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Avenida Paulista e a imagem concreta da mega cidade

Quem leu meu texto publicado ontem sabe da minha paixão pela Avenida Paulista. Quero registrar outros aspectos, não tão charmosos, mas que são bem humanos. Aqui vai minha segunda contribuição para a história da Paulista:

Imaginem um mineirinho de Uberaba chegando para morar em São Paulo. Poderia ser mais um pau-de-arara, mas (“-Sorry, Periferia”, diria Ibrahim Sued!), o cidadão tinha endereço certo e este era a principal avenida da cidade. Tudo bem que era uma pensão… Sim, caros leitores, uma pensão clandestina, já que a proprietária não era a dona do imóvel e não poderia sublocar o espaço. Todos os que dividiam aquele endereço diziam-se sobrinhos da simpática senhora; era uma regra da casa. O porteiro e o síndico recebiam propina para engolir toda aquela numerosa parentela.

Dona “Con” não gostava de ser chamada Conceição, muito menos “Concinha”. Era uma empreendedora, uma batalhadora que sustentava filhas e filhos bonitos. Segundo ela, assim que as crianças nasceram passou a massagear-lhes o nariz e afirmava convicta que tinha modelado à mão as belas narinas de toda a prole. O garoto dizia-se modelo e logo fiquei sabendo, por vias tortas, que prestava favores sexuais para quem aceitasse o preço. Aliás, vias tortas eram coisas comuns na tal pensão.

Durante a semana, na hora do almoço, a pensão da D. Con transformava-se em restaurante. Claro, também este era clandestino. Uma bela moça era tratada com a deferência de modelo internacional, com direito a garrafa de água mineral exclusiva e saladas, muitas saladas para manter o corpo nas medidas da moda.  Ela chegava antipática, sem olhar para ninguém, como se estivesse entrando em um dos sofisticados restaurantes da vizinha Alameda Santos. E por ser muito chata ninguém nunca contou à cidadã que D. Con abastecia a exclusiva garrafa de água com a torneira da pia da cozinha, sempre justificando: – Ela é muito metida!

Permanecia quieto, no meu canto, ainda descobrindo a cidade. Dividia o quarto com outros marmanjos; minha memória, seletiva ao extremo, não guardou o nome nem as feições de nenhum deles. Havia garantido meu lugar na parte superior de um beliche e, graças a isto, nunca fui atingido pelo vômito do cidadão da cama inferior. Ele chegava invariavelmente bêbado e quando despejava o excesso no próprio quarto a noite se alongava. Dona Con rogava todas as pragas possíveis para o cidadão.

Éramos vizinhos da casa noturna de Oswaldo Sargentelli, com suas mulatas estonteantes que faziam a alegria dos olhos de todos nós. Outro colega de quarto gabava-se de namorar uma morena de coxas descomunais e quadris malemolentes. Raramente ele ocupava a própria cama.  Lembro-me dele gargalhando quando, voltando da peregrinação à cata de emprego, cheguei assustado após presenciar um assalto na esquina que a Paulista faz com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima. “- Mineirinho, você ainda não viu nada!”

Realmente eu nunca tinha visto assalto a mão armada. Também não sabia de rapazes que vendiam o corpo, nem de donas de pensão que enganavam hóspedes até com água! Ela, D. Con, sempre foi simpática comigo. Dessas coincidências que exotéricos adoram, a mulher havia sido dona de outra pensão, em Campinas, no interior de São Paulo, na Avenida Orozimbo Maia. Lá se hospedou meu irmão, então um jovem e comportado cidadão. Ele fez a fama da família e sendo boa gente, no conceito de Dona Con, eu também era. Mesmo tratado com deferência, ficava quieto no meu canto, tentando entender, tentando digerir a cidade.

Tive todos os contratempos, muitos estranhamentos; todavia nada se equiparou ao susto inicial. O mineirinho de Uberaba chegava para morar em uma pensão na Avenida Paulista, símbolo da renovação paulistana, da incrível capacidade da cidade em se reinventar. Havia descoberto a pensão através de meu primo Beto, que veio de Campinas para trabalhar aqui. Era uma sexta-feira de 1979. A idéia era chegar nesse dia, ter tranqüilidade no final de semana para conhecer a região, comprar o jornal de domingo, selecionar vagas e sair, já na segunda, procurando emprego.

Beto não estava na pensão. Estranhei o fato, mais ainda quando a dona da pensão me perguntou se eu tinha lugar para ficar, pelo menos até a segunda-feira seguinte: “ – Então, houve uma discussão entre dois hóspedes, colegas de quarto de vocês. Eles acharam que seu primo estivesse dormindo. Na discussão um acusou o outro de ladrão; este revidou, dizendo que pelo menos não estava sendo procurado por assassinato.”

Meu primo e eu teríamos um ladrão e um assassino como companheiros de quarto. Alertada, a dona da pensão sugeriu para que Beto fosse para Campinas, durante o final de semana. Eu, nem entraria na pensão, assim, nem conheceria os “moços de fino trato”. Deixei minha mala no local e tomei o rumo de Santo André, no ABC. A dona da pensão apelou para seus contatos e a polícia fez seu trabalho, livrando a simpática Dona Con dos hóspedes indesejáveis.

Foi assim, como em outras oportunidades que a vida me propiciou, que percebi a realidade além do que é aparente. A Avenida Paulista é bela e hoje, tanto tempo depois, ainda tem porte majestoso. Vai saber o que acontece por lá, em suas pensões clandestinas; quem são realmente seus moradores, o que escondem sob as roupas de grife, a maquiagem bem feita.  Logo depois saí da pensão e passado algum tempo, voltei a morar na Avenida Paulista. A história foi totalmente outra…