Um dia de domingo

Crochê por Walcenis V Rezende
A paz é sonho

Cedo aprendi que domingo era dia de descanso, de oração, de estar com amigos ou familiares. Também deveria ser um dia de refeições caprichadas, de sobremesas especiais e tardes preguiçosas diante da TV ou na sala de algum entre os cinemas da cidade. Quando mais jovem era o dia ideal para longas caminhadas, jornadas extensas pela zona rural da minha Uberaba.

Hoje acordei com a tenebrosa notícia de um rapaz ciclista que, atropelado, perdeu o braço. O braço, diz a notícia, ficou preso no carro do motorista que, abandonando o pobre ciclista fez uma parada para jogar o membro no córrego que passa no centro de uma avenida, no Ipiranga.

A lista de acontecimentos violentos é vasta; nem se resolveu a questão dos torcedores presos após a morte de um torcedor “rival”, na Bolívia, e já chegou a notícia de outros marmanjos que, após um jogo perdido, desceram o braço na equipe “do coração”. No Rio de Janeiro, também neste domingo, outro motorista atropelou duas pessoas. O cidadão dirigia uma Ferrari, símbolo de poder econômico. O mesmo poder que leva o filho do milionário a atropelar alguém e não sofrer conseqüências legais.

Não sei se o mundo piorou ao constatar que a violência tem assumido proporções lamentáveis. Tenho certeza de outras faces; por exemplo, a da violência como estética, passatempo, ou como solução. A cultura norte-americana fez da violência grandes espetáculos, consumidos fartamente em nossos cinemas e nos canais de TV. Na estética cinematográfica americana sobram tiros, mortes, carros destruídos, explosões que derrubam tanto prédios quanto cidades. Também de lá os grandes eventos, dito “esportivos”, onde atletas sobem ao ringue em lutas sangrentas.

Foi neste final de semana que vi cenas de uma luta; pouquíssimas cenas, já que mudo de canal quando vejo um sujeito arrancando sangue de outro, já caído no chão, e sendo aclamado como campeão. Podem fornecer quantos argumentos quiserem e sinto que será difícil, em pleno século XXI, alguém me convencer de que isso seja esporte saudável. No entanto, nós, seres humanos, estamos prontinhos a defender essa violência “institucionalizada”. A “nobre arte do boxe” é expressão para descrever um esporte onde uma cara quebrada é parte do jogo.

Sei que muitos estão prontos a defender o boxe, o cinema, tanto quanto as nossas novelas. Sim, nossas novelas também caminharam para uma inusitada violência. Sou noveleiro de final de semana; mesmo lecionando a noite consigo seguir uma ou outra novela e, nas sextas, sábados, vejo capítulos completos. No final da novela “Lado a Lado” fui surpreendido com duas inusitadas bofetadas desferidas pela personagem de Camila Pitanga, a mocinha, na vilã interpretada por Patrícia Pillar. A mocinha vivida pela bela Camila Pitanga desistiu de processar a vilã, mas a jovem resolveu no braço seus problemas com a adversária.

Não está distante a cena em que Luana Piovani (com ares de mocinha), espancou a vilãzinha interpretada por Bianca Bin em Guerra dos Sexos. Do “lado do bem”, as mocinhas de “Salve Jorge” também têm resolvido suas diferenças no braço. A violência dá audiência e a quantidade de pancadaria expõe a precariedade criativa dos autores de novela.

Nesta segunda-feira tomaremos café da manhã vendo e ouvindo sobre o moço que perdeu o braço. É quase certo que noticiarão algum roubo, um novo golpe e as brigas no futebol. Mostrarão cenas da briga de dois jogadores que culminou com a expulsão de um; dirão que é preciso acabar com a violência no futebol. Depois virão os programas de entretenimento; nesses, é hábito repetir cenas de pancadaria de novelas. E assim caminharemos, entre bofetões, assassinatos, atropelamentos, brigas, roubos, com a terrível impressão de que um domingo de paz entrou para a lista de utopias.

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Paz pra todo mundo!

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São Paulo! Comoção de minha vida…

São Paulo é a segunda cidade de milhões de pessoas que migraram, como eu, em busca de uma vida melhor. E, de “segunda cidade” passa a ser a primeira no coração de toda essa gente. Eu, pelo menos, não consigo pensar minha vida fora de São Paulo e sei de muitos migrantes que também pensam assim. É um sentimento às vezes carregado de culpa quando se coloca a cidade onde nascemos (Uberaba, meu amor!) em segundo plano.

Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia a chegada em São Paulo.
Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia São Paulo.

Foi complicado conhecer São Paulo, entender a cidade. Foi difícil aceitar que Santo André, São Caetano, fossem outras cidades. Todas próximas, sem fronteiras visíveis, sem os campos que separam as cidades da minha Minas Gerais. Os primeiros foram tempos de aventura, com dificuldades, descobertas estranhas: Uma mesma rua, por exemplo, a Rua Augusta, muda de nome quatro vezes! Tive, naquele período, algumas alegrias e muita saudade.

Augusta, 

Graças a Deus,

Entre você e a Angélica

Eu encontrei a Consolação

Que veio olhar por mim

E me deu a mão.

Meu primeiro endereço foi a Avenida Paulista. Contei minha chegada, detalhadamente aqui (é só clicar!). Estava perto da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, avenida por onde passo todos os dias já que moro em uma travessa da mesma. Todavia, naquela época, durante o dia eu procurava emprego e, entre uma caminhada e outra, ia conhecendo a cidade onde, um dia, havia sido turista.

Augusta, que saudade,

Você era vaidosa,

Que saudade,

E gastava o meu dinheiro

Que saudade,

Com roupas importadas

E outras bobagens.

O primeiro trabalho foi em uma empresa que fica na Rua Abdo Chaim, uma paralela da Rua 25 de Março. Desde então mantive minha definição para o que via por lá: a imensa capacidade humana de criar objetos obsoletos. De dia trabalhava como auditor. Saia da empresa sempre correndo – aprendi rapidamente a andar como paulistano, às pressas! – para ir ensaiar peças teatrais. Nos finais de semana cantava em botecos. Foi em uma tarde, no trabalho, que ouvi pelo rádio, sem acreditar, que Elis Regina estava morta.

Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post
Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post

Bom ser jovem. Eu vivia comendo salgados feito por chineses, descobri o pastel de feira, o caldo de cana, milho verde em cumbuca, e, volta e meia, tomava refeição dentro de um vagão lotado do trem suburbano. Via grandes ratos transitando pelo parque D. Pedro e presenciei três assaltos em um único momento, na fila aguardando o ônibus. Dormia três, quatro horas por noite, alimentando-me mal, valendo-me da saúde obtida na vida tranquila de Uberaba.

Angélica, que maldade

Você sempre me deu bolo,

Que maldade,

E até andava com a roupa,

Que maldade,

Cheirando a consultório médico,

Angélica.

Meu primeiro apartamento ficava “nos fundos” do Mosteiro de São Bento. Tinha todas as horas marcadas pelos sinos, com uma musicalidade sóbria, grave e, simultaneamente suave. Minhas sessões religiosas aconteciam ao som do canto gregoriano dos frades beneditinos. Após grandes viravoltas, o segundo apartamento foi no bairro da Liberdade, onde aprendi a gostar de sushi, temaki, sashimi entre tantas outras comidas japonesas.

Antes de parar na Bela Vista contabilizei mais moradias que anos de vida. Vila Mariana, Higienópolis, Ipiranga, Cerqueira César… Fui atropelado, fui assaltado… Um batismo no folclore da grande metrópole.

Quando eu vi

Que o Largo dos Aflitos

Não era bastante largo

Pra caber minha aflição,

Eu fui morar na Estação da Luz,

Porque estava tudo escuro

Dentro do meu coração.

Das lembranças todas suscitadas em datas como a do aniversário da cidade, gosto de comemorar a imensa galeria de amigos. De todos os matizes, raças, origens… De agradecer pela carreira profissional múltipla, a cidade permitindo-me realizações concretas no magistério, no teatro, no jornalismo, nas artes plásticas, nas letras…

Quantas histórias similares a esta. Quantos milhões de pessoas beneficiadas pela graça do Santo, São Paulo, que nunca castigou-me por ser Palmeirense. Há mais de 30 anos por aqui, trago Uberaba no meu peito; sou Minas Gerais. Jamais abdicarei disso por crer que esta é uma condição essencial para perceber e agradecer aos céus tudo o que,como migrante, tenho recebido em São Paulo. Dia 25 sempre foi, no meu entendimento, dia pra comemorar e agradecer.

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Parabéns, minha capital querida!

Obrigado, São Paulo!

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Notas:

1 – O título deste post é o primeiro verso do poema “Inspiração”, de MÁRIO DE ANDRADE in Paulicéia Desvairada.

2 – Os versos que intercalam o texto são da música de TOM ZÉ (Augusta, Angélica e Consolação), onde o compositor sintetiza a alma de três, das principais avenidas da capital. Para ouvir a canção, clique aqui.

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