Não chamem o síndico, o trabalho é para o político.

O trabalho neste momento, sobretudo, é COLETIVO.
O trabalho neste momento, sobretudo, é COLETIVO.

A maior tarefa da reconstrução deste país começa com a renovação ou mesmo a reconstrução partidária. Minha avó já faleceu e a síndica do meu prédio tem as limitações da função; as duas não poderão conduzir a nação. Dirigir um país é trabalho para especialistas e se há inúmeras forças ameaçando conflitos, a especialidade vital é a política. E política não se faz sozinho, daí a necessidade de uma política partidária. Se não há nada de bom entre os partidos, que tal criar um novo?

Hoje, sábado, 22, acabo de passar pela Avenida Paulista. As manifestações continuam e presenciei, infelizmente, a intolerância de um pequeno grupo para com um cidadão portando camisa e bandeira de um partido político. As pessoas exibindo cartazes, faixas, indo para o meio da avenida com o sinal fechado. Voltando, reiniciavam a discussão com o representante do “pcnãoseideque”. O irônico da situação é que as pessoas brigando, entre outras coisas, pelo direito de manifestar-se querem impedir outras de manifestarem-se também.

O que mais me incomoda nas pessoas que são contra manifestações partidárias é o fato de raramente ver, pelas ruas e avenidas, pessoas com camisas do PMDB ou do PSDB.  Penso que todos esses eleitores estejam por todos os lugares já que esses estão entre os maiores partidos do país. No entanto, omitindo a própria opção partidária, um número considerável de indivíduos quer impedir que outros exibam a filiação partidária. Ser membro de um partido é direito garantido pela Constituição.

Antes que me cobrem uma posição partidária devo dizer que fiz parte de um grupo que buscou angariar assinaturas para legalizar o surgimento do Partido dos Trabalhadores. Participei, junto com o grupo de teatro que dirigia, de várias ações em São Bernardo do Campo, Santo André, Diadema, Mauá e São Caetano do Sul buscando adesões para a formação do partido. Depois que o PT foi fundado reservei-me o direito de atuar como cidadão e votar em quem achava que devia. O PT é o projeto da minha geração e fico feliz em ter contribuído minimamente para que houvesse mudança na história política desse país. Ao longo de todos esses anos encontrei políticos admiráveis e afirmo que merecem todo o respeito e consideração.

Essa canção, sempre atual, diz muito do que são os anseios da minha geração.

Corre solta a falsa premissa de que todo político é corrupto. Esta funciona bem para eximir o indivíduo de sua responsabilidade perante a comunidade e deixa aberto o caminho para outros tornarem concretos os próprios interesses. Ou mudamos a premissa da corrupção de todo político ou entregamos a direção do país para nossas avós, ou para a síndica; bom notar que pastores e padres não podem assumir, pois nada mais político e tendencioso que instituição religiosa…  Então, sendo assim, para quem iremos delegar a direção do país?

As manifestações destes dias estão aí com várias lições para serem digeridas, aprendidas. A gota que faltava caiu e as pessoas estão nas ruas, reivindicando direitos. Algumas lideranças se sobressairão neste momento; gente de esquerda, de direita ou de centro, de diferentes partidos e agremiações. Que venham! Acima de tudo merecerão respeito, pois todo aquele que se dispõe a trabalhar pelo bem coletivo merece consideração.

Para os jovens esse é um momento de grande aprendizado. Alguns sairão como verdadeiros representantes de grupos, comunidades. Outra geração, seguindo em frente, aprimorando e corrigindo os trabalhos anteriores. Pode ser que ocorra algum retrocesso, mas o caminho é para frente. E se o individualismo é egoísta, resta o coletivo, o grupo, o Partido. E se as pessoas não acreditam em nenhum dos atuais partidos que criem outros. O que não dá é passar a vida fazendo passeatas sem que se tenha algo ou alguém para concretizar desejos e anseios de toda a nossa gente.

Até mais!

O lar só é lar quando regressamos

Domingo de tempo duvidoso, quando houve sol, chuva, sol, templo nublado… Logo quando liguei o computador descobri que havia sido acarinhado pelo meu amigo Nei Rozeira com um vídeo sobre Minas Gerais. Convido a que deixem o som rolar enquanto leiam. O texto ficará melhor, garanto!

A música é deliciosa, a letra é pra fazer sonhar e as imagens, bem, as imagens que emergem em minha mente são outras. Bem outras. E a primeira, vem de há bastante tempo, quando Nei e eu estivemos em Uberaba, visitando minha família.

Valdo Resende
Com meu amigo Nei, em Uberaba. Tempo, tempo, tempo, tempo...

Nei Rozeira escrevia para um jornal interno da empresa onde trabalhava, em São Caetano do Sul, na década de 1980. Decidido a seguir carreira teatral após experiências em Uberaba e uma primeira montagem em Santo André, também no Grande ABC, foi em São Caetano a estréia do meu primeiro trabalho com o Grupo Caroço. Escrevi e dirigi uma peça chamada “Os Pintores” e foi Nei Rozeira o primeiro a escrever um texto crítico sobre um trabalho meu.

Nossa aproximação ocorreu através de um ator, que trabalhava na mesma empresa além de atuar na peça, e tornamo-nos amigos. Eu chegava de Minas e, de origem humilde, não tinha acesso ao universo em que meu novo amigo transitava. Pode parecer banal para a realidade atual, mas uma câmera de vídeo, por exemplo, era praticamente um objeto de outro mundo. Um mundo que era o do meu amigo. E nem sei se ele sabe o quanto significou, na minha vida, ter visto cenas daquela peça, filmadas por ele.

Wilson de Oliveira
Pouco depois, com Wilson de Oliveira

Na tal peça havia a participação de um jovem ator de Uberaba, Wilson de Oliveira, o Licinho. Na foto acima, estamos na casa de meus pais e fomos fotografados pelo Nei. Vale citar este fato pela presença do meu novo amigo em Minas Gerais e pela vinda de um mineiro, o Licinho, mesmo que por pouco tempo, tentar viver em São Paulo. Licinho não ficou, voltou para Minas, para o seu lar e para formar um novo lar com Tânia; estão felizes. Fiquei e percebo, com toda a clareza, que Nei foi um, entre pessoas especiais, dos que contribuíram para que São Paulo se tornasse o meu lar.

Conheci a noite paulistana passeando com Nei, assim como aprendi a degustar a culinária japonesa e a fartar-me nas cantinas italianas. Fizemos incontáveis incursões pelo chamado Centro Velho, pela região da Paulista, visitamos cidades próximas. Uma das mais profundas amizades, daquelas em que o amigo é confundido com irmão; amizade em que tudo é confidenciado; que, em qualquer circunstância, os indivíduos fazem-se cúmplices.

Hoje Nei está no litoral e eu aqui em São Paulo. Tanto tempo depois, nos vemos menos do que gostaríamos, mas aprendemos a aceitar a vida com suas dificuldades, suas impossibilidades momentâneas. A foto que está acima, onde estou com meu amigo Nei, recuperei em Uberaba, junto a outras fotos, nos guardados de minha mãe. Família.

Estranhas coincidências; hoje de manhã peguei um texto de Agata Christie e, de cara, li o seguinte: “A vida em viagem é da essência do sonho. É algo fora do normal e, no entanto, faz parte da nossa vida. Pode acontecer algo aborrecido, tal como enjôo, a saudade de alguém que amamos.” Como se diz no cotidiano, essa frase “me pegou” e tornou-se mais forte quando vi o vídeo sobre minha querida Minas Gerais, enviado pelo super amigo de tantos anos.

Como mineiro, fiquei matutando sobre as razões de certos acontecimentos. Agata Christie, em suas memórias, afirma que “o lar só é lar quando regressamos”. A frase martelando na cabeça enquanto via as imagens enviadas pelo meu amigo, sobre um lar que ficou lá, em um tempo que torna-se nebuloso, distante e modificado pelas nossas limitações em fixar exatamente aquilo que vivemos.

É freqüente creditarmos maravilhas ao passado; “e o lar só é lar quando regressamos”. E o regresso não precisa ser físico; pode ser via fotografias esmaecidas, amareladas; pode ocorrer na memória tendo uma canção como ponto de partida. O tempo é implacável e o lar que eu tive está desfalcado, assim como o lar de meu amigo Nei Rozeira também está. Não importa; temos a memória, temos o afeto, temos nossa grande amizade. Em comum temos um patrimônio incomensurável, com tudo o que representa para o coração brasileiro essas abstrações reais, denominadas São Paulo e Minas Gerais.

… Poetas de doce memória

Valentes heróis imortais

Todos eles figuram na história

Do Brasil de Minas Gerais,

Oh, Minas Gerais,

Oh, Minas Gerais,

Quem te conhece

Não esquece jamais.

 

Bom feriado para todos!

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