Duas Lauras. Uma, Laurinda!

Um filme de 1944, Laura foi o título e personagem interpretada por Gene Tierney. Belíssima! Em música há uma Laura, feita pelo Braguinha, outra, pelo Antônio Carlos & Jocafi e, entre outras, a Lady, que o Roberto Carlos fez para a própria mãe. Agora me pergunto se Laura, a Pausini, gravou alguma canção com o próprio nome tal qual outras cantoras o fizeram. Chega de prolegômenos, vamos às Lauras que me motivam a escrever este texto.

Há uma Laura que reverenciarei enquanto for vivo, tiver memória, for capaz de pensar. Foi minha mãe! E a outra conhecida Laura está, como minha mãe, com 95 anos. Essa outra Laura, nasceu Laurinda. Laurinda de Jesus! Lindo nome e, até onde me dou conta, a dona faz jus a este e ao que escolheu como nome artístico: Laura Cardoso.

Longe de mim comparar mamãe com a grande atriz! Mas gosto da ideia de ver Laura Cardoso, além de grande atriz, também grande mãe, avó, mulher! Não necessariamente nessa ordem, embora tenho cá comigo que ela primeiro se define como atriz. Sorte nossa! Colocando a profissão em primeiro plano, Dona Laura Cardoso vem nos brindando com papeis memoráveis, presença marcante pelo trabalho impecável.

Antes de citar alguns trabalhos quero enfatizar a mulher que percebo: carreira que comprova seriedade incomum para com a profissão; ética que a coloca entre as pessoas confiáveis só com a presença física: paixão pelo ofício que a faz assumir-se como é, sem subterfúgios, sem recursos que não a própria expressão, o uso do próprio corpo e voz. Dona Laura Cardoso chega aos 95 anos com um rosto absolutamente humano que pode ser a face de uma avozinha, de uma prostituta, uma víbora, uma santa, uma milionária ou uma pobre camponesa.

Dos trabalhos televisivos quero lembrar dois. A Viagem e Mulheres de Areia, ambas originais de Ivani Ribeiro. Optei por esses por Dona Laura, nesses trabalhos, mostrar faces distintas de uma mesma personagem.

Como Dona Guiomar, em A Viagem, a atriz foi a simpática sogra que, obsidiada, transforma-se em megera intragável, até conseguir livrar-se do espírito vilão, interpretado por Guilherme Fontes. Com a delicadeza e sofisticada simplicidade, a atriz se transformava seguindo o que o outro exigia.

Em Mulheres de Areia o trabalho de Dona Laura Cardoso foi tão ou mais sútil e, por isso mesmo, rico em nuances. Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, deixava evidente uma aparente proteção à vilã Raquel em detrimento da outra filha, personagens de Glória Pires. Cúmplice chantageada por Raquel, Isaura mostra o amor pela outra filha por não gostar de ouvir o que Raquel dizia de Ruth. E a novela tomou outro rumo.

Há muitos e grandes trabalhos da atriz em novelas, especiais, programas de humor. Todavia, foi no teatro que tive a oportunidade de ver um dos trabalhos que ficariam entre os melhores que presenciei. Já a conhecia de outras montagens, me apaixonando quando a vi em “Vem buscar-me que ainda sou teu”, dirigida por Gabriel Vilela no texto de Carlos Alberto Soffredini, em 1990. Todavia, três anos depois, viria o momento preferido.

Vereda da Salvação, de Jorge Andrade, já havia sido montada em 1964 pelo diretor Antunes Filho, no TBC – Teatro Brasileiro de Comédia, que retomou o texto em 1993, com Laura Cardoso e Luís Melo encabeçando o elenco do Teatro Sesc Anchieta. Texto que continua caindo como luva para a realidade brasileira, Vereda da Salvação tem como temas centrais a desigualdade social, a falta de liberdade e a religião enquanto fenômeno que leva indivíduos para rumos extremos.

Na personagem Dolor estão faces distintas de uma mulher sofrida que ficam evidenciadas através da atuação de Dona Laura. A personagem vivia o drama, baseado em fato ocorrido em Minas Gerais, de um grupo de agricultores em conflito com latifundiários e, ao mesmo tempo, nas mãos de um líder fanático, papel de Luís Melo. Em dado momento, a personagem de Laura dizia coisas, aqui extraídas do texto original, de Jorge Andrade, que dão uma ideia do estofo necessário para que uma atriz faça tal personagem:

– Estou cansada, Joaquim. Quero parar.

– Escuta uma coisa, meu filho: sem filho a gente não pode melhorar. Filho é que é riqueza de pobre. Eles dá despesa quando miúdo, mas ajuda bastante quando cresce.

– Pra todo lado que a gente vai… tem sempre alguma coisa pondo desordem na vida, Ana.

– Meus olho e meu corpo deitou mais água na terra que as nuvem do céu…

– Pode atirar, corja do demônio!

É possível que outras atrizes interpretem tal personagem. Poucas com a verdade dessa senhora, a aniversariante que presto singela homenagem. 95 anos e um rosto marcado de histórias, cheio de jovialidade e vida. Dona Laura costuma dizer em entrevistas que é preciso muito estudo, muita entrega para realizar um bom trabalho. Que uma atriz não carece de nada além da própria capacidade expressiva e esta vem através do estudo, do ensaio, do trabalho. Ostenta uma carreira que comprova o resultado de dedicação, esforço, entrega.

Essas Lauras! Fortes, generosas, inesquecíveis. Hoje lembro muitas Lauras, feliz por poder recordar e associar as duas mais queridas. Minha mãe e Laura Cardoso, a quem desejo tudo o que há de melhor que alguém possa ter.

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Nota: as fotos que ilustram esse texto foram colhidas no Instagram e em páginas que homenageiam a atriz.

Meu Sonoro Passarinho

dirceu e marilia nelson cruz

Estive relendo momentos da vida do poeta Tomás Antonio Gonzaga e de sua Marília através da obra de Nelson Cruz (Dirceu e Marília) e recordei a Lira XXXVII de “Marília de Dirceu”. “Meu sonoro passarinho” é o primeiro verso, que guardei como título entre os poemas que prefiro.

Uma antiga novela de Ivani Ribeiro, Dez Vidas, tinha Gianfrancesco Guarnieri e Maria Isabel de Lizandra interpretando o casal romântico da Inconfidência Mineira. Guarnieri cantava e provavelmente era dele a melodia colocada sobre os versos do poeta. Talvez, algum dia, ache a canção por ai, registrada por algum bom cantor. Sem a melodia, fica o poema, belo por si.

ouro preto nelson cruz

Meu sonoro Passarinho,
Se sabes do meu tormento,
E buscas dar-me, cantando,
Um doce contentamento, 

Ah! não cantes, mais não cantes,
Se me queres ser propício;
Eu te dou em que me faças
Muito maior benefício. 

Ergue o corpo, os ares rompe,
Procura o Porto da Estrela,
Sobe à serra, e se cansares,
Descansa num tronco dela,

Toma de Minas a estrada,
Na Igreja nova, que fica
Ao direito lado, e segue
Sempre firme a Vila Rica. 

Entra nesta grande terra,
Passa uma formosa ponte,
Passa a segunda, a terceira
Tem um palácio defronte. 

Ele tem ao pé da porta
Uma rasgada janela,
É da sala, aonde assiste
A minha Marília bela. 

Para bem a conheceres,
Eu te dou os sinais todos
Do seu gesto, do seu talhe,
Das suas feições, e modos. 

O seu semblante é redondo,
Sobrancelhas arqueadas,
Negros e finos cabelos,
Carnes de neve formadas.

A boca risonha, e breve,
Suas faces cor-de-rosa,
Numa palavra, a que vires
Entre todas mais formosa. 

Chega então ao seu ouvido,
Dize que sou quem te mando,
Que vivo neta masmorra,
Mas sem alívio penando.

A vida, geralmente pior que a poesia, separou o casal. Após o processo movido contra os Inconfidentes, a pena de Gonzaga foi o degredo, em Moçambique onde se casou com Juliana de Souza Mascarenhas. Já de Marília ficou o vazio de uma história perdida no tempo. Há até a dúvida se a musa foi a então jovem Maria Joaquina Dorotéia de Seixas ou uma viúva, Maria Joaquina Anselma de Figueiredo. Acima da história, os poemas; belos e imortais.

Até mais!

Obs. As imagens acima são do livro de Nelson Cruz, editado pela Cosac Naify.

Novela e violência

(Divulgação. Foto de Ellen Soares / TV Globo)
(Divulgação. Foto de Ellen Soares / TV Globo)

 Enquanto o vilão interpretado por Mateus Solano estava sendo desmascarado, ontem, fiquei ouvindo comentários de pessoas que acham muito exagerado o texto de Walcyr Carrasco. Isso porque o justiceiro do momento, interpretado pelo extraordinário Antônio Fagundes, comprou uma prostituta para o filho homossexual, tornou-se “pai do neto”, e, ainda na trama trocou a esposa pela secretária jovenzinha. Não é só: desmascarou o filho para voltar ao poder como diretor do hospital.

A lista de atrocidades da novela é extensa. Todavia, o cotidiano é mais cruel e desumano. Ainda não estamos refeitos de um crime horroroso, com a morte do menino Joaquim, e vem a notícia de uma jovem mulher, grávida de gêmeas. “Atingida por um tiro que entrou pela nádega e atingiu o coração”, o corpo foi encontrado nu, dentro de uma mala, boiando nas águas de um lago, em Itupeva, no interior de São Paulo.

Não são apenas mortes. Há o trânsito caótico do feriadão, a chuva ameaçando parar a cidade que também sofre com o excesso de veículos em suas ruas. Para alguns, o problema sério é comprar bugigangas para o natal; outros lutam com os livros, buscando aprovação escolar. Dá lista cotidiana não pode faltar o atual momento do julgamento do mensalão (Sempre é bom lembrar que a justiça é cega!). E indo pra fora do nosso país, há as mais de quatro mil mortes nas Filipinas, vítimas do tufão Haiyan e a lista poderia crescer mais e mais.

Penso que um autor de novelas tem de dar um duro danado para chamar e manter a atenção do público. Houve um tempo em que a maioria das pessoas voltavam para casa, descansando do dia de trabalho, distanciando-se do mundo. Haviam opções musicais (Saudade da Record dos anos de 1960!), o futebol e notícias em jornais e telejornais. Nesse tempo, sensacionalismo era coisa do jornal “Notícias Populares”. É bem verdade que aqui e ali apareciam programas com atrações de um certo “mundo cão”, distante de quem via as tramas escritas por Ivani Ribeiro ou Janete Clair.

Hoje um jornal sem sensacionalismo é exceção e o “mundo cão” parece ser todo o mundo. As pessoas não param nunca, vendo novelas entre uma ação e outra. Autores como Glória Perez partem para o exotismo, ambientando histórias em países distantes. Walcyr Carrasco, me parece, escolheu competir com a violência cotidiana. Até o humor – um componente frequente nos folhetins brasileiros – em “Amor à vida” é recheado com traição. A deliciosa personagem de Tatá Werneck poderia ser apenas a burrinha ambiciosa, mas vai além, somando traição e ganância.

No passado, coisa de cinema era o que dizíamos diante do inusitado. E coisa de novela era mocinha chorando pelo namorado. Agora, a mocinha vira monstrinho e parte para cima do irmão, batendo e rogando praga. O rapaz “apenas” abandonou a sobrinha na caçamba. Isso é novela! Na vida real, ele teria matado e jogado no rio, ou no lago. Só espero que, na luta pela audiência, nossas adoráveis heroínas não busquem justiça com as próprias mãos, matando e esquartejando seus oponentes.

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Bom feriado!

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Ok, sou noveleiro!

Novelas de rádio, mais que qualquer outra forma, um exercício de imaginação,

60 anos de novela na TV brasileira!

Desde que me entendo por gente que a novela está presente na minha vida. E não é maneira de expressão; lá em Uberaba, bem pequeno, já tinha “dificuldade” em sair da cama. Minha mãe, que ouvia as novelas transmitidas pelo rádio, gritava de onde estava: “- Valdo, levanta! A novela das 10 já começou!” E eu ficava na cama ouvindo o capítulo até a novela das 10 terminar. Histórias europeias de duques, princesas, personagens com nome de Bianca, João Luiz!

Dias Gomes criou o "pavão misterioso" de Juca de Oliveira em Saramandaia

Havia, em casa, revistinhas com capítulos da então mais famosa novela do rádio brasileiro, “O direito de nascer”. Não ouvi a novela no rádio, nem vi a primeira versão da TV Tupi, com Nathália Timberg e Hamilton Fernandes nos papéis centrais. Assisti outra, com Eva Wilma fazendo a freira “Maria Helena” e a jovem Beth Goulart interpretando “Isabel Cristina”. E li os capítulos dos livrinhos de minha mãe e, por consequência, li fotonovelas, uma coisa quase esquecida hoje em dia.

Novela sobre "ETs" na Excelsior, teve Pelé com Regina Duarte e Stenio Garcia.

A primeira telenovela que me pegou, tornando-me fã, foi “O morro dos ventos uivantes”. A moça morta voltando e aparecendo para o galã… eu gostava daquela coisa de fantasma, que é o que me lembro. Creio que era novela da TV Excelsior; quase todas as primeiras novelas dessa fase da minha infância eram do extinto Canal 9, ou então da TV Record; depois veio a Tupi,  a Globo. “A pequena Karen”, “A grande viagem”, “O rouxinol da Galileia”… cada coisa!!! Não sei se hoje aquelas histórias me fariam a cabeça. Mas, por exemplo, “A grande viagem” acontecia toda dentro de um navio. E eu, lá nas chapadas da minha terra não conhecia de perto nem canoa! Então, a novela era um negócio encantador.

O grande Sergio Cardoso ensinando muito sobre Portugal, na TV Tupi

Cresci vendo novelas, apaixonado por Eva Wilma, desde sempre minha atriz preferida. Gostava e gosto de outras; mas Eva é a maior paixão. A única a passar do drama para a comédia, a farsa, o melodrama, qualquer estilo, sempre com um impecável talento. Há outras, grandes atrizes: Regina Duarte, Fernanda Montenegro, Glória Pires, Yoná Magalhães, Nicete Bruno… Tenho e exerço o direito de preferir Eva Wilma.

Eva, Claudio Corrêa e Castro, Beth Mendes e Gianfrancesco Guarnieri: Inesquecíveis.

Tive a sorte de assistir “Beto Rockefeller”; Luiz Gustavo foi o ator que mudou radicalmente o conceito de galã. Admiro Francisco Cuoco desde uma lendária novela chamada “Redenção”, uma das mais longas da história da telenovela brasileira. Também curto Tarcísio Meira, Juca de Oliveira, Antonio Fagundes,  Paulo José,  Tony Ramos e Selton Mello. Sou fã de Paulo Goulart, Paulo Gracindo, Lima Duarte; da atual geração, também admiro Alexandre Borges e Murilo Benício. A parceria entre Luiz Gustavo e Eva Wilma, em “Elas por “las”, o par perfeito!

A Viagem, duas versões. Quando algo dá errado, sei que o "Alexandre" está por perto.

A novela brasileira completa 60 anos. Houve época em que eu ficava calado, porque rolava preconceito pesado contra quem curtia novelas. As coisas mudaram, todavia, volta e meia, o tal preconceito aparece. Já tenho idade suficiente para ignorar esse tipo de coisa. Creio que poderia ficar horas e horas lembrando novelas, capítulos, autores, cenas. Fica o registro e a homenagem aos milhares de profissionais que ao longo desses 60 anos tornaram a minha vida, como a de muitos brasileiros, mais divertida.

Atualmente, passo minhas tardes com Ruth e Raquel

Vou concluir  lembrando Ivani Ribeiro, Janete Clair e Dias Gomes. São estes os primeiros grandes autores de nossas novelas, mágicos criadores de histórias que tornaram as novelas um hábito nacional. E, por gentileza, se possível, deixe suas preferências “noveleiras” nos comentários.

Até mais!