O lar só é lar quando regressamos

Domingo de tempo duvidoso, quando houve sol, chuva, sol, templo nublado… Logo quando liguei o computador descobri que havia sido acarinhado pelo meu amigo Nei Rozeira com um vídeo sobre Minas Gerais. Convido a que deixem o som rolar enquanto leiam. O texto ficará melhor, garanto!

A música é deliciosa, a letra é pra fazer sonhar e as imagens, bem, as imagens que emergem em minha mente são outras. Bem outras. E a primeira, vem de há bastante tempo, quando Nei e eu estivemos em Uberaba, visitando minha família.

Valdo Resende
Com meu amigo Nei, em Uberaba. Tempo, tempo, tempo, tempo...

Nei Rozeira escrevia para um jornal interno da empresa onde trabalhava, em São Caetano do Sul, na década de 1980. Decidido a seguir carreira teatral após experiências em Uberaba e uma primeira montagem em Santo André, também no Grande ABC, foi em São Caetano a estréia do meu primeiro trabalho com o Grupo Caroço. Escrevi e dirigi uma peça chamada “Os Pintores” e foi Nei Rozeira o primeiro a escrever um texto crítico sobre um trabalho meu.

Nossa aproximação ocorreu através de um ator, que trabalhava na mesma empresa além de atuar na peça, e tornamo-nos amigos. Eu chegava de Minas e, de origem humilde, não tinha acesso ao universo em que meu novo amigo transitava. Pode parecer banal para a realidade atual, mas uma câmera de vídeo, por exemplo, era praticamente um objeto de outro mundo. Um mundo que era o do meu amigo. E nem sei se ele sabe o quanto significou, na minha vida, ter visto cenas daquela peça, filmadas por ele.

Wilson de Oliveira
Pouco depois, com Wilson de Oliveira

Na tal peça havia a participação de um jovem ator de Uberaba, Wilson de Oliveira, o Licinho. Na foto acima, estamos na casa de meus pais e fomos fotografados pelo Nei. Vale citar este fato pela presença do meu novo amigo em Minas Gerais e pela vinda de um mineiro, o Licinho, mesmo que por pouco tempo, tentar viver em São Paulo. Licinho não ficou, voltou para Minas, para o seu lar e para formar um novo lar com Tânia; estão felizes. Fiquei e percebo, com toda a clareza, que Nei foi um, entre pessoas especiais, dos que contribuíram para que São Paulo se tornasse o meu lar.

Conheci a noite paulistana passeando com Nei, assim como aprendi a degustar a culinária japonesa e a fartar-me nas cantinas italianas. Fizemos incontáveis incursões pelo chamado Centro Velho, pela região da Paulista, visitamos cidades próximas. Uma das mais profundas amizades, daquelas em que o amigo é confundido com irmão; amizade em que tudo é confidenciado; que, em qualquer circunstância, os indivíduos fazem-se cúmplices.

Hoje Nei está no litoral e eu aqui em São Paulo. Tanto tempo depois, nos vemos menos do que gostaríamos, mas aprendemos a aceitar a vida com suas dificuldades, suas impossibilidades momentâneas. A foto que está acima, onde estou com meu amigo Nei, recuperei em Uberaba, junto a outras fotos, nos guardados de minha mãe. Família.

Estranhas coincidências; hoje de manhã peguei um texto de Agata Christie e, de cara, li o seguinte: “A vida em viagem é da essência do sonho. É algo fora do normal e, no entanto, faz parte da nossa vida. Pode acontecer algo aborrecido, tal como enjôo, a saudade de alguém que amamos.” Como se diz no cotidiano, essa frase “me pegou” e tornou-se mais forte quando vi o vídeo sobre minha querida Minas Gerais, enviado pelo super amigo de tantos anos.

Como mineiro, fiquei matutando sobre as razões de certos acontecimentos. Agata Christie, em suas memórias, afirma que “o lar só é lar quando regressamos”. A frase martelando na cabeça enquanto via as imagens enviadas pelo meu amigo, sobre um lar que ficou lá, em um tempo que torna-se nebuloso, distante e modificado pelas nossas limitações em fixar exatamente aquilo que vivemos.

É freqüente creditarmos maravilhas ao passado; “e o lar só é lar quando regressamos”. E o regresso não precisa ser físico; pode ser via fotografias esmaecidas, amareladas; pode ocorrer na memória tendo uma canção como ponto de partida. O tempo é implacável e o lar que eu tive está desfalcado, assim como o lar de meu amigo Nei Rozeira também está. Não importa; temos a memória, temos o afeto, temos nossa grande amizade. Em comum temos um patrimônio incomensurável, com tudo o que representa para o coração brasileiro essas abstrações reais, denominadas São Paulo e Minas Gerais.

… Poetas de doce memória

Valentes heróis imortais

Todos eles figuram na história

Do Brasil de Minas Gerais,

Oh, Minas Gerais,

Oh, Minas Gerais,

Quem te conhece

Não esquece jamais.

 

Bom feriado para todos!

18 comentários sobre “O lar só é lar quando regressamos

  1. Lisa Yoko

    È Valdo, seu lar agora é aqui e nós não abrimos mão de você, viu??? Visite Minas sempre pra pegar a energia boa da família, mas volte sempre para nós!!! Beijooos

  2. nei rozeira

    Querido Valdo, emocionou-me demais o teu texto. Ele “me pegou” de jeito, numa fase em que, deprimido fisica e emocionalmente, vinha me questionando se minha vida havia valido a pena. Você me deu a resposta: se eu consegui fazer amigos do seu porte, valeu muito a pena, sim. Até sempre.

  3. Walcenis

    Quanta saudade, Nei!
    De você…
    Do tempo que não volta mais.
    Do vazio deixado por entes queridos que já nos deixaram…
    Mas, eu não posso deixar de dizer que esta Minas Gerais é mais que MARAVILHOSA.
    Um grande abraço.

  4. nei rozeira

    Walcenis, minha linda. Põe saudades nisso. De você, claro. Da tua mãe, tua avó, teu pai. De Uberaba, que eu conhecí de raspão e foi o suficiente para me apaixonar. Quando ví esse vídeo foi impossível não me emocionar…
    Me escreva, vamos manter contato, por favor: nei.rozeira@globo.com
    Abração pra vc e para sua mãe…

    1. Walcenis

      Nei: Acho que você só não foi feliz ao usar a palavra “LINDA! rsrsrsrsrsrsr… O tempo mé crueeeeeelllll. kkkkkkkkkkkkkk

  5. Walcenis

    Oi Nei! Antes dos novos contatos, aproveito aqui a oportunidade para convidá-lo a retornar. Será um grande prazer recebê-lo novamente. só que com um porém: Uberaba está mais bonita, mais hospitaleira e mais digna para bem receber uma grande pessoa como você. Um grande beijo.

  6. fico fascinado com seus posts e sei que embora quase nao tenho idade ou mto do q se lembrar, me parece q mto ja vivi, tenho pessoas q nao vejo qto eu gostaria, e moro no abc desde q nasci!fui estudar na capital, longe de tudo e de todos q conhecia, e esse post me fez lembrar mtas coisas, e me deu mta vontade de escrever também sobre isso! nao tive tempo mas ainda quero comentar o post do swu, que fui segunda!morri de rir com sua primeira foto, ela é muito boa!

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