A última loja e um engenheiro

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“Convite Para Ouvir Maysa” Derradeira aquisição.

Os cartazes anunciavam liquidação total; tudo com 50% de desconto! A loja chamando a atenção de poucos consumidores e o fim, melancólico, provocou-me angústia, desalento. Na Avenida Paulista, quase esquina com a Avenida Brigadeiro Luis Antonio, ocorre os momentos finais de uma loja de discos. Não posso precisar a quanto tempo era a única, posto que os tais produtos, além da solitária portinhola, só são encontrados em seções também decadentes de grandes lojas.

Mudanças são inevitáveis. Sem que eu percebesse as máquinas de escrever desapareceram do mercado e, da mesma forma, os discos 78rpm foram embora, assim como os Compactos, os Compactos Duplos, os LPs…  Todavia, a lojinha da Paulista estava ali, guerreira, enfrentando com galhardia as possibilidades do ciberespaço. Eu compro CDs como quem comprava, um dia, os discos de vinil. Tenho quase certeza que após “desaparecerem” das lojas voltarão como objetos Cult, caríssimos, como são agora os velhos conhecidos LPs. A constatação dos últimos dias da loja me deixou triste; mais uma perda entre as tantas deste ano e o medo de vir a me sentir mais deslocado, envelhecido… “- Meu tempo passou?”.

Final da tarde, a lembrança do fim da loja estava presente sobre a mesa, com a caixa de discos de Maysa adquirida no local. Fui em frente (isso significou ir ao “sacolão”, supermercado, açougue…) e eis que reencontro antigo porteiro que trabalhou durante muitos anos no condomínio em que moro. Aquele papo de final de ano, mais a soma de quem não se vê há tempos e constatamos que já se foram mais de dez anos que ele foi trabalhar em outro lugar.

O rapaz (dou-me o direito de preservar a identidade) era curioso e vivia consertando coisas. Orgulhava-se de mexer em rádios, telefones, chuveiros e tudo quanto é coisa, sempre se apresentando como vitorioso ao mostrar o objeto funcionando por suas artimanhas artesanais. Um pai de família, aqui era porteiro no período noturno e, durante o dia, somava outro trabalho para garantir melhor vida para os filhos.

Nosso porteiro tinha umas coisas típicas das pessoas simples. Por exemplo, ele acreditava piamente que a ligação dele excluiria um desafeto BBB. Eu voltava da faculdade e ele, com a expressão mais séria do mundo me dizia: “- Sr. Valdo, hoje tiro o fulano. Ele vai ver se amanhã está ou não no olho da rua. Acabou!” No dia seguinte, antes de abrir a porta me dizia, por entre vidraças: “- Eu não disse! Botei ele pra fora.” Um dia retruquei: “- Não foi só você” E ele, com a alegria daqueles que descobrem pontos comuns em amigos: “- Então o senhor também votou?”.

No açougue ele foi atendido antes, comprando dois tipos de carne, visivelmente feliz. Continuando o papo perguntei das crianças; dez anos passados, seriam dois jovens. “- Pois então, Sr. Valdo, meu menino tá chegando de Campinas. Estuda na Unicamp. Está fazendo engenharia. Uma dessas engenharias em que ele poderá trabalhar em quase tudo!” As carnes eram pra comemorar a chegada do moço, com um jantar mais caprichado. “– Que maravilha, meu amigo, na Unicamp!” E ele, orgulhoso: “-Pois então! Não teve pra playboy. Meu menino foi lá e conseguiu. A gente dá um duro lascado pra manter ele longe, mas vai valer a pena”.

Mudanças no mundo tais como o desaparecimento das lojas de CDs. Mudanças no nosso país onde, por múltiplas razões, o garoto humilde consegue vaga em uma universidade de ponta, entre as melhores do país. Eu poderia continuar o papo e ir além, assinalando mudanças políticas e sociais que permitiram tal fato. Bobagem. Seria invadir a vida de alguém que só estava interessado em comemorar a volta do filho com um jantarzinho caprichado.

Adeus loja de CD da Paulista. Boa sorte, futuro engenheiro, filho do meu amigo! A vida segue. Cacarecos vão e voltam, ou são definitivamente substituídos. O melhor de tudo, em um país tão desigual quanto o nosso, é ver que devagar e sempre haverá alguém subvertendo o destino – ou o sistema – para trilhar oportunidades de melhores chances.

Até mais!

Estamos longe de parar

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Após uma caminhada de mais de seis quilômetros eu gostaria de poder dizer que está tudo bem. Andei devagar (porque já tive pressa, diz a canção!) e falando muito pouco. Embora cada vez mais afeito ao silêncio, gostei do som de palavras de ordem, de apitos, do barulho de gente que acima de tudo celebra a liberdade de poder dizer o que pensa. Mesmo com dezenas de carros da polícia na retaguarda; e outro tanto de motocicletas da corporação nas beiras…

Antes, entrei na Avenida Paulista na mesma hora em que uma longa fila de viaturas policiais avançava lentamente, luzes vermelhas piscando e ocupantes ameaçadores que – no nosso país – continuam olhando a população como inimiga. (Chame o ladrão! Chame o ladrão! Diz outra velha canção!). Alguns transeuntes armados de celulares registravam o cortejo armado e na frente, bem na frente daqueles que não foram chamados alcancei milhares e milhares de pessoas.

Por vários instantes me perguntei sobre as reais intenções de cada caminhante, em nome de que, de quem, de qual partido gritavam pelas avenidas; em quem votariam nas possíveis “diretas já”? Quais, quantos nomes constariam para livre escolha? Naquele momento, me parece, o mais importante foi dizer ao “desafeto mor” que são mais, muito mais que quarenta os insatisfeitos com o rumo das coisas.

Na sexta-feira, dia 2, li que o Senado, após o impeachment, passou a considerar legítimo o que na semana passada era crime. Na quarta-feira anterior uma estudante, “atingida por estilhaços de bomba de efeito moral” perdeu o olho durante protesto contra o governo. Dois exemplos da situação em que estamos. Duas situações entre as tantas que merecem caminhadas, palavras de ordem e a luta por um país descente, civilizado.

“Vai caminhante, antes do dia nascer”, terceira canção (Os Mutantes, estão lembrados?)! E assim,  por ter saído antes da noite avançar não sofri o ataque violento da polícia. Antes de chegar ao Largo da Batata manifestei receio aos que estavam comigo. Trechos inteiros mal iluminados – apagaram as luzes públicas? – e no final da passeata, grande número já debandando, o que ocorreria? Noite de domingo:  A grande mídia ignorou ou deu sua “versão dos fatos”…

Segunda-feira, dia 5. “Tudo ainda é tal e qual e, no entanto, nada é igual”… Quarta canção.  Ontem, milhares de pessoas, em todo o nosso país, deixaram bem nítido que continuarão, que a luta segue, que estamos longe de parar. Por um país melhor caminharemos outros seis, dez quilômetros. Até que fiquemos minimamente bem.

Até mais!

Obs 1. As canções referenciadas neste texto são, respectivamente: Tocando em Frente – Almir Satter e Renato Teixeira ; Acorda amor – Leonel Paiva e Julinho da Adelaide {Chico Buarque}; Caminhante Noturno – Arnaldo Baptista e Rita Lee; Os Mais Doces Bárbaros – Caetano Veloso.

Obs 2.Para a foto acima, a legenda óbvia: E o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão. (Sonho Impossível – Versão de Chico Buarque).

Passeios e livros… de quem?

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Maria Bethânia – foto divulgação.

Domingo passado fui, pela primeira vez, caminhar na Avenida Paulista. Estava cheio de gente, contrariando o político que fotografou o local em dia de chuva. Um passeio simples, barato e que humaniza a região.

Para quem não é de São Paulo: a prefeitura municipal, após criar espaços específicos para ciclistas na Avenida Paulista, resolveu suspender o tráfego de veículos no local durante os domingos. Celeumas à parte, o morador da região agradece. E, parece, também estão contentes muitos habitantes de toda a cidade e os turistas, interessados em visitar o Masp, o Instituto Cultural Itaú, entre outras atrações disponíveis na Paulista. Todo mundo pode passear por lá passeiam com filhos e animais de estimação.

Lanchonetes e restaurantes estão cheios, mesmo com os preços altíssimos. O entra e sai dos shoppings é intenso e eu me dei conta que ainda não entrei no mais recente templo do consumo da Paulista. Passando pelo local recordei o palacete dos Matarazzo, Maysa e toda uma São Paulo que só a história conta. Meu consumo é outro e, aproveitando o momento, fui atrás de livrarias…

Dois dos mais celebrados locais de comércio de livros, a Livraria Cultura e a FNAC estavam movimentados e em ambos uma frustração. Os atendentes com quem falei desconhecem que Maria Bethânia lançou um Caderno de Poesias. Você solicita e os atendentes, que parecem não distinguir Bethânia de Anitta voltam com um DVD em mãos. “– Querido, te pedi o livro, não o DVD!” Resumo da ópera: As duas livrarias mais concorridas da Avenida Paulista não têm o livro de Bethânia para vender.

Maria Bethânia tem alguns milhões de fãs, um público fiel que frequenta seus shows além de comprar CDs e DVDs. Os profissionais de compra das livrarias citadas não sabem disso? Se tais empresas deixam de oferecer um livro elaborado por uma cantora reconhecida internacionalmente pela divulgação da poesia em língua portuguesa, o que pode esperar um autor desconhecido como este, aqui, redigindo este texto?

CAPA OFICIAL baixa

Com muito trabalho consegui disponibilizar “Dois Meninos – Limbo” em algumas livrarias (Saraiva e Martins Fontes). Infelizmente já recebi reclamações de pessoas que foram procurar o romance nesses locais e vendedores disseram que não havia tal livro… Fiquei irritado, quis brigar, mas neste domingo, na verdade, achei graça e saí rindo pela avenida, imaginando Maria Bethânia entrar na Cultura e encontrar o rapaz com expressão de imbecil, questionando a cantora: – livro de quem, mesmo?

Até mais!

Observações:

 

1 – O livro “Caderno de Poesias” de Maria Bethânia é parte da comemoração dos 50 anos de carreira da cantora; contém textos da própria e outros, escolhidos e interpretados em shows por todo o Brasil e no exterior.

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Entre os autores selecionados por Bethânia estão Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e Castro Alves. O lançamento é da editora UFMG.

2- Passeio virtual: O blog está de cara nova. Além dos posts habituais, outras páginas estão disponíveis. Faça um tour e deixe sua opinião. Muito obrigado. Valdo Resende.

Livraria, livro, lançamento… Fazendo fé no número três!

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Dia 13 de dezembro será meu terceiro lançamento na Livraria Martins Fontes, da Avenida Paulista, 509. Espero que seja apenas mais um momento de uma longa história.

Tudo começou em setembro de 2009. Foi quando lançamos ALTEREGO, uma coletânea de contos organizada por Octavio Cariello. A proposta, eixo que unifica todas as narrativas, era criar personagens que, em determinadas circunstâncias, assumiam outra personalidade. Foi minha estreia em livro pela Terracota Editora. A Martins Fontes ficou lotada de gente e comemoramos mais de duas centenas de exemplares vendidos.

Novo momento na Livraria, o segundo, foi com “UM PROFISSIONAL PARA 2020”. Também em setembro, mas do ano de 2012. Tive a honra de organizar essa outra coletânea, pela B4 Editores, o que me favoreceu conviver mais intensamente com vários colegas, professores universitários. O livro tem foco nos futuros profissionais de propaganda, marketing, publicidade e áreas correlatas dessas disciplinas, componentes de cursos onde ministramos aulas.

De novo a Martins Fontes. Acaso, destino, sorte, mera coincidência… O fato é que estou “em casa” e assim fico fortalecido para enfrentar minha primeira “individual”. As aspas denunciam a presença de Octavio Cariello, organizador do ALTEREGO, agora também autor do prefácio do meu romance  “Dois meninos – Limbo”. Além do Cariello, há alguns companheiros do “UM PROFISSIONAL PARA 2020”, colaborando na produção e viabilização do livro.

Três livros, três lançamentos, dia 13,(tem um três aqui!) no lançamento de “DOIS MENINOS – LIMBO” (novamente três palavras). Aprendi com minha irmã caçula. Vou fazer fé e arriscar uma graninha no jogo do bicho; será, no mínimo, uma boa distração enquanto aguardarei todos os convidados para mais um momento feliz na Livraria Martins Fontes (Eita! De novo três palavras).

Até!

São Paulo! Comoção de minha vida…

São Paulo é a segunda cidade de milhões de pessoas que migraram, como eu, em busca de uma vida melhor. E, de “segunda cidade” passa a ser a primeira no coração de toda essa gente. Eu, pelo menos, não consigo pensar minha vida fora de São Paulo e sei de muitos migrantes que também pensam assim. É um sentimento às vezes carregado de culpa quando se coloca a cidade onde nascemos (Uberaba, meu amor!) em segundo plano.

Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia a chegada em São Paulo.
Pra quem vem do Triangulo Mineiro, o Pico do Jaraguá anuncia São Paulo.

Foi complicado conhecer São Paulo, entender a cidade. Foi difícil aceitar que Santo André, São Caetano, fossem outras cidades. Todas próximas, sem fronteiras visíveis, sem os campos que separam as cidades da minha Minas Gerais. Os primeiros foram tempos de aventura, com dificuldades, descobertas estranhas: Uma mesma rua, por exemplo, a Rua Augusta, muda de nome quatro vezes! Tive, naquele período, algumas alegrias e muita saudade.

Augusta, 

Graças a Deus,

Entre você e a Angélica

Eu encontrei a Consolação

Que veio olhar por mim

E me deu a mão.

Meu primeiro endereço foi a Avenida Paulista. Contei minha chegada, detalhadamente aqui (é só clicar!). Estava perto da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, avenida por onde passo todos os dias já que moro em uma travessa da mesma. Todavia, naquela época, durante o dia eu procurava emprego e, entre uma caminhada e outra, ia conhecendo a cidade onde, um dia, havia sido turista.

Augusta, que saudade,

Você era vaidosa,

Que saudade,

E gastava o meu dinheiro

Que saudade,

Com roupas importadas

E outras bobagens.

O primeiro trabalho foi em uma empresa que fica na Rua Abdo Chaim, uma paralela da Rua 25 de Março. Desde então mantive minha definição para o que via por lá: a imensa capacidade humana de criar objetos obsoletos. De dia trabalhava como auditor. Saia da empresa sempre correndo – aprendi rapidamente a andar como paulistano, às pressas! – para ir ensaiar peças teatrais. Nos finais de semana cantava em botecos. Foi em uma tarde, no trabalho, que ouvi pelo rádio, sem acreditar, que Elis Regina estava morta.

Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post
Tom Zé, migrante apaixonado por São Paulo, autor dos versos que colocam poesia neste post

Bom ser jovem. Eu vivia comendo salgados feito por chineses, descobri o pastel de feira, o caldo de cana, milho verde em cumbuca, e, volta e meia, tomava refeição dentro de um vagão lotado do trem suburbano. Via grandes ratos transitando pelo parque D. Pedro e presenciei três assaltos em um único momento, na fila aguardando o ônibus. Dormia três, quatro horas por noite, alimentando-me mal, valendo-me da saúde obtida na vida tranquila de Uberaba.

Angélica, que maldade

Você sempre me deu bolo,

Que maldade,

E até andava com a roupa,

Que maldade,

Cheirando a consultório médico,

Angélica.

Meu primeiro apartamento ficava “nos fundos” do Mosteiro de São Bento. Tinha todas as horas marcadas pelos sinos, com uma musicalidade sóbria, grave e, simultaneamente suave. Minhas sessões religiosas aconteciam ao som do canto gregoriano dos frades beneditinos. Após grandes viravoltas, o segundo apartamento foi no bairro da Liberdade, onde aprendi a gostar de sushi, temaki, sashimi entre tantas outras comidas japonesas.

Antes de parar na Bela Vista contabilizei mais moradias que anos de vida. Vila Mariana, Higienópolis, Ipiranga, Cerqueira César… Fui atropelado, fui assaltado… Um batismo no folclore da grande metrópole.

Quando eu vi

Que o Largo dos Aflitos

Não era bastante largo

Pra caber minha aflição,

Eu fui morar na Estação da Luz,

Porque estava tudo escuro

Dentro do meu coração.

Das lembranças todas suscitadas em datas como a do aniversário da cidade, gosto de comemorar a imensa galeria de amigos. De todos os matizes, raças, origens… De agradecer pela carreira profissional múltipla, a cidade permitindo-me realizações concretas no magistério, no teatro, no jornalismo, nas artes plásticas, nas letras…

Quantas histórias similares a esta. Quantos milhões de pessoas beneficiadas pela graça do Santo, São Paulo, que nunca castigou-me por ser Palmeirense. Há mais de 30 anos por aqui, trago Uberaba no meu peito; sou Minas Gerais. Jamais abdicarei disso por crer que esta é uma condição essencial para perceber e agradecer aos céus tudo o que,como migrante, tenho recebido em São Paulo. Dia 25 sempre foi, no meu entendimento, dia pra comemorar e agradecer.

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Parabéns, minha capital querida!

Obrigado, São Paulo!

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Notas:

1 – O título deste post é o primeiro verso do poema “Inspiração”, de MÁRIO DE ANDRADE in Paulicéia Desvairada.

2 – Os versos que intercalam o texto são da música de TOM ZÉ (Augusta, Angélica e Consolação), onde o compositor sintetiza a alma de três, das principais avenidas da capital. Para ouvir a canção, clique aqui.

A cidade é do ser humano

Foi rápido; sem bicicleta, sem lenço e com documento, participei da pedalada nacional, ou “bicicletada” nacional, ou ainda como prefiro, um ato de protesto pela morte de ciclistas em nosso país. Primeiro, quero celebrar a liberdade de poder dizer publicamente, enfaticamente, que não aceito, não compactuo e não posso tolerar atropelamentos de ciclistas, pedestres ou de quem quer que seja.

Passei mais cedo pela Avenida Paulista; na altura de onde ocorreu o atropelamento da bióloga Juliana Dias pude ver uma bicicleta com placas, flores, velas. Os objetos, lembrança de morte, estavam postos como outros, encontrados em estradas de todo o país. Pensei na perda que a família chora, recordei o momento em que fui atropelado e tive o tornozelo esfacelado e agradeci pela minha vida. A moça, de 33 anos, não teve outra chance.

Saindo do trabalho, voltei pela Paulista, para reencontrar Octávio Cariello e, antes, encontrei a passeata. No sentido Paraíso, os ciclistas caminhavam, pedalando calmamente; no sentido oposto, em direção a Avenida Consolação, sentavam-se nos cruzamentos, parando o transito. Sem bicicleta, sem máquina fotográfica para registrar… Simbolicamente retomei a Avenida que tanto amo, acomodando-me para a lente do celular do meu amigo.

A cidade é nossa, é minha. A cidade é, sobretudo, do ser humano. Do motorista de ônibus, do motorista de taxi, dos motociclistas, ciclistas, de todos nós, pedestres. Porque somos pedestres; todos! Rodas são como extensões de nossas pernas; foi o que escreveu Mcluhan. Não são extensões de armas sob a condução de irresponsáveis. Pelo menos não deveriam ser. E devemos, com seriedade, buscar as causas. Ir além do motorista, para conhecer amplamente as circunstâncias que resultam em acidentes.

Na televisão estamos vendo uma campanha para que respeitem as faixas de pedestres. Dados da Secretaria de Engenharia de Tráfego informam que 439 ciclistas morreram no trânsito entre 2005 e 2010. E aqueles que saíram “apenas” machucados? Vi uma madame, daquelas tipo “você sabe com quem está falando”, vociferando, impedida de prosseguir. Lamento. Mas a maioria das pessoas só entende quando em condições desfavoráveis. E nossos líderes políticos só atendem pressionados pela opinião pública.

Na Paulista, bem perto de onde a bióloga foi atropelada, estão quatro esculturas (foto acima) fortemente protegidas por uma caixa de vidro. Há momentos em que penso nesta como única forma de sobrevivência nesta cidade. Uma caixa que nos proteja do ar poluído; que nos livre do barulho insuportável de gente que não respeita o ouvido alheio; uma caixa que garanta a proteção do nosso corpo perante máquinas que não deveriam ameaçar nossas vidas. Resistirei o quanto for possível. Pelo direito de ir e vir, com segurança, presto meu apoio e solidariedade ao movimento.

Em memória dos 439 ciclistas mortos!

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Maria Dalmácia e Tueris Fustado, flores paulistanas

Morar na Avenida Paulista, no começo da década de 1980, tinha certo charme. Mesmo que este tal charme (segundo uma definição de quando eu era adolescente, charme é aquilo que tem as mulheres de seios grandes!) seja indefinível ou algo que esteja, ainda que tardiamente, no inconsciente coletivo.  Para quem era novo na cidade e não distinguia bairros, subúrbio, cidades satélites, a possibilidade de residir na Avenida Paulista era o máximo!

O Baronesa de Arari, as árvores do Trianon, em frente ao MASP

Pelas tramas do destino iríamos morar no Edifício Baronesa de Arari. Tudo de bom! O prédio fica na Avenida Paulista, esquina com a Rua Peixoto Gomide, com todo um lado voltado para o Parque Trianon e, de quebra, do outro lado da avenida está o MASP, o Museu de Arte de São Paulo. E isso é só um pequeno aspecto da geografia da região.

No Baronesa de Arari morou a lendária atriz Cacilda Becker com o marido, o também ator Walmor Chagas. Consta que lá foi o lar de Sérgio Cardoso, outro ator que entrou para a história do teatro nacional. Não bastasse essa trindade de semideuses do teatro, estão no histórico do edifício o pianista Pedrinho Mattar e Elke Maravilha; esta dando um toque pop ao ambiente.

Lógico que não tínhamos idéia dessas coisas. Assim como não sabíamos que o Baronesa de Arari foi o primeiro edifício residencial da avenida, e que herdou o nome de distinta nobre, D. Maria Dalmácia, da estirpe de indivíduos raros, os  ditos “paulistanos quatrocentões”. Pepê, minha amiga, conseguira alugar um apartamento com três quartos; com ela e outros dois amigos, dividiríamos a moradia na “ala nobre” do edifício, já que a outra, com quitinetes, era o “lado popular” do local.

Lados e cores distintas. Na parte clara, os apartamentos menores.

Quatro amigos somando forças; algo tipo “a força do proletariado” unida para morar bem na capital paulista. Nossa origem modesta ficou bem definida na chegada. Embora com destino à “ala nobre” subimos a Rua Augusta com um monte de cacarecos sobre um caminhão, onde Giba e eu ríamos muito, misturados a caixas, sacos e móveis. Na cabine, ao lado do motorista, as distintas damas. A Rua Augusta ainda era, para este que vos escreve, aquela das lojas para ricos e dos boys daquele rock tupiniquim de Hervé Cordovil:

Subi a Rua Augusta a 120 por hora

Botei a turma toda do passeio pra fora

Fiz curva em duas rodas sem usar a buzina

Parei a quatro dedos da vitrine

Hi, hi, Johnny…

Subimos lentamente com o velho caminhão. Mais pau de arara impossível! Não posso afirmar pelos outros, mas eu estava feliz. Já conhecia a avenida (quem passa por aqui sabe que a Paulista foi meu primeiro endereço na cidade) e voltar era muito bom. E não para uma pensão, mas para um apartamento enorme, espaçoso e, dito Baronesa, definitivamente um local nobre.

A decadência da aristocracia é uma coisa tão antiga que só eu não havia percebido que o fim já havia chegado inclusive naquele endereço da Avenida Paulista. Foi só descarregar a mobília, e levar para o elevador de serviço, para ouvir de uma moradora: – “Se eu fosse vocês não subiria por aí não; esse elevador caiu na semana passada!”.

Pronto. O edifício visto segundos antes como um castelo, virou cortiço. O grande cortiço, um “joga-chave”, pardieiro, uma favela vertical… Com muitos problemas exteriores e, interiormente, embora confortável, havia um problema tenebroso no apartamento. Um vazamento do banheiro do andar superior obrigava-nos a usar guarda-chuva em toda e qualquer utilização do vaso sanitário. Sem direito a reclamações, já que um processo em andamento ameaçava a interdição do prédio, o que ocorreu posteriormente.

Ficamos lá por um bom tempo, com várias configurações de moradores, permanecendo sempre juntos Beth, Pepe e Eu. No final do contrato já tínhamos a companhia de Claudio e fomos morar na Vila Mariana onde um monte de outras coisas foi acrescentado às nossas vidas.

Poderia contar outras histórias do Baronesa de Arari. Deixa para outra oportunidade. Há um livro sobre o edifício (José Venâncio de Resende, Baronesa de Arary: nobres, pobres, artistas e oportunistas) e, neste momento, outros amigos moram por lá. Por enquanto, termino com uma dúvida: teria D. Maria Dalmácia, a Baronesa de Arari, conhecido Tueris Fustado, a menina que “desabrochou como uma flor selvagem, deslumbrante e caprichosa”?

Tueris Fustado é personagem que dá titulo ao romance de Octavio Cariello, Tueris, que será lançado no próximo dia 11, sábado, das 17h30 às 21h30 no Espaço Terracota. Avenida Lins de Vasconcelos, 1886. Reitero convite para o lançamento. Como o Martinelli, o Sampaio Moreira ou o Baronesa de Arari, o Tueris também é local de grandes histórias.

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Até mais!

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Em tempo, o Baronesa de Arari está firme e forte, longe de ser o local ruim que um dia foi. Os nomes de amigos, aqui citados com certa sutileza só serão revelados pelos próprios, caso queiram, nos comentários (o que me deixaria muito feliz).