinha inútil tanto quanto o terceiro p incluso no nome, entra para a história dessa competição como o azarado que se machucou. Outros problemas virão e, a gente espera, nada tão desolador quanto morrer na praia. Que todos embarquem e partam em busca do primeiro lugar. Todos! Mas…

Sem polêmica não seria escalação para a Copa. Assim, é o que percebo, Daniel Alves passa a ser a escolha mais discutida do momento. Figurinha que esteve no álbum e ficou de fora em 2018, ele está com 39 anos e isso parece ser um problema seríssimo! Não tanto quanto o problema que são os 38 anos de Thiago Silva. Digo isso por terem questionado o Tite pelo primeiro, não pela convocação do zagueiro.  Thiago perdeu três Copas! E vai de novo!

Até parece que eu entendo de futebol. Não entendo “p.” nenhuma. Talvez por isso me seja fácil perceber que Galvão Bueno apostou na escalação de Roberto Firmino e o casal que o acompanhava no estúdio concordou com ele. Tipo se é para errar vamos com o chefe. Erraram. Eu senti falta do Gabigol. Do Flamengo foram escalados Everton Ribeiro e Pedro. Do Palmeiras, o Weverton.

Ao notar a escalação de Weverton, não deixei de notar outros nomes dignos de uma escalação do Stanislaw Ponte Preta: Militão e Paquetá. O Militão é o zagueiro que deveria estar como meio-campista, que é lugar ideal para militar um “avante povo rumo ao gol”. Já Paquetá (esse nome é o máximo!) deveria sair do meio campo e ficar como zagueiro. Um zagueiro “paquetá” atacante adversário…

Bom, reiterando, nosso noticiário fez com que a lista de Tite fosse mais importante que qualquer outra coisa no planeta. Vide os raros minutos dados ao COP 27, a Conferência do Clima da ONU. Também mereceram espaços menores a prisão do político estuprador de uma menor, a morte do assassino da Daniela Perez e o julgamento da pastora envolvida no assassinato do marido. No meio de tudo, o cara que acabou de perder as eleições deve estar comemorando a Copa, com esperança de que esqueçamos as listas de sigilos que nos foram impostas, ou que não continuaremos exigindo justiça em relação aos crimes cometidos durante a gestão ainda por terminar. Copa à parte, anistia jamais!

Para fechar o início da semana com o bom astral esportivo, presto homenagens para nossas duas campeãs mundiais: Rayssa Leal no skate e Rebeca Andrade na ginástica. Meninas feras! Quanto aos rapazes do futebol: ganhem! É o mínimo que nós, que ganhamos módicos salários, exigimos de quem ganha milhões. O que mais desejo é que nossos atletas, com os bolsos cheios do dinheiro europeu, enfiem um Hexa para a história da Seleção Brasileira.

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Notas:

Garrincha me faz parar para pensar em futebol enquanto arte e diversão. Optei por ilustrar esse texto com quem, entre poucos, que devemos reverenciar por todo o sempre.

Stanislaw Ponte Preta é pseudônimo de Sérgio Porto, grande cronista, jornalista e compositor brasileiro.

Uma personagem com o nome Paquetá apareceu também na Turma do Casseta. Um sujeito enorme armado com um porrete, sempre pronto a “acalmar” seus desafetos.

Últimos devaneios dos 62

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São Paulo está tipo assim…

Eu queria estar firme como o cabelo do Neymar, batizado pelo meu amigo Dema de Calopsita, mas estou fazendo 63 anos…  Neymar! Tai um cabelo impávido, intrépido, destemido. O moço esteve bonito, fisicamente, mas em se tratando de futebol eu tenho mesmo é saudade do Garrincha; e isso é mais um sinal do tempo, um tempo enorme que carrego nas costas.

Um empate minimizou a alegria barulhenta dos torcedores. Poucas buzinas, cornetas e similares que, agora têm outro nome. Senti falta de fogos de artifício. Os cachorros estão dominando o planeta e quem quiser que contrate outro animal para “cão de guarda”. Se os melhores amigos do homem ficam traumatizados com o foguetório, devem piorar com tiroteios.

Hoje vi, quase que por acaso, o estatuto do idoso… Foi quando me veio a ideia de olhar qual a expectativa de vida para o brasileiro. Estava interessado em saber quanto tempo me resta, coisa que, aos vinte e poucos jamais me passaria pela cabeça e aos trinta e poucos também não. Agora passa; paciência.

EM MINAS GERAIS OS APOSENTADOS NÃO RECEBEM SEU SALÁRIO! Assim mesmo, em caixa alta, pra chamar um pouco mais a atenção sobre milhares de profissionais que trabalharam décadas pensando em uma velhice tranquila. Tenho medo de me aposentar, posto que ao aposentado resta protesto. Greve, nesse caso, só se for de fome… O pior é não precisar de greve para passar fome.

Habituado ao convênio médico descobri, por acaso, que uma consulta ao “meu” dermatologista custa R$ 500,00.  Nem é para ficar com a pele do Neymar (Viram só que pele?). É o preço de uma consulta simples. Vou descobrir o preço do mesmo serviço de um urologista. Depois conto aqui.

Recebi dois avisos de que a Wanderléa apareceria no Faustão. Tenho pessoas queridas que sabem dos meus afetos artísticos. O cabelo da Wandeca é muito mais bonito do que o do Neymar e é tão artificial quanto. Ela é morena, como ele. Ambos têm fissura por cabelo loiro.

80% do pudim que ganhei já foi consumido.

Amanhã, dia do meu natalício, terei quase duas centenas de alunos fazendo exames.

Ontem, final de um capítulo da série O Ministério do Tempo, a moça pede ao rei que, com medo de morrer, pense em algo que o tenha deixado feliz. E o rei se lembrou de, quando criança, a mãe vindo arrumar cobertas, dar beijo de boa noite, fazendo um último afago. Pensei nas muitas vezes que minha mãe fez a mesma coisa comigo. Eu, um reles plebeu.

Hora de tomar uma sopa bem quentinha. Que vontade que tenho de, no inverno, morar no Piauí!

Ufa! 63 anos. Nossa Senhora das Frases Feitas que me ajude a ultrapassar esse momento mantendo a polidez necessária para a ocasião. Todavia, o que vem na cabeça são expressões costumeiras: – Segura a onda! Aguenta firme! Tenha fé! São essas as minhas intenções.

Tenho saudada de muitas coisas.

Até mais.

 

 

 

Drummond e a Copa do Mundo

drummond futebol

Mantenho-me tranquilo, ligeiramente distanciado da Copa do Mundo já que não tenho o hábito de perder a cabeça por um jogo de futebol. “Futebol se joga na alma”, diz a poesia de Drummond de Andrade e a minha prioriza outras coisas; entretanto há momentos em que me perco, como tranquilo cidadão, no emaranhado de uma partida. E afloram-me ódios desconhecidos por adversários momentâneos; ou então, conheço o divino êxtase provocado por um simples e mero gol.

O melhor de tudo o que vi e ouvi, até agora, sobre Copa do Mundo veio de Drummond de Andrade. A Companhia das Letras lançou “Quando é dia de Futebol”, uma coletânea de textos, poemas e crônicas de Carlos Drummond de Andrade publicadas ao longo de décadas no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil. Os textos foram selecionados pelos netos do poeta, Luis Maurício e Pedro Augusto Graña Drummond, cobrindo as Copas do Mundo de 1954 a 1986, esta a última testemunhada pelo escritor mineiro.

Drummond e futebol são temas emocionantes; entrelaçados resultam em livro delicioso por guardar grande distância do batido discurso esportivo para centrar no poético. Carlos Drummond de Andrade é o homem comum, o poeta, o intelectual que se deixa levar pela percepção na emoção popular provocada pelo futebol. É o indivíduo que se rende à graça de Garrincha, ou que torna-se súdito de Pelé. Também é o homem brasileiro, o Jeca Tatu libertado pela vitória obtida na Suécia, em 1958: “O futebol trouxe ao proletário urbano e rural a chave ao autoconhecimento, habilitando-o a uma ascensão a que o simples trabalho não dera ensejo”.

Arguto observador, o poeta emociona ao descrever torcidas, partidas, momentos que antecedem campeonatos, as consequências das vitórias, das derrotas. Cidadão do seu tempo, Drummond conta uma história do país via futebol;  tanto as artimanhas políticas dos extintos partidos ARENA e MDB buscando tirar proveito quanto, por exemplo, as transformações advindas com  a chegada da televisão colorida. Nas crônicas cotidianas, Drummond insere com delicadeza diferentes acontecimentos como a morte de Booker Pittman, deixando clara afeição pela filha do músico, a cantora Eliana Pittman, e uma vitória do Vasco.

Entre os textos mais incríveis deste livro quero destacar “Na estrada”, onde o poeta sintetiza a vida de Mané Garrincha, e outro, “Despedida”, escrito quando Pelé deixa a Seleção Brasileira. A argúcia do grande escritor expõe com maestria aspectos da vida dos craques que marcaram e permanecerão lendas na história do futebol brasileiro. Ao mesmo tempo em que Drummond emociona coloca os dois ídolos na condição do que são: homens, jovens atletas que nos deram grandes alegrias.

A Copa do Mundo está chegando. Há greves, discussões, muita gente contra. O país, parece, está vibrando com o evento. O que diria Drummond?  Não sei; tanto para quem é contra quanto para aqueles que aguardam ansiosamente quero concluir este texto com um período, contido na crônica “Celebremos”, escrita pelo poeta quando da nossa primeira vitória, em 1958: “Não se trata de esconder nossas carências, mas de mostrar como vêm sendo corrigidas, como se temperam com virtualidades que a educação irá desvendando, e de assinalar o avanço imenso que nossa gente vai alcançando na descoberta de si mesma.” Vale refletir.

Até mais.