A morte inesperada e dolorosa de Zé Celso nos entristeceu. O pessoal do Oficina, familiares e amigos trataram de realizar um ritual funerário digno do artista. A primeira coisa que me veio a cabeça foi querer um velório assim! Cheio de música e dança! A vontade não é inédita, posto que surgiu quando, adolescente, assisti ao filme O Enterro da Cafetina (Alberto Pieralisi, 1971). Um velório festivo para o retorno dessa longa viagem que é a vida.
Zé Celso caminhava sempre pelo bairro Bela Vista e o encontrei mais vezes no supermercado da Rua Pedroso do que no teatro. Sempre gentil e delicado, sorridente e atencioso para com as pessoas. Aparentemente discreto, nos detalhes é que se percebia o dionisíaco diretor e ator do Oficina, de quem comecei a ouvir falar desde aqui, de Uberaba, nas primeiras leituras sobre o teatro brasileiro. Os Pequenos Burgueses, O Rei da Vela! As Bacantes. Aí me mudei para São Paulo, onde o Teatro Oficina é parte do cotidiano da cidade e do pessoal de teatro.
No início dos anos 80, creio que exatamente em 82, o Teatro Oficina promoveu uma mostra com grupos da cidade e do grande São Paulo. Uzyna Uzona! De Santo André participou o Grupo Caroço, com Os Pintores. Texto e direção deste que vos escreve. Foi a única vez que estive profissionalmente no Oficina. Acanhado tabaréu, nunca tive a verve “louca, alucinada e criança” para explodir nos palcos de Zé Celso. Meu destino foi parar no território de outro Zé, o Antunes Filho.
Conheci o trabalho de Antunes Filho no palco ao ver a montagem de Esperando Godot. Logo depois, o diretor criou Macunaíma, um divisor no teatro nacional. Anos depois, 1984, fui trabalhar no CPT – Centro de Pesquisa Teatral, do Sesc, com o diretor a quem, para provocar, um colega chamava de Zezinho. José Alves Antunes Filho. Adaptei-me ao jeito do encenador disciplinado, mergulhado em livros e leitura. Foram tempos de profunda imersão no fazer teatro, quando Antunes me parecia o próprio Téspis na lendária expressão “Eu sou o Teatro!”.
Dois mestres do teatro. Dois nortes. Parecidos e diferentes. Em comum, a paixão pelo palco, este visto de modos absolutamente distintos e, por isso mesmo, enriquecedores. No que a linguagem expressa, e a interpretação me permite, esses dois indivíduos revelam modos de ser ao assumir a forma de ser identificados. Zé Celso Martinez Correa, o Zé Celso, cujo Zé denota irreverência, alegria, e José Alves Antunes Filho, o Antunes Filho denotando um distanciamento em favor do trabalho artístico, o ser exigente, uma de suas características.
Um imenso privilégio tê-los conhecido: O Zé Celso e o Antunes Filho. Dois homens e um teatro, o melhor teatro. Evoé!
Há 39 anos, através de um comentário crítico publicado em um jornal, Nei Rozeira entrava em minha vida com um texto simpático sobre a montagem “Era uma vez… aonde vamos?” que fiz com o Grupo Caroço. Encantado com tal trabalho, Nei nos abriu os braços, o coração e não demorou nada para abrir-nos também a própria casa, junto a seus familiares. Hoje, infelizmente, despeço-me e presto homenagem ao grande amigo.
Nei Rozeira. Fotos: acervo familiar.
Após uma apresentação da tal peça conheci o autor da crítica, Claudine, mas que preferia ser chamado Nei. Certamente foi essa a primeira confidência, seguida de comentários e causos advindos dos nomes que recebemos de nossos pais. Gentil e educado, Nei pediu autorização para filmar trechos do trabalho, o que aconteceu na sessão seguinte e, naquela mesma noite, fomos convidados para ver o resultado no apartamento que dividia com a mãe, D. Jacira, e a irmã, Sonia, em São Caetano do Sul.
Dessas coisas que acontecem por afinidades múltiplas, nos tornamos amigos. Grandes amigos! Era 1983 e fazia pouco que eu havia chegado de Minas. Eu pensava conhecer muito, embora já percebera não saber nada de São Paulo e suas peculiaridades nem sempre desfrutadas por distraídos ou mal informados. Tal qual irmão mais velho, Nei ensinou-me tudo o que lhe foi possível; encontramo-nos no amor pela música brasileira (ele amava Elis Regina!), pelo cinema, pelo teatro. E confirmamos nossa amizade nas descobertas e no amor por São Paulo.
Administrador atuando em multinacional, já com uma carreira profissional de sucesso, Nei vivia bem. Com generosidade, facilitava-nos a vida – sempre difícil para quem busca fazer arte neste país – com discrição e elegância. Dividindo um apartamento com mais três amigos, vivíamos tempos parcos. Com frequência Nei passava em casa e nos convidava para uma pizza, uma “ida ao japonês”. Eram noites de mesa farta!
Um dia ele manifestou a vontade de jantar estrogonofe com arroz branco, vinho também branco e, de sobremesa, doce de goiabada com catupiry. “Mamãe não anda muito bem, não está cozinhando, e eu gostaria de estrogonofe mesmo, não carne picadinha. Você sabe fazer?” Claro que sim, respondi disposto a usufruir de uma boa mesa. E combinamos para breve. Assim que ele saiu de casa liguei para minha irmã: “Como é que faz estrogonofe?”. A receita veio por carta, um ou dois dias depois, chegando na mesma data marcada para a comilança, com um detalhe que se constituiu em incógnita: Em dado momento seria necessário flambar, sem que houvesse a menor indicação do que seria isso. Nei chegou com todos os ingredientes e eu, receita decorada, não querendo manifestar minha ignorância: “Faço direitinho, mas não sei flambar”. “Poxa, Valdo!” Ele respondeu, “essa é a única parte que eu gosto de fazer, trouxe até o conhaque”. No momento certo, meu amigo tascou fogo na panela e a gente ficou em volta do fogão, feito crianças. Inteligente, certamente ele percebeu que era a primeira vez que cozinhava o tal prato. Elegante, não se manifestou.
Apaixonado por fotos, Nei tinha todo o material para montar um estúdio. No tal apartamento em que eu morava havia um banheiro desativado que, transformado, produziu inúmeras fotografias para todos os residentes e visitantes. Guardo inúmeras imagens desse período, grande parte são registros do trabalho teatral que realizava; outro tanto de paixões de ocasião. Com Beth, uma das moradoras, passávamos horas buscando melhor composição, detalhes de cada fotografia, tudo muito bem dividido dentro do pequeno espaço. As paredes cobertas de paixões do Nei, da Beth e minhas.
Há inúmeras outras histórias que dividimos, que vivenciamos. Nei era discreto e entre nossas afinidades sempre esteve o exercício do direito à vida privada. Desta, fico feliz em dividir o universo sobre o qual transitávamos. Através dele conheci Gore Vidal, James Baldwin e era dele o primeiro livro que li de Pasolini. Do meu lado dividi André Gide, Luchino Visconti, Nelson Rodrigues. Em nossos passeios, no carro intercalava-se Elis e Maria Bethânia, Chico Buarque e Vinícius de Moraes. E entre as preferidas dele guardo a lembrança de uma canção, de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, Mordaça:
… Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva…
Hoje, 14 de março de 2022, quem mora aqui no Bexiga, em São Paulo, viu o dia amanhecer ensolarado para, no final da manhã, cair uma chuva torrencial. O tempo foi meu cúmplice, solidário com minha tristeza ao saber da morte do meu amigo, ocorrida em julho do ano passado. Dessas ironias da vida, quando nos orgulhamos de estarmos conectados e, no entanto, deixamos de ver notícias que nos são fundamentais.
Felizes, em São Vicente.
Nosso último encontro, quando estivemos juntos em momento fugaz, ele esteve com Sonia prestigiando a apresentação do projeto Arte na Comunidade que fizemos em São Vicente, onde residia. Ele chegou junto com a irmã e desfrutamos juntos de pequenos e bons momentos. Meu amigo, manifestando os efeitos do tempo, ainda mantinha um intenso brilho no olhar, meu conhecido, dando-me a certeza de que nosso encontro estava sendo o que deveria ser. De amigos que se amam.
Adeus, Nei Rozeira. Sou profundamente grato por tudo o que vivemos, tudo o que fizemos. Um dia escrevi neste blog sobre você e, emocionado, você me disse que por amizades assim é que a vida vale a pena. E como vale! Obrigado, Nei. Quero terminar este com a frase que aprendi com sua mãe quando vocês se cumprimentavam e que sempre guardei com muito carinho:
Domingo de tempo duvidoso, quando houve sol, chuva, sol, templo nublado… Logo quando liguei o computador descobri que havia sido acarinhado pelo meu amigo Nei Rozeira com um vídeo sobre Minas Gerais. Convido a que deixem o som rolar enquanto leiam. O texto ficará melhor, garanto!
A música é deliciosa, a letra é pra fazer sonhar e as imagens, bem, as imagens que emergem em minha mente são outras. Bem outras. E a primeira, vem de há bastante tempo, quando Nei e eu estivemos em Uberaba, visitando minha família.
Com meu amigo Nei, em Uberaba. Tempo, tempo, tempo, tempo…
Nei Rozeira escrevia para um jornal interno da empresa onde trabalhava, em São Caetano do Sul, na década de 1980. Decidido a seguir carreira teatral após experiências em Uberaba e uma primeira montagem em Santo André, também no Grande ABC, foi em São Caetano a estréia do meu primeiro trabalho com o Grupo Caroço. Escrevi e dirigi uma peça chamada “Os Pintores” e foi Nei Rozeira o primeiro a escrever um texto crítico sobre um trabalho meu.
Nossa aproximação ocorreu através de um ator, que trabalhava na mesma empresa além de atuar na peça, e tornamo-nos amigos. Eu chegava de Minas e, de origem humilde, não tinha acesso ao universo em que meu novo amigo transitava. Pode parecer banal para a realidade atual, mas uma câmera de vídeo, por exemplo, era praticamente um objeto de outro mundo. Um mundo que era o do meu amigo. E nem sei se ele sabe o quanto significou, na minha vida, ter visto cenas daquela peça, filmadas por ele.
Pouco depois, com Wilson de Oliveira
Na tal peça havia a participação de um jovem ator de Uberaba, Wilson de Oliveira, o Licinho. Na foto acima, estamos na casa de meus pais e fomos fotografados pelo Nei. Vale citar este fato pela presença do meu novo amigo em Minas Gerais e pela vinda de um mineiro, o Licinho, mesmo que por pouco tempo, tentar viver em São Paulo. Licinho não ficou, voltou para Minas, para o seu lar e para formar um novo lar com Tânia; estão felizes. Fiquei e percebo, com toda a clareza, que Nei foi um, entre pessoas especiais, dos que contribuíram para que São Paulo se tornasse o meu lar.
Conheci a noite paulistana passeando com Nei, assim como aprendi a degustar a culinária japonesa e a fartar-me nas cantinas italianas. Fizemos incontáveis incursões pelo chamado Centro Velho, pela região da Paulista, visitamos cidades próximas. Uma das mais profundas amizades, daquelas em que o amigo é confundido com irmão; amizade em que tudo é confidenciado; que, em qualquer circunstância, os indivíduos fazem-se cúmplices.
Hoje Nei está no litoral e eu aqui em São Paulo. Tanto tempo depois, nos vemos menos do que gostaríamos, mas aprendemos a aceitar a vida com suas dificuldades, suas impossibilidades momentâneas. A foto que está acima, onde estou com meu amigo Nei, recuperei em Uberaba, junto a outras fotos, nos guardados de minha mãe. Família.
Estranhas coincidências; hoje de manhã peguei um texto de Agata Christie e, de cara, li o seguinte: “A vida em viagem é da essência do sonho. É algo fora do normal e, no entanto, faz parte da nossa vida. Pode acontecer algo aborrecido, tal como enjôo, a saudade de alguém que amamos.” Como se diz no cotidiano, essa frase “me pegou” e tornou-se mais forte quando vi o vídeo sobre minha querida Minas Gerais, enviado pelo super amigo de tantos anos.
Como mineiro, fiquei matutando sobre as razões de certos acontecimentos. Agata Christie, em suas memórias, afirma que “o lar só é lar quando regressamos”. A frase martelando na cabeça enquanto via as imagens enviadas pelo meu amigo, sobre um lar que ficou lá, em um tempo que torna-se nebuloso, distante e modificado pelas nossas limitações em fixar exatamente aquilo que vivemos.
É frequente creditarmos maravilhas ao passado; “e o lar só é lar quando regressamos”. E o regresso não precisa ser físico; pode ser via fotografias esmaecidas, amareladas; pode ocorrer na memória tendo uma canção como ponto de partida. O tempo é implacável e o lar que eu tive está desfalcado, assim como o lar de meu amigo Nei Rozeira também está. Não importa; temos a memória, temos o afeto, temos nossa grande amizade. Em comum temos um patrimônio incomensurável, com tudo o que representa para o coração brasileiro essas abstrações reais, denominadas São Paulo e Minas Gerais.