Do poema para vozes

(Excerto do Auto do Frade, de João Cabral de Melo Neto, que um dia dirigi e sonho voltar a montar).

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Acordo fora de mim
como há tempos não fazia
Acordo claro, de todo,
acordo com toda a vida,
com todos cinco sentidos
e sobretudo com a vista
que dentro desta prisão
para mim não existia.
Acordo fora de mim
como vida apodrecida.
Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira.
Mesmo quando alguém acorda
para um fiapo de vida
como o que tanto aparato
que me cerca me anuncia:
esse bosque de espingardas
mudas, mas logo assassinas, …

João Cabral de Melo Neto, in ‘Auto do Frade’, monólogo do frei.

O que falta para quem destrói estátuas?

Brinquei de ser amigo de João Cabral...
Brinquei de ser amigo de João Cabral…

Tenho profundo respeito e admiração por alguns artistas pernambucanos. Uma paixão que vem da adolescência quando, através da música de Chico Buarque, conheci a poesia de João Cabral de Melo Neto. Muito antes disso recordo, bem criança, minha mãe cantando Luiz Gonzaga. Quando comecei a gostar de Maria Bethânia conheci a música de Antonio Maria e ao curtir Alceu Valença ganhei também a poesia de Ascenso Ferreira. Já Manuel Bandeira entrou em minha vida quando, cansado desta mesma vida, sonhei ir-me embora para Pasárgada.

Fiquei pensando no que diria a Antonio Maria...
Fiquei pensando no que diria a Antonio Maria…

Quem já passou por Recife sabe da reverência com que são tratados os artistas pernambucanos pela gente da terra. Nas ruas da cidade velha estão singelas homenagens aos grandes artistas através de belos e singelos conjuntos escultóricos; lembram ao transeunte que tal local, por um ou outro aspecto, está na obra do artista homenageado.

Estive por lá em janeiro e entre meus desejos particulares era visitar essas estátuas. Fiquei pensando no que diria a Antonio Maria… Brinquei de ser amigo de João Cabral…  E perto de Bandeira, manifestei desejos de Bandeira:

ruas de recife manuel bandeira

“…Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare…”

Numa noite quente, como só acontece em Recife, saímos à cata de frevo, festa e, sem medo da felicidade, arriscamos ir de trem. Saindo da estação nos deparamos com o velho e grande Lua! Só podia ser ele, Luiz Gonzaga, saudando viajantes de todos os recantos e tempos. Confesso que fiquei chateado e, mesmo com receio do local desconhecido (desculpem a foto ruim!) quis registrar o descaso com a escultura do querido músico. A estátua de Lua estava em estado precário.

ruas de recife luismontagem

Nesta semana veio a notícia da destruição da estátua de Gonzaga e de Ascenso, atitude de vândalos que, certamente desconhecem a poesia de Ascenso e a música de Gonzaga. Só posso acreditar que não conheçam, pois caso contrário fica totalmente inaceitável tal atitude. O que escrever perante gestos estúpidos? Qual pena seria eficaz para tamanha idiotice?

Comecei o ano de 2012 com a poesia de Ascenso Ferreira (Veja todo o post aqui) e citei versos geniais:

Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar! 

Foi relembrando tais versos que matei a charada. Certamente, os imbecis que destruíram as estátuas não sabem vadiar… Se é que estou sendo claro. Pra essa gente falta uma boa e gostosa vadiagem. Onde estejam Ascenso e Gonzaga, devem estar rindo e afirmando em verso e melodia: – Essa gente precisa vadiar!

E que as autoridades façam seu trabalho!

 

Até mais!

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Antes do baile

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Venho brincando de poesia e estou longe do “Pessoa”

Desenho histórias a léguas de “Amado”

Pardal vagabundo que aspira “Tinhorão”

Palpiteiro da esquina onde não há “Eco”

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Artesão da pedra que “entranha a alma”

Escrevo como quem explora “vasto mundo”

Sonhando com “Pasárgada”

Sobrevivendo na “pauliceia desvairada”

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Fernando Cabral, Jorge Drummond;

José Ramos Bandeira e Umberto de Andrade Bilac:

 Personagens da festa em que penso bailar

Convidando todo aquele que for

“Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

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Este blog está prestes a completar dois anos!

Quem topa uma festa virtual?

Aguardo confirmações!

Beijos.

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Mestre, os nossos, para relembrar sempre

Meus mestres; melhor nossos, porque ensinaram para centenas, talvez milhares de outros.  Dia de homenagear e por isso devo escrever nossos mestres também pensando naqueles que por aqui passam e que tiveram professores. Mestres, os nossos, são pessoas que só palavras de poeta lembram corretamente…

Fernando Pessoa, mestre entre poetas

Mestre, meu mestre querido!

Coração do meu corpo intelectual e inteiro!

Vida da origem da minha inspiração!

Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida? (1)

Como definir, escrever corretamente sobre as primeiras professoras? O certo é que elas estão aqui, em meus pensamentos, gravadas em minha alma. O “a” escrito na lousa pelas mãos de D. Zilda; um modo de ser sugerido por Maria Ignez Prata com voz suave. Duas das primeiras mestras, inesquecíveis, que povoaram minha infância com visões e certezas traduzidas em mais versos.

Meu mestre e meu guia!

A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,

Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,

Natural como um dia mostrando tudo… (2)

Era imenso o abençoado distanciamento que aqueles tempos permitiam (Jamais chamei de tia ou tio um professor!). Assim, com respeitosa distância, tinha meus mestres no lugar que lhes é devido: de um ponto elevado onde é a posição de um guia.

Quando penso em literatura recordo as primeiras leituras semanais exigidas por D. Terezinha (Rita Terezinha de Castro). Parecia que ela não fazia outra coisa exceto ler nossas fichas de leitura, redigir comentários e pensar nos próximos livros, nos próximos trabalhos. Não me recordo de ter prazer, nem de sentir que ela tinha grande prazer no que fazia. Recordo que ela fazia com que escolhêssemos trechos preferidos e, assim, guardei e trago na memória o que aprendi a admirar em literatura.

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;

Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente… (3)

Maria Ignez Prata e Décio Bragança: Mestres inesquecíveis.

Com Décio Bragança aprendi a gostar de literatura. As aulas do professor Décio levaram-me a colecionar poesia, a eleger preferidos entre escritores e seus feitos. A noção de que história é coisa viva obtive com as aulas de literatura ministradas por aquele jovem, ainda franciscano na maneira de ser. Agora, buscando notícias desses mestres na internet, encontrei esta entrevista publicada no Jornal da Manhã, de Uberaba. Foi como estar novamente na sala de aula, vendo a maneira franca e direta de Décio dizer as coisas.

Já escrevi (clique aqui) sobre Maria Ignez Prata e da importância que ela teve na minha infância. Neste post, além dos mestres já citados, quero dar um salto no tempo e no espaço para, já na UNESP lembrar Dirce Ceribelli, com aulas de puro encantamento, fundamentadas na mais refinada poesia de João Cabral de Melo Neto.

… No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.(4)

Estou atualmente entre mestres e, legalmente, obtive o título. Busco fazer por merecer, por vir a ser. Espelho-me nesses adoráveis senhores da minha formação tanto quanto naqueles com os quais convivo, no cotidiano da universidade. Para ambos, aos mestres da minha vida e aos meus companheiros de trabalho, a eterna gratidão pelo constante aprendizado.

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu…

Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!(5)

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Feliz dia do professor!

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Notas

–  Os versos assinalados com (1),(2) e (5),  são de Fernando Pessoa sob o heterônimo Álvaro de Campos (Mestre, meu mestre querido)

– (3) citação do capítulo inicial de Iracema, de José de Alencar.

– (4) são os versos finais de “A educação pela pedra”, de João Cabral de Melo Neto.

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Porto incerto para filme com Glória Pires

Miranda Otto, Glória Pires e Tracy Middendorf. As atrizes de “Flores Raras”

Visto pela poetisa Elizabeth Bishop, o Brasil era colonizado, atrasado. Um paraíso de natureza exuberante e gente provinciana. Bishop faleceu em 1979. Morou por aqui por mais de 20 anos, com passagens pelo Rio de Janeiro, Petrópolis e Ouro Preto. Viveu um intenso romance com a arquiteta Lota de Macedo Soares. A história de ambas estará no filme “Flores Raras” que corre o risco de não ser concluído por falta de patrocínio.

É inacreditável pensar que um filme estrelado por Glória Pires não consiga patrocínio. O diretor Bruno Barreto e membros da família de produtores já denunciaram que as empresas recusam patrocínio. O projeto não é recente; já foi chamado “A Arte de Perder”, sempre com Glória Pires encabeçando o elenco. Segundo os produtores, o patrocínio não sai porque as empresas não querem associar a própria imagem com homossexualismo. É praticamente autocensura, já que a imposição não vem de fora. É o encarregado de decidir para onde vai a verba da empresa que julga impróprio a história de amor entre duas mulheres.

Regina Braga, dirigida por José Possi Neto, no texto de Marta Góes

Foi no teatro que tomei conhecimento da história dessas mulheres, através do monólogo  “Um porto para Elizabeth Bishop”, escrito por Marta Góes. Fui ver Regina Braga no Teatro Anchieta com certo temor. Monólogo é sempre um risco. Se a gente não gostar nos primeiros dez minutos, tudo fica pior, pois há a certeza de que ninguém entrará em cena para mudar o jogo, quebrar a monotonia, salvar a noite. Fui surpreendido pelo texto maravilhoso de Marta Goés, a interpretação soberba da grande Regina Braga e sai do teatro apaixonado pela poesia de Bishop.

A poetisa America amava Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector. Foi amiga de Manuel Bandeira. Traduziu esses e outros para o inglês – ela nasceu em Worcester, Massachusetts – divulgando nossos autores em textos para revistas especializadas, em cartas onde, por exemplo, afirma o grande clássico que é Machado de Assis. Como autora recebeu vários prêmios, entre eles o Pulitzer e o National Book Award. Mulher, foi alcoólatra, frágil, passou a vida lidando com perdas.

Glória caracterizada como Lota Macedo

Bishop chegou por aqui em 1951 e conheceu Lota de Macedo Soares. Esta foi amiga de Carlos Lacerda e foi responsável pela construção do parque no Aterro do Flamengo. Lota era uma mulher aparentemente forte, decidida, intensa. Todavia, essa mulher passa por um colapso nervoso; depois tem um diagnóstico de arteriosclerose.  Falece em New York, após ingerir grande quantidade de barbitúricos. Fico imaginando Glória Pires interpretando tudo isso e em inglês. As duas conversavam na língua de Bishop e o filme será quase todo em inglês. Glória Pires irá, mais uma vez, arrebentar.

“Flores Raras” pode não sair por falta de patrocínio. Orçado em 11 milhões, faltam R$ 2 mi para concluir as filmagens. Fico imaginando se o empresário, metido a censor, já leu algo de Elizabeth Bishop. Sei de três livros da poetisa publicados no Brasil. A peça de Marta Góes – será que o tal empresário viu? – é sucesso de público e crítica. A visibilidade do filme será internacional, já que a americana Miranda Otto interpretará Bishop, além do que, a comunidade literária internacional estará atenta para o resultado cinematográfico da biografia de Elizabeth Bishop.

A família Barreto já comprovou, mais de uma vez, a capacidade para fazer sucessos e, com Glória Pires, chegaram ao Oscar em “O Quatrilho”. Nesse Brasil de doidos – ou preconceituosos – troca de casais, pode; casal de mulheres não? Vamos ver no que dá e torcer para, mais uma vez, sair de casa para admirar o trabalho primoroso da atriz Glória Pires que, só por ser quem é, não merece ter um filme truncado por gente preconceituosa.

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Bom final de semana.

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Notas: “Uma arte” e “Esforços de afeto” são livros de Elizabeth Bishop publicados no Brasil. Além desses, com um estudo introdutório muito bom, há uma seleção de Paulo Henriques Britto: “Elizabeth Bishop – Poemas do Brasil”. Todas essas publicações são da Companhia das Letras.

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Arte para denunciar a 72ª vez sem água

O semiárido nordestino enfrenta sua 72ª estiagem. Em 512 anos de Brasil é como se houvesse seca de cinco em cinco anos. A atual, por exemplo, já se sabe que viria desde 2010. Mais uma vez sem água e sem soluções eficazes.

As delicadas figuras de Mestre Vitalino

O governo anunciou investimento de R$ 2,7 bilhões em ações de combate (Quanto desse dinheiro irá para bolsos privilegiados?) e, em caráter emergencial, as famílias das regiões afetadas receberão “Bolsa Estiagem” (R$ 400,00) além de medidas de ocasião que, em si, não resolverão o problema, já que certamente teremos a 73ª.

Uma das edições de O Quinze, de Rachel de Queiroz

Imagine-se passando pela 72ª estiagem. Não a primeira, nem a décima, mas a septuagésima segunda, quando durante longo tempo não cai do céu uma única gota de água. Raquel de Queiroz imaginou-se em uma seca, em “O Quinze”. Escreveu em 1930 sobre os problemas de seus conterrâneos com bastante conhecimento de causa, já que seus familiares tiveram que sair do Ceará por conta de terrível seca.

Vidas Secas, o filme

Por gentileza, atentem para os números. Raquel escreveu em 1930, sobre 1915. No cinema, 30 anos depois, precisamente em 1963, o cineasta Nelson Pereira dos Santos legou-os um clássico, estrelado por Átila Iório e Maria Ribeiro: “Vidas Secas”. O filme, premiadíssimo, foi baseado no romance homônimo de Graciliano Ramos, também escrito na década de 1930, publicado em 1938.

Vou insistir nas datas, para enfatizar o quanto já foi dito, denunciado, refletido sobre os problemas do semiárido, sem que tenham surgido programas eficientes para solucionar a vida na região. Candido Portinari fez “Os retirantes” em 1944. O artista paulista pintou uma série de telas tornando o horrendo belo. Fome, miséria e morte expostas em museus distantes da região e das soluções possíveis para os habitantes do semiárido.

O horrendo tornado belo nos Retirantes, de Portinari.

Seca e fome também é tema em “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto publicado em 1955. Um sucesso literário grandioso, tão grande quanto no teatro, direção de Silnei Siqueira, musicado por Chico Buarque de Holanda, em 1965. Não bastasse, ainda veio a minissérie televisiva, na década de 1980.

É irônico constatar que, além de políticos e coronéis, também os artistas faturam alto com a seca. Só o pequeno dono de terra, o sertanejo é quem realmente sofre. Uma grande maioria saiu buscando vida melhor. Os fenômenos migratórios já foram calamidade, fazendo crescer os cinturões de miséria das grandes metrópoles. Maria Bethânia ficou nacionalmente conhecida cantando “Carcará” e dizendo números assombrosos entre um verso e outro da música de João do Vale e José Candido:

…Carcará é malvado, é valentão

É a águia de lá do meu sertão

Os burrego novinho num pode andá

Ele puxa no bico inté matá

1950. Mais de dois milhões de nordestinos viviam fora de seus Estados natais. 10% da população do Ceará emigrou; 13% do Piauí;15% da Bahia; 17% de Alagoas!

Carcará…

Emoção e tristeza em forma de música: Asa Branca, do Rei do Baião

O “Carcará” e a “Asa Branca” voaram longe. Luis Gonzaga cantou sua música, feita em parceria com Humberto Teixeira, emocionando várias gerações. A gravação original é de 1947. E para citar dois outros grandes artistas nordestinos, lembro “Seara Vermelha”, de Jorge Amado, publicado em 1946, que já foi traduzido para 26 outros idiomas. Junto com o escritor baiano, concluo com as figuras de Mestre Vitalino (Vitalino Pereira da Silva) que abriram as imagens deste post. Trabalho modelado em barro, com delicadeza e sensibilidade, evidenciando diferentes aspectos da vida do nosso povo, inclusive os retirantes…

Bela herança artística; pequenos exemplos dessa imensa herança. Todavia, uma triste realidade que teima em persistir. Será que teremos soluções encaminhadas antes da 73ª estiagem?

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Até mais!

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