Elza, para ouvir!

Eu gostaria de morrer em casa, de causas naturais, como Elza Soares. Entre paredes conhecidas, sem a frieza do quarto hospitalar, perto de pessoas da família, com lucidez e visão para identificar quem vier me buscar. Espero merecer tal graça. Quanto à Elza, fui alertado por Flávio Monteiro: “- Merecido. Ela sofreu antes, ao longo da vida, tudo o que tinha que sofrer!” Realmente, não carecia de mais nenhuma dor.

Morte, certeza que costumamos recusar, nos pega de surpresa, nos deixa meio sem rumo. E a gente toca a pensar em quem faleceu. Incomoda um pouco ler tanto sobre Elza Soares sem que citem suas canções, interpretações. Penso que a melhor homenagem é ouvi-la e, por isso, resolvi indicar sugestões de fã.

Gosto de “Boato”, música de João Roberto Kelly, na voz de Elza Soares, gravado em 1960. No final do samba Elza repete o refrão imitando Dalva de Oliveira, Miltinho e Alaíde Costa. Um absurdo potencial de quem fazia o que bem queria com a voz. Tá bom para começar?

Em raros registros – 3 cds – feitos graças ao trabalho de Zuza Homem de Mello, estão gravações de Elza ao vivo, nos anos de 1960. Dois desses momentos no programa Fino da Bossa (Elis Regina e Jair Rodrigues) e um no Corte Rayol Show (Renato Corte Real e Agnaldo Rayol). Quem não ouviu Elza Soares e Elis Regina cantando “Devagar com a louça” (Haroldo Barbosa e Luis Reis) fica nessa mania de “melhor” que citei em post passado. Bobagem! As duas são melhores. Elas cantam como se tivessem ensaiado durante meses, como se formassem dupla com anos de experiência e dão aula de senso rítmico, divisão ímpar. Essa gravação simplesmente precisa ser ouvida:

Na real, voltando por onde poderia ter iniciado, comecei a gostar de samba enredo ouvindo Elza e, na hierarquia dos afetos, minha primeira citação /indicação vai para “Bahia de Todos os Deuses” (Salgueiro, 1969).

“Nega baiana, tabuleiro de quindim

Todo dia ela está na Igreja do Bonfim

Na ladeira tem, tem capoeira…”

Outra referência afetiva é de “Lendas do Abaeté” (Mangueira, 1973) e, inesquecível, “A Festa do Divino” (Mocidade Independente de Padre Miguel, 1974), esse é samba de quando a cantora foi intérprete da Escola na avenida. Atenção, por favor: no quesito samba enredo, Elza Soares sempre manifestando sua predileção pela Mocidade, não deixou de cantar sambas de outras escolas. Música boa é para ser cantada, de preferência, por quem sabe.

Começo dos anos de 1980, no Instituto de Artes da Unesp, Dirce Ceribelli utilizava canções de Caetano Veloso para nos ensinar Jakobson. Entre essas, “Língua”, que o compositor divide interpretação com Elza Soares em momento icônico. E logo depois tive a oportunidade de vê-la, no Centro Cultural Vergueiro. Mulher bonita, gostosa, com pernas colossais, por aqui e ali diziam ser a Tina Turner brasileira. Mania infeliz essa nossa. Tina é ótima, mas Elza não carece de comparações. Foram tempos de mudança, em que Elza, sem deixar o samba, deu ênfase para todo o seu potencial musical.

“Dura na Queda” (Chico Buarque), “A carne” (Marcelo Yuka, Seu Jorge, Wilson Cappellette), “Rio de Janeiro” (Anderson Lugão), “Flores Horizontais” (Zé Miguel Wisnik, Oswald de Andrade)… eleger uma canção é difícil, pois cada uma dessas vai além do universo musical. Elza, definitivamente, assumia seu lugar como voz de um povo, de uma raça, de um gênero, características que acabaram levando-a para o plural, tornando-se cantora de povos, raças, gêneros.

“Flores horizontais

Flores da vida

Flores brancas de papel

Da vida rubra de bordel…”

Quero concluir essas breves indicações do repertório de Elza sugerindo audição de outros duetos além de Língua (todo mundo, me parece, quis cantar com ela). Chico Buarque (Façamos – Cole Porter, versão de Carlos Rennó), Letícia Sabatella (A Cigarra – Elza e Letícia), Luiz Melodia (Fadas – Luiz Melodia) … Mas, entre tantas parcerias, volto no tempo, lá para os anos de 1960 para indicar um trio: Elza, Elis e Jair cantando “Se acaso você chegasse” (F.Martins, Lupicínio de Oliveira), na mesma coletânea citada acima. É ouvir os três e lamentar imensas perdas, três figuras máximas da nossa música.

Certamente deixei alguma grande interpretação. Fatal deixar de lado vários, entre tantos momentos intensos de puro talento de Elza Soares. Espero que este texto estimule a ouvir e ir bem mais além. A cantora está na nossa música e sua história – vasta e forte – permanecerá.

Ave, Elza Soares!

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Nota: Todas as canções estão nas plataformas digitais.-

As rainhas do ziriguidum e do borogodó

Dalva, Linda, Dircinha, Emilinha e Marlene. As rainhas do rádio.
Dalva, Linda, Dircinha, Emilinha e Marlene. As rainhas do rádio.

Tem um monte de gente que procura justificar a própria ignorância com a expressão “não é do meu tempo”. De quebra o preconceito embutido, como se o tempo presente fosse a maior das maravilhas… Cada época tem a sua beleza e hoje estou interessado em grandes mulheres, para um carnaval do balacobaco. Com muito ziriguidum!

Hoje eu não quero sofrer

Hoje eu não quero chorar

Deixei a tristeza lá fora

Mandei a saudade esperar

Hoje eu não quero sofrer

Quem quiser que sofra em meu lugar…

Balacobaco só sabe o que é quem tem borogodó. E só quem tem borogodó é capaz de dar um ziriguidum. Tudo esclarecido um carnaval com “it” pode começar com versos acima, cantados por LINDA BATISTA. A primeira grande Rainha do Rádio.

O Brasil tem uma queda pela monarquia, adora eleger rainhas da primavera, do carnaval, do rock, do rebolado… Na chamada era de ouro do rádio elegia-se uma rainha por ano.

LINDA BATISTA foi Rainha do Rádio mantendo o título por onze anos (1937/1948) e, contratada da toda poderosa Rádio Nacional colecionou casacos de peles e carros de luxo. Rainha é rainha! E como essas histórias de monarquia são hereditárias, LINDA transferiu a coroa para a irmã caçula, DIRCINHA BATISTA.

Lá vai o meu trolinho

Vai rodando de mansinho

Pela estrada além

Vai levando pro seu ninho

Meu amor, o meu carinho

Que eu não troco por ninguém…

As irmãs Batista eram do balacobaco. Amadas até por Getúlio Vargas, ficaram meio esquecidas na transição do rádio para a televisão. Já na época havia também o “culto ao novo”. Veio com a Bossa Nova e, posteriormente, com a Jovem Guarda; um fenômeno  que colocou em plano secundário outros grandes astros do rádio como, por exemplo, MARLENE.

Lata d’água na cabeça

Lá vai Maria

Lá vai Maria

Sobe o morro e não se cansa

Pela mão leva a criança

Lá vai Maria…

MARLENE, entre todas as rainhas do rádio, foi a que teve a carreira mais interessante, após a tal fase de ouro. Como atriz protagonizou novelas e peças teatrais. No disco “A Ópera do Malandro” temos dois registros dessa cantora incrível; uma filha de italianos (nascida aqui no “meu” Bexiga!) que canta sambas com o maior borogodó!

MARLENE foi estrela de um dos primeiros programas de carnaval que assisti pela televisão. O nome do programa era “Big Show Royal” e a cantora aparecia com um biquíni deixando evidente o quanto ela era capaz de um ziriguidum. Lembro que minha mãe não gostava; “- Essa mulher é muito escandalosa!”, reclamava. A cantora tinha um jeito de garota levada, mas levada mesmo era EMILINHA BORBA.

Se a canoa não virar

Olê, olé, olá

Eu chego lá

Rema, rema, rema remador

Quero ver depressa o meu amor…

EMILINHA BORBA reinou por 27 anos na Rádio Nacional. Foi campeã em correspondência por 19 anos e capa de 350 revistas. Isso é coisa de rainha! Vencedora de inúmeros carnavais, seus sucessos continuam por todos os bailes do país. “Chiquita Bacana”, “Tomara que Chova”, “Vai com Jeito” e, entre muitos outros, até uma “Mulata Yê, Yê, Yê”…

Mulata Bossa Nova

Caiu no hully gully

E só dá ela

Ye, ye, ye…

Na Passarela!

As cantoras do rádio brigavam feio pelo título de “Rainha”. O voto era popular e as “cédulas eleitorais” vendidas junto com a Revista do Rádio. Em 1949 a Companhia Antártica Paulista resolveu patrocinar MARLENE, dando a grana para a compra de votos. A cantora paulista conseguiu mais de 500 mil votos e sua vitória deu início a uma “guerra histérica” entre seus fãs e os de EMILINHA BORBA. Virou lenda!

Tivemos muitas “rainhas do rádio”. ÂNGELA MARIA, CARMÉLIA ALVES e DÓRIS MONTEIRO estão entre elas. Nenhuma, entretanto, foi grande como DALVA DE OLIVEIRA. Essa “rainha do rádio” foi também a “rainha da voz” e é, por muitos, considerada a maior cantora do Brasil. Nosso país é ou não é chegadão nessa tal monarquia?

Tanto riso, oh, quanta alegria!

Mais de mil palhaços no salão

Arlequim está chorando pelo amor da Colombina

No meio da multidão…

rainhasdoradio2

DALVA DE OLIVEIRA faz com que eu recorde meu pai. Eu era criança e adorava WANDERLÉA com suas pernas (Isso é borogodó!), a cabeleira loira e a dança, ingenuamente sensual (Mas, cheia de ziriguidum!).  Sei lá o que eu estava fazendo; deixei de lado e atendi ao chamado de papai para, no programa FLÁVIO CAVALCANTE, assistir uma apresentação de DALVA: “- Vem cá; veja o que é uma grande cantora!”

Naquele programa ela cantou “Kalu” e, com ÂNGELA MARIA, “Ave Maria no Morro”. As duas grandes cantoras, cheias de borogodó, mandaram ver na melodia e letra de HERIVELTO MARTINS. Quando chegou o momento do maior agudo, ANGELA afastou-se do microfone, dizendo para DALVA: “- Agora é com você!”. E lá foi aquela mulher, magrinha, frágil, soltando seus “agudos fulminantes”, para lembrar a expressão certeira de HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO.

Nossas rainhas, se não estão na memória de muita gente, permanecem nas canções, nas marchinhas. Imaginem o tamanho do balacobaco com todas elas no mesmo palco? Dá até pra imaginar plumas (dizer penas, pra rainhas, não dá!) voando pra todo lado. Por outro lado, penso que DALVA DE OLIVEIRA mandaria seu melhor agudo, pra que tudo terminasse numa boa:

Bandeira branca, amor

Não posso mais

Pela saudade que me invade

Eu peço paz

Saudade mal de amor, de amor

Saudade dor que dói demais

Vem meu amor, bandeira branca,

Eu peço paz.

 .

Até mais!

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Notas:

Os versos acima são, respectivamente:

O Primeiro Clarim – Rutinaldo e Klécius Caldas, 1970 – LINDA BATISTA.
Upa, Upa!(Meu Trolinho) Ary Barroso, 1940 – DIRCINHA BATISTA.
Lata D’água – Luiz Antonio e Jota Junior –1952 – MARLENE.
Chiquita Bacana (João de Barro e Alberto Ribeiro, 1949), Tomara que Chova (Paquito e Romeu Gentil, 1951) “Vai com Jeito”(João de Barro, 1957) e “Mulata Yê, Yê, Yê” (João Roberto Kelly, 1965) – EMILINHA BORBA.
Máscara Negra – Pereira Matos e Zé Kéti, 1967 – DALVA DE OLIVEIRA.
Bandeira Branca – Laércio Alves e Max Nunes, 1970 – DALVA DE OLIVEIRA.

. Publicado originalmente no Papolog em 14/02/2009.